O verdadeiro escândalo Russiagate supera o Watergate em termos de crimes e traição por parte do establishment norte-americano.

(Editorial in Strategic Culture Foundation, 01/08/2025, trad. Estátua de Sal)


Revelar adequadamente o escândalo que resulta do Russiagate destruiria os alicerces do establishment político dos EUA.


Então, a farsa é finalmente reconhecida oficialmente. O “Russiagate” – a narrativa dominante, na verdade – é agora descrito pelos chefes da inteligência americanos como uma invenção criada para anular os resultados das eleições presidenciais de 2016.

Tulsi Gabbard, atual Diretora de Inteligência Nacional (DNI), e o diretor da CIA, John Ratcliffe, acusaram o ex-presidente Barack Obama de se envolver numa “conspiração traiçoeira” para subverter o processo constitucional. Não é apenas Obama que está implicado neste crime hediondo. Outros ex-altos funcionários do seu governo (2013-2017), incluindo o ex-DNI James Clapper, o diretor da CIA John Brennan e o chefe do FBI James Comey, também estão implicados. Se a justiça for permitida, as repercussões políticas serão verdadeiramente devastadoras.

O impacto potencial não se limita apenas à violação das leis americanas e do processo democrático – isso, só por si, já é bastante grave. O escândalo Russiagate, que começou em 2016, teve um efeito duradouro e prejudicial nas relações dos EUA e da Europa com a Rússia. A assustadora e perigosa guerra por procuração da NATO, iniciada na Ucrânia, que ameaça transformar-se numa guerra mundial em larga escala, foi alimentada em grande parte pela hostilidade gerada pelas falsas alegações de interferência russa nas eleições americanas.

As alegações de que o presidente russo Vladimir Putin supervisionou uma campanha de subversão contra as eleições americanas de 2016 e conspirou com Donald Trump para o eleger foram sempre especiosas. O escândalo baseou-se em alegações de inteligência de má qualidade para supostamente explicar como Trump derrotou a sua rival democrata, Hillary Clinton. Posteriormente, o escândalo foi transformado numa narrativa, aparentemente credível, pelos chefes de inteligência dos EUA, sob a orientação do então presidente Barack Obama, como forma de deslegitimar o primeiro mandato presidencial de Trump.

Anos antes das recentes revelações de inteligência, muitos jornalistas independentes, incluindo Aaron Maté , e ex-analistas de inteligência como Ray MacGovern e William Binney, refutaram convincentemente as alegações oficiais do Russiagate. Essas alegações não eram apenas falsas, mas também conscientemente falsas. Ou seja, mentiras e distorções deliberadas. A Rússia não invadiu emails pertencentes ao Comitê Nacional Democrata para desacreditar Clinton. A corrupção de Clinton foi exposta por um vazamento interno do Comitê Nacional Democrata para o site de denúncias Wikileaks, de Julian Assange. Foi em parte por isso que Assange foi perseguido e mantido durante anos na prisão.

Um número suficientemente grande de eleitores simplesmente desprezava Clinton e a sua psicopatia belicista, assim como a sua traição à classe trabalhadora americana em troca da generosidade de Wall Street.

Além disso, Moscovo negou consistentemente qualquer envolvimento em tentativas de influenciar as eleições americanas de 2016 ou em tentativas de favorecer Trump. Putin afirmou mais de uma vez que a Rússia não tem preferência sobre quem se torna Presidente dos EUA, insinuando que são todos iguais e controlados por forças estatais mais profundas. Ridiculamente, também, enquanto Washington acusa Moscovo de interferência eleitoral, o histórico real mostra que os Estados Unidos têm interferido habitualmente em dezenas de eleições no estrangeiro ao longo de muitas décadas, incluindo as da Rússia. Nenhuma outra nação se aproxima dos EUA – o autoproclamado “líder do mundo livre” – na sabotagem de eleições estrangeiras.

De qualquer forma, é instrutivo comparar a farsa do Russiagate com o escândalo de Watergate. Watergate envolveu a espionagem do presidente Richard Nixon contra um rival democrata na eleição de 1972. A crise política que se seguiu levou à renúncia de Nixon em desgraça em 1974. A nação americana ficou chocada com os golpes sujos. Vários altos funcionários da Casa Branca foram posteriormente condenados e cumpriram pena de prisão por crimes relacionados com o caso. Nixon foi posteriormente perdoado pelo seu sucessor, Gerald Ford, e evitou o processo. No entanto, o caso Watergate desonrou indelevelmente a política americana e, na época, foi descrito como “o pior escândalo político do século XX”.

