As contas públicas sofrem da síndrome de Estocolmo?

(Ricardo Cabral, in Público, 31/05/2017)

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O“bom” desempenho das contas públicas e da economia nacional ganhou finalmente protagonismo internacional: a Comissão Europeia recomendou a saída do procedimento por défices excessivos; Schäuble, Draghi e Moscovici deram destaque ao tema; vários meios de comunicação social internacionais procuram “descobrir” o segredo do governo português.

Em paralelo, diversos responsáveis do governo têm dado indicações sobre as suas perspectivas, algo diferentes, para a estratégia orçamental do governo no curto/médio prazo. De salientar as entrevistas do primeiro ministro ao jornal alemão Handelsblatt, do ministro das finanças à RTP3 e do ministro do planeamento e das infra-estruturas à Rádio Renascença e ao Público.

O Handelblatt deu títulos diferentes à entrevista a António Costa: na versão em inglês “ignorar a Alemanha deu certo”; na versão em alemão, “encontramos um caminho melhor”. Essa mensagem chave da entrevista do primeiro ministro foi bem conseguida e importante. Fica implícito que a estratégia de austeridade da zona euro, preconizada principalmente pelo ministro das finanças da Alemanha, era errada e que há alternativas melhores. Que repor rendimentos contribui para o crescimento do investimento e para o crescimento económico.

Todavia essa mensagem parece estar em contradição com as mensagens das entrevistas tanto do ministro das finanças, como do ministro do planeamento e das infra-estruturas. Para estes,  os objectivos fundamentais da estratégia orçamental do governo seriam: a subida do rating da República e a redução da dívida pública. Defendem que eventuais folgas orçamentais devem ser utilizadas para reduzir a dívida: de acordo com Mário Centeno, em 10 anos, nas condições actuais, seria possível reduzir a dívida pública para 100% do PIB.

A mensagem de Mário Centeno e Pedro Marques tem muitos apoiantes, alguns dos quais defendem que não existe outro caminho possível – a nossa conhecida tese TINA[1].

É, aparentemente, uma mensagem prudente: o governo não se deixaria ficar eufórico pelos bons resultados orçamentais, porque pretenderia que os desequilíbrios e o procedimento por défices excessivos nunca mais regressassem, o que passaria por continuar a conter a despesa e reduzir o défice.

Mas, por paradoxal que possa parecer, essa é uma mensagem populista, porque se utiliza uma característica que é valorizada pela maior parte das pessoas – a prudência –, para justificar uma política económica, conservadora, de austeridade, que vai muito além dos objectivos traçados inicialmente.

Afigura-se que o governo está a mudar de estratégia económica, ao arrepio do seu programa eleitoral (mesmo antes dos acordos com os partidos à sua esquerda). Parece-se mais com a estratégia de consolidação orçamental do anterior governo, e pode mesmo ir além desta se a execução for melhor do que o governo estima, como se pode constatar no quadro abaixo. A diferença significativa em relação à política do governo anterior, reconheça-se, é a aposta que continua a ser feita na reposição dos rendimentos dos portugueses, sobretudo, dos segmentos da população com menores rendimentos.

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Fonte: Programa de Estabilidade 2015-2019Programa do XXI Governo Constitucional, Programa de Estabilidade 2015-2019 e estimativa do autor.

Abandonar a estratégia económica que tão bons resultados trouxe em 2016 – estratégia, na altura, muito criticada, interna e sobretudo externamente, em particular, pela Comissão Europeia (CE), membros do Eurogrupo e agências de rating – não é uma boa opção, porque:

Primeiro, depois da pressão de Bruxelas sobre o primeiro orçamento apresentado para 2016, o governo cedeu, comprometendo-se com um défice de 2,2% do PIB para 2016, abaixo dos 2,8% do PIB previstos no programa de governo do PS. Contudo, o acordo foi que a Comissão Europeia aceitaria um défice até 2,5% do PIB. A execução de 2016 correu melhor do que esperado, por um lado, devido ao desempenho da economia mas, por outro lado, devido a prudência excessiva nas estimativas de receitas/despesas por parte do governo, porque o défice final foi de 2% do PIB.

