Fahrenheit 2,8

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 19/05/2017)

2.8

Fahrenheit 451 é um romance de Ray Bradbury. O livro conta a história de um futuro onde todos os livros são proibidos, as opiniões próprias são consideradas anti-sociais e o pensamento crítico é suprimido. No fundo, o sonho húmido de Aníbal Cavaco Silva.

O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) a que queima o papel, o equivalente a 233 graus Celsius. O que se passou neste trimestre é uma espécie de Fahrenheit 2,8 de tudo o que foi escrito sobre a “geringonça” e o futuro do país após a construção desta alternativa à PAF. 2,8 de crescimento é a temperatura a que ardem as calças do José Gomes Ferreira (ao menos a maquilhadora do Zé Gomes Ferreira é de esquerda). É penoso ver a cara de quem anunciava um segundo resgate ter de pegar no dois, e acrescentar-lhe uma vírgula e um oito, e falar de aumento do PIB. Nunca vi tanta gente encolhida a falar de crescimento.

Se o livro de Bradbury fala do futuro, aqui convém recordar o passado. Se recordarmos as capas dos jornais, na altura do acordo de esquerdas, o que lemos é “Perante a possibilidade de um governo de esquerda Mercados estão nervosos e acreditam num segundo resgate.” “UE não vai aceitar orçamento do governo do PS.” “Investidores receiam apostar em Portugal com governo de esquerda.” Podíamos fazer um World Press Photo com as capas dos jornais de tragédias que foram previstas para o nosso país. Claro que isto seria o fim de uma cartomante mas nunca o fim dos especialistas em economia, que nem chega a ser uma ciência.

É nestes momentos que tenho pena que não exista uma bwin para estes apostadores do TINA. Estes Bisavós do Restelo. Passos teria perdido o apartamento em Massamá depois de ter apostado tudo na vinda do Diabo e sair-lhe o Papa. Os profetas do “aumento do salário mínimo vai causar desemprego” eram os únicos que tinham ficado desempregados.

Não tenho nada contra o Medina Carreira, excepto ter partilhado o mesmo programa com o Crato, mas se calhar já o mudava de área. Fica triste não acertar uma. Na minha ideia, o Medina Carreira substituía o Ljubomir Stanisic no “Pesadelo na Cozinha”. Ou faziam um pesadelo na contabilidade do restaurante e ele entrava ali e destratava o contabilista e anunciava a falência para semana .

Durante anos foi-nos dito, diariamente, que não havia alternativa. Nem valia a pena tentar. Só o facto de falar nisso estragava o pouco que já tínhamos. Éramos uma Natascha Kampusch na cave de um Wolfgang qualquer. Chamaram-nos piegas e agora temos a mesma gente a chorar porque crescemos 2,8.

Ver o PSD a dizer que se o país cresceu 2,8 no primeiro trimestre de 2017 é graças ao seu governo, é como ver um indivíduo a queixar-se que ele é que tomou os comprimidos para o “enlarge your penis” mas o outro é que tem o pénis maior. Ou um marinheiro que está no alto mar há um ano e meio, e que nem enviou o ordenado para casa, achar que a mulher está grávida e o filho é dele.


TOP 5

2,8

1. Autárquicas: Cristas vai em 128 iniciativas. Leal Coelho vai em zero – estou preocupado com a Teresa Leal Coelho. Terá ido passar um fim-de semana na Praia da Luz?
2. Turistas levantaram 150 euros por minuto em Fátima – A Joana Vasconcelos, em vez de um terço, devia ter feito um multibanco gigante.
3. Portugal volta a emitir dívida de curto prazo com novo mínimo de juros – olha, isto para quem ganhou o Eurofestival da Canção, pfff.
4. Brasil: Temer foi gravado a dar aval para subornar Eduardo Cunha – aposto que não foi pela Globo.
5. Assunção Cristas diz que usa “botas e calças de gangas para ir a bairros sociais”    – e faz rastas.

Say cheeeeeeeesee…..

(In Blog Um Jeito Manso, 17/05/2017)

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Não, meus Caros. Não vos estou a pedir para rirem comigo das cambalhotas, do flic-flac à rectaguarda, do mortal encarpado, do pino num dedo e do pé-cochinho do José Gomes Ferreira, há pouco na SIC, a dizer bem do António Costa e das políticas que tem seguido. Nem estou a pedir para se posicionarem para uma selfie com cara de riso ao verem o dito-cujo José Gomes Ferreira a querer salvar a face e a dizer devagarinho que parte dos bons resultados que ao fim de um ano e tal o governo do Costa está a alcançar se deve às políticas do láparo (relembro: o mesmo láparo que fez tudo ao contrário disto, nunca atingiu nenhum objectivo e, por pouco, não deu cabo do país de alto a baixo).


