Que este ano haja coragem e não haja Natal!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 24/12/2024)


Em 1970 passei a noite de Natal na zona de Nambude, na região de Moçimboa da Praia, em Cabo Delgado, em Moçambique, com uma companhia de comandos à espera que amanhecesse para assaltarmos uma base de guerrilheiros da Frelimo, tinha 24 anos.
Em 1973 passei o Natal na península do Cantanhez, no sul da Guiné, com o Batalhão de Comandos a tentar expulsar o PAIGC das suas bases e zonas libertadas. Dois Natais em guerra, com armas a disparar, corpos a caírem, vultos a fugir, crianças a chorar, cheiro a pólvora e a vísceras.
Talvez devido a esta experiência me sinta mais perto dos que passam o Natal debaixo de tiros e bombas. Talvez por essa experiência, todos os anos, pelo Natal, me confronto com a mesma perplexidade: Sei que feliz Natal desejo aos outros, sou sincero quando transmito os meus votos de Feliz Natal, mas sei de experiência certa e vivida que o Feliz Natal que eu desejo aos meus amigos, aos meus concidadãos, não é o Feliz Natal que os dirigentes do “meu mundo”, da minha civilização, da minha cultura, da minha religião me desejam nem aos meus concidadãos e, mais, o meu sincero Feliz Natal é, na boca deles e nas ações deles, uma hipocrisia, um jato de veneno. O Feliz Natal que os poderosos me desejam é que lhes obedeça e acredite neles.

Que Feliz Natal desejam os grandes do meu mundo, os do Ocidente Global, que é a nova alcunha do até agora Ocidente, o mundo que, como escreveu Camões, “nós, os portugueses, somos do Ocidente” e com essa afirmação, mais do que uma informação geográfica, queria dizer que eram cristãos? Sim, que feliz Natal nós, os do Ocidente, desejamos aos palestinianos (Israel é uma criação do Ocidente), aos ucranianos, aos russos, mas também aos sudaneses, e aos sírios, e aos afegãos e aos libaneses e aos magrebinos? Que prendas ou presentes enviamos, nós, os do Ocidente, aos outros povos? Que brinquedos ocidentais, cristãos, são distribuídos às crianças pelos aviões F35 e pelos carros de combate Merkava? Quem são os nossos Pai Natal? Netanyahou? E o presépio da Ucrânia inclui Vitoria Nuland, a promotora da revolta da Praça Maidan e parteira de Zelenski? E Putin é Herodes? E Trump faz de qual rei mago? Vivemos numa farsa que nós próprios alimentamos com perus e filhoses — e votos de Feliz e Santo Natal!

Santo Natal? Só por piada de mau gosto.

Nós, os cristãos do Ocidente, aceitamos que os nossos reis e rainhas façam do Natal uma feira de armamento, de ruínas, de mentiras, um casino com luzes a piscar e máquinas de fazer tilintar moedas? Sim, aceitamos. Vestimo-nos a preceito para a missa do galo, engalanamos as mesas com guardanapos coloridos e aumentamos as esmolas aos pobres à porta dos templos. E não nos esqueçamos de beijar o pezinho da pequena estatueta do Menino Jesus no final das missas. O menino Jesus teve sorte em escapar para o Ocidente a tempo. Se tivesse nascido em Gaza estaria cadáver embrulhado num lençol.

Sinto-me um privilegiado por poder passar o Natal com os meus, com a minha família e amigos, sem medo que a minha casa se desmorone, trocando presentes e não balas. Tenho direito ao meu Natal, sou cristão. É certo. Mas, e os outros? Trump, o reciclado imperador do Ocidente afirma-se cristão, também o rei Charles de Inglaterra, anglicano, com arcebispo de Cantuária devidamente entronizado, e o nosso presidente Marcelo, o sorridente, mais o rei de Espanha, a quem a família inferniza a vida, e os neofascistas italianos que vão fazendo o que podem para afogar os imigrantes no Mediterrâneo, os luteranos, os ortodoxos, os protestantes, os evangélicos e também o cristianíssimo António Guterres, secretário geral na ONU e excelente pessoa, orará pela paz, mas no seu caso sem jamais se ter atrevido a entrar em Gaza, a enfrentar os assassinos e a exigir a coragem de o matar em direto, todos se afirmam cristãos e desejam Feliz Natal em mensagens de filme da Walt Disney, de Tom&Jerry, enquanto distribuem bombas e minas por meio mundo.

Sim, o Ocidente, o cristianismo, está em guerra com meio mundo: na Eurásia, no Médio Oriente, na fronteira com o México, com a Venezuela, no centro de África, no Congo, em Moçambique, na Nigéria, na China, guerras quentes e guerras económicas. O Ocidente cristão mata povos cercados à fome! E não será da Praça de São Pedro, com bênção Urbi et Orbi, nem da catedral de São Paulo em Londres, ou da renovada Notre Dame que virá uma esperança de Feliz Natal! Talvez da NATO, que vai aumentar as cotas?

