A chazada marcelista

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/09/2018)

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Aníbal Cavaco Silva aguentou dois anos calado. Ou pelo menos sem opinar sobre o mandato do seu sucessor. Mas, com a direita passista e mediática (redundância) em fúria com a saída da procuradora, transformada contra a sua vontade em Passionaria do justicialismo, ele não aguentou. Achou que estava ali um chamamento. E se Passos saltou do seu túmulo político, Cavaco saiu do seu jazigo.

Para dizer, esperando que o país estremecesse: “Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é talvez a mais estranha tomada no mandato do Governo que geralmente é reconhecido como geringonça”.

Este regresso dos mortos-vivos não teve nada a ver com António Costa ou com Joana Marques Vidal. O alvo era apenas um: o homem que lhes tirou o palco à direita. Mas nenhum teve a coragem de o nomear. Porque os dois sabem que Marcelo Rebelo de Sousa é, continua a ser, muitíssimo mais popular à direita do que qualquer um deles. Tentaram, por isso, fazer uma tabelinha: criticando Costa, de quem os seus eleitores não gostam, acertavam em Marcelo, associando-o ao primeiro-ministro.

Só que Marcelo sabe mais a dormir do que Cavaco e Passos a jogar crapô. Em vez de se fazer de morto, esperando que a bala lhe passasse ao lado, pôs-se à frente dela e gritou o óbvio, para quem conhece a Constituição da República (artigo 133º): “A nomeação da procuradora-geral da República foi uma decisão minha e de mais ninguém. Portanto, o que me está a dizer é que o Presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato”. (Ver aqui). Poucas vezes se viu, na política nacional, tamanho ricochete. Foi só o verdadeiro visado de um ataque dizer ao sonso que era ele o visado do ataque. A extraordinária popularidade de Marcelo e a extraordinária impopularidade de Cavaco tratam do resto.

Depois de explicar ao antigo Presidente que “quem nomeia a procuradora são os Presidentes, não os Governos”, Marcelo fechou a conversa com uma chazada: “Entendo que, desde que tenho estas funções, não devo comentar nem ex-Presidentes, nem amanhã quando deixar de o ser, futuros Presidentes. Por uma questão de cortesia e de sentido de Estado.” Há quem julgue que ter sentido de Estado é não tirar selfies e fazer um ar sisudo. Mas a falta de sentido de Estado de Cavaco é uma constante da sua vida. Desde momentos graves, como aquele em que, perante a possibilidade de nomear um Governo que não desejava, insultou um quinto dos eleitores portugueses (que votaram BE e PCP), aos mais pequenos, quando foi espalhando piscinas pelos palácios por onde passou, como se fossem casas suas. Ou quando publicou nos seus diários diálogos recentes com políticos no ativo, traindo o dever de reserva que lhe era exigido. Totalmente alheio ao espírito democrático e republicano, Cavaco nunca percebeu que era ele que passava pelos cargos, não eram os cargos que passavam por ele.

A vida política de Cavaco Silva acabou sem qualquer dignidade, com níveis de impopularidade nunca conhecidos por um Presidente eleito, distante do seu povo e contentando-se em representar uma fação política. Como o homem que raramente se engana e nunca tem dúvidas, que para ser tão sério como ele seria preciso nascer duas vezes, tem sobre si uma imagem deformada pela vaidade e pela soberba, acredita ter sobre os portugueses um poder que há muito perdeu. Cavaco Silva julga que os portugueses olham para si e veem o mesmo que ele vê quando se olha o espelho.

Estava à espera do momento certo para dar a ferroada ao Presidente que o fez esquecido em poucos dias. Julgou que quando falasse o país pararia, Costa tremeria, Marcelo se esconderia. Não percebeu, nunca perceberá, que um ataque seu não beliscaria o Presidente. Que uma das razões para Marcelo ser popular é ter vindo depois de Cavaco. É não ser Cavaco. É ser o oposto de Cavaco.

Com o ataque sonso que fez e a severa chazada que recebeu, apenas deu ao Presidente, depois de uma decisão politicamente difícil, mais umas vitaminas. Se aparecem reticências em relação a Marcelo, o melhor que lhe pode acontecer é o país lembrar-se que antes era Cavaco.

Cavaco Silva e a PGR cessante

(Carlos Esperança, 28/09/2018)

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Não sei se o antigo PR tinha dívidas a pagar ou alguma vingança a exercer, mas as suas declarações, com a sensibilidade e argúcia das cagarras das Ilhas Selvagens, são a prova reiterada da falta de sentido de Estado que revelou em Belém, onde foi forjada a cabala contra um PM e cujo inquérito às despesas, ordenado pelo sucessor, nunca foi revelado.

