E agora, Sr. Presidente?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 15/03/2024)

(É por estas e por outras que tenho que trazer à ribalta muitos dos textos do Miguel Sousa Tavares. É dos poucos, com acesso à comunicação social de larga difusão, que tem a coragem de “chamar os bois pelos nomes”, como neste texto em que escalpeliza brilhantemente o papel de Marcelo Rebelo de Sousa, no derrube do Governo de António Costa e na consequente ascensão meteórica da extrema-direita. Por isso mesmo, a ilustração acima – da nossa escolha, e não constante na publicação original -, é uma alegoria à sua junção às vazias acusações do MP contra o Primeiro-ministro cessante.

Estátua de Sal, 15/03/2024)


E agora, Sr. Presidente, como é que nos tira desta embrulhada onde nos meteu? Como aqui escrevi há duas semanas, o rol de promessas eleitorais, associado à conjuntura internacional, torna Portugal ingovernável: ou porque não serão cumpridas e serão então cobradas nas ruas e nos serviços públicos, ou porque serão cumpridas e nos levarão à falência.


Como era mais do que previsível, acordámos segunda-feira com um país ingovernável. Era previsível para qualquer um, mas especialmente para alguém como Marcelo Rebelo de Sousa, que passou uma vida inteira a acumular fama e proveito como imbatível leitor e construtor de cenários políticos, capaz de ler nos astros o que o comum dos mortais ainda não tinha descortinado na parede em frente. Deixemo-nos, pois, de meias-palavras: Marcelo não tem desculpa. Estamos como estamos porque ele assim o quis.

No “Público”, e na esteira de vários outros, Manuel Carvalho escreveu que “o prenúncio desta degradante democracia liberal estava à vista quando uma maioria se extinguiu à luz dos indícios de corrupção”, pelo que “Marcelo fez o que a sua consciência lhe ditava e que o grosso da opinião publicada lhe exigia”. Pois, o problema é que o grosso da opi­nião publicada tomou por indícios de corrupção o que não leu com atenção ou não percebeu, e, no mais, um Presidente deve guiar-se por aquilo que, em cada momento, quer a opinião pública, e não a opinião publicada. Até porque, em contrário, há quem diga mesmo que foi Marcelo quem sugeriu a Lucília Gago que introduzisse no comunicado da Procuradoria-Geral da República o tal parágrafo que ambos sabiam que levaria à imediata demissão de António Costa. Eu não acompanho essa teoria da conspiração ou do maquiavelismo, mas continuo a perguntar-me o que se terá passado na conversa entre o Presidente e a procuradora-geral que antecedeu a demissão do primeiro-ministro: terá Marcelo exigido saber, como lhe competia, o que havia de sólido nas suspeitas em relação a António Costa? E, em face disso — que era nada, como concluiu o juiz de instrução —, conformou-se com a execução pública do PM às mãos da PGR e com a sua demissão? Isto feito, e mal feito, com que legitimidade constitucional optou por recusar o nome indicado por António Costa para lhe suceder na chefia do Governo ou, em alternativa, pedir ao PS que indicasse um nome, como se faz em todas as democracias normais? Quem disse a Marcelo que em 2022 os portugueses tinham votado apenas em António Costa, e não também no PS, e que, se por qualquer razão ele não terminasse o seu mandato, preferiam eleições antecipadas e desembocar na situação que temos agora? A que deve ele obediência: às suas inclinações partidárias, às suas interpretações políticas ou às regras da Constituição da República? E, já agora, para que lhe serviu a opinião de um Conselho de Estado rigorosamente dividido a meio sobre o caminho a seguir? Apenas para o desprestígio acrescido de ver dois dos conselheiros, por si nomeados e ligados à AD, votarem pela convocação de eleições e depois aparecerem a fazer campanha eleitoral pela mesma AD…

E agora, Sr. Presidente?