Em 2017, se o crescimento económico se mantiver às taxas observadas no primeiro trimestre, estimo que o saldo orçamental será positivo, próximo de 0% do PIB, muito melhor do que estimado pelo governo (défice de 1,5% do PIB). Ora é um erro não somente elaborar orçamentos com previsões excessivamente optimistas, como elaborar orçamentos com previsões excessivamente prudentes. Compete ao governo realizar previsões tão realistas quanto possível, para que possa planear a utilização dos recursos financeiros ao seu dispor, da forma mais eficaz, em benefício da economia e dos cidadãos.

Segundo, governo, IGCP e várias outras entidades públicas nacionais parecem padecer da síndrome de Estocolmo. Parecem identificar-se mais com os credores e agências de rating (e outras autoridades europeias), procurando “satisfazer os seus desejos e mantê-los contentes”, do que com a sua condição de agentes de um Estado soberano devedor. Parece ainda contraproducente, e até um pouco humilhante, todo o “jawboning” de governantes nacionais, e não só, a solicitar uma subida de rating ainda este ano.

É necessário ter presente que é missão do governo garantir o desenvolvimento sustentado do país e a melhoria das condições de vida dos portugueses. Por isso, se espera que o governo não se transforme no adepto mais recente da tese da disciplina orçamental virtuosa, no preciso momento em que essa tese cai em descrédito internacionalmente.

Bardamerda para o mérito

(In Blog O Jumento, 25/05/2017)
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Tanto António Costa como Marcelo Rebelo de Sousa decidiram considerar que a saída do procedimento dos défices excessivos foi mérito de todos os portugueses, de caminho Marcelo terá telefonado ao primeiro-ministro para o felicitar, tendo ainda feito o elogio público do ex-primeiro-ministro. Pelo ambiente de festa e de parabéns fiquei com a sensação de Portugal tinha feito anos e até haveria bolo de aniversário e o competente espumante produzido segundo o método champanhês.
Mérito de quê?
Tanto quanto me recordo nunca fui voluntário de qualquer esforço coletivo, muitos portugueses e principalmente os que votaram no PSD foram enganados com falsas promessas eleitorais, muitos dos que votaram PS não esperariam pelo espetáculo triste proporcionado por Seguro. Muitos dos que votaram no PSD e ficaram com cortes nos vencimentos e nas pensões confiaram em quem lhes garantiu que não o faria.
Mérito por ter sido enganado, mérito por ter ficado com um corte de rendimentos de quase 30%, depois de somadas todas as artimanhas inventadas pelo governo de Passos e Portas para empobrecer os portugueses e, principalmente, os funcionários públicos e reformados? Mérito por ver os filhos partir para os quatro cantos do mundo? Mérito por ter um salário mínimo congelado ao mesmo tempo que se aumentava o IVA nos bens essenciais e na energia? Mérito por se morrer à espera de ser atendido numa urgência?
Há uma grande diferença entre o líder de uma claque ou um treinador de futebol e um primeiro-ministro ou um ministro das Finanças. O que sucedeu em Portugal foi muito mais do que um esforço coletivo, foi uma tentativa desastrada de promover uma brutal transferência de rendimentos, aumentando a injustiça social, com o objetivo de resolver a falta de capital de uns à custa da subsistência de outros.
Da parte que me toca não tive qualquer mérito sem ver aumentado o horário de trabalho sem qualquer compensação, de ter ficado sem feriados sem ser remunerado por isso, por ter perdido direito a férias só para que Passos me exibisse ao ministro das Finanças da Alemanha. Não sinto que tenha tido mérito quando fui exibido como uma “despesa pública”, quando fui acusado de ganhar mais do que os outros, quando fui acusado de, enquanto funcionário público ou reformado, de ser o culpado dos males do país.
O país não é um imenso grupo de cheerleaders (como as da foto) a quem o chefe vem agradecer o belo desempenho no fim do jogo. Há os que partilhavam a mesa e os negócios com o Ricardo Salgado e os que foram enganados pelos BES, os que aguentaram a austeridade e os que diziam que os outros aguentavam, aguentavam, os que passaram fome e os que compraram carros de luxo cujas vendas aumentaram.

O CRESCIMENTO do PEDRO

(Joaquim Vassalo Abreu, 24/05/2017)

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Do Pedro, sim, mas do outro que não o meu Neto. É que o meu Neto é Vassalo e o de quem vou falar é Coelho!

