Eleições legislativas 2025 – 19 de maio de 2025

(Carlos Esperança, in Facebook, 20/05/2025), Revisão da Estátua)


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No rescaldo de eleições provocadas por um Primeiro-ministro que quis branquear a conduta ética com a ida às urnas, é natural que falte discernimento aos perdedores, entre os quais me conto. Ainda assim, arrisco discorrer sobre a hecatombe eleitoral e o que nos trouxe aqui, para além de termos como árbitro do regime um jogador pérfido e calculista que durante cinquenta anos se opôs às maiores conquistas democráticas.

O país esqueceu que Marcelo se opôs à criação do SNS e à despenalização da IVG, que obstruiu a lei da eutanásia e, então líder do PSD, censurou um programa de humor de Herman José no canal público e levou ao seu afastamento ao jeito do Estado Novo.

A direita teve cúmplices. Ainda ontem militantes do PS exultaram com o ocaso do BE e o fracasso do PCP, afirmando de viva voz o desejo da exclusão eleitoral de ambos. Nem o PCP, que sofreu prisões, tortura e morte dos seus militantes na luta contra o fascismo, mereceu respeito! Nem a clamorosa derrota do seu partido os entristeceu! E foi o apoio do PS ao PSD que deixou à solta, a fazer oposição, os partidos extremistas Chega e IL.

A campanha eleitoral do PSD com temas do Chega só podia ter como epílogo o reforço da direita. O voto no Chega não é apenas um voto de protesto, é a afirmação do racismo, da xenofobia e da homofobia do nacional-catolicismo que suportaram a ditadura.

Acresce que o eleitorado de esquerda é mais exigente na ética do que a direita. Bastava a vitória na Madeira, que encorajou Montenegro, para confirmar que a Tecnoforma foi irrelevante, para o prestígio de Passos Coelho, o caso dos submarinos idem para Paulo Portas ou a casa da Coelha e as ações do BPN para Cavaco.

Nem a acusação de crime de morte a um ex-líder parlamentar do PSD, por assassínio a tiro de uma portuguesa no Brasil, belisca o partido ou interessa aos portugueses. Duarte Lima há de morrer na cama sem ser julgado.

A Spinumviva não é caso político, é um caso de polícia não encerrado. As eleições não absolvem delitos; o PM não passou a respeitável por se apresentar ontem com todos os administradores da empresa de fuga ao fisco, ele, mulher e filhos a comemorar a vitória.

A deslocação brutal do eleitorado para a direita não é apenas fruto de golpes do Presidente da República, mas da fuga do PS na mesma direção, à semelhança do PSD, com a oposição interna a Pedro Nuno a obrigá-lo a suportar o governo de Montenegro. Tal como em França, estamos em risco de ver implodir os partidos do centro.

Ontem saíram feridas a democracia e a ética. Um partido regional, ao arrepio da Constituição, entrou na AR, o Chega passou a maior partido da oposição, o PS, já demasiado à direita, ficou refém da ala direita e neoliberal e até o bom governo de António Costa, com apoio parlamentar do PCP e BE, foi denegrido e acoimado de extremista depois de ter valido a maioria absoluta a que Marcelo e a PGR puseram termo.

Com a folga orçamental esgotada, os partidos extremistas em crescimento e um perigoso ministro das Finanças, o apoio previsível do PS à AD é a receita para o fim do regime. É a vida

O Chega vem mesmo para mudar o país

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 19/05/2025)


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Não se desenganem. O Chega vem mesmo para mudar o país. Para pior. O partido de André Ventura é o sonho molhado dos grandes grupos económicos e financeiros. Poder, finalmente, ajustar contas, de forma aberta e sem pudor, com as conquistas sociais da revolução de Abril é o desígnio do Chega. Ontem à noite, na RTP, João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, e Pedro Frazão, do Chega, admitiam juntos que querem mudar a Constituição da República Portuguesa para acabar com o seu preâmbulo e alterar a parte que define a organização económica do país porque, e cito, atribui ao Estado “a obrigação de ser ele o prestador dos serviços públicos” (ao fundo ouve-se Pedro Frazão a gritar “exatamente!”).

O desmantelamento das funções sociais do Estado é, sem dúvida, uma hecatombe mas vem já sendo operado ao longo de décadas pelo PS e PSD. Essa é, aliás, uma das principais razões para a votação avassaladora no Chega. Os partidos que até agora nos governaram, fingindo defender a democracia, favoreceram sempre as elites. O partido de André Ventura, fingindo estar contra este sistema, quer favorecer as mesmas elites. O povo que se lixe.