Não, Marcelo não tem desculpa. Trata-se de alguém que passou anos a defender o valor da estabilidade e da previsibilidade dos mandatos levados até ao fim. Que, nos últimos dois anos, disse e repetiu que nada poderia pôr em causa o ritmo de execução do PRR — a última grande oportunidade de financiar o desenvolvimento do país com dinheiros europeus —, chegando a dizer a uma ministra que não lhe perdoaria um só dia de atraso. E, afinal, manda tudo ao charco em duas penadas e cavalgando uma insustentável ficção processual do Ministério Público relativamente ao PM — que, isso sim, devia preocupá-lo, e muito. Interrompe uma governação antes ainda do meio do seu termo, paralisa o país durante meses, lançando o alerta em Bruxelas, e dá-se ao luxo de deitar borda fora aquilo que qualquer país europeu hoje mais preza: uma maioria absoluta de um partido dentro do sistema democrático. Hoje podíamos ter à frente do Governo alguém como Mário Centeno, o nome que António Costa levou a Marcelo e que este recusou: alguém que nem sequer era filiado no PS, que conhecia o Governo e as finanças, que tinha provas dadas aqui, conhecimento e prestígio lá fora. O país não teria parado, o PRR e os principais dossiês não estariam paralisados e, sobretudo, aqueles que ainda se esforçam por acreditar num futuro para Portugal não experimentariam mais uma vez a decepção de ver a vida a andar para trás, a sua e a de Portugal, porque lá em cima se anda a brincar com coisas sérias para satisfação de protagonismos ou de impulsos infantis.

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Mas não é apenas a instabilidade governativa que eu não perdoo a Marcelo. Mais ainda do que isso, o que não lhe perdoo é ter soltado a besta presa na cave, a besta da demagogia: o Chega. Por mais análises que me forneçam sobre as razões sociológicas e políticas do milhão e cem mil votos do Chega, algumas certamente pertinentes, há uma que desde logo o justifica: a compra de votos. O Chega comprou votos, comprou muitos votos, e comprou-os com uma campanha de demagogia despudorada e irresponsável. Contem-nos: nas forças policiais e respectivas famílias são 100 mil; nos reformados, a quem prometeu, pelo menos, uma pensão equivalente ao salário mínimo, mesmo para quem não contribuiu, serão uns 300 mil; nos professores, a quem prometeu tudo o que reclamam, dos 120 mil terão cativado uns 30 mil; nos agricultores outro tanto, e por aí fora, tudo junto somando metade do milhão e cem mil votos de André Ventura. Num país onde tantos se habituaram a exigir tudo do Estado e tão poucos se perguntam quem e como pagará, o discurso de Ventura está condenado ao sucesso, muito mais do que o racismo, a xenofobia, o autoritarismo e tudo o resto a que, por preguiça, gostam de o reduzir. O sucesso eleitoral de André Ventura chama-se demagogia à solta, e o pior de tudo é que, por competição e por sobrevivência, ele contagiou em larga medida todos os outros. Como aqui escrevi há duas semanas, o rol de promessas eleitorais, associado à conjuntura internacional, torna Portugal ingovernável: ou porque não serão cumpridas e serão então cobradas nas ruas e nos serviços públicos, ou porque serão cumpridas e nos levarão à falência.

Quando recusou a solução de estabilidade governativa que o país esperava e que ele próprio tinha apregoado durante tanto tempo, preferindo antes lançar o país numa aventura eleitoral desnecessária e de efeito previsível, Marcelo sabia ao que ia. Mas não se conteve, porque há muito que ele ia dando sinais de incontinência, aliás com ameaças explícitas. E não venham cá com o desgaste dos “casos e casinhos”, porque no mais grave deles — o caso Galamba, onde Marcelo entrou em choque frontal com o PM, exigindo publicamente a demissão do ministro — ainda estou para perceber qual é a responsabilidade de um ministro que demite um assessor que se recusou a entregar uns documentos exigidos por uma Comissão Parlamentar de Inquérito e depois, sem mais qualquer intervenção da sua parte, vê o assessor invadir à força o gabinete, roubar o computador de serviço e levá-lo para casa, só o devolvendo a um agente do SIS e por intervenção de outro membro do Governo. Mas, ainda que a razão fosse os “casos e casinhos”, a renovação do Governo com a indigitação de outro PM, e exterior ao PS, esvaziava o argumento.

