Não é um regresso sebastiânico. É a confirmação de um projecto tenebroso

(Editorial de AbrilAbril, 27/02/2024)

Passos Coelho participa, ao lado de Luís Montenegro, no comício da AD (coligação de PSD/CDS-PP e PPM) nos claustros da Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, em Faro, durante a campanha eleitoral para as Legislativas 2024. 26 de Fevereiro de 2024

Vendida por toda a direita e os seus sectores reaccionários como uma aparição sebastiânica, Passos Coelho voltou. Os comentadores concentram-se na expressão de valores abjectos mas ignoram o retorno de um projecto sinistro.


A solução política encontrada após as eleições de 2015 provocou uma ferida na direita que ainda hoje não está sarada. Se os acontecimentos que temos no presente são sempre consequência de acontecimentos do passado, podemos dizer que o governo PSD/CDS-PP/Troika e a forma como se conseguiu derrotar essa tríplice aliança têm um real impacto, nos dias correntes, na direita e na sua configuração.

Desde 2015, persiste uma amargura generalizada na direita. Um sentimento de injustiça potenciado pela (opcional) incompreensão do funcionamento do sistema democrático. Este aspecto, conjugado com a governação que teve lugar entre 2011 e 2015, foram a válvula de escape para o aparecimento de projectos abertamente reaccionários que residiam, e dele sucederam, no seio de PSD e CDS. 

Desde o primeiro Governo do PS liderado por António Costa que a direita andava a suspirar, aos cantos, pelo regresso de Passos Coelho. Não necessariamente, ou somente, no sentido personalista, mas porque a criação do mito em torno do mesmo correspondia ao regresso de um projecto político de destruição do país, em favor dos grandes grupos económicos e interesses particulares de um número reduzido de indivíduos. 

Passos andava por aí. Ia fazendo aparições públicas, comentários incendiários dissimulados com uma suposta inocência e um falso sentido de Estado. Tacticamente foi, de quando em vez, animando as hostes e garantindo que o seu mito ia sendo, convenientemente, alimentado. Voltou ontem para realizar um comício da AD (PSD/CDS-PP e PPM) no Algarve.

Sabia exactamente o que precisava de dizer. Deixou, numa só frase aberta, o suficiente para que a interpretação das suas posições xenófobas conseguisse começar a esvaziar o Chega: isto quando, em simultâneo, estabelecia pontes de ligação com a AD. Conseguiu também marcar a agenda do dia. Todos os comentadores discutiram o real intuito da frase, mas a questão nunca esteve aí, sabemos há muito ao que Passos, que introduziu Ventura na política nacional, vem. 

O seu regresso é mais do que uma aparição, é a confirmação de que pela AD e comparsas, os destinos do país passarão sempre pelos caminhos sinuosos de outrora. Caminho este que foi derrotado em 2015, que visava continuar a ajustar contas com Abril, uma das manifestações mais concretas da submissão do poder político ao poder económico.

Pedro Passos Coelho representa o aprofundamento da venda e destruição do país. A acção do seu governo assentou numa política de privatizações, ou de entrega, incluindo por via da eliminação das golden shares, ao grande capital nacional e estrangeiro de empresas públicas estratégicas como a PT, TAP, CTT, EGF, EDP, REN, GALP, ANA, Caixa Seguros, ENVC e das diversas empresas de transportes públicos e logística.

Como se isto fosse pouco, o governo do grande oráculo da direita lusa promoveu um corte superior a 2 mil milhões de euros na saúde. Centenas de milhares de utentes viram vedado o seu acesso a cuidados de saúde; foram atacados os direitos dos profissionais do sector; aumentadas as taxas moderadoras; e foi eliminado o direito de transporte a doentes não urgentes. Como não podia deixar de ser, foi acentuada a linha de privatização da saúde através da entrega de unidades hospitalares às Misericórdias.

Na educação, o governo deste D. Sebastião do empobrecimento também não se imiscuiu no ataque à Escola Pública. Encerrou escolas do 1.º ciclo; cortou o financiamento do Ensino Superior em 2500 milhões de euros; aumentou o número de alunos por turma; reduziu os funcionários e realizou despedimento de mais de 25 mil professores; atacou a carreira de docente; reduziu a Acção Social Escolar; promoveu a discriminação e a segregação de milhares de alunos com necessidades educativas especiais; e aumentou os custos de frequência do ensino.

