André Ventura em Madrid

(Carlos Esperança, in Blog PonteEuropa, 17/09/2025)


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Depois de ver e ouvir Paulo Rangel, em Madrid, no comício do PP da campanha para as últimas eleições legislativas, julguei que nenhum outro português descesse ali tão baixo nos ataques ao primeiro-ministro de Espanha.

Mas faltava ver André Ventura num comício do VOX onde Charlie Kirk, célebre ativista da extrema-direita recentemente assassinado nos EUA, foi considerado o exemplo para a direita extremista que o VOX e o Chega representam.

André Ventura, o pequeno führer lusitano procura ser um avatar do Adolfo Hitler e tem nos gestos e nas palavras o mesmo ódio, desejo de vingança e desvario a que só a falta de um poderoso exército atenua o perigo.

Elogiou a “caçada a imigrantes”, em Espanha, com o mesmo entusiasmo com que Hitler promoveu a caçada a judeus, na Alemanha.

Congratulou-se com a perseguição violenta aos imigrantes e não hesitou em agradecer essa violência, neste verão, em Múrcia. Indiferente ao crime de ódio, gritou: “Por isso quero dizer-vos, aqui em Espanha, sabendo que a imprensa está aqui e a imprensa portuguesa também, que o que fizeram em Múrcia dá-me um orgulho tremendo como europeu. Um orgulho tremendo como europeu”, repetiu, e terminou a gritar “obrigado pelo que fizeram”, aplaudido de pé pela horda fascista presente.

Com estas declarações, André Ventura tornou-se uma vedeta na convenção Europa Viva 2025, em Madrid, o encontro dos Patriotas pela Europa, que junta partidos da extrema-direita europeia e já é o terceiro maior grupo no Parlamento Europeu.

“Não nos metem medo”, “Temos de entregar Pedro Sanchéz à cadeia”. Foi mais longe do que Paulo Rangel e não teve um mandado judicial, para que o escoltasse à fronteira, de um Tribunal que não admitisse insultos de um estrangeiro ao PM do seu País!

E não previa o energúmeno Ventura que no dia seguinte manifestasse “admiração por um povo [o seu] que se mobiliza por causas justas, como a da Palestina”, referindo-se aos gigantescos protestos pró-palestinianos que obrigaram ao cancelamento da última etapa da Volta a Espanha, em Madrid.

Sanchéz é o único PM da UE que não cede às exigências de Trump para gastos de 5% com as Forças Armadas e que exige contra Israel as medidas usadas contra a Rússia.

Só a covardia impede a exclusão de atletas israelitas quando os russos estão banidos de todos as competições na UE. Pedro Sanchéz será mesmo o único líder europeu capaz de cumprir a ordem de prisão do TPI, quer para Netanyahu, quer para Putin.

É esta a diferença entre Sanchéz e os Venturas deste mundo, entre o Homem e o verme, entre um estadista e um arruaceiro.

Apostila – Discordo da exclusão de atletas, músicos ou artistas de um qualquer país em função do regime que nele vigore, mas revejo-me na posição de Pedro Sanchéz que não aceita a duplicidade dos seus homólogos, que delapidam o respeito que as democracias merecem.

Fonte aqui

O Estado da nação 2

(Patrícia Reis, in Diário de Notícias, 16/09/2025)


O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?


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A malta lê, lê até muito, garantem-me, e eu aposto que estamos a falar de ler o feed das redes sociais e pouco mais do que isso. Os livros parecem assustar os mais novos e os mais velhos, e mesmo fenómenos literários no Tik Tok de book influencers (só a designação me provoca desconforto) aparentam ser uma boa-prática mas, muitas vezes, são isentas de critério. Fui à livraria e preciso de vos dizer isto: existem livros maravilhosos.

A Literatura é um alimento para o cérebro e ajuda-nos a perceber temas e realidades, a mudar de ideias, a pensar. A Literatura serve para pensar. Agustina Bessa-Luís costumava dizer que escrevia para incomodar, o princípio é o mesmo. O entretenimento é, como a palavra indica, outra coisa: eu diria até que serve precisamente o fim oposto – enquanto estamos entretidos, não estamos a pensar..

Hoje temos livros publicados com a aparência da grande Literatura e que, espremidos, são apenas para isso, entreter. Temos livros com fonte de letra em tamanho grande, entrelinhas generosas, capítulos pequenos, tudo para facilitar o cérebro do leitor, mas temos também temáticas que são ondas, obedecem a tendências.

Neste momento há no mercado uma santa trindade: violência – saúde mental – autoficção. Ora, ninguém consegue viver só com desgosto e um leitor treinado sabe que, por pior que seja a história narrada, preferencialmente, deve existir sempre qualquer coisa que salve, qualquer coisa que permita uma certa redenção. É assim nos grandes clássicos, do Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez a Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago; de Luzes de Leonor de Maria Teresa Horta à Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís.

A imaginação é o território fundador de qualquer escritor que pode, e deve, ser um observador da natureza humana – do seu tempo, caso opte por escrever sobre o que lhe é contemporâneo –; mas a imaginação, “a louca da casa”, conforme a designou Santa Teresa de Ávila (e cuja expressão Rosa Montero, a escritora espanhola, aproveitou como título de um dos seus livros, corram a ler, caso não o tenham feito já!), precisa de ser estimulada. Um escritor não faz decalques da realidade, vai muito mais longe. E sente o que as personagens sentem, vive o que elas vivem. Não é o contrário, as personagens não servem para imitar a vida real. A Literatura é mais do que isso.