Não, a verdade é outra: o cargo deve ser profundamente aborrecido para quem gosta de viver a vida. O primeiro mandato presidencial acredito até que possa ser estimulante e apelativo: andar por aí a conhecer o país e as pessoas, dar beijos e abraços, ser recebido com a despreocupação de quem só pode prometer o bem e não fazer o mal, viajar lá fora e conhecer os grandes do mundo, escutar o hino com a herança de quase nove séculos às costas. Mas, isto passado, o segundo mandato é mais do mesmo e, sendo o tédio mau conselheiro, a tendência para a asneira torna-se inevitável. Mas nenhum resiste à tentação do segundo mandato, nem mesmo alguém como Mário Soares, que tinha tão mais vida do que aquela que cabia nas paredes de Belém. No primeiro mandato vimos o melhor de Marcelo, um contagian­te suspiro de alívio depois dos anos de chumbo da majestade cavaquista; no segundo, estamos a assistir ao seu pior, à facilidade com que os grandes princípios degeneram numa absoluta vacuidade. Prejudicial ao país. Mas, enquanto o tempo não passa e isto não tem fim, fica a pergunta a que só ele tem obrigação de responder: e agora, Sr. Presidente, como é que nos tira desta embrulhada onde nos meteu? Dia 15 de Março, sexta-feira, cinco dias depois do acto eleitoral, ainda nem sequer sabemos quem ganhou as eleições e se quem ganhou quer mesmo governar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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Golpe de Estado

(José Goulão, in AbrilAbril, 12/03/2024)

Um golpe de Estado não acontece apenas quando esbirros de um qualquer Pinochet, movidos pelos fascistas do neoliberalismo económico, instauram um regime político militarizado para que um país e o seu povo sejam despojados de vidas, bens e direitos. Golpe de Estado é também aquilo que está a acontecer em Portugal desde 2022 (…).


Não é hora de rodriguinhos, de tiradas politicamente correctas, de hipérboles linguísticas, de palavras mansas. O que aconteceu durante os últimos meses teve um desenvolvimento dramático no domingo 10 de Março, e consumou um golpe de Estado; abrem-se problemas e situações ainda mais nefastas para o povo português.

Um golpe de Estado não acontece apenas quando esbirros de um qualquer Pinochet, movidos pelos fascistas do neoliberalismo económico, instauram um regime político militarizado para que um país e o seu povo sejam despojados de vidas, bens e direitos. Golpe de Estado é também aquilo que está a acontecer em Portugal desde 2022, através de interferências desnecessárias no chamado «regime democrático». Se é ou não é plenamente democrático sabemos perfeitamente que não, mas deixemos por ora isso de lado para posteriores considerações.

Sem qualquer carga simbólica, mas porque este desfecho é perseguido há 50 anos, com rampa de lançamento em 25 de Novembro de 1975, o afilhado do último ditador abriu terreiro para que as bestas derrotadas em 25 de Abril de 1974 voltem a ter poderosas rédeas de poder em Portugal.

Em duas eleições que decidiu ordenar à revelia dos portugueses e de quaisquer normas democráticas, o venerando Chefe de Estado, espécie de Thomaz com a agravante de ter capacidade de intervenção determinante nos centros de decisão, deu asas ao fascismo lusitano permitindo a multiplicação por 27 das representações dos seus heterónimos na Assembleia da República, bastante mais semelhante agora a uma Assembleia Nacional. Se o leitor não fez as contas saiba que a IL, o salazarismo snob, cresceu oito vezes, de um para oito deputados, em 2022, mantendo agora esse grupo: o salazarismo caceteiro, tão acarinhado pelos meios de intoxicação social levando em triunfo o trauliteiro da bola reconfigurado em picareta falante sob os sorrisos babados de oligarcas e especuladores domésticos e estrangeiros, cresceu doze vezes em 2022 e quadruplicou a sua representação no passado domingo, atingindo 48 deputados. 

Entre eles vêem-se operacionais e herdeiros do banditismo de 1974 e 1975 que assassinaram democratas e destruíram bens e instalações de partidos democratas, principalmente do Partido Comunista Português, alvo principal da sua sanha e também inimigo a abater pela cáfila de comentadores e analistas, deuses infalíveis da opinião única que chocam com desvelo os ovos da besta fascista. Caceteiros, admiradores, amigos e seguidores dos envolvidos na vaga terrorista de 1974 e 1975 são agora respeitáveis «eleitos», «senhores deputados» que, por muito que haja juras de serem mantidos à margem dos círculos governamentais – diz o povo que quem mais jura mais mente – são figuras que nunca deixarão de se fazer convidadas em cada recanto por onde se move a renovada classe política. Além de integrarem a miríade de cenários políticos que a comunidade informativa, opinativa e censória vai obrar com fartura durante uma cegada que parecerá interminável.