Mas ainda há mais, sob a égide da sua governação, o número de desempregados chegou aos 930 000 no primeiro trimestre de 2013, segundo os número oficiais, mas que se estima que possa ter atingido mais de 1 400 000. Entre o segundo trimestre de 2011 e o primeiro trimestre de 2013, foram destruídos 440 000 postos de trabalho, 70 000 dos quais nas administrações públicas. 

O curriculum de Passos, que mais se assemelha a cadastro, prosseguiu com a desvalorização geral de salários de 16,5%, que na Administração Pública e no Sector Empresarial do Estado foi superior a 30%. Foram promovidos cortes salariais e aumentadas as horas de trabalho. 

Para finalizar (mas não acabando, o rol de grosseiras decisões do passismo não fica por aqui), importa referir que o governo de Passos cortou no valor das pensões; agravou as condições de acesso à reforma; e promoveu igualmente os cortes noutras prestações sociais, como a protecção no desemprego e doença, o abono de família, o Complemento Solidário para Idosos e o Rendimento Social de Inserção, atingindo centenas de milhares de famílias.

As palavras são vãs para tudo o que Pedro Passos Coelho representa, mas quem lutou nas ruas, nos locais de trabalho, nas escolas e nas faculdades sabe o que foi o ataque, a privação e a imposição da miséria. Quem foi convidado a imigrar sabe o que foi um governo que separou famílias. Quem trabalhou uma vida inteira sabe o que é chegar ao final da mesma e ver negado tudo aquilo que é necessário para viver. 

Ontem, o regresso de Passos não foi um regresso. Foi o assumir de que, após dia 10 de Março, caso a direita chegue ao poder, o futuro será duro e nebuloso. Mas a AD e os seus sucedâneos podem talvez não saber que, os que combateram o governo de Passos, serão os mesmos que combaterão todos os passos que a direita quiser continuar a dar.


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Liberdade de escolha, razão e demagogia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 25/02/2024)


A liberdade de escolha constituiu o elemento a partir do qual os debates tradicionais sobre a liberdade e a necessidade começaram na Grécia há mais de dois mil e quinhentos anos. O problema da liberdade de escolha reside na contradição resultante do facto de podermos decidir contra o bem essencial, transformando a liberdade em servidão. Isso acontece porque a liberdade pode resumir-se à escolha do conteúdo, das normas e dos valores a partir dos quais a nossa natureza essencial, incluindo a nossa liberdade, se expressa. A liberdade pode agir contra a liberdade, entregando-nos à servidão. E esse é o projeto das “democracias iliberais”, ou formais que nos está a ser proposto como paradigma da democracia. Votais! — o resto está por conta de outrem, de nós, os vossos representantes. Este tipo de “democracia” é o meio ideal de criação e desenvolvimento dos demagogos e da demagogia. Dos abutres da liberdade, dos que comem o interior dos corpos, os órgãos vitais que garantem a liberdade e deixam o esqueleto, que continuam a designar por democracia. Não é, como o cavername de um barco não é um barco e não navega.

O que está a ser imposto como “democracia” é a apropriação do direito de voto por uma elite. Essa velha perversão aproveita o que, à falta de melhor, pode ser traduzida pela palavra alemã de Angst — medo, horror, angústia de confrontar possibilidades e desejos com a realidade, de medo de usar a liberdade, por isso os temerosos transferem a responsabilidade para outros que lhe surgem como mágicos realizadores de felicidade. Esta transferência de responsabilidade pelo uso da liberdade contradiz a natureza essencial do ser humano, de ser livre, condu-lo à servidão, mas vendida a liberdade, já não há regresso, o demagogo está aos comandos da nossa vida e não mais nos ouvirá.

A liberdade humana é o risco humano. A possibilidade de ultrapassar uma qualquer situação implica a possibilidade de não o conseguir. Mas a delegação da liberdade pode tornar-se servidão se for atribuída a quem corrompa os princípios e os meios “democráticos” para se apropriar dela. As campanhas eleitorais servem também e cada vez mais como legitimações desse tipo de corruptos que surgem a par dos que cumprem regras básicas de conquistar o voto. Isso acontece porque o modelo “democrático” imposto pelo poder dominante para ultrapassar a universalização do voto é o de escolher “quem” e não escolher “o quê”. A personalização (fulanização) das campanhas e das candidaturas, o empolamento a “casos” e revelações de intimidades servem o propósito de atrair as atenções para o quem e não para o quê.

