O desespero a dois

(José Gameiro, in Expresso, 03/09/2021)

José Gameiro

“O que todos queremos é algo que é impossível de atingir, a felicidade ou o que entendemos por felicidade, por tranquilidade, satisfação ou por paz de espírito. A tragédia humana é isso. Principalmente se não somos ‘os pobres de espírito’.

O pensar, a inteligência, não nos facilita a vida. Vivemos presos pelos passos que demos no início da nossa vida de seres autónomos, pensando que seriam os passos do caminho que queríamos em certa altura da vida. Esse caminho mostrou-nos que havia vários percursos, mas que infelizmente estávamos agarrados ao ponto de partida. O não estarmos sós na viagem, a falta de liberdade, os desentendimentos, as desilusões fizeram perder o encanto. Os desvios deixam marcas. A paragem é inevitável.

E depois? O que fazer? A sociedade dita regras, a educação e a religião reprimiram uma sensibilidade que se revelou doentia. O cansaço é agora demasiado. O que suportava a inteireza física e psíquica levou um rombo enorme. Não há ligação, interesses comuns, e o trabalho e o tempo não permitem as fugas que aliviam o contacto excessivo. A família levantou asas e seguiu os seus caminhos e deixou-nos sós na viagem. O grito é interno, sofrido, amargurado. O consolo é mínimo porque o hábito é terrível, e terrível é a aceitação de que o sofrimento redime e que nele encontramos a salvação eterna.

Mas que salvação? Sabemos que só a morte nos liberta. Que contrassenso é a vida! Vivemos para morrer. O choro na nascença é porque sabemos que a vida não vai ser fácil. Deixámos a proteção uterina onde em solidão a vida era agradável. Nascidos de um ato de prazer somos lançados para um percurso que não escolhemos. A gruta, a caverna é o lugar seguro. A procura da luz é um caminho falso. O Jardim das delícias enganoso e o paraíso não existe e a crónica não revela a solução.”

Quando li este texto, que me foi enviado, a minha reação imediata foi, felizmente que as novas gerações já têm a possibilidade de romperem uma relação e tentarem partir para outra. Este desencanto e este sofrimento prolongados são menos aceites pelos casais. A idade média dos divórcios é de 45 anos e dos casamentos de cerca de 30. Apesar de muitas uniões não serem formalizadas, podemos ter uma ideia do tempo médio que os casais que se divorciam, “aguentam”, até se separarem. Cerca de 15 anos. Mas seria possível, em alguns casos, evitar este desenlace?

Os casais que perduram no tempo têm uma capacidade de “negociação” das suas individualidades, que vai ajustando o que é mais difícil que o amor, a possibilidade de o viver com satisfação mútua. Quanto mais cedo esta começar melhor será o futuro da relação. Mas isto resolve tudo? Claro que não. Mas os maiores riscos para a conjugalidade vêm de dentro. Quando alguém se separa, a primeira pergunta que se faz é, há uma terceira pessoa? Talvez porque assim a história será mais picante. Mas convém saber que as terceiras pessoas podem entrar em relações muito satisfatórias. Há muitas ideias falsas sobre os casais felizes, uma das mais propagadas é que são imunes às tentações…

Talvez, em termos de relação amorosa/conjugal, a grande diferença das novas gerações seja o não suportarem a infelicidade relacional, romperem e tentarem de novo. Pensar que isto é mau ou bom não faz sentido, é o que é. Mas ninguém se separa com anestesia geral, há sempre dor.


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O desprezo pelo futuro

(Carlos Esperança, 21/06/2018)

poluição

(Este texto merece reflexão. Pelo que explicita. Pelo que está implícito. Pelo que pode ser acrescentado. Um sistema económico baseado no “interesse próprio”, como o capitalismo – o “homo economicus” à Adam Smith -, nunca pode ter uma estratégia de longo prazo: sacrificar alguns benefícios do presente a favor das gerações e da sustentabilidade futuras. 

Além de termos falhado “na felicidade como herança”, também já estamos a falhar na felicidade como anseio e praxis do nosso próprio presente. Se calhar já estamos todos mortos, mas julgamos que não, porque os telemóveis ainda retornam o som da nossa voz, apesar de já nada de relevante termos a dizer uns aos outros. Babel, cacofonia planetária onde já nada faz sentido.

Comentário da Estátua, 21/06/2018)


A minha geração é a última que vive melhor do que as anteriores e ninguém se preocupa com o futuro dos filhos ou a herança que vai deixar aos netos.

O consumo não é apenas a vertigem de quem mede o prazer pelos benefícios imediatos, é a bitola com que cada um disputa a superioridade a que se julga com direito. Há quem considere ilimitados os recursos do Planeta e seja alheio à imensa maioria, sem acesso a água potável, ar saudável, alimentos ou saúde, sem paz, nem sequer direito à vida.