25 de Novembro 2.0

O núcleo duro do 25 de Novembro de 1975, aqueles que queriam verdadeiramente o regresso ao passado e não impedir que Portugal caísse sob uma «ditadura comunista», deram no domingo mais um significativo passo em frente e, por muito que se esmerem nos testemunhos de gratidão, nunca conseguirão prodigalizar os agradecimentos suficientes ao chefe de Estado, Marcelo afilhado de Marcello.

Em 25 de Novembro aglutinaram-se os que não quiseram acompanhar a dinâmica revolucionária e os que desejavam à viva força erradicar o 25 de Abril como se nunca tivesse existido. Um saco de gatos anticomunista manipulado pela CIA (tal como o golpe de Pinochet dois anos antes) mas dentro do espaço europeu, onde já pareceria mal fazer desaparecer pessoas ou fuzilá-las a eito num estádio.

Configurou-se então o «Centrão», o golpe brando que, através de quase 50 anos, deixou Portugal no estado em que se encontra hoje, um satélite da NATO, uma província da União Europeia sem capacidade para decidir sobre instrumentos democráticos fundamentais; um subúrbio económico esvaziado, com mecanismos públicos e sociais periclitantes, dependendo exclusivamente de uma actividade aleatória como o turismo; um pregoeiro de leilão que saldou todo o aparelho produtivo e transformou o país no mais desequilibrado e desigual da Europa, na cauda de praticamente todos os indicadores de referência. 

Em 10 de Março, exactamente um dia antes de se completarem 49 anos sobre outra tentativa de golpe, a do fascismo spinolista inspirada no modelo de Pinochet que os militares de Abril corajosamente fizeram abortar, abriu-se uma nova fase da execução do 25 de Novembro para erradicar completamente do país as referências do 25 de Abril de 1974. A jornada de luta e resistência em que se transformarão as celebrações da efeméride no próximo mês demonstrarão que o fascismo poderá ter colocado mais uma vez a carroça à frente dos bois. Nesse dia e, certamente, nos tempos que teremos pela frente, o dinamismo e a convicção popular saberão contribuir para minorar ou mesmo apagar os efeitos que a escória eleitoral resultante de um processo distorcido por um sofisticado aparelho de envenenamento e propaganda derramou sobre a sociedade. A resistência política e social, como sempre, irá separar as águas entre Abril e Novembro, demonstrando à classe política que não é dona exclusiva do poder e muito menos da democracia.

A doença do anticomunismo

Basta olhar os números eleitorais e escutar a barragem de fogo dos media corporativos – e mesmo dos públicos, que vegetam à imagem do país – para se concluir que hoje como em Novembro de 1975 o anticomunismo é a ferramenta fulcral do reaparecimento do fascismo e das elucubrações marcelistas. 

O Partido Socialista, que tanto se pôs a jeito – e ainda consegue chamar «centro democrático» à direita – deverá começar a sentir na pele que o fascismo com o peito cada vez mais inchado não irá poupá-lo, obviamente com o PSD como testa de ferro.

O Partido Comunista Português tem sido, porém, o único alvo a abater para que o 25 de Abril desapareça de vez da memória, consciência e vida dos portugueses. Digamos que o PCP é a última fronteira, a barreira que sobra para que o neoliberalismo fascista já instaurado nos planos económico e financeiro, graças ao eficiente aparelho policial de Bruxelas, tenha finalmente a sua correspondente política.

Daí que tenha valido e continue a valer tudo contra o PCP. Silenciamento do seu discurso e até da sua existência, deturpação ostensiva e constante da sua mensagem, calúnia contra as suas intenções, o seu programa e a acção dos seus dirigentes, o encorajamento e o  apoio grosseiro do divisionismo à esquerda, a censura pura e simples, a agressividade, a manipulação e desigualdade de tratamento contra a sua campanha eleitoral. 

Os exemplos recentes deste ramo essencial da estratégia golpista de inspiração fascista é o tratamento factualmente mentiroso e omisso das posições do PCP em relação ao problema ucraniano. A intoxicação mediática conseguiu o milagre de fazer crer que os comunistas portugueses estão ao lado do capitalismo oligárquico russo que, com a ajuda ocidental, arrasou a herança económica e social da União Soviética. Alcançar a quadratura do círculo é um feito só ao alcance dos que fazem da mentira, da censura, da liquidação do pluralismo e da liberdade de opinião o seu modo de vida. A defesa da paz na Ucrânia e em todo o mundo pelo PCP é interpretada como um apoio a Putin. Fazer do absurdo verdade é, desde sempre, uma trama do nazifascismo. Ao mesmo tempo, apoiar o regime golpista de Kiev é uma posição que, segundo o aparelho dominante, decorre da democracia. Isto é, a nossa democracia sustenta o nazismo, o racismo e a xenofobia dos nazi banderistas. Por estas e outras, não nos espantemos que as variantes do salazarismo somem 56 deputados no Parlamento, quase um quarto do hemiciclo.

