DIA DOS SENHORES PROFESSORES

(Virgínia da Silva Veiga, 05/10/2018)

agostinho

Agostinho da Silva

A luta dos professores, como a dos agentes da polícia, dos enfermeiros e dos demais funcionário públicos, é justa e séria. A República, que hoje se comemora, é, aliás, e sobretudo a história do Ensino em Portugal, justificando ser também hoje o Dia do Professor.

Devia ser lembrado e lembradas as conquistas, bem difíceis, de um ensino, então para muito poucos, quase todo ele privado e nas mãos de uma específica religião, onde os professores, em autêntico sacerdócio, eram mal pagos, sujeitos a despedimentos e prisões por meras suspeitas de delito de opinião.

Valia a pena lembrar a Lei Cabral que levou Agostinho da Silva a não poder dar aulas por se recusar a assiná-la. A lei, em tempos salazaristas, válida especialmente para professores mas transversal, obrigava todos os que trabalhassem para o Estado a assinar um documento no qual afiançavam não pertencer nem vir a pertencer a qualquer associação não legalmente autorizada. Agostinho recusou-se a assinar. Não pertencia. Isso assinava, disse. Mas o documento obrigava a uma decisão para futuro e isso ele não podia atestar. Não podia atestar mudar de opinião.

Foi proibido de dar aulas. Deu explicações, publicou cadernos e livros através dos quais deu três lições: de dignidade – a primeira delas -, de amor à pedagogia, a sua bandeira de vida, e, finalmente, de ensino. Os cadernos que publicou tinham o propósito declarado de, abrangendo vários temas, preparar quem os lesse para poder atingir todos os níveis de conhecimento. Agostinho, depois preso pela polícia política, acabou exilado no Brasil.

Nunca defendeu os seus próprios interesses. Para ele existiram sempre e só duas bandeiras: Ensino e Portugal, mesmo na mais absoluta pobreza, mesmo afastado do território que amava e que, mais que isso, acreditava ter um desígnio de exemplo para a Humanidade.

Cartazes, pedindo respeito numa cerimónia, empunhados por aqueles a que a ele se não dão – e que mostram não ter -, incomodam. Pessoalmente, incomoda-me quase tanto quanto me tem incomodado ver qualificar toda a justiça como protagonizável por quem não cumpre as leis vigentes, fazendo dela um espectáculo desrespeitoso e deplorável.

Estes comportamentos – arruaceirar cerimónias nacionais, ou distribuir panfletos a turistas com matéria Orçamental do Estado Português –, desqualificam os sectores e revoltam a generalidade da população. Não me queria professora e ser confundida com tais comportamentos que lamento em nome de todos quantos se dão ao respeito e que, também nestes sectores, acredito serem maioria.

Nogueira levou do Presidente da República a maior bofetada de luva branca de que há memória: “agendamos uma audiência” – foi quanto lhe disse Marcelo, nem mais uma sílaba, frase que é, para bom entendedor, dizer que se não justifica não a ter solicitado, estar ali, e vir ali perturbar uma cerimónia oficial. Foi um “dê-se ao respeito” a quem por ele clamava não o tendo.

Os professores – os senhores professores – os que vale a pena mencionar, são respeitados. Não o é quem alinha com arruaceirismos de cenário impróprio, como não são merecedores de respeito aqueles que, sabendo antecipadamente não ir dar aulas, não previnem os pais e as crianças.

É Dia do Professor. Dia para recordar a História do Ensino em Portugal, da sua evolução, das muitas lutas.

Por Portugal, não apenas por uma classe.
Dos professores, um símbolo – Agostinho da Silva.

O ukase sobre “Os Maias”

(José Rentes de Carvalho, in Expresso Diário, 19/07/2018)

eça

Uma notícia com mais de uma década tornou-se de repente facto aparentemente fresco: “Os Maias” deixaram de ser leitura obrigatória no secundário, escreveu a imprensa esta semana. As redes sociais viram, insurgiram-se e questionaram: como é possível tamanha afronta ao Eça, que indignidade é esta? Mas, na verdade, há mais de uma década que assim é: trata-se de facto verdadeiro em 2018 mas também em 2017 e assim anteriormente. Por isso, há aqui matéria para muitos anos de indignação, motivo que nos leva a J. Rentes de Carvalho: a pedido do Expresso, o escritor explica a falta que uns “Maias” obrigatórios fazem ao país – sobretudo aos mangas-de-alpaca.


O que vem logo ao pensamento ao receber a notícia de que “Os Maias” deixa ser leitura obrigatória no secundário é investigar a árvore genealógica dos néscios que tomaram essa decisão, porque de certeza há entre eles descendentes em linha directa do Conde Abranhos ou daqueles políticos que no fino retrato que Eça de Queirós deles fez se destacavam por terem ”uma grande cabeça” e dormirem durante as sessões parlamentares.

Por má sorte, não é a dormir que estes cavalheiros andam, antes parece que bem acordados levam a sério as suas fantasias, imaginando que a sociedade para ser moderna de verdade deve ser psicadélica, que os jovens cidadãos só encontrarão felicidade e êxito na vida se se mantiverem no rebanho dos semianalfabetos, dóceis e manipuláveis como crianças do infantário.

Na óptica dessas “grandes cabeças” a leitura de “Os Maias” e obras de igual “dificuldade” é uma inútil sobrecarga para a massa cinzenta de uma juventude que, como estímulo intelectual, não precisa mais do que os desafios do Facebook e os êxitos dos influencers no Instagram.

Pobre juventude, infelizes os pais e os educadores que inutilmente se esforçam por lutar contra a poderosa corrente da parvoíce, pois dominante como já é na sociedade, bem se dispensava vê-la também abençoada pelos que governam, e levanta sérias dúvida sobre o desenvolvimento cerebral e as capacidades intelectuais dos mesmos.

