No rescaldo das eleições francesas

(Por Manuel Augusto Araújo, in Abril Novo Magazine, 08/05/2017) 

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O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande.


Os ventos da história que abalam a Europa e o mundo são fortes e estão poluídos. Mais uma vez, depois das eleições em França, sopraram mais fortemente com a contribuição dos violentos suspiros de alívio das medíocres classes políticas e seus felizes apaniguados alegremente satisfeitos com a eleição de Macron.

Repetiram o alívio pulmonar que as eleições na Holanda, onde um populista bom ganhou a um populista mau, tinham estimulado. A vista curta dessas cortes, com amplo acesso a uma comunicação social estipendiada, satisfaz-se com a derrota de Le Pen, uma fascista das mais bem estruturadas nos campos da direita mais extrema.

Não se detém no facto da Frente Nacional ser actualmente o maior partido francês que só não tem maior representação na Assembleia Nacional de França por via de um enviesado sistema eleitoral, o que não é motivo nem de orgulho nem de repouso.

Os chamados partidos do sistema, socialistas e republicanos, estão esfrangalhados pelos escândalos mas, sobretudo, pela pauperização ideológica. O perigo próximo é Macron, nos próximos anos de mandato, adubar o caminho para Le Pen. Um percurso semelhante nas suas diferenças com o de Obama que facilitou a chegada ao poder de Trump, e Le Pen é bem pior que Trump, só que com menor arsenal, financeiro e militar, à sua disposição.

O cenário de fundo é a crise actual do capitalismo que promove os fascismos, como já aconteceu na história recente, em formato diferente, com Mussolini, Hitler, Franco, Salazar. A retórica da extrema-direita, bem documentada nas declarações eleitorais de Le Pen, oculta o que o fascismo foi e é, um sistema de governo em conluio com grandes empresas, que favorecem economicamente com a cartelização do sector privado, os subsídios às oligarquias financeiras e económicas.

Só idiotas inteligentes com demagogia populista por vezes sofisticada, por cá Lobo Xavier na Quadratura do Círculo é um bom exemplo, é que metem no mesmo saco as propostas económicas, políticas e sociais da esquerda com as das variadas Le Pen’s. É a direita a cavalgar os perigos reais do fascismo em benefício próprio e do capital que a apoia e sustenta.

Sabem, bem sabem que propostas aparentemente similares na forma divergem radicalmente nos conteúdos, nos propósitos e nas práticas. Sabem, até bem de mais, que quem está mais próximo das Le Pen’s são eles.

É gente que não olha a meios para alcançar os seus fins. Estão entrincheirados numa comunicação social controlada pelo capital financeiro globalizado que oculta que a extrema direita, usando e abusando dos tiques populistas, seja Le Pen, Wilders, Farage, Petry, consegue mobilizar os cidadãos porque eles estão decepcionados e sentem-se traídos pelas políticas de ajustamento impostas pelos poderes supranacionais, FMI, Banco Central Europeu, Banco Mundial, União Europeia. Que isso acontece porque os partidos tradicionais republicanos, socialistas e sociais-democratas na Europa se associaram e submeteram às políticas económicas e sociais dos globalistas.

O enorme perigo que o robot da globalização Macron representa são as políticas económicas e sociais enunciadas no seu programa que já tinha defendido enquanto secretário-geral adjunto da Presidência da República no consulado Hollande e ministro da Economia de Manuel Valls.

Os trabalhadores, as classes médias só podem esperar o pior. O quanto pior melhor alimenta populismos, tanto de esquerda como de direita e em particular da extrema direita. Só quem está longe da realidade e tem vistas curtas é que pode pensar que as crises abrem necessariamente mais espaço à esquerda e fica sentado à espera de colher os frutos pútridos quando caírem.

As lutas pelos direitos políticos e sociais não se reforçam com as crises, que alargam sempre o fosso entre ricos e pobres. Quem se reforça são os populismos de todos os matizes.

Quando as crises rebentam as pessoas humanamente interrogam-se sobre o dia de amanhã. A reacção mais imediata e espontânea é o receio pelo seu futuro. Se num primeiro impacto os princípios da sociedade que os impôs são postos em causa, a seguir regressam em força, pela mão dos agentes mais violentos do capitalismo. É o que se observa na Europa.