A estratégia de fazer desaparecer o PCP da cena pública, apagando-o na comunicação social como caminho para o eliminar da política e do Parlamento, está em permanente movimento. Por ironia do destino, se o venerando chefe de Estado não tivesse inventado estas eleições – onde estão as provas das acusações ao primeiro-ministro cessante, António Costa, que espoletaram o processo? – e se não tivesse havido uma campanha eleitoral, o país ainda desconhecia praticamente que o novo secretário-geral do PCP é Paulo Raimundo e não Jerónimo de Sousa.

O apoio dado a correntes artificiais da esquerda fiéis à autocracia do europeísmo, do federalismo e de uma ecologia dolarizada à moda do Fórum Económico Mundial é outra estratégia orientada exclusivamente contra o PCP e aos seus aliados na CDU, de maneira a pulverizar votos e deputados nessa área. A mediatização, quase ao nível dos grupos fascistas, proporcionada a uma organização conduzida por indivíduos fala-baratos e sem ética política, como demonstraram anteriormente dentro de  partidos que os acolheram e promoveram, é outra manifestação da falta de princípios própria da estratégia de vale tudo no anticomunismo. Ao mesmo tempo, a classe média urbana que o poder europeísta despreza sentiu-se contente da vida por poder votar numa «esquerda» fofinha.

Desenganem-se, porém, os sectores para quem o combate do PCP e da CDU depende da dimensão da sua representação parlamentar. A sua luta política e social extravasa em muito as instalações da Assembleia da República. Em mais de metade dos seus 103 anos de existência o PCP não teve lugares no Parlamento; quando citado na propaganda do fascismo foi apenas para ser caluniado; e, contudo, nenhuma organização contribuiu tanto para fazer amadurecer as condições que derrotaram o salazarismo. Não admira, portanto, que seja o alvo a abater pelo fascismo e os seus instrumentos «democráticos». 

O PS, parte essencial do 25 de Novembro e da estratégia para apagar o país do mapa e de manter a maioria do povo em níveis de desenvolvimento muitas vezes indignos, vítima da política insultuosa e totalitária de Bruxelas, está prestes a tomar conhecimento de que a direita em bloco, falando já em revisão constitucional à sua revelia, não tenciona agradecer-lhe os serviços prestados.

Na comunicação social corporativa, entretanto, os socialistas começaram a perceber logo na noite eleitoral que a música vai tocar de maneira diferente daqui em diante. A agressividade de comentadores contra representantes do PS é um sinal que não deve ser negligenciado. E a manobra opaca e conspirativa contra António Costa diz tudo sobre a maneira como chegámos a esta situação que até um destacado membro do PSD, o presidente da Câmara Municipal de Cascais, qualifica como «um imbróglio».

Ao longo de décadas, o PS foi anulado pela NATO, tornou-se um pião do fundamentalismo federalista da União Europeia e tombou, como a maioria dos seus congéneres, para o lado do neoliberalismo e da ditadura de mercado, deixando entre parênteses ou espezinhando as referências sociais.

O quadro, porém, não é irreversível desde que haja noção da envergadura da ameaça fascista e admita que os seus inimigos principais não são os comunistas e aliados. Há um tempo para governar e um tempo não apenas para a oposição, como enfatizou o secretário-geral socialista, mas para a resistência.

O quadro político e a alteração de forças foi um tsunami e não uma picuinhice de mais ou menos um deputado, mais ou menos meia dúzia de votos. O cenário mudou completamente no domingo e o fascismo não é representado apenas pelos chegas e il’s; no interior do PSD, sem falar no CDS agora por ele engolido, acoitam-se um sem número de salazaristas que não hesitarão em dar a cara se o momento se proporcionar.

É preferível prevenir que remediar. O golpe foi dado, porém está longe de consolidado. Abril está aí e não é apenas uma efeméride, uma memória: é um instrumento. Nunca é cedo demais para resistir e para demonstrar ao fascismo, insuflado por ventos que sopram de feição, que a democracia, para o ser verdadeiramente, terá de ser antifascista.