Casos subsequentes de corrupção e má conduta são frequentemente apelidados com o sufixo “gate”, em alusão ao caso Watergate, como dando origem a uma queda política significativa. Daí o nome “Russiagate”.

No entanto, existem diferenças extremamente importantes. Enquanto Watergate foi um escândalo baseado em crimes e irregularidades factuais, Russiagate sempre foi uma farsa de propaganda enganosa. O verdadeiro escândalo por trás do Russiagate não foram os supostos delitos de Trump ou da Rússia, mas a conspiração criminosa de Obama e do seu governo para sabotar a eleição de 2016 e, posteriormente, derrubar a presidência de Trump e a vontade democrática do povo americano. Tulsi Gabbard, a chefe de inteligência mais graduada do país, afirmou que isso equivale a “traição” e pediu o julgamento de Obama e den outros seus ex-assessores.

Pode-se argumentar que o verdadeiro escândalo Russiagate é muito mais criminoso e devastador nas suas implicações políticas do que Watergate. Este último envolveu espionagem ilegal e truques sujos. Já o Russiagate envolveu um Presidente e os seus chefes de inteligência tentando subverter todo o processo democrático. Além disso, os grandes média americanos também estão a ser expostos por perpetrarem um roubo de propaganda contra o público americano. Todos os principais veículos da comunicação social americana amplificaram a inteligência politizada e orquestrada pelo governo Obama, alegando que a Rússia interferiu na eleição e que Trump era um “fantoche do Kremlin”. A farsa tornou-se uma obsessão nos média americanos durante anos e fez acumular graves danos nas relações internacionais, um legado nefasto com o qual convivemos hoje.

O New York Times e o Washington Post, considerados dois dos maiores expoentes do jornalismo americano, ganharam conjuntamente o Prêmio Pulitzer em 2018 pelas suas reportagens sobre o Russiagate, a versão oficial, ou seja, a que deu credibilidade à farsa. À luz do que sabemos agora, esses jornais deveriam estar envergonhados por conduzirem uma campanha de “Grande Mentira” à la Goebbels, não apenas para enganar o público americano, mas também para subverter o processo democrático e envenenar as relações internacionais. As suas reputações estão destruídas, assim como as de outros grandes veículos de comunicação, incluindo ABC, CBS, CNN e NBC.

Ironicamente, o The Washington Post ganhou o Prêmio Pulitzer em 1973 pela sua reportagem sobre o escândalo de Watergate. A história virou um best-seller, “Todos os Homens do Presidente”, e um filme de sucesso de Hollywood estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman, interpretando os papéis dos intrépidos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein. Woodward, Bernstein e o The Washington Post foram aclamados como os melhores do jornalismo americano por exporem Watergate e levarem um Presidente corrupto à justiça.

Quão vergonhoso e absurdo é que um ataque ainda maior à democracia americana e às relações internacionais, na forma do Russiagate, seja ignorado e enterrado pelos “melhores da América”.

Que o escândalo seja ignorado e enterrado não deveria ser surpresa, pois revelá-lo adequadamente destruiria os alicerces do establishment político americano e o papel sinistro do Estado Profundo e do seu sistema de propaganda na comunicação social, mormente nos seus órgãos mais proeminentes.

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Debate Trump-Harris: Circo da Idiocracia Estadunidense

(Raphael Machado in Twitter 11/09/2024)


(Em Portugal, se se votasse para as eleições americanas, a Kamala ganhava com maior percentagem do que aquela que o Kim Jong-il consegue na Coreia do Norte. Para os “comentadeiros” a Kamala é uma espécie de Super Moça dos heróis da Marvel. E o Trump? Bom, o Trump é um deslavado da língua que perdeu o debate a milhas. E quem diz que ele perdeu? Ora, as sondagens é que o dizem. Uma sondagem apresentada ontem na TVI, e cujos resultados se podem ver na imagem acima, dava só 37% ao Trump e, pasme-se, 73% à Kamala! Ou seja, a soma dá 110% devido ao desempenho magistral da Kamala no debate… É obra.

Não julguem que a Estátua criou a imagem acima recorrendo à IA. Não. O Jornal da Noite da TVI, emitiu mesmo esta imagem e a Sandra Felgueiras deu, em concomitância, os 73% à Kamala.

Estátua de Sal, 12/09/2024)


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Do ponto de vista do entretenimento, o primeiro debate entre Donald Trump e Kamala Harris foi bem menos divertido do que o debate entre Trump e Biden. E eu comecei comentando sobre o valor “cômico” do debate porque esse é o único proveito que se pode tirar desse tipo de circo político-eleitoral.

Como temos apontado há muito tempo, debates não servem para absolutamente nada. São apenas arenas em que se tenta decidir quem é o melhor sofista. E os debates usualmente fracassam inclusive nisso, porque a tendência é sempre que os apoiadores de cada lado saiam cantando vitória.