Sendo este o Natal que os cristãos têm para oferecer, e já que dos dirigentes políticos cristãos nem sequer seja de esperar um mínimo de humanidade, sim, de humanidade — porque não têm o Papa dos católicos, os bispos anglicanos, luteranos, os patriarcas ortodoxos, os bispos das “Iurdes”, os batistas, os adventistas, aqueles que tanto invocam o “santo nome de Deus” (em vão) a coragem de decretar: “Este ano não há Natal!”

Nada de extraordinário, acreditem. Não corriam risco de vida! Seria uma declaração como a de Lisístrata, a ateniense que na peça de Aristófanes reúne num templo as mulheres fartas da guerra e ali decidem por votação decretar uma greve sexual para forçar uma negociação de paz. Uma decisão do tipo da que que seria retomada no romance Tereza Batista Cansada da Guerra, de Jorge Amado, em que as prostitutas decidem uma greve de “balaio fechado”.

Este ano de 2024 foi marcado pelo facto inaudito de um ser humano, de nome Elon Musk, ter acumulado uma fortuna de tal modo monstruosa que lhe permitiu comprar um imperador e impô-lo ao mundo. Elon Musk ofereceu Trump ao mundo, um Menino Jesus de peso! O Natal de 2024 é o do nascimento de Trump nas palhinhas douradas de Musk. A cristandade abençoou o ato e deseja um Feliz Natal para todos nós! E enviamos cartões de Boas Festas uns aos outros!

Este ano, o meu desejo seria, pois, que os líderes religiosos cristãos decretassem que não há Natal enquanto houver guerra. Mas há a cobardia e o negócio das armas que promove os dirigentes políticos que por sua vez promovem os dignitários religiosos num sistema de vasos comunicantes…

O meu desejo seria que, existindo, o secretário geral das Nações Unidas reunisse a Assembleia Geral e convidasse os delegados das mais desvairadas partes do mundo a seguirem-no até à cave do edifício e aí, com a maior solenidade e em várias línguas, anunciasse que desligava a luz daquele mamarracho e que, inerte o monstro envidraçado, cada um dos embaixadores regressasse a casa, já que nada estavam a fazer ali a não ser a gastar energia nos gabinetes e nos elevadores.

Desejaria, pelo menos, que as luzes do comércio do Natal fossem desligadas na noite de Natal para assinalar a falsidade dos desejos que nos vão ser enviados dos púlpitos e dos ecrãs de televisão, mas há eleições para as câmaras municipais…

O Ocidente tem uma religião: há Natal porque há negócio! Presentes! Também há guerra porque há negócio… Alguém tem de pagar as iluminações de Natal e as bombas durante todo o ano.

Colonialismo e crueldade

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 14/07/2019)

Clara Ferreira Alves

De 1922 a 1927, George Orwell serviu o império britânico no norte da Birmânia, como oficial da polícia. Dele é a frase: “O passado pertence aos que controlam o presente.”

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Eric Blair, nascido em 1903, vinha da baixa classe média, ou de uma classe média sem dinheiro, mas entrou em Eton, a mais elitista das escola, a escola dos príncipes. Foi vítima de bullying, e sobreviveu às sevícias e humilhações, mas não tentou frequentar Oxford ou Cambridge. Os cinco anos de snobismo e complexo de casta chegaram. Aos 19 anos, estava na Birmânia. Logo se apercebeu da situação colonial, uma exploração cruel dos nativos pela supremacia branca. Dessa experiência birmanesa resultou um livro, um romance, “Dias da Birmânia”, e dois ensaios de génio, “Shooting an Elephant” (Matar um Elefante) e “A Hanging” (Um Enforcamento). São textos que retratam, com a empatia e compaixão que caracterizavam a escrita seca e precisa de Orwell, a tragédia da exploração capitalista colonial e do racismo. O romance, “Dias da Birmânia”, está escrito num estilo soberbo, enfeitado, que Orwell depois renegou (era o primeiro romance e tinha os vícios habituais) e descreve exemplarmente os tipos coloniais. Não é tanto a crueldade mas a suprema indiferença pelos nativos, os asiáticos, a sua invisibilidade, a prestação esclavagista vista de cima para baixo como um direito do funcionário, do comerciante ou do proprietário colonial. Os nativos, escreveu Orwell, eram para os colonialistas, nativos. Interessantes mas, finalmente, inferiores.