É para restaurar essa realidade que os antifascistas devem estar disponíveis e prontos. Ainda vamos a tempo. Tornemos o próximo 25 de Abril inesquecível.


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Ele, como não quer cá ver mais gente de turbante, votou no Chega

(Whale project, in Estátua de Sal, 14/03/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, do Daniel Oliveira, sobre os resultados das eleições para a Assembleia da República de 2024, (ver aqui). Pela sua atualidade resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 14/03/2024)


Uma pessoa que vive na Alemanha também se espantava pelos motivos que muita gente invocava para votar no Chega. Por exemplo, um artista dizia: – Vou a Portugal e vejo lá aqueles indianos, aquela gente de turbante. Vou votar no Chega porque aquilo tem que acabar.

A criatura ainda argumentou: – Estás na Alemanha há 20 anos, vais a Portugal três vezes por ano, achas mesmo que vale a pena votar na extrema-direita e lixar a vida a quem lá está, imigrante ou não?

E teve como resposta: – Só lá vou três semanas e tenho de ver aquela canalha. É por isso que vou votar no Chega. Foi o motivo invocado por muitos.

Os motivos pelos quais se votou no Chega foram diversos, mas uma coisa já sabemos: ninguém o fez por bem. Foi sempre a pensar em lixar a vida a alguém. A não ser um pobre, ou um velho ou outro que acreditaram mesmo ser possível que as suas reformas miseráveis poderiam passar de 300 para 1000 euros.

Mas, aquela malta que nunca votou, porque dizia que “são todos iguais” – não interessando nada haver quem nunca tenha estado no Governo -, votou, basicamente, por querer virar do avesso a vida de alguém.

Eu sei que é complicado acreditar que, um em cada cinco portugueses – em algumas regiões mais de um em cada quatro -, está tão ressabiado com a vida que quer dar cabo da vida de alguém. Mas é com isto que vamos ter de viver.

E, claro, também a obsessão do PS com o excedente orçamental – que o levou a fazer tudo para deitar borda fora os parceiros de esquerda e a aproveitar a inflação, durante os últimos dois anos, para encher os cofres, em vez de tomar medidas para a mitigar -, e que criou o caldo de cultura que o fez perder meio milhão de votos, dando assim quase 30 por cento da votação a quem nos virou a vida do avesso, indo além da troika.

O PS foi hábil em chamar a si todo o mérito pelas medidas que, nos anos de 2015 a 2020, aliviaram o garrote imposto às nossas vidas nos anos anteriores. Na verdade muitas delas saíram de propostas – alguns dirão imposições -, dos partidos à esquerda.

Assim, conseguiu alcançar uma maioria absoluta, esquecendo-se de que – estando livre dos parceiros de esquerda que pediam o impossível, como disseram muitos comentadores da nossa praça -, também sofreria pressões várias, até dos poderes europeus para ter as contas certas.

Christine Lagarde

E o PS prosseguiu a sua obsessão com as contas certas enquanto o povo enfrentava a inflação e a subida assassina dos juros imposta por aquela senhora de cabelo lambido que um dia disse ter pena, era das crianças do Níger e não das crianças gregas que desmaiavam de fome na escola.

Talvez pensassem em usar os próximos dois anos para aliviar o garrote, esquecendo-se de dois fatores cruciais. Não tinham um presidente da mesma cor política mas sim um que, mais polido e com aquela conversa mole dos afetos, estava disposto a tudo para fazer a direita voltar ao poder, rapidamente e em força. Depois,  nunca lhes deve ter passado pela cabeça que o lawfare – a guerra judicial já aplicada, noutras paragens como no Brasil -, poderia, com a mesma eficácia, também ser aplicada deste lado do mar.

O irónico disto tudo é que o senhor, que assegurou que a nossa vida não estava melhor mas o país estava melhor, vai poder fazer alguns bonitos graças ao pecúlio acumulado pelo PS. Como a mais que justa recuperação do tempo de serviço dos desgraçados dos professores, que ainda têm, muitos deles, de levar com a barbaridade de serem colocados no Norte, sendo do Sul, e no Sul sendo do Norte.

E assim se repete o velho ditado: o dinheiro do usurário vai dar a mão ao extravagante.

Fica, para os homens e mulheres que estudam estas coisas, tentar explicar a razão pela qual políticos batidos caíram numa armadilha destas.

No meio disto tudo quem se lixa é o mexilhão. Ou seja, nós. Tenhamos ou não votado no Chega.


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