Como sabem, eu já há uns quinze dias que, por motivos de ordem superior, ando literalmente afastado das notícias e do mundo e só agora, devagarinho, vou retomando a sequência de vida que se aproxime da realidade. E vou-me actualizando e lendo, por alto, o que de mais relevante tem acontecido na nosso País. Mas não tanto do mundo! É isso: uma coisa de cada vez!

E, mesmo estando actualmente em Barcelona, soube coisas várias: que o PIB Português deu, com este governo, um estimulante salto; que o nosso défice continua em trajectória descendente; que o nosso saldo primário está entre os melhores da Europa; que a confiança dos cidadãos e empresários continua em alta; que o desemprego continua a sua trajectória descendente e a concomitante criação de emprego em subida; que o nosso Centeno é cada vez mais respeitado na Europa e que, finalmente, vamos sair do procedimento por défice excessivo!

Não é coisa pouca, mas o Pedro, não o meu neto mas o outro, que tanto desejou a vinda do Diabo, vê-se agora constrangido a apelar a conselhos impuros e decadentes para que o tal “crescimento” seja sustentável e, quiçá, maior que o naturalmente atingível…

E sugere ao Costa que tome ” coisas”. Aquelas ” coisas” que alguns tomam para ter mais ” vitalidade”, mais ” virilidade”, mais ” potência”, mais ” pujança”, mais ” desempenho” e coisas assim e a que ele, assim como não quer dizer o que quer dizer, chama de ” reformas”! Ou ainda, e isto não passa de uma não sei se plausível hipótese, recorrer, para crescer, a um daqueles tratamentos que aparecem nalguns jornais, na internet e em sites que ninguém vê, que resolvem de imediato o problema da dimensão da coisa, e do seu precário crescimento…

Vocês até se podem rir e achar isto demasiado estúpido mas, pensando bem, depois da “TINA”, que restará ao Pedro?

O que fica é que, afinal, o Pedro diz que, apesar do ” there is no alternative”, ao ” sadismo” que ele praticou, e ” coisas” que experimentou e tomou, só com “reformas” estruturais é que vamos,  diz ele, lá!

Mas Pedro, cuidado! Essas coisas criam habituação e, qualquer dia, nem o coração aguenta. Eu conheço muitos casos e daí o meu aviso. E Pedro, repare: eu tenho a dimensão que tenho, sou até para o baixo, normalíssimo da silva, gostaria de ter crescido mais um pouco, em todos os aspectos, mas…para quê Pedro? Sempre cumpri os meus deveres  de cidadão na sua plenitude e, de reformas, só preciso da que tenho, e que, ao fim de 43 anos de trabalho e descontos, acho que mereço.

E mais Pedro: eu quando era jovem também li os livros proibidos do Marquês de Sade. E vi os ” 120 dias de Sodoma” do PASOLINI. E abjurei e esqueci. E conheço a história, Pedro!

Com que então os heróis são os Portugueses, não é? Sabe-me dizer, Pedro, qual foi ao longo da História o General, o Almirante, o Marechal, o Rei, o Governador que morreu em guerra? Ficou o D. Sebastião porque se perdeu no nevoeiro. E o Vasco da Gama? E o D. Henrique? É o Fernão de Magalhães ( ouvi dizer que partiram cinco naus com quase trezentos tripulantes  e só chegaram dezoito. O Fernão incluído! ) Eles têm todos estátuas e nomes de ruas e os Portugueses, os tais para quem o Pedro dirige o mérito?

E fala o Pedro de ” reformas” que façam diferença no futuro?  As suas Pedro? Dispensamos, definitivamente dispensamos e eu, como Português, que sofreu também, embora muito menos que outros, os mais frágeis, os mais marginalizados, os mais pobres, digo-lhe, e digo-lhe também em nome de todos estes, que dispenso o seu elogio.

Dispenso os parabéns de quem nos impôs sádicamente os sacrifícios que impôs e que tanto “gozo” deram à sua deturpada mente.

Vá, emigre, vá para longe, desapareça e vá ensinar as suas ” reformas” a outros…olhe: aos alemães, aos húngaros, aos austríacos, aos eslovacos, aos polacos, ao Trump, à May, ao Schauble, ao Rajoy, ao …. Isso mesmo.

E, já agora, cresça Pedro, cresça e cresça bem, mas desapareça. E leve consigo a Madona! Aquilo é que iria ser, Pedro!


Fonte aqui