Etologia europeia

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 26/07/2024)

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Em tempos que parecem hoje quase lendários, por tão distantes e estranhos ao estado presente das coisas, a UE aparentava ter a visão de um desígnio estratégico comum. Promessas de paz, sustentabilidade, cooperação internacional davam-lhe rosto próprio.

Sobre isso se derramou muita tinta nas páginas de revistas de ciência política e relações internacionais. Será que o euro iria disputar a hegemonia global do dólar? Será que a condenação aberta, em 2003, por parte da França de Chirac e da Alemanha de Schröder, da ilegal, injustificada e sangrenta invasão norte-americana do Iraque, poderia prenunciar uma autonomia crescente da UE no seio de um mutável sistema internacional? Será que a proximidade entre Alemanha e Rússia, em matéria energética, poderia ser o embrião da formação do temível titã geopolítico, do Atlântico ao Pacífico, pensado pelos estrategistas Mackinder e Haushofer, e que nunca sai dos pesadelos anglo-saxónicos?

A guerra na Ucrânia revelou que Washington nada tinha a temer. A turbulenta Europa, que os EUA por duas vezes pacificaram, é hoje uma coleção de corpos políticos, unidos pela elementar pulsão do medo, que desagua no mimético impulso da submissão.

Hoje, a UE encontra-se desprovida de alma e projeto. Limita-se a reagir e a obedecer. Na verdade, poderia ser de outro modo? Será que os sobreviventes de duas guerras, que dizimaram o escol da juventude europeia, teriam o engenho e ousadia de partilhar a responsabilidade pelo futuro?

Os governantes europeus seriam hoje incapazes de perceber a frustração de Jean Monnet quando viu fracassar, em 1954, o projeto da Comunidade Europeia de Defesa, cuja duração deveria prosseguir mesmo depois da extinção da NATO. A Defesa Europeia é hoje uma competição entre países, para saber qual deles tem a maior lista de compras de material de guerra ao complexo militar-industrial de Washington.

Uma lastimável demonstração da incondicional submissão europeia perante o Leviatã norte-americano ocorreu no final da Cimeira da NATO, quando os líderes europeus (Macron, Scholz, Melloni…) desfilaram, numa vénia servil perante Biden, considerando o colapso das suas faculdades intelectuais, à vista do mundo, como um vulgar “deslize de palavras”…

Depois de este, sem rebuço, ter sido defenestrado da recandidatura, cresceram as vozes europeias encantadas com o génio invisível de Kamala Harris.

Se, ou quando, Trump voltar à Casa Branca, não faltarão os protestos solenes, individuais e coletivos de vassalagem europeia. Quem quiser perceber o futuro próximo da UE deve renunciar às ciências sociais. Socorra-se antes de Konrad Lorenz e Desmond Morris. A Etologia explica mais fundo do que a teoria política.

The show must go on

(Tiago Franco, in Facebook, 28/07/2024)

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Sou um grande fã de volte-faces nas lides políticas. Um dia estamos a lamentar o pior atentado da história e a ver como um velhinho debilitado ficou ainda mais irrelevante e, no dia seguinte, batemos palmas a uma renovada Kamala enquanto ela recebe uma chamada da Michelle “we got your back” Obama.

Na Europa fazem-se coisas destas e, até em Portugal, transformamos políticos falhados em senadores do comentário televisivo. Mas os americanos, na arte de dar espetáculo, não pedem lições a ninguém. Tudo é Hollywood.

Reparem na montanha russa de emoções. Primeiro Biden está perdido perante a humilhação do debate e o seu estado físico. Trump, com apenas 78 anos é um jovem enérgico. Aparece o tiro na orelha e aquela foto à Che Guevara. Trump, o mais escroque que alguma vez ocupou a Casa Branca, é elevado a revolucionário e resistente.

A corrida está perdida para os democratas. Trump está virtualmente eleito e aparece na convenção seguinte como um moderado. Alguém que quer unir a América. Eu ainda estou a processar como é que mais de 100 milhões de eleitores apreciavam aquele discurso de ódio do dia anterior e, agora, tento perceber como é que alguém acredita naquele espetáculo montado.

Trump joga golfe durante o dia sem penso, à noite coloca o penso e vai para a convenção. Há centenas de idiotas que lá vão também com um bandex na orelha, por “solidariedade” com o novo herói.

São doses cavalares de estupidez acompanhadas de luz e cor. O show nunca para. Há sempre um novo idiota para enrolar.

Biden desiste. Kamala assume o palco. Pela primeira vez na história uma mulher com 60 anos é uma jovem. Michelle liga-lhe em direto e diz que “ma girl” e “got your back”, com a câmara ligada e o telefone em alta voz. Calma, calma. Os democratas não vão apenas rebolar. Também querem dar show.

A Kamala usa o currículo de combate ao crime para se atirar a Trump. O orange man larga o discurso de união e volta à praia do ódio. Chama-lhe marxista. Trump não faz puto de ideia de quem foi Marx e metade dos que o ouvem muito menos. Metade? Bom…adiante.