O jornalismo, que tanto namora com a Literatura, é outra arte que importa cuidar. Miguel Carvalho, jornalista freelancer, publicou o livro Por Dentro do Chega (edições Objetiva) e o momento em que abri o volume foi de imensa satisfação. Por várias razões: o Miguel Carvalho é o melhor jornalista de investigação da sua geração, tem do jornalismo o mesmo entendimento que eu e que tem por base uma coisa muito simples, mas cada vez mais difícil de encontrar: a capacidade de ouvir os outros, estar com eles, tentar compreender as suas razões, mesmo que discordando. Este livro, em vésperas de eleições autárquicas e presidenciais, é um ato de correção social, chamar-lhe-ia a grande escritora e jornalista Maria Teresa Horta. Miguel Carvalho trabalhou neste volume de 752 páginas durante cinco anos, e fê-lo com a intensidade das coisas que apaixonam, porque é a única forma de fazer jornalismo. Aí concordamos novamente. O retrato do partido que hoje ocupa um lugar que era inimaginável em 2020 é, também, o retrato de um país, de uma desilusão, de um sistema. É igualmente um trabalho de uma seriedade a toda a prova, com os dados bem claros, as fontes confirmadas e reconfirmadas, os documentos lidos uma e outra vez. Como o jornalista nos leva pela mão é uma arte. E, não sendo esta uma obra de Literatura, representa outra maneira de promover pensamento, de agitar ideias e de corrigir factos. É um livro sobre a verdade de um partido, dos seus militantes, financiadores, apoiantes isolados ou até escondidos. Miguel Carvalho é um fervoroso defensor da democracia, a Liberdade talvez seja a sua palavra mais estimada. Este livro, depois de todos os que já assinou, comprova: o bom jornalismo está vivo e recomenda-se; e mostra que o medo não tem qualquer hipótese de vergar aquilo que se sabe ser certo. Conta-se a história de um partido de extrema-direita com a lisura com que se contaria outra qualquer história, porque é indiferente se este partido é hoje distinto do que era há cinco anos, quando se pensava que Marrocos poderia ser um destino para o seu líder; quando se advogava a hipótese de ser considerado um partido ilegítimo. Hoje estamos longe deste cenário, não há planos de fuga nem gente incrédula com o que acabou de ouvir, há uma dimensão de boçalidade que arrepia e que vive da grande ilusão de um discurso construído em cima da figura do líder, do seu putativo carisma, e pouco mais.

O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?

Escritora e jornalista

A nova Lei dos estrangeiros e os atores políticos

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/07/2025)


A Lei não é apenas inconstitucional, é iníqua e perigosa. Não interessa que, no espaço de um ano, o Primeiro-ministro desse uma cambalhota de 180 graus, para se colar ao Chega.

Montenegro não se move por convicções ou pela ética, na política ou nos negócios pessoais. Aliás, a teia de interesses tecida entre Espinho e Braga está na origem do seu duplo sucesso.

A política de imigração é definida pelo Governo, mas a ética não pode ser exonerada da lei nem os interesses do país preteridos pela vozearia dos que sabem que o medo rende votos. E a Constituição é uma referência obrigatória da democracia!

Não incenso o Presidente da República pelo envio dessa lei, parida no conúbio espúrio entre Montenegro e Ventura, para o Tribunal Constitucional. E também não lhe farei a ofensa de considerar tal decisão vingança contra o Primeiro-ministro que lhe deve o cargo e não o respeita. Montenegro não confia em Marcelo, como quase toda a gente, e ignorou-o até quando era obrigatória a sua anuência, na escolha do Procurador Geral da  República e do governador do Banco de Portugal.

O que não atribuo a Marcelo é o respeito pela Constituição. Já promulgou leis inconstitucionais para afetar o PS, quando laboriosamente procurava levar a direita ao poder. A violação da lei travão ao aumento de despesas pela Assembleia da República, é um exemplo. Foi inevitável o chumbo do Tribunal Constitucional, mas então ainda trocava os pergaminhos de jurista pela militância partidária.

Agora sente-se livre para evitar a vergonha, e o constitucionalista reconvertido já não quer passar pelo opróbrio de ser cúmplice da lei constitucionalmente inaceitável.

Por sua vez, Montenegro sabe que a lei é inconstitucional, mas a sua postura em modo Chega rende votos. Ao PS, prefere a extrema-direita e, para manter o poder, não deixará de se aliar a ela quando precisar.

O que nauseia é a decadência ética de um governo cúmplice do genocídio em Gaza pelo silêncio, covarde a seguir o exemplo de vários países europeus e ignorando o Secretário Geral da ONU nos esforços para manter um mínimo de decência nas relações internacionais.

Montenegro é o herdeiro de Passos Coelho, produto da madraça cavaquista e dos golpes de Marcelo. No fundo, o Luís é a síntese da galáxia partidária em que se dividiu o PPD, PSD, IL e Chega.

Percebe-se o motivo por que o Luís pensa que na SPINUMVIVA não há nada de ilegal. É a mesma posição sobre a canhestra Lei dos Estrangeiros negociada com André Ventura.

O que devia evitar era a chantagem sobre o Tribunal Constitucional. Percebe-se a pressa na substituição dos Conselheiros, a combinar com o Chega.

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