Quem tira um curso e adquire conhecimentos à custa do investimento de todos, julga-se no direito de não retribuir. Somos o produto do logro que julga imparável o crescimento e inesgotáveis os recursos, legítima a acumulação de bens e tolerável a pobreza.

A bomba demográfica continua a explodir e a multidão de miseráveis cresce. A cegueira de governantes cujo poder lhes garante a impunidade arrasta-nos para o abismo e deixa-nos impotentes face à dimensão da tragédia que já está aí, o ar cada vez mais poluído, a água a rarear, os mares a morrerem, os desertos a avançarem e os refugiados a abalarem aflitos para países onde as súbitas alterações, étnicas e culturais, estimulam o confronto, fomentam o medo e conduzem à exclusão e à barbárie.

O bem-estar é tanto mais precário quanto menos forem os favorecidos e tão mais injusto quanto menos sustentável. Há uma correlação direta do fosso que se agrava entre países ricos e pobres, e o que separa as pessoas dentro de todos e cada um deles.

Quando as exigências têm por base mais a inveja do que as necessidades e se ignoram os que não podem sequer gritar, atraem-se os vendavais que varrem os benefícios que o acaso e as circunstâncias permitiram.

O castigo raramente é aplicado a quem merece, e serão os vindouros a sofrer o que nós fazemos, a carecerem do que esbanjámos e, sobretudo, do que não nos esforçámos por lhes deixar, ar, água, segurança, emprego, saúde e alimentos.

Herdam arsenais destruidores, se não forem utilizados antes, e os maus exemplos com que os países ricos vivem o presente, indiferentes ao futuro, de que se desinteressaram, e à obsolescência do modelo económico em que insistem.

A minha geração negou a felicidade como herança.

Trump, amoral e cruel, é a mais torpe metáfora da minha geração

Do riso e do esquecimento

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 06/05/2016)

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 João Quadros

Passos está atento à alegria de Marcelo da mesma forma que o ex-PR, Aníbal Cavaco Silva, dava atenção ao sorriso das vacas.


Numa estranha entrevista ao jornal Sol, o ex-PM, Pedro Passos Coelho, no seu tom cínico limão, disse: “O Presidente da República irradia felicidade.” Escrevo – “estranha entrevista” – porque, vendo Passos na bancada da oposição, dir-se-ia estar numa missão de redimir toda a sua vida num sagrado silêncio. Também me parece estranho que o mesmo Passos que ainda há pouco gargalhava, no Parlamento, perante o discurso de Centeno, tenha um tom crítico em relação à felicidade do PR. Não é bonito escarnecer da felicidade dos outros.

Passos está atento à alegria de Marcelo da mesma forma que o ex-PR, Aníbal Cavaco Silva, dava atenção ao sorriso das vacas. No fundo, são pessoas que estão sem nada para fazer.

O Doutor Pedro Passos Coelho precisa de ocupar o tempo. Tem de começar a fazer qualquer coisa que tem boa idade para isso. Até a Maria Luís arranjou emprego e sabemos bem como ela era especialista em acabar com ele. O Doutor Coelho não pode continuar assim, deprimido, sem aceitar a realidade. Aposto que ainda nem devolveu as chaves de São Bento. Anda com um pin a fingir que é PM, ganha ordenado de vice-PM e é líder da oposição, mas pouco fala. Nada faz sentido na vida do Pedro. O PM não é ele, o antigo vice-PM jamais conseguiria viver com aquele ordenado e o líder da oposição é Cristas. É natural que Passos cobice a felicidade dos outros.

Neste momento, a vida de Passos é um profundo aborrecimento. Pedro já pensou em ir de auscultadores para a Assembleia, mas até Charles Aznavour lhe soa feliz a entoar “Que c’est triste Venise”. Consta que até deixou de fazer papos de anjo para os vizinhos e que deixou de cantar no duche. Acaba por ser ela por ela, para os vizinhos. Passos está naquele estado pós-fim de namoro longo. Pouco pode fazer para relatar a relação, excepto fingir, lá em casa, que ainda andam e ir à bruxa todas as semanas na esperança de que um mau olhado acabe com a actual coligação.

Todas as manhãs, um Passos deprimido acorda sedento de más notícias – “Diz-me que os juros subiram! Diz-me que Tozé Seguro pegou fogo à sede do BE! Diz-me que houve um terramoto e morreram todos menos eu!” – É terrível. Ninguém aguenta ter como profissão ficar sentado numa bancada, a ouvir a voz de professora primária de Cristas e as gargalhadas do Doutor Rebelo de Sousa, com um pin enferrujado, de boca calada, deixando passar o tempo lentamente, até às autárquicas, na esperança de acordar um dia com uma notícia de uma grande desgraça nacional.