Há sempre um recrudescimento da direita, da extrema-direita, do fascismo que floresce catalisado pelo quanto pior melhor. A esquerda, em particular os comunistas, são os mais visados por essa política de choque que tem a intenção deliberada de aterrorizar os cidadãos, preparar activamente o terreno para a liberalização radical do mercado.

A grande interrogação é se a esquerda, as esquerdas, conseguem, nos espaços de interregno que se vão seguir às eleições na Europa, de algum modo regenerar-se. As dúvidas são muitas e legítimas. O passado recente faz temer o pior. É ver o quase terror que atravessa algumas hostes socialistas quando um homem como Jeremy Corbyn é eleito líder do Labour Party, tentando inverter, mesmo com alguma timidez, as desgraçadas políticas dos lideres trabalhistas thactherianos.

No momento actual há um dado político e ideológico fundamental. Enquanto a proletarização avança a passo largo em todo o mundo e o conflito central continua a ser o da luta entre o trabalho e o capital, o eclectismo político invadiu essas esquerdas, é um forte aliado do capital e da burguesia, o que é um triunfo ideológico da direita bem expresso tanto nas variegadas terceiras vias que colonizam os partidos socialistas e sociais-democratas, seja qual for a sua sigla, como também quando as lutas ditas fracturantes, pondo a tónica na exaltação das diferenças, ocupam lugar central em vez do lugar secundário que justamente deviam ter, confundindo lutas por mudanças de atitudes sociais com lutas por mudanças sociais de fundo.

Muito se fala em crise do sistema democrático, raros são o que colocam o dedo na ferida, o que também é uma forma de sustentar e favorecer as direitas com o fascismo perfilado ao fundo do túnel.

O que se assiste é o acentuar da indiferenciação ideológica e programática entre esquerda e direita que se iniciou logo no fim da II Guerra Mundial e se acelerou, entre outros sucessos, com a generalidade dos partidos comunistas a consumirem-se autofagicamente na voragem do eurocomunismo.

Na Europa, a evolução dos sistemas partidários aproximou-os cada vez mais do sistema partidário norte-americano em que o que separa democratas de republicanos é mais a forma que o conteúdo. A democracia representativa deixou de ser o lugar da luta de classes por via pacífica, como era proclamado pelos primeiros revisionistas sociais-democratas.

A apologia da democracia tende a confundir-se com os partidos tanto mais quanto menos a realidade partidária corresponde ao ideal democrático. Os partidos tornaram-se numa finalidade em si próprios, reduzem praticamente a sua acção e medem a sua representatividade em função dos resultados eleitorais.

Deixaram de ser instrumentos ao serviço dos eleitores, o que é bem expresso pelo abismo que normalmente existe entre as promessas eleitorais e as práticas governativas mal alcançam o poder. São prolongamentos do aparelho de Estado, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável. São organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, confinando substancialmente a sua práxis política ao exercício da conquista do voto, o que é um gravíssimo retrocesso político-ideológico.

Nesse quadro, que se agrava tanto mais quanto mais a actividade política fica enclausurada nos momentos eleitorais, os cidadãos afastam-se da política, dos partidos políticos, descrentes das virtudes de um sistema democrático em que não se sentem representados.

Essa é que é a crise do sistema, a sua real e dura crise do sistema iludida por retóricas de pacotilha, em que os grandes beneficiários são a direita, a extrema-direita, no fim da linha, os fascismos. Tende a inflacionar-se se os partidos socialistas e sociais-democratas persistirem em continuar por essa vereda, destruindo lance a lance eleitoral a democracia representativa.

Os fantasmas de, entre outros, Blair e Hollande, deviam ser um semáforo de aviso. O perigo, mesmo que adiado por uns tempos, vai continuar a assombrar a Europa e o mundo. Há que corajosamente enfrentá-lo.


