(Tiago Franco, in Facebook, 11/02/2024)

Eu espero que, no próximo governo de direita, Anselmo Crespo tenha um lugar de destaque. Porta-voz de grupo parlamentar, assessor de ministro, epá qualquer coisa, porque é merecido.
O que este homem faz no comentário político está ao nível de um Pedro Guerra ou Aníbal Pinto nos lagares noturnos sobre bola da CMTV.
Notem que eu compreendo que um deputado seja tendencioso na análise política. Não espero que Marques Mendes, Bernardino Soares, Catarina Martins, Lobo Xavier ou o Relvas das 4 cadeiras façam uma crítica isenta. É normal que falem com o casaco de político vestido. Mas um painel de jornalistas, noite após noite, sempre a tentar influenciar a opinião pública com análises absolutamente tendenciosas, é algo que me irrita profundamente.
A não ser que aceitemos, de bom grado, que as opiniões na praça pública sejam apenas de um espectro político e tudo bem. Metade do país desliga a televisão e fala entre si.
Vi o debate entre Paulo Raimundo e Montenegro apenas hoje. Nas ilhas dos Açores (ou naquele sítio fora da República, se preferirem) o carnaval dura um mês, pelo que esta azáfama com eleições chega na altura errada.
Sobre a oratória de Paulo Raimundo já falei ontem, noutro artigo (ver aqui), e li as críticas feitas a um texto que acabou por ser lido por mais gente que eu imaginava.
As minhas expectativas para o debate eram por isso pequenas, apesar de achar Montenegro muito fraco nestas lides da argumentação. Mas enganei-me. Paulo Raimundo apareceu melhor, com algum trabalho feito e com o raciocínio estruturado.
Raimundo não consegue cativar pela eloquência da palavra e usa, de forma aflitiva, bengalas gramaticais. Em cada tema não podemos ter, “este é que é o grande problema”. Porque se for esse, já não pode ser o seguinte ou o anterior. Continua sem conseguir “atirar a matar” quando os adversários abrem a carreira de tiro. João Adelino Faria passou-lhe a casca de banana na história do aeroporto, que Montenegro mordeu e, Raimundo podia ter aproveitado para lhe dizer que, o aeroporto e a nova comissão, saída da cabeça de Montenegro, mostram a falta de palavra do PSD e os fretes aos grupos privados.
Ainda assim, Paulo Raimundo, como dizem os brasileiros, optou por feijão com arroz. Bola no pé, toca e foge, ideias simples mas concretas. Em 3 palavras: passou a mensagem.
Teve a ajuda de Luís Montenegro que patinou na história das pensões. Raimundo disse-lhe duas vezes que o PSD promete agora, não só o que cortou no passado (pensões), como também aquilo que votou contra no parlamento (proposta do PCP).
Ficou claro, para quem ouviu, que as pensões são uma promessa eleitoral para o PSD e não mais do que isso. Porque se assim não fosse, teriam votado favoravelmente no parlamento. A vida nestas coisas é muito simples e o que parece, é.
Montenegro voltou a ficar entalado com o apoio ao PS no congelamento da carreira docente, embora agora andem a prometer mundos e fundos aos professores. Eles, com Luís Montenegro como líder da bancada parlamentar, que disseram a estes mesmos professores que não fossem piegas e emigrassem.
O mesmo aconteceu com os benefícios fiscais dados às maiores empresas e onde Raimundo disse que se poderia ir buscar o dinheiro para as pensões. Nem com a insistência do moderador Montenegro conseguiu responder se taxaria o lucro excessivo. Vá lá, vá lá que, pelo menos, ao contrário dos seus parceiros de coligação (CDS) não disse que desconhecia o conceito de lucro excessivo.
Até a realização do debate à distância favoreceu Paulo Raimundo porque deixou Montenegro a reclamar por respostas que já tinham sido dadas.
No fim dos 25 minutos ficámos com a ideia do que Raimundo queria falar:
1) encostar o PSD aos cortes da ultima década e aos apoios ao PS no ataque aos trabalhadores; 2) aumento de pensões e salários à custa dos benefícios dados hoje ao capital. A ideia de que é para fazer hoje e não amanhã, passou.
Montenegro ficou na maionese nas pensões e quando chegou aos salários, deixou tudo para previsões de crescimento. Ou seja, ZERO de justiça fiscal e a continuação dos benefícios aos mais ricos. Em suma, o programa de sempre do PSD.
Paulo Raimundo ainda acabou com chave de ouro, explicando que o PSD não ficou com grandes bandeiras porque até isso o PS lhes levou. Voltou a encostar Montenegro à descida do IRC para os grandes grupos económicos. Montenegro não respondeu e voltou a perder tempo a falar de unicórnios.
Tal como na história do aeroporto. Raimundo respondeu em 5 segundos: Alcochete e está a andar. Montenegro voltou a meter os pés e a não assumir mais do que novas comissões e ajudas à Vinci.
Com discurso simples, sem qualquer agressividade, mas também sem perder o controlo emocional, Paulo Raimundo deixou claro que Montenegro promete coisas que nunca quis corrigir. É isso que passa deste debate. E corre particularmente mal a Montenegro porque ele é muito mais experimentado e beneficiou de “ataques suaves” de Paulo Raimundo. Um político tarimbado teria atropelado Montenegro.
Ora…no fim disto tudo como é que o belo do Anselmo “arremata” a coisa? Mau para Raimundo, bom para Montenegro. Mas “bom sem ser brilhante”, acrescenta o “jornalista”.
E não é para menos, digo eu. Para brilhante, como poucos, já cá temos o nosso Anselmo. Tudo o que não seja porta-voz do governo será derrota. É muito suor.
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