Eu dizia, há uns dias, que antes de melhorar, isto ainda vai piorar. Mas só vai melhorar com a resistência dos trabalhadores (sim, também com muitos dos que votaram no partido de André Ventura). Muita gente vota no Chega porque sente que esse é o voto de protesto contra a sua vida miserável. E sim, é absolutamente chocante que haja mais de um milhão de eleitores de um partido abertamente fascista e que muitos tenham como objetivo expulsar indostânicos, tornar a vida num inferno aos portugueses ciganos e retirar direitos às mulheres. Tudo menos tocar nos interesses de quem de facto é responsável pelas nossas vidas miseráveis: os grandes grupos económicos e financeiros. Acreditam que André Ventura está mesmo contra este sistema.

Que votem num partido de ladrões, corruptos e pedófilos, de aldabrões encartados que dizem uma coisa hoje e amanhã o seu contrário, não significa que não tenham razão em estar revoltados. Sabemos bem que o Chega foi levado em ombros pela comunicação social que, de forma irresponsável, mas consciente e deliberada, virou todos os focos para a extrema-direita, dando gás ao seu discurso racista e xenófobo. Os donos de jornais, rádios e televisões nunca o fizeram com o PCP, por exemplo, porque sabiam que os comunistas, ao contrário do Chega, estão de facto contra este sistema.

É certo, a palavra esquerda significa, hoje, pouco para os portugueses porque a identificam com partidos como o PS que sempre disseram uma coisa e fizeram outra. Muitos identificam-na também com uma esquerda folclórica que sempre preferiu viver mais da estética do que do conteúdo, que prefere priorizar direitos individuais e secundarizar direitos coletivos, cavalgando a onda liberal, procurando a divisão da classe trabalhadora.

Os sinos têm de tocar a rebate porque a gravidade é evidente. PS e PSD tenderão, como noutros países, a convencer-nos de que a democracia se defende votando neles. Não, a democracia defende-se melhorando as condições de vida dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens e dos reformados.

A tarefa do futuro é a construção de uma resistência onde caibam todos os que queiram verdadeiramente lutar contra este sistema. Devemos apontar o dedo ao Chega mas também aos que nos trouxeram até aqui: as políticas do PS e PSD, a comunicação social e as redes sociais. Para lá da internet, onde também é importante saber comunicar, temos de reconstruir a nossa vida coletiva onde ela mais importa: conectando-nos com outros nos locais de trabalho, nos sindicatos, nas coletividades, nas associações de moradores, etc.

O tempo que vivemos é de resistência. Num dos seus poemas, Manuel Gusmão perguntou “quem somos nós?” e respondeu, em relação aos comunistas, que “somos a esperança que não fica à espera”.

Muitos só vão perceber o engodo do Chega quando a nossa vida piorar ainda mais. Vão ter de bater de frente com os sindicatos mas os sindicatos sem trabalhadores não são mais do que quatro paredes e um telhado.

É importante que entendamos que a resistência se faz connosco. Não se faz apenas nas redes sociais. Faz-se nas ruas e nos locais de trabalho. Muitos direitos vão ficar em causa, sobretudo dos trabalhadores e das mulheres, e cabe-nos mostrar que somos muitos e capazes de coletivamente enfrentar as ameaças. Mas defender o que temos não basta. Precisamos de assentar as bases para que no futuro nos tenhamos a todos, lado a lado, a construir um país soberano, socialmente justo e de progresso.

Portugal no limiar: o Chega, a Iniciativa Liberal e a falência política do liberalismo democrático

(Por Alberto Carvalho, in Facebook, 19/05/2025, Revisão da Estátua)


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Este texto dormia entre páginas dispersas, embrulhado num ficheiro sem nome, à espera de ocasião ou sentido. Foi escrito num tempo anterior, como quem prepara explicações sem saber ainda as perguntas. Hoje, depois das eleições legislativas de 18 de maio de 2025, torna-se, tragicamente, atual.

Nessas eleições, a Aliança Democrática (AD) – coligação entre PSD e CDS-PP – foi o partido mais votado, com 32,1% dos votos e 89 deputados, sem alcançar a maioria absoluta. O Partido Socialista, em queda histórica, obteve 23,4% e 58 deputados, o mesmo número de mandatos conquistados pelo Chega, que subiu para 22,6% e se tornou, na prática, a segunda ou a terceira força política nacional, empatada com o PS em assentos parlamentares. A Iniciativa Liberal, por sua vez, atingiu 5,5% dos votos, elegendo 9 deputados – o seu melhor resultado até hoje.