Os debates-espetáculo que nos são servidos como ração democrática e integral querem que vejamos lutadores em competição e não os empresários e os que manipulam os resultados. Os espetáculos-debate são um falso combate encenado para dar a vitória antecipada aos demagogos, aqueles que melhor dominam a arte de conduzir habilmente as pessoas ao objetivo desejado, utilizando os seus conceitos de bem, mesmo quando lhes são contrários. Aos que corrompem a essência da democracia, de o poder ser constitucionalmente detido pelo povo, para se apropriarem dele apelando ao menor denominador comum, propondo ações prontas a servir para enfrentar situações e crises complexas, enquanto acusam oponentes de moderados, de fracos e de corruptos, segundo as conveniências do momento.

O êxito dos demagogos assenta na cobardia. Os demagogos orgulham-se da sua arte de arrastar cobardes. Os grandes meios de manipulação elegem e legitimam a cobardia como um valor cívico. A discussão da pré-campanha tem sido centrada no lugar a dar num futuro governo aos demagogos que têm a arte de arrastar cobardes.

A adesão de grandes massas aos demagogos é antiga, é uma servidão trágica que ao longo da história tem levado a situações de brutais e irracionais ruturas, em que a humanidade se pode reduzir à situação do indivíduo isolado à beira do abismo, insignificante e incapaz de se aperceber da ameaça para ele próprio e da aniquilação ao seu redor. Julgo ter sido essa a situação de muitos alemães durante o nazismo e de ser essa a situação de muitos israelitas perante o genocídio de palestinianos. Duas situações em que foram os cidadãos que elegeram, que votaram os que os governaram e governam, que participaram em comícios, em ações de esclarecimento, que ouviram ou viram debates.

O que podem fazer os que sentem a angústia da servidão para evitar a tragédia que anteveem como inevitável resultado da demagogia nas horríveis das experiências do passado? Existe um valor que tem sido esquecido ou muito aviltado: a coragem e não existe nenhum ser mais corajoso do que o ser humano, porque mesmo quando em condição de servidão não perde a liberdade se mantiver a sua dignidade.

A demagogia é um atentado à dignidade humana e o mais reles e eficaz argumento dos demagogos é o aproveitamento do sentimento de insegurança, que eles próprios criam e que prometem resolver a troco da integração no seu bando. Exploram a solidão e a fragilidade do “homem só”, do ser só, perante os predadores e rodeado de necrófagos. Uma grande parte das criações da civilização humana pode ser compreendida em termos de “busca de segurança”. A utilização da insegurança como argumento encontra-se hoje no primeiro plano da panóplia de armas dos demagogos, insegurança física, política, económica e até por falta de sentido na vida.

Outro dos sentimentos explorados pelos demagogos é o do desespero, entendido como o conflito entre a vontade de se manter a si mesmo e o de se perder a si mesmo, o desejo, ou a vontade de obter o mundo completo (a realização), e o desejo ou a vontade de se acolher à servidão, abdicando da da liberdade.

As ações a que assistimos durante uma campanha eleitoral são a repetição do negócio da compra e venda da alma a troco de promessas, as encenações tecnológicas nas televisões não alteram o essencial do logro do mito de Fausto, apenas o embrulham e o disfarçam com luzes faiscantes. O demagogo é, no fundo, uma velha máquina de picar carne que transforma em pasta o cérebro de quem acredita que ele lhe vai fornecer uma salsicha.


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O Jovem Conservador de Direita comenta os debates

(Por Jovem Conservador de Direita, in Facebook, 16/02/2024)

Não vi o primeiro debate. Já estou farto de ouvir a esquerda radical. É uma questão de saúde mental.

Infelizmente, não perguntaram à Dra. Mariana Mortágua acerca da usurpação de direitos de autor e propriedade intelectual do Dr. Pedro Abrunhosa daquela frase que não é igual à dele, mas que se nota que só podia ser dele: fazer o que nunca foi feito.

A esquerda a nacionalizar uma frase que nunca tinha sido dita antes do Dr. Pedro Abrunhosa a enunciar. Ele merece receber direitos de autor por dizer o que nunca foi dito.

Depois tivemos o debate do dia, entre um candidato extremista totalitário e um candidato da direita conservadora ligeiramente autoritária.

O Dr. Cabeça de Geleia hoje lambeu-se menos. Nota-se que tem ouvido as minhas críticas e devem estar a dar-lhe moscas antes do debate para que a língua dele não se perca à procura delas na atmosfera.