O império estava no estertor, em breve a Índia escaparia das algemas e com ela o Paquistão, e, claro, a Birmânia. A tragédia dos rohingya não é compreensível sem conhecer estes capítulos do colonialismo britânico, que sempre se reclamou, em relação ao português, mais avançado e mais culto, menos brutal e troglodita. Basta ler os guias da Índia para ver como os portugueses são acusados, na sua missão cristianizadora, de terem destruído os belos templos das cavernas da ilha de Elephanta, a que demos o nome, em frente a Bombaim, transformando-os em campos de tiro. As estátuas das divindades hindus estão desfiguradas pelas balas dos portugueses, numa selvajaria profana contra os profanos. Sagrado era o que os cristãos diziam que era sagrado. Quem não fosse cristão, ou se convertia ou era destruído. Este foi o modelo da cristandade portuguesa durante séculos. O padrão e a cruz. Deixámos, por esse mundo fora, um império construtor de fortalezas e igrejas, e legiões de cristãos de pele diferente da nossa. Cristãos católicos da Ásia a África, fomos os responsáveis primeiros.

O colonialismo português, com a sua dose maciça de coragem, aventura, crueldade e exploração, de esclavagismo e ignorância, de indiferença e desconsideração, nem sequer achava os nativos interessante. Achava-os fungíveis e sub-humanos. Carne para criadagem, cozinha, cama.

Este colonialismo, com as tropelias e guerras da fase do estertor, nunca produziu um escritor que, como Orwell, tivesse a empatia e a lucidez de o descrever. Nem sequer um Kipling. Ou um Forster. Não produziu nada de extraordinário depois das epopeias, tragédias e relatos do século XVI e XVII. Certamente, nada de extraordinário nos séculos XIX e XX. Exceto o poema de Jorge de Sena, ‘Camões na Ilha de Moçambique’, “pequena aldeia citadina de brancos, negros, indianos e cristãos, e muçulmanos, brâmanes e ateus”.

O colonialismo foi depois amalgamado numa teoria de lusotropicalismo recheado de imbecilidades como as que ouvi dizer a alguns diplomatas e académicos de antanho. Os ingleses fizeram a guerra e nós fizemos amor, make love not war, e assim mestiçámos. Uma orgia de violação, uso e abuso das mulheres nativas e das escravas mascarada de humanismo sexualizado. A nossa sociedade colonial descambou no modelo ainda em vigor na sociedade brasileira, onde os negros são vistos como servos naturais dos brancos.

Luanda era descrita como a grande cidade branca de África, a mais evoluída, a mais arquitetada, a mais pensada, e como um símbolo da glória do império português. A Cidade do Cabo também era gloriosa, mas não tínhamos apartheid, éramos mais “humanos” porque mais mestiçados. Na verdade, a mestiçagem dava jeito e o apartheid, compondo a rigorosa separação das raças e condenando a mestiçagem como um crime, impossibilitava o abuso sexual das mulheres e dos homens que serviam o capitalismo colonial.

O salazarismo, nunca tendo Salazar arredado a manta e o fogareiro e posto um pé nas terras dos selvagens onde mandou combater os ‘turras’ dos movimentos de libertação, sacrificando os mancebos portugueses a uma guerra que não entendiam e da qual nada sabiam, tinha a convicção de que aquilo era nosso por direito próprio e que a posse da terra tinha dentro dela o direito a dispor de uma raça inferior. A Índia nunca lhe interessou tanto, por remota e exótica, ou os longínquos Timor e Macau, como África, Angola e Moçambique. Menos, Cabo Verde, e talvez tenha sido uma sorte para os cabo-verdianos. E a Guiné, onde a guerra seria mais fácil de ganhar.

O colonialismo português teve os seus capítulos de glória nas conquistas e caravelas mas atravessou o século XX, o século das descolonizações, de olhos vendados. Nas escolas, a História de Portugal era uma lenda e uma narrativa mentirosa, arranjada para manter o regime como o defensor dos valores da cristandade em terras de bárbaros. Construíamos a escola e a igreja ao lado e deixávamos o esgoto a céu aberto e o casebre. Já Eusébio era velho, visitei o bairro onde ele nasceu no Maputo, Mafalala. Era isto. O amigo moçambicano que lá me levou não odiava os portugueses. Pelo contrário, tinha vindo educar-se a Portugal e gostava muito de Lisboa. Ele e a mulher são cultos, ela estudou literatura, ele escreveu livros, e assim são os amigos deles. Sempre pasmei da ausência de ressentimento tanto nos intelectuais como na gente simples de um país que condenámos à miséria e à corrupção. Isto deve-se à tal empatia, à humanidade, à educação e à consideração de que somos todos parte de uma raça, a humana.

Não nos odeiam. Nós, temos por cá uma gente que odeia pretos, e ciganos, como temos gente que odeia mulheres, e homossexuais, e doentes com sida, e muçulmanos, e judeus, e por aí fora. Quando se começa a odiar nunca mais se para. É esta gente que tem de ser educada. É esta gente que tem de ler uns livros e sair do canto provinciano e mesquinho das suas cabeças. De ler George Orwell e o que escreveu contra os totalitarismos e autoritarismos de que o colonialismo faz parte. Temos de deixar de controlar o passado.