Brasil: um veto suicida

(Atilio A. Boron, in SakerLatam, 28/10/2024)

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O imperdoável veto do governo brasileiro à entrada da Venezuela no BRICS+ não é nenhuma surpresa. Há conflitos profundamente enraizados entre os projetos regionais e internacionais do Itamaraty e os do governo bolivariano. Esse conflito, latente em alguns momentos, manifesto em outros, ocorreu independentemente do que Lula pensava durante seus primeiros oito anos de governo.

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Lula e Modi espetaram uma farpa no coração dos BRICS

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 02/09/2024)

No caso de nos parecer que a Rússia – e China – puxam mais do que os outros… Não teremos boas notícias para o mundo multipolar.


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Muitas foram as vozes de preocupação e consternação com o anúncio, por parte do Ministro dos Negócios Estrangeiros russos, Serguei Lavrov, declarando a suspensão temporária de novas adesões ao bloco BRICS. As nuvens negras logo se avistaram sobre o mundo multipolar, principalmente quando tinha sido dito que existirá uma lista de 40 países em fila de espera e com vontade de integrar o bloco. Terá sido o anúncio de Lavrov assim tão inesperado?

Sem um bloco BRICS forte, coeso e harmónico, um mundo multipolar organizado, pacífico e cooperativo estará ameaçado. A capacidade em fazer da cooperação económica (principalmente) o pano de fundo sobre o qual as contradições, entre nações, unilateral e bilateralmente consideradas, serão secundarizadas em prol de um bem maior, de que todos igualmente beneficiam, constitui, a meu ver, a grande força de um bloco como os BRICS.

Contudo, a história diz-nos que os impérios não morrem em paz e que a sua substituição por formas novas de governo – nem sempre mais avançadas –, quase nunca é isenta de contratempos e solavancos. Daí que seja expectável que o poder hegemónico ocidental, liderado pelos EUA, continue, até ao extenuar das suas forças, a impedir entendimentos colectivos que enfraqueçam o seu domínio. O mundo multipolar é, ele próprio, a negação de um qualquer domínio hegemónico.

Assim, se todos puderam assistir à deriva de Lula da Silva, exigindo da Venezuela bolivariana o que não exige a nenhum outro país com eleições – que demonstre que as suas instituições funcionam, não nos termos da respectiva lei nacional, mas nos termos da Ordem Baseada em Regras -, também é verdade que este comportamento colocou em sobressalto todos os que, como eu, almejam e lutam por um mundo mais justo. A verdade é que este resvalar, por parte do presidente brasileiro, para a esfera narrativa imposta pelos EUA e pela sua ordem “internacional”, coloca muitas questões quando se trata de BRICS.

Em que estado fica agora a entrada da Venezuela nos BRICS? Terá, agora, o Brasil de Lula da Silva, condições morais para aceitar a entrada da Venezuela nos BRICS? Que restará da sua imagem se o aceitar, sem imposições ou condições? Retornará ao apoio a uma Venezuela soberana? Que fracturas abrirá no bloco uma atitude brasileira negativa, face à entrada da Venezuela bolivariana (é dessa que falamos, a outra não entraria jamais)? Não terá sido este o verdadeiro golpe de Lula da Silva? Criar condições políticas justificativas para uma não aceitação da entrada na Venezuela nos BRICS? E quem beneficiará com isso? A que país, e a que bloco, interessa que as maiores reservas de petróleo no mundo não estejam integradas, numa esfera de cooperação económica amplamente influenciada por Rússia e China? Ao Brasil não será certamente.

Tenham estas questões, ou não, uma base material que as sustente, esta posição de Lula da Silva face às eleições Venezuelanas, coloca uma farpa profunda numa futura expansão dos BRICS, na América latina, uma vez que, a seguir à Argentina, que declinou, ao Chile, cujo presidente traiu a confiança do povo, seria a Venezuela o candidato que se seguiria. Afinal, uma vez mais, quem beneficiará com um bloqueio da expansão dos BRICS na América latina e central?