De resto, em primeiro lugar, Trump não estava debatendo apenas com Kamala Harris. Não foi um debate entre duas pessoas. Foi um debate entre Trump, de um lado, e Harris e os apresentadores do outro. A cada tópico, os apresentadores interrompiam para contra-argumentar contra Trump, o que é um tanto ridículo e demonstra com clareza que as empresas de mídia não são meros “espaços informacionais”, tendo interesses políticos específicos nas eleições.

O conteúdo do debate propriamente dito foi medíocre. Ambos são palhaços de circo, de pouca amplitude intelectual e de péssima articulação discursiva. A classe política estadunidense só é comparável à brasileira em sua tosquice.

Por uma parte, ambos ficaram se acusando mutuamente de não servirem Israel o suficiente, demonstrando uma vez mais que a prioridade da elite estadunidense é Israel, e não o próprio povo. Foi quase na mesma linha o tema ucraniano, com Harris acusando Trump de ser putinista, e Trump acusando Harris de ser apoiada por Putin.

A única diferença aí é que Harris diz que se Trump estivesse na presidência Putin estaria já em Kiev, enquanto Trump acusa Harris de não estar interessada na paz. De fato, Harris deixou claro que ela considera a defesa da Ucrânia vital para os interesses dos EUA na Europa. Mas não se deve acreditar na noção de que sob Trump o conflito ucraniano acabaria rapidamente. Trump não cessaria as remessas de uma hora para a outra e tentaria fazer “jogo duro” diplomático com Putin pra mostrar que é um “bom negociador”.

A realidade é que mesmo que Trump reduza o nível de engajamento dos EUA na Ucrânia, as elites europeias tentarão compensar isso de outras formas, o que inclusive pode acelerar a escalada.

Outros tópicos estiveram permeados por previsibilidade. Trump mencionou o caso da inundação repentina de imigrantes haitianos em Springfield, Ohio, mencionando os boatos de que os imigrantes estariam comendo animais de estimação. Harris não tem nenhuma postura clara em relação à imigração, exceto de que ela é “boa”, se for “legal”. Quanto a Trump, ele esteve 4 anos no poder, mas não fez nada de significativo contra a imigração, então a sua abordagem desses temas não passa de populismo eleitoral.

Trump, aliás, enfatizou que no seu governo ele pretende erguer barreiras protecionistas contra bens importados. Isso é interessante porque significa que sob Trump, o “desacoplamento” econômico tende a acelerar. Ele também parece querer impor barreiras alfandegárias a países que se desdolarizem, o que também é ótimo. Quanto a Harris, não há nenhum projeto claro e específico exceto dar continuidade à “Bidenomics”, que fracassou (e fracassou inclusive por causa da péssima política externa).

O resto foram acusações mútuas bastante toscas e sem sentido.

A guerra na Ucrânia e as eleições nos Estados Unidos

(Por Nota Piccole, In observatoriocrisis.com, 30/08/2024, Trad. Estátua de Sal)


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A Terceira Guerra Mundial, a acontecer, “não se limitará à Europa”. Foi o que disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov. Um aviso cheio de significado porque, nos últimos dois anos, todos os analistas e políticos norte-americanos, ao falarem do risco de um confronto em grande escala entre a NATO e a Rússia (tanto para alarmar como para negar essa possibilidade), referiram-se sempre a uma guerra limitada ao Velho Continente.

Depois da Ucrânia

A crença nessa circunscrição geográfica do conflito, por parte dos americanos, tornou o seu apoio a Kiev cada vez mais descarado, forçando-os a aumentar progressivamente as apostas e a superar as linhas vermelhas indicadas por Moscovo no início do conflito, a última das quais é a inviolabilidade do território da Rússia.

Na verdade, um conflito em grande escala no Velho Continente poderia ser um preço que os Estados Unidos estariam dispostos a pagar para vencer o conflito em curso, uma vez que a perda dos aliados europeus, que seriam incinerados, seria compensada por uma destruição paralela da Rússia, restaurando-se assim a sua supremacia global: isolada e sem a força militar russa, a China seria forçada a capitular num curto espaço de tempo.

Por outro lado, tratar-se-ia apenas de estender a lógica do conflito em curso à escala continental. Foi atribuído à Ucrânia o papel de vítima sacrificial, lançando-a contra a Rússia numa guerra “até ao último ucraniano” (Strana relata que “homens entre os 17 e os 25 anos serão automaticamente forçados ao serviço militar”: não são alistados à força, pelo menos por enquanto, mas deverão servir como voluntários e não receberão passaporte…). A liderança ocidental poderia transferir esta lógica sacrificial para toda a Europa. Os seus líderes (ver as declarações de Borrell) não hesitariam em levar-nos ao desastre se tivessem o seu futuro assegurado por Washington.