Não é porque a Eça de Queirós devo muito e sei o seu valor que me põe de avesso o ukase dos senhores da Educação, mas porque o considero um crime. Qualquer português adulto, em seu juízo e um mínimo de escolaridade, sabe que Eça de Queirós é mais que um nome, uma estátua ou uma placa de rua.

Eça de Queirós Foto D.R.

Eça de Queirós FOTO D.R.

O seu nome ficou, ficará, enquanto dos mangas-de-alpaca que depois do seu falecimento o foram achincalhando, porque o temiam e achavam venenosa a sua ironia, não sabemos o nome de nenhum, nem lhes conhecemos a cara, destino que terão estes de agora, a quem talvez incomode menos a cansaço de ler “Os Maias” do que dar à juventude a perigosa oportunidade de descobrir o terrorista social que escreveu “As Farpas”.

Fossem eles cidadãos conscientes e políticos de verdade interessados no progresso do país, não se entreteriam na busca de “facilidades” e exigências mínimas para o ensino da juventude, seria sua obrigação elevar a craveira, exigir excelência. Todavia o mais certo, porque disso dão mostra, é que eles próprios de Eça de Queirós e do pouco que leram nada aprenderam, nem se deram conta de estarem lá fiel e finamente retratados.

Grande mal é ser a luta inglória, cansativa, de todos os tempos, e resultar sempre como Schiller (1759-1805) nos avisou, de que “Contra a ignorância até os deuses lutam em vão”.

Infelizmente, também não é item que prometa êxito se levado ao Facebook, pelo que a nós, os de boa vontade, cientes do valor da obra do “pobre homem da Póvoa de Varzim”, resta-nos fazer trabalho de missão: convencer os que o ignoram que a obra de Eça de Queirós nos dá um genial retrato do país que éramos, fomos, continuamos a ser, mas onde para mal de todos nós os mangas-de-alpaca só conhecem uma velocidade: a marcha atrás.


(J. Rentes de Carvalho escreve de acordo com a antiga ortografia)

Pseudo-Ernesto e os Professores

(António Guerreiro, in Público, 29/06/2018)

Guerreiro

António Guerreiro

Quase ao mesmo tempo em que o jornalista João Miguel Tavares se aplicava a responder a uma pergunta tormentosa formulada no título de um dos seus textos recentes, “Porque é que os professores irritam tanta gente?”, uma revista francesa feita maioritariamente por gente irritante – professores e “cientistas sociais”, que uma convenção da escrita jornalística costuma colocar entre aspas – acolhia um jornalista do Le Monde para responder a uma pergunta de flagelo: “Porque é que os jornalistas são tão detestados?”.

O demónio da simetria deve ter alguma responsabilidade neste confronto telepático. No seu exercício reflexivo, o jornalista francês apontava quatro factores para explicar a irritação clamorosa que os jornalistas provocam: 1º) a imagem dos jornalistas está completamente identificada com a imagem dos políticos, o que é um fenómeno novo na história do jornalismo, e ambas as classes são vistas como fazendo parte do mesmo mundo, dito justamente “político-mediático”; 2º) os jornalistas são assimilados às elites; é uma “assimilação paradoxal”, um erro que se foi propagando pelo discurso livre da opinião, diz o jornalista do Le Monde, porque mais de 90% deles  “estão muito distantes das elites”, em todos os planos: “no estatuto social, nos recursos financeiros, na formação cultural”; a pequeníssima percentagem de stars que serve o regime do espectáculo mediático tem um poder de amplificação e irradiação tão grande que não há mais brilho que se veja; 3º) a representação negativa dos jornalistas enquanto mensageiros das más notícias e anunciadores de um mundo cheio de tragédia, crise e infelicidade, sendo muito embora inerente à profissão, acentuou-se e ganhou no nosso tempo uma dimensão quase demagógica; 4º) graças à evolução das novas tecnologias, os jornalistas tornaram-se cúmplices desse novo edifício político que é a “democracia da opinião”, o discurso moral e prescritivo, o triunfo do imediato, a submissão às tonalidades emotivas. Acumulando estes quatro factores, escreve o jornalista do Le Monde, “chega-se a uma imagem da profissão jornalística que se parece com o carregar uma cruz”.

Recuemos, incitados pela maldita simetria: nos anos 70 do século passado, Ivan Illich concebeu o projecto utópico de “descolarizar” a sociedade (o objecto da sua irritação não eram os professores); mais de 70 anos antes, um outro austríaco, Karl Kraus, tinha encetado uma luta mortal pela “desjornalização” da sociedade (o objecto da sua irritação eram mesmo os jornalistas).  Avancemos agora para o epílogo: alguns dias depois de João Miguel Tavares ter colocado a magna questão, um outro jornalista desta casa escreveu uma crónica sobre a escola partindo da personagem de um livro e de um filme de Marguerite Duras, Ernesto, que ao chegar a casa depois do primeiro dia de escola declara à sua mãe: “Não voltarei à escola porque na escola ensinam-me coisas que eu não sei”. Na versão do autor da crónica, Ernesto teria dito que não voltaria à escola porque os professores só lhe ensinavam o que ele já sabia. O equívoco é inocente, provavelmente o filme tinha sido visto há muito tempo e a memória atraiçoa. Mas em abono de uma simetria recorrente, apraz-me pensar que à pergunta do jornalista João Miguel Tavares deu Vítor Belanciano uma resposta competente, embora involuntária, ao retirar à recusa de Ernesto todo o seu sentido filosófico.

Os professores irritam, acima de tudo porque têm uma missão impossível (Freud desenvolveu a questão da “impossibilidade” que caracteriza todo o ensino). Que pena João Miguel Tavares não se chamar Ernesto!