Certamente que Rússia e China não terão gostado nada desta deriva e embora não o dizendo, não terão deixado de nela ler o que ela é: a tentativa de submeter a Venezuela a um processo político que a faça transitar para a esfera da “Ordem Baseada em Regras” dos EUA. Colocando aquele país no limbo em que se encontram todos os outros, com excepção de Cuba e Nicarágua. Querem pertencer ao mundo multipolar, mas não lhes é permitido; podem sair da ordem baseada em regras, mas não querem, ou não têm a força e coragem para tal.

Se estas questões configuram as das graves contradições a enfrentar pelo bloco e que dificilmente encontrarão resposta na conferência que está marcada para Kazan, em Outubro de 2024, existe um outro processo, a meu ver, muito mais pernicioso e perigoso para a própria existência do bloco. De uns BRICS com as actuais características e mantendo a capacidade de unir existências políticas que apostam na multilateralidade da sua política externa. Trata-se da situação da India e das razões que estarão subjacentes à visita de Modi a Kiev, ao abraço ao Zelensky e aos maus tratos sofridos e engolidos pelo presidente do país mais populoso, às mãos do ex-presidente do país que mais população perdeu no mundo, em tão curto espaço de tempo. Algumas contagens recentes colocam a Ucrânia com 19 milhões de habitantes. Em 1991 tinha mais de 50 milhões!

Alguns analistas indianos alvitraram a possibilidade do presidente Modi ter visitado a Ucrânia, entre outras coisas, por necessitar de dar conclusão ao processo de modernização e manutenção da frota de aviões Antonov (40 An-32 na Ucrânia e 65 da India), cujos trabalhos decorrem desde 2009. Ao que parece, de acordo com o site The Print, os Russos negam-se a entregar peças para que a Ucrânia conclua os trabalhos em 5 aviões que aí se encontram. O outro motivo da visita ter-se-á centrado na cooperação no domínio da indústria naval, nomeadamente nos que estão relacionados com os motores de navios usados pela India e cuja fábrica Zorya-Mashproekt em Mykolaev foi destruída pelas forças russas em 2022. De acordo com o site Indian Defense News, Modi admitiu as recriminações de Zelensky para que a Bharat Forge compre 51% da Zorya, garantindo assim a produção de turbinas navais a gás. A India também participa da pilhagem à Ucrânia. Ao que parece, desde o início, Modi foi pagar um tributo para lhe ser permitido ficar com uma parte da riqueza nacional da Ucrânia.

Se daqui já dá para ver o caricato da questão e as razões que fizeram Modi ir ao “beija-mão” de Kiev, pretendendo modernizar a sua frota naval de forma a poder fazer frente ao rival Chinês, existem outras situações que não apenas colocam em oposição directa interesses de países do bloco (caso de India contra China, em que a India corre militarmente para apanhar a China e serve de destino para as deslocalizações de empresas que os EUA querem retirar da RPC), mas também, e sobretudo, os que colocam em confronto interesses de países do bloco com os interesses directos dos inimigos da própria multipolaridade: os EUA. Por outro lado, não deixa de ser absolutamente significativo de toda esta complexidade, o facto de a India instalar turbinas ucranianas em fragatas feitas pela Rússia (Fragatas do Projecto 11356 a entregar nos próximos dois anos).

A India actualmente um grande exportador de armamento leve, essencialmente. E quem é o seu maior comprador? Os EUA (a França e Israel também). Muito desse armamento consiste em munições, nomeadamente de 155mm, as munições que mais faltam à Ucrânia. Ora, está bom de ver que a Ucrânia é hoje destino de munições indianas, por via indirecta, se necessário, transitando de Nova Deli para Washington e Paris e, aí, repondo stocks e libertando outras – ou as mesmas – para serem atiradas contra o seu amigo e parceiro “estratégico” russo. Querem uma contradição maior que esta? A India, directa e indirectamente, compra tecnologia militar e fornece armas que vão ser usadas pelo exército contratado pela NATO contra a Rússia. A India, hoje um dos maiores exportadores militares do mundo, tem interesse directo na guerra do