Assim, a advertência de Lavrov, em vez de elevar o tom do confronto verbal que acompanha o campo de batalha, poderia servir para trazer os líderes americanos à razão, embora seja difícil ter esperança nesse ponto, uma vez que o Império é agora dominado por uma classe dominante que prospera com as guerras.

Guerra e partidos políticos americanos

Sobre este ponto, há um artigo interessante do ex-senador norte-americano Ron Paul, segundo o qual os dois partidos no poder competem “no seu apoio ao estado de guerra. Ambos têm políticas que levam à pobreza e à guerra, em vez de promoverem a paz e a prosperidade.”

“A julgar pelo seu discurso”, diz Ron Paul, “podemos assumir que a candidata Kamala Harris será uma apoiante entusiástica da guerra na Ucrânia e de outras aventuras militares dos neoconservadores. E como Trump diz que reabrirá as negociações com o presidente Putin, e acabará com a guerra assim que for eleito presidente, isso justifica o apoio de Kennedy Jr. à sua campanha.”

Ron Paul descarta, acertadamente, as palavras de Harris sobre os seus esforços de paz israelistas-palestinianos, considerando-as como um absurdo de propaganda, mas também nos lembra que Trump, como presidente, trouxe para a sua administração pessoas como John Bolton e Mike Pompeo, porta-estandartes de políticas neoconservadoras beligerantes. 

“Há sempre a possibilidade de que estes erros se repitam – conclui Ron Paul – e nem Trump nem Kennedy Jr. parecem ser fiáveis quando se trata de favorecer o fim do massacre em Gaza. Por isso, as suas declarações não podem ser entendidas como um bilhete certo para a paz, mas pelo menos temos a sensação de que a paz está na ementa dos dois personagens.”

Os Neocons apoiam Harris

O que confirma o espírito belicista de Kamala Harris é o facto de os neoconservadores republicanos terem ficado do lado dela. Assim, o Washington Post afirma: “Mais de 200 colaboradores de Bush, McCain e Romney apoiam Harris”.

Mas Trump também deve ter cuidado com os neoconservadores que aparentemente permanecem atrás dele. Importante neste ponto é uma publicação sobre uma modificação da proibição federal do aborto […] . Ao propor esta mudança, Donald Trump sabe que mobilizaria os jovens eleitores democratas e perderia o apoio entre os conservadores: “Não podemos cometer o mesmo erro em 2024”, disse ele.

Há muita coisa em jogo nas eleições presidenciais dos EUA. Não é só o destino do Império que está em jogo, mas também a sua projeção no mundo. O America First de Trump , que propõe o neo-isolacionismo, contrasta com o outro America First, encarnado pelo seu concorrente virtual (porque Harris é apenas uma concha vazia), o do unipolarismo devastador.

Além disso, há que considerar que, se Biden encarnou uma presidência assertiva, anunciando na sua estreia “A América está de volta”, também é verdade que fez parte de um establishment que se mantém em contacto residual com a realidade, como ficou demonstrado com a guerra na Ucrânia.

Harris, dissemos, é uma concha vazia, um fantoche que responde inteiramente ao partido da guerra, que tem o seu terminal político no Partido Democrata de Hillary Clinton, que agora regressou fortemente ao primeiro plano.

É significativo que, pelo contrário, Tulsi Gabbard, que encarnou a alma mais pacifista do Partido Democrata, muitas vezes indevidamente associada à equipa de Bernie Sanders , apoie Trump.

A ofensiva neonazi em Kursk

Em relação à guerra na Ucrânia, há pouco a dizer além do que já foi escrito: a ofensiva em Kursk foi parada, tal como em Belgorod, e o avanço russo em Donbass está a acontecer mais rápido do que antes do ataque ucraniano ao território russo.

Um roteiro conhecido pela história é repetido. É o que diz Alastair Crooke : “’Kursk’ tem uma história. Em 1943, a Alemanha invadiu a Rússia na região de Kursk para desviar a atenção das suas próprias perdas, e acabou sendo derrotada na famosa Batalha de Kursk (23 de agosto de 1943 ). O regresso das forças militares alemãs às proximidades de Kursk deve ter deixado muitos sem palavras; O atual campo de batalha em torno da cidade de Sudzha é exatamente onde, em 1943, os 38º e 40º Exércitos soviéticos se prepararam para uma contra-ofensiva contra o 4º Exército alemão.”

. Fonte aqui.