Cavaco é a maior referência ética do condomínio fechado da Praia da Coelha e é preciso nascer duas vezes para alguém ser mais honesto do que ele, mas ver “com estranheza”, achar “estranhíssimo”, aquilo a que chamou “afastamento” da PGR cessante, é esquecer o direito do Governo, a propor, e do PR, a nomear, o/a titular da PGR. A ofensa gratuita ao PR que lhe sucedeu é maior do que o rancor ao PM que empossou.

Confundir ‘afastamento’ com ‘renomeação’ é o velho problema de quem nunca leu “Os Lusíadas” e tem recorrente conflitualidade com a língua portuguesa, quer na ortografia do verbo ‘haver’, no preenchimento da ficha da Pide, ou na conjugação oral do futuro do verbo ‘fazer’. Trata o idioma com a delicadeza com que mastiga bolo-rei.

Para que não o julgassem em defunção ou a gozar as delícias da vivenda Gaivota Azul, apareceu na comunicação social a dizer: “Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é a mais estranha tomada pelo Governo, que geralmente é conhecido como ‘gerigonça’”. Com a argúcia conhecida, afirmou que “foi uma decisão política”, como se alguma vez o não fosse uma nomeação governamental. Passos Coelho não conseguiu dizer melhor e Cavaco limitou-se a secundá-lo.

Há em Cavaco, o finório que ganhou uns cobres na compra e venda das ações da SLN, não cotadas na Bolsa, ele e a filha, e fez o excelente negócio com a permuta da Vivenda Mariani (Maria e Aníbal) pela Gaivota Azul, aquele sentido de oportunidade que o levou a jantar com Ricardo Salgado para preparar a primeira candidatura vitoriosa a PR.

Portugal deve-lhe a posse que conferiu ao atual Governo, depois de pérfidas tentativas para assustar os portugueses e os mercados internacionais, mas não é esse ato meritório que o iliba da amargura permanente que consome o ressentido salazarista.

O homem que ‘punha as mãos no fogo’ por Dias Loureiro, o modelo de empresário para o experiente gestor da Tecnoforma, Passos Coelho, podia optar pelo silêncio, mas não lho permitiu o ressentimento e a inveja da popularidade do seu sucessor. Este homem acaba com uma úlcera gástrica se não fizer a neutralização da bílis que segrega.

O avatar de Salazar deve à democracia os lugares de PM e de PR, a que o voto popular o conduziu.

É um ingrato.

AMORES

(Virgínia da Silva Veiga, 27/09/2018)

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Ver Cavaco, apoplético, a cuspir perdigotos sobre Marcelo, e Passos, ressuscitado, tiraria qualquer dúvida sobre Joana Marques Vidal dever ou não ser substituída.

Nunca ninguém deu tantas certezas de haver em Portugal uma política na PGR como estes dois.

Não conheço Joana Marques Vidal e, se repararam bem, o que me fez pronunciar contra a renovação do mandato, para lá da concordância com a limitação a seis anos, foi o que fui dizendo e o mais que hoje acrescento: envergonhou a Justiça.

Não apenas na Procuradoria como na Magistratura Judicial ao fazer crer a muitos portugueses que ninguém tem bom senso, não cumpre prazos, e persegue mais do que julga. 

Joana transformou as caras do Correio da Manhã e da SIC na face da nossa Justiça. Sobrepôs órgãos de comunicação social aos Juízes, pior que isso, a torto e a … torto, fez emitir comunicados da PGR, ora inoportunos e persecutórios, ora sem qualificação possível como o que emitiu sobre o caso da Procuradora cujas senhas permitiram centenas de acesso ao Citius. 

Joana não serve a Justiça, acicata ódios, muda regras. Só por isso não gosto dela. 

Nunca alinhei nessa hipótese de ser uma escolha política pró PSD ou CDS como muitos escreveram nas redes sociais. Nunca me viram um “gosto” em tais publicações, menos me viram defender tais ideias.

Achei sempre tratar-se de – vou falar francamente – ligeireza, por vezes a raiar a imbecilidade. Dela, evidentemente.

Têm razão. Tinham razão. Ainda bem que foi substituída.

Cavaco e Passos vieram a lume odres de ódio e é bom que se pergunte porquê, porque têm tanto medo de que outra pessoa ocupe aquele lugar.

Depois de ler Coelho e ouvir Cavaco, vendo-os num agradecimento público que só fortes ligações e profundas paixões alimentam, sou obrigada a dar razão a quem assim entendia: Joana não se limitou a fomentar ódios, também cultivou amores.

Os meus? Só um. A Justiça. Sempre.