O centro assanhado

(Francisco Louçã, in Público, 05/05/2017)

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Dizia Hölderlin que “onde há perigo cresce o que nos salva”. Mas pode ser falso e paralisante, não há redenção na 25ª hora, nada cresce espontaneamente sem nós, sem a capacidade democrática de mobilizar as energias da sociedade. Ninguém nos dispensa do esforço e do risco de enfrentar os perigos.

Por isso, é trivial que a esquerda aceite um candidato de centro ou de centro-direita contra uma fascista na segunda volta de uma eleição presidencial. Por uma razão evidente: não há outro candidato e, se Le Pen ganhasse, a margem de acção para as classes populares seria tragicamente reduzida; se Macron ganhar, como tudo indica, abre-se uma nova etapa da política que escolherá entre a agressividade liberal e uma alternativa socialista. O único problema estratégico relevante é assim que a esquerda tenha a autonomia e a força para conduzir a resposta social que aspire a vencer a solução neoliberal. Contra o perigo, só cresce o que conseguimos fazer crescer.

Há então duas perguntas que quero discutir consigo. A primeira é esta: porque é que Macron, mesmo na segunda volta, fez uma campanha contra a esquerda, de cujos votos precisa?

Ele hostilizou-a no debate, recusou o gesto que Mélenchon lhe propusera (retirar a proposta de lei laboral que facilitará despedimentos), persistiu nas suas soluções contra a contratação colectiva e já nem insisto no truque à la Hollande que consiste em prometer vergar Merkel um ápice, estabelecer um orçamento europeu e um ministro das finanças do euro, ou até a ideia estrambólica de, eleito em França, propor a convocação de “convenções democráticas” nos outros países a partir dos próximos seis meses.

Isso não o impediu, logo na BBC, de espanejar uma hipótese de saída da União Europeia se Merkel não aceitar a sua voz grossa, ou mesmo de ressuscitar o “canalizador polaco” que vem roubar o pão da boca dos filhos do operário francês. Ou seja, vale tudo.

A explicação deste vale-tudo é a mesma para ter aceite um debate com uma fascista, o que ninguém fizera até hoje e que serve às maravilhas para a sua estratégia de banalização legitimante. Macron, que festejou a vitória da primeira volta como se fosse presidente, acha-se um salvador, para retomar Hölderlin, e que Le Pen ou os outros são paisagem para a sua ascensão ao poder. Mesmo sabendo-se que se vota nele “por defeito” e sem entusiasmo, sente-se portador de uma chama salvífica.

Ora, para conseguir vencer, e é a segunda questão, precisa de criar um novo campo político. Um novo campo exige uma fronteira de exclusões, implica destroçar as alternativas. Como nos explica Assis com satisfação, Macron vai para isso fazer um governo baseado na direita, e o PÚBLICO antecipa que a sua primeira-ministra até pode ser Christine Lagarde, FMI, ou a ex-patroa da associação patronal. Assim, o que os macronistas exigiam à esquerda não era que votasse neste mal-menor: era que abjurasse e declarasse fidelidade a Macron.

Portanto, os macronistas portugueses perceberam muito bem o que implica essa “salvação” e, para criar o muro que viabilize este centro assanhado, manejam alegremente os velhos discursos maccarthistas sobre a esquerda igual ao fascismo. Isso em Portugal já foi brincadeira de romancista, é agora estratégia política.

O problema é que não sobram muitos para essa função, excepto alguns ideólogos avulsos. De facto, ficam os que detestam o governo actual porque o acham uma “aliança espúria” e, no caso das eleições francesas, que os seus protagonistas revelam “hipocrisia moral” e “vileza política” (pergunto-me como pode um jornalista descer ao linguajar de um dirigente partidário rasca). Ou os que tiveram uma visão de um dia para o outro e o que era preto passou a ser branco: “Se ainda há pouco tempo referi aqui que os dois aliados do actual Governo não deviam ser suspeitos de populismo, manda a verdade dizer que eles se aproximam hoje perigosamente dessa tentação, marcada pela deriva do Podemos espanhol ou do candidato Jean-Luc Mélenchon, numa simetria bizarra com Le Pen”.

A agressividade categorial deste centro assanhado é, no entanto, um sinal estimulante para a esquerda. Ilustra onde é que os neoliberais, que têm o poder, pressentem o contraste e sabem da base popular. Essa será a batalha dos nossos anos.