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70 mil milhões de migalhazinhas

(Por Francisco Louçã, in Público, 02/05/2017)

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Francisco Louçã

Relatório sobre a Sustentabilidades das Dívidas Externa e Pública, já aqui discutido por Ricardo Cabral, um dos autores, e por Bagão Félix, um dos signatários do Manifesto dos 74, tem três grandes novidades.

A primeira é que o PS e o BE, com alguns dos mais destacados economistas portugueses, apresentaram um conjunto de propostas concretas e bem estudadas. É importante e mostra que há caminho, se se trabalhar porfiadamente e com critérios rigorosos.

A segunda é que concluem que as imposições do Tratado Orçamental conduzem a uma política que “dificilmente é sustentável, económica, social e politicamente, a médio e longo prazo” (p.9), exigindo resultados que nunca algum outro país europeu conseguiu (p.62) e que “não é credível assumir” que sejam alcançados (p.63). Isso tem enormes consequências, ao afirmar-se que gigantes saldos primários exigem uma austeridade destruidora.

A terceira é que, pela primeira vez na sua história, o PS se compromete com uma proposta de reestruturação da dívida. Nunca o tinha feito. É uma viragem histórica assinalável: já não são pessoas individuais que subscrevem modelos de reestruturação, já não se fica por um mero pedido de solução europeia, o PS compromete-se aqui com um modelo concreto de uma reestruturação que implicaria um corte de mais de 70 mil milhões de euros na dívida directa do Estado, ou 39% do PIB.

Estes 70 mil milhões não são a proposta de sempre do PS (onde é que já tinham visto isto?) nem muito menos são “micro soluções”, ou uma “migalha” que “sempre é pão”, como ligeiramente disse um dirigente político (70 mil milhões é uma migalha no prato de quem?). É simplesmente a proposta mais forte que já foi feita sobre a reestruturação da dívida, pelo facto único de ter um compromisso maioritário como jamais alguma proposta tinha obtido – agora, o PS e o seu governo ficam comprometidos com uma negociação concreta que devem conduzir com as autoridades europeias.

Acho entusiasmante que os comentadores de direita desprezem a proposta, afirmando que só se trata de uma negociação europeia. Só? Dizem então que acham pouco. Pouco? Mais satisfeito fico por caírem na sua própria esparrela: precisamente por ser uma negociação europeia com objectivos quantificados, ficamos todos em condições de exigir conclusões dessas negociações. Se elas resultarem, temos um grande primeiro passo na reestruturação da dívida, os tais mais de 70 mil milhões. Se falharem ou inexistirem, alguma coisa se concluirá sobre o campo de possibilidades na União. A prova do pudim é comê-lo, diz um ditado inglês que talvez a direita ganhasse em ficar a conhecer.

Por outro lado, Passos Coelho faz um favor aos proponentes ao só bradar contra a melhoria dos dividendos a pagar pelo Banco de Portugal. Como ele bem sabe, está a tentar evitar uma decisão que o Banco já tomou, que aliás é natural: os resultados do Banco são lucros com a dívida pública, devolvê-los a Portugal é o que deve fazer. Como o Banco não tem riscos de crédito (não empresta a empresas e famílias), os seus futuros aumentos de capital devem ser moderados e não devem criar especulação contra a República. Mas Passos prefere correr em frente, como sempre, mesmo sabendo que perdeu neste terreno e que assim facilita a expressão da proposta de reestruturação: ele discute uns poucos milhões de provisões para ignorar muitos milhares de milhões de corte na dívida.

Quanto ao resto, a reestruturação da dívida é tão inevitável como a chegada do Verão: o FMI já não diz outra coisa no caso dos estados endividados, e em Portugal é moeda corrente (reestruturação da dívida dos bancos ao fundo de resolução; ou programas especiais como o PERES para reestruturar dívidas de empresas e pessoas). O que falta é mesmo que a União Europeia seja confrontada com uma posição consistente, com uma negociação séria e com quem seja capaz de tomar uma posição forte sobre os resultados do fracassou ou sucesso dessa negociação.

NB- Quando Teresa de Sousa e Marques Mendes resolveram espampanantemente acusar a esquerda de recusar uma pretensa homenagem a Mário Soares, sabem que é um truquezinho. A sessão do 25 de Abril no parlamento não era uma homenagem a Soares; essa homenagem solene já tivera lugar, com a participação de todos. Talvez Sousa e Mendes se lembrem mesmo que Soares, nas suas duas últimas décadas pelo menos, esteve certamente mais próximo dessa esquerda do que dos dois autores da intriguinha.