Foi um debate muito agressivo. O Dr. Pedro Frazão foi mencionado pela primeira vez e não foi para discutir zoofilia. Foi por um motivo mais nojento.

O Dr. Rui Tavares denunciou que, entre outros trolls da internet, o Dr. Pedro Frazão pôs a segurança da sua filha em risco. Nomeadamente através da partilha de fotografias tiradas no pátio da escola.

O Dr. Cabeça de Geleia esteve muito bem a fingir que não sabia de que é que o Dr. Rui Tavares estava a acusar o Dr. Pedro Frazão. Dá sempre jeito ter alguém que masturbe os cavalos para que ele não tenha de o fazer.

Apesar de fingir não conhecer o trabalho sujo do Dr. Pedro Frazão e seus seguidores, o Dr. Cabeça de Geleia aproveitou para reforçar a acusação de hipocrisia associada à devassa da vida privada de crianças denunciada. Já consigo vislumbrar o génio que tanta gente vê. Ele não masturbou o cavalo propriamente dito, mas não teve nenhum problema em utilizar o frasco de sémen extraído para inseminar as mentes dos seus seguidores.

A conclusão aqui é “deixem as crianças em paz desde que não sejam filhas de políticos de esquerda.”

A seguir, o Dr. Cabeça de Geleia acusa o Dr. Rui Tavares de querer encher as ruas de v1olad0res, assasssinos e bandidagem. Mas os fotógrafos de crianças estão no partido dele.

A seguir vou citar uma frase que ele disse mesmo:

“Crimes sexuais, que eu acho que nos dizem a todos alguma coisa.”

Não sei o que é que ele quer dizer com isto, mas deveria ser investigado.

O Dr. Rui Tavares confronta o Dr. Cabeça de Geleia com o facto de ser amigo do político mais corrupto do Mundo o Dr. Órban. Isto é inveja do Dr. Rui Tavares porque não tem amigos de sucesso. Era difícil o Dr. Viktor Órban não beneficiar os seus quando está há tanto tempo no poder na Hungria. Acham mesmo que tantas pessoas de sucesso financiam o CHEGA porque gostam das ideias do CHEGA? Não. São visionários que sabem aproveitar oportunidades.

Aqui o Dr. Cabeça de Geleia passou-se. Começou a lamber-se mais do que três labradores numa churrasqueira e disse tipo metralhadora: Venezuela, Cuba, Lula, Hamas, Soros. Foi um home run de argumentos imbatíveis.

É interessante que o Dr. Soros tenha sido mencionado nos debates antes de zoofilia.

Acusou o Dr. Rui Tavares de ser financiado pelo Dr. Soros e disse que o Dr. Soros, um bilionário, é de esquerda radical. Toda a gente sabe disso. E foi um excelente piscar de olhos aos fãs do CHEGA que não se sentem muito confortáveis com (((eles))).

O Dr. Cabeça de Geleia ficou tão nervoso por atacarem os seus amigos Dr. Órban e Dr. Bolsonaro que até defendem refugiados. Eram refugiados ucranianos, logo dos bons, mas já é um passo. Quando está nervoso torna-se mais moderado.

No pós-debate os comentadores foram todos unânimes em dizer que o Dr. Rui Tavares perdeu. O Dr. Sebastião Bugalho tinha de dar vitória ao Dr. Cabeça de Geleia. Os amigos são para as ocasiões.

Criticou o Dr. Rui Tavares porque denunciar o aproveitamento da devassa da privacidade de crianças por parte de um partido político é segundo o Dr. Bugalho “uma palhaçada.”

Acusou o Dr. Rui Tavares de não conseguir provar que a partilha das fotos dos filhos foram feitas por pessoas do CHEGA. É como a questão do Dr. Pacheco Amorim e do terrorismo. Se calhar o Dr. Pedro Frazão também é só membro da organização Dr. Pedro Frazão e não comete actos de Dr. Pedro Frazão.

Tenho visto muita gente a criticar o Dr. Bugalho e tenho de o defender. Muita gente diz que ele não tem talento nenhum e só está onde está por causa de nepotismo. É verdade. E não há nada de errado em aproveitar oportunidades, nem que essas oportunidades surjam de nepotismo.

Mas não quer dizer que não seja talentoso. O talento dele é falar à velho. E os velhos gostam muito de promover jovens que falam à velho. Porque faz com que não se sintam tão velhos.


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