As eleições em França enquanto labirinto

(Rui Namorado, in Blog O Grande Zoo, 04/05/2017)

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1. O suspiro de alívio posterior à primeira volta das eleições presidenciais francesas tem vindo a ser toldado por uma ligeira brisa de preocupação. A extrema-direita, que era dada como irremediavelmente batida, recusa  a dar-se antecipadamente por vencida.
A esgrima de golpes baixos e de pequenas traições, que caracterizou o relacionamento entre si dos atores de todo o resto do espetro político, torna difícil, mesmo aos estados-maiores partidários, juntarem-se numa marcha sem falhas que dê a vitória ao candidato nem de direita/ nem esquerda.

Mas pior do que isso, a degradação da qualidade de vida  de uma grande parte dos setores populares e o dramático confisco de um futuro que lhes permita a esperança, tornam possível que as vitimas não se convençam a seguir na esteira de quem lhes promete a mesma desigualdade e a mesma subalternidade, mesmo que isso os leve por  caminhos de absoluto desastre. Ou seja, os eleitores populares podem ignorar as indicações de voto em quem se diz apostado em prosseguir a via neoliberal, ainda que temperada com algumas inovações. É um erro, é certo. Mas quem é colocado em situação de  desespero pode errar mais facilmente.

É estranho? Talvez, mas é estúpido dar como certo que quem se vê excluído e desprezado, mergulhado na infelicidade e no medo, responda sempre com equilíbrio e inteligência às adversidades. Se os supostos  “crâneos” se extraviaram no labirinto das suas próprias subtilezas, como exigir que o povo aja sempre com a lucidez que eles antes não revelaram?

2. Se olharmos para a relação de forças revelada na primeira volta das eleições presidenciais francesas, podemos identificar cinco áreas politicamente demarcadas. Uma extrema- direita com 21,30%, uma direita com 24,71%, um centro de 24,01 %, uma esquerda com 25,94% e uma extrema-esquerda com 1,73%. A candidata da extrema-direita e o candidato do centro passaram à segunda volta.

Se compararmos estes resultados com os das primeiras voltas das três anteriores eleições presidenciais ( todas elas já  realizadas neste século), verificamos que o centro teve 6,84 em 2002, 18, 57 em 2007 e 9,3 em  2012; a extrema-direita teve 19,20 em 2002, 10,44 em 2007 e 17,90 em 2012; a direita teve 29,90 em 2002, 33,41 em 2007, 28,97 em 2012 e 24,71 em 2017; a esquerda teve 32,45 em 2002, 30,69 em 2007, 42,04 em 2012 e 25,94 em 2017.

Este conjunto de resultados mostra que a extrema-direita apenas se reforçou em pouco mais de três pontos percentuais desde 2012 e que já quase chegara aos 20% em 2002. Ou seja, a sua pujança não é uma novidade absoluta, mas principalmente  uma consequência do esvaimento dos outros setores políticos. Mostra também que o centro é realmente a área que mais cresceu em termos absolutos, sendo certo que, já em 2007, o seu candidato se aproximara dos 19 %.

A direita, cujo eixo principal é o partido gaullista (LR), teve  um desaire político importante, pelo facto de o seu candidato não ter passado à segunda volta, mas em número de votos não se desmoronou. O candidato dos LR teve menos 7% dos votos que tinha obtido o candidato do mesmo partido em 2012, em parte pelo escândalo em que se viu envolvido em plena campanha.

A esquerda, abrangendo as forças políticas apoiantes das candidaturas de Hamon e de Mélenchon, foi fortemente penalizada, tendo recuado no seu todo 16% desde 2012. Mas este número global oculta um fator de agravamento do significado deste recuo. De facto, o candidato do PSF, partido dominante que em 2012 colocara o seu candidato na Presidência da República, teve em 2017  menos 22% de votos em relação aos  que Hollande tivera em 2012 na primeira volta ( desceu de 28, 63 para 6,36 %). Em contrapartida, o candidato dos insubmissos, apoiado pelo Partido Comunista Francês e pelo Partido de Esquerda, ambos integrantes da Frente de Esquerda, subiu, relativamente a 2012, mais de 8% de votos (de 11,10 para 19,58 %).