Estes números não são meros resultados eleitorais: são sintomas de uma fratura civilizacional em curso. O Chega e a IL são filhos diferentes de um mesmo vazio. Representam duas respostas antagónicas ao colapso do contrato social: uma pela raiva, outra pela fuga.

O Chega cresce nas franjas sociais da desesperança, nos bairros periféricos, nos concelhos desertificados, entre os desiludidos de tudo. Aponta os culpados com dedo firme – os imigrantes, os ciganos, os políticos, os juízes – e propõe castigos, exclusão, força. Cresce onde a liberdade se tornou apenas sobrevivência.

A Iniciativa Liberal cresce entre jovens urbanos e escolarizados, entre os que tentam competir no mercado global e sentem o Estado como obstáculo. Mas promete liberdade sem garantir equidade; autonomia sem solidariedade. Cresce onde o Estado já se ausentou – na habitação, na saúde, nos salários, na justiça fiscal.

A coincidência temporal é clara: ambos os partidos surgem em 2019 com um deputado cada no Parlamento, se não me falha a memória. Ambos crescem significativamente em 2022, e consolidam-se em 2025, num quadro de profunda erosão da democracia representativa. Ambos canalizam o descontentamento de segmentos distintos da sociedade portuguesa, mas nenhum oferece uma reconstrução do espaço comum. Cada um, à sua maneira, acelera o colapso do ideal democrático.

Entre as causas estruturais desta fragmentação, avultam os números:

  1. A habitação aumentou 70% em Lisboa na última década, tornando-se inacessível para a maioria (INE);
  2. O número de sem-abrigo duplicou entre 2018 e 2022 (ENIPSSA);
  3. O SNS perdeu milhares de profissionais, incapaz de competir com o privado;
  4. Os jovens altamente qualificados emigraram ou vivem em precariedade, sem esperança de habitação própria.

Neste cenário, o PS colapsa, vítima da sua incapacidade de construir respostas novas. A sua linguagem é conhecida, mas soa a desvio; as suas promessas, recicladas. E a AD vence, mas sem capacidade de formar maioria. O país não aclamou um vencedor: fragmentou-se.

O mais grave, porém, não é o que se vê, mas o que se adivinha. O discurso democrático tornou-se irrelevante para amplas camadas da população. O debate político foi colonizado pelo ressentimento ou pelo cálculo tecnocrático. E os partidos centrais, em vez de reconstruírem uma visão comum, disputam migalhas no meio dos escombros.

Este texto não defende regressos fáceis, nem procura bodes expiatórios. Apenas assinala: o liberalismo, em Portugal como noutros lugares, prometeu liberdade e entregou fragilidade. Fragilidade do Estado, da coesão, da esperança. A política transformou-se em administração de danos, e a sociedade em mercado de sobrevivência. E sobre essas ruínas surgem os extremos – diferentes na estética, sim, mas convergentes no efeito: destruição do comum.

O Chega cresce com a promessa de restaurar autoridade e castigo. A Iniciativa Liberal com a promessa de restaurar mérito e competição. Ambas prometem rutura, mas nenhuma constrói comunidade. Ambas prosperam sobre o cansaço – da espera, da promessa, do empobrecimento. São sintomas opostos do mesmo colapso: o da confiança.

Chegados aqui, impõe-se uma escolha – não apenas eleitoral, mas civilizacional. Ou a política resgata a ideia de bem comum, com coragem para proteger os frágeis, reequilibrar o mercado, refazer os laços sociais e devolver dignidade à palavra pública; ou aceitaremos a lenta corrosão das instituições, o abandono dos jovens, o medo dos velhos, a substituição do diálogo pela retórica bélica, e o triunfo de forças que não querem governar – querem vingar-se.

Não se trata de “virar à esquerda” ou “à direita”, mas de escolher entre reconstruir ou destruir. Portugal pode, ainda, escolher reconstruir. Mas essa reconstrução não será feita pelos partidos que cederam à lógica da contabilidade neoliberal, nem pelos que se limitaram a gerir expectativas enquanto se rompia o tecido social. Tampouco pelos que exploram a miséria e o ódio como capital político.

Será feita por quem tiver a coragem de dizer que a liberdade precisa de justiça, a democracia precisa de verdade, e a comunidade precisa de cuidar dos seus – antes que os seus deixem de acreditar nela.