O circo está montado e na Europa começam as manifestações de apoio nas eleições que de facto mexem com a nossa vida. Entre dois maus candidatos, como é normal, escolhemos o menos mau.

Ao contrário das eleições europeias, as americanas influenciam mesmo o futuro dos povos da Europa. Pelo menos enquanto as Ursulas andarem por lá.

Zelensky já percebeu que a coisa pode ficar mais difícil e abriu as discussões de paz. A Europa mais moderada quer Kamala que seguirá o business as usual de Biden (e isso implica muito dinheiro para o lobby das armas). Os chineses sabem que terão sanções com qualquer candidato mas, em princípio, seguirão no controle de tudo. Com paciência como é seu timbre e com muito pouco espetáculo, luzes e cor.

Trump é um ser abjeto que deveria estar preso. Kamala vai-me dar cabo da prestação da casa. Trump vai apoiar, ainda mais, o genocídio em Gaza. Kamala vai contribuir para a militarização da Europa.

O que eu queria, mesmo, era que as eleições nos US and A, como dizia o Borat, fossem para o ca*****. Mas para isso acontecer tinham os destinos da Europa que ter estadistas à altura e não moços de recados.

Não sendo possível, pois continuem lá com o arranca-rabo entre elites.

De uma maneira ou de outra, o povo precisa de entretenimento and the show must go on.


O jornalismo português e o Partido “Democrático” americano

(Por Maurício de Carvalho, in Facebook, 25/07/2024)

Símbolo do Partido Democrata dos EUA

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Não compreendo o fascínio dos jornalistas portugueses pelo partido “democrático” americano… Deduzem que sendo “democrático” é progressista, defensor da paz e dos direitos humanos, humanista…

Em termos internos não conhecem, por certo, as imagens dos milhares de cidadãos americanos arrastando a vida, sob o efeito dos narcóticos mais perigosos, pelas ruas das mais importantes cidades americanas… milhares de cidadãos sem qualquer nível de apoio, humano, social, de saúde… nada de nada como dejetos humanos condenados á morte.

Internacionalmente o ícone máximo da governança democrática foi Obama (…até por ser preto…) que esqueceu rápido as suas origens africanas e tradições culturais para declarar guerra ou invadir sete países, em seis anos, onde largou centenas de milhares de toneladas de bombas, fazendo milhões de mortos… O seu vice-presidente era Biden que, uma vez a na Casa Branca, abandonou o Afeganistão, deixando à mercê dos talibans os seus próprios aliados, defendidos por um exército que sabia não existir, ou só existir no papel, mas a quem vendeu um verdadeiro arsenal de armas e munições… Notável.

Depois declarou guerra á Rússia, por país interposto, a Ucrânia, que em segredo armou durante anos, o que não evitou centenas de milhares de mortos e o êxodo de cerca de metade da população do país.

Segundo momento da governança “progressista” de Biden foi acreditar que os serviços secretos mais eficazes do mundo, os israelitas, foram apanhados desprevenidos e foram surpreendidos por um ataque do Hamas à fronteira de Israel em que terão morrido um milhar de cidadãos judeus.

Uma ótima oportunidade para o governo de Biden patrocinar a maior catástrofe humanitária do nosso século… a destruição de toda a estrutura urbana e de todas as infraestruturas, estradas, praças, ruas, escolas, liceus, universidades, hospitais de um território palestiniano, uma urbe de mais de dois milhões de habitantes, que foi completamente arrasada, mais de 88.000 prédios destruídos à bomba e ao míssil, mais de 186.000 mortos, a maioria soterrada sob os escombros dos prédios destruídos, mais de 38.000 mortos identificados, vítimas dos ataques do exército sionista, entre os quais mais de 16.000 crianças, 9.000 mulheres, com outros milhares de mortos por doença, falta de ajuda sanitária e medicamentosa, pela fome, doenças infeciosas ou desespero por andarem a ser escorraçados de uma ponta para a outra de um espaço urbano completamente arrasado… armas e munições fornecidas pelos americanos que incentivam, pelo seu apoio político e militar, o genocídio do povo palestiniano.

Um governo “democrático”, portanto, “progressista”, “humanista”, “defensor dos direitos humanos” que os jornalistas portugueses tanto admiram…

Já Trump o candidato republicano, líder de um partido de direita, reacionário, racista, xenófobo, não declarou guerra a qualquer país do mundo, foi o primeiro presidente americano a não o fazer em cem anos, promoveu sete tratados de paz, quis tornar a “América de novo grande”, virando-a para o seu próprio espaço, promovendo a agricultura e outras atividade primárias, a industrialização do pais, a produção interna de bens e serviços essenciais… Tudo isto sem entrar em guerra, direta ou indiretamente, com qualquer estado estrangeiro, sem promover qualquer ataque militar, sem provocar qualquer conflito… enfim, um deprimente “reacionário”.

Se a Sra. Vice-presidente chegar ao poder, se é europeu e jovem, prepare-se para ir para a guerra, senão deserte, emigre para um dos destinos onde o não possam incomodar. Boa sorte.