Portanto, a mensagem mais forte que os resultados transmitem é uma drástica reprovação do eleitorado quanto à  Presidência de Hollande e à sua governação. O seu partido, o PSF, viu assim o seu candidato fortemente penalizado, tendo perdido eleitores, quer em benefício do centro quer em benefício do outro candidato de esquerda. Esta reprovação era suficientemente evidente para ter levado Hollande a não se recandidatar, o que nunca acontecera durante a Vª República com nenhum presidente cessante que se pudesse recandidatar. Os militantes e simpatizantes socialistas deram, aliás, um sinal de sentido idêntico, quando nas eleições primárias preferiram largamente um ex-mimistro que se demarcara da condução política de Hollande ao ex-primeiro ministro que mais emblematicamente a pusera em prática.

De facto, Hamon representou objetivamente uma tentativa  de quebrar a identificação do PSF com a política de Hollande; ou de pelo menos a relativizar. Esta via era estreita. Era difícil sair da sombra impopular de um Presidente da República  do mesmo partido sem claramente o criticar . E maiores foram as dificuldades, porque a ala direita do Partido Socialista, claramente vencida nas primárias, rompendo com a decência mínima de respeitar a palavra dada e um mínimo de lealdade partidária , foi tornando crescentemente ostensivo o seu apoio a Macron , o candidato centrista.

E a insalubridade  ética  dessas manobras foi agravada  pelo facto desse candidato, ser um jovem politicamente inexistente que passou a existir rapidamente apenas  por ter sido cooptado por Hollande para seu conselheiro e mais tarde instalado como um importante ministro de Valls. E, parecendo de início ser um mero instrumento de arremesso no combate florentino entre Hollande e Valls, Macron viria a fazer-se gente entrando na grande politica pela pequena porta da traição aos seus dois padrinhos. Suprema ironia. O segundo dos apunhalados traiu depois a sua palavra em prol de quem o traíra, apoiando expressamente Macron contra Hamon ; e o primeiro foi obrigado agora a vir a público pugnar do alto da sua Presidência pela vitória de quem tão rasteiramente o traíra.

Defender que o arejamento político das propostas de Hamon  e uma alegada conotação com a ala esquerda do seu partido são as causas principais pela esqualidez do resultado que obteve como candidato do PSF, ronda a desonestidade intelectual ou é pura simplesmente um sinal de cretinismo político. Hollande governou em sentido oposto ao que prometeu como candidato e acabou por se dotar de um primeiro-ministro que dispunha de uma escassa base de apoio no eleitorado do PSF, quiçá mais disposto a destruí-lo do que a liderá-lo. O quinquénio hollandista enxovalhou pelas suas opções uma larga parte do povo de esquerda que o havia eleito. Teve já uma primeira resposta. Vejamos o que virá a seguir.

3. Para já, é ainda cedo para se falar no desmoronamento de um sistema político. Por enquanto, o que ocorreu foi um forte safanão no principal partido da esquerda francesa, havendo ainda o risco de esse safanão o poder atingir mais profundamente nas próximas eleições legislativas.

Se Macron, como parece muito provável, for o vencedor das eleições presidenciais, será transferida para as legislativas a decisão do combate político em curso. Macron vai procurar dotar-se de uma maioria presidencial que lhe permita governar segundo o seu programa. É muito duvidoso que o consiga.

Falta saber se conseguirá sequer suscitar uma coligação entre os deputados do seu partido e um ou mais parceiros. Que parceiros ? Os socialistas do PSF ? Os gaullistas dos LR? Qual a força de atração que exercerá sobre outras forças de esquerda menos relevantes  como é o caso dos Verdes e dos Radicais de esquerda ? Ou sobre outras forças de direita, como é o caso dos centristas que eram aliados históricos dos LR?  O novo partido de Macron ( “En Marche”) absorverá por completo os centristas tradicionais apoiantes de  François Bayrou ? Enfim, muitas dúvidas, muitas incertezas.

Incertezas que , aliás, se complicam pela escassez de tempo que vai decorrer entre a segunda volta das Presidenciais e a primeira das Legislativas. Complicação acrescida por uma combinação explosiva entre o sistema eleitoral francês e a relação de forças política que a primeira volta sugere.

De facto, o sistema uninominal a duas voltas vigente em França garante que disputarão a segunda volta os dois candidatos mais votados na primeira volta  em cada círculo eleitoral, mas permite que outros candidatos, além deles,  também o possam fazer, desde que tenham obtido na primeira volta pelo menos 12.5% de votos em relação aos eleitores inscritos. Na relação de forças habitual, entre 577 círculos eleitorais, as disputas tripartidas na segunda volta, em regra, atingiam as escassas dezenas, não havendo disputas quadripartidas. Ora, cálculos ainda grosseiros, a partir da relação de forças atual, apontam para a possibilidade de mais de 250 disputas  tripartidas e de alguma dezenas de quadripartidas.  A hipótese de a Frente Nacional, exceder muito o seu deputado atual, aumenta exponencialmente; e a incerteza quanto aos resultados finais aumenta ainda mais.

A importância  de acordos entre as várias forças políticas cresce muito. Quer desde logo na possível renúncia cruzada a ter candidatos em certos círculos na primeira volta, mas também depois nas desistências na segunda volta de candidatos de certos partidos em favor de candidatos de outros.

Conseguirá a direita continuar sem fazer acordos com a FN? Se continuar a ser essa a ser a decisão oficial dos partidos de direita, serão obedecidos em todos os casos?  Haverá algum acordo entre os LR e o partido de Macron para desistências mútuas? E entre estes e os socialistas? E estes últimos continuarão a ter acordos com os Verdes e os radicais de esquerda? E haverá acordos de apoio cruzado e desistências entre os socialistas e os insubmissos de Mélenchon ? No quadro destes últimos, os comunistas do PCF agirão com autonomia? Múltiplas perguntam, enormes dúvidas.

Dúvidas acrescidas pelo facto de não ser certo que os resultados da recente primeira volta se repitam , mesmo aproximadamente, nas legislativas. O que se projeta quer na possível força do PSF, quer na do partido de Macron, quer nos insubmissos de Mélenchon. Ora, a dúvida sobre a força real de cada um deles é um fator suplementar de incerteza em quaisquer negociações.

O PSF, tal como o LR, ao relacionar-se com o partido de Macron não pode menosprezar o facto dele assentar a sua expetativa de afirmação e crescimento na destruição desses dois partidos, em especial do PSF. Este aliás, além de correr o risco de se partir antes das eleições, or causa das candidaturas, corre ainda o  risco de uma divisão grave entre os que prefiram depois  aliar-se a Macron e os que prefiram aliar-se a Mélenchon. Entram ou não na nova maioria presidencial ? Se sim, deixam a outros o protagonismo da oposição a uma política de cariz neoliberal; se não, deixam à direita o exclusivo de uma aliança com Macron ? Uma ou outra opção podem ter consequências eleitorais logo na segunda volta; e mais tarde podem suscitar clivagens dramáticas. Clivagens entre fações do partido ou, mais grave, clivagens entre o partido e os seus eleitores que podem vir a abandoná-lo, como já aconteceu na Grécia, na Polónia, na Hungria e , mais recentemente, na Holanda. Mas que um partido de esquerda perca apoio por agir como se fosse de direita ( aconteceu assim nos casos citados atrás) é estruturalmente mais perigoso do que perder por ser fiel à sua identidade.

4. Para concluir, é legítimo afirmar-se que os dois processos eleitorais, que se iniciaram em França e terminarão nos próximos meses, configuram um verdadeiro labirinto político, cuja principal raiz está na incapacidade da esquerda francesa no seu todo responder aos desafios predatórios do neoliberalismo. Um neoliberalismo que se apossou já das instâncias europeias, confiscando-as em benefício da sua lógica destrutiva.

Mas há um labirinto que se se sobrepõe a esse. É o labirinto de pequenas e grandes explicações e pseudoexplicações que, no essencial, visam mais iludir-nos sobre o que se está a passar do que ajudar-nos a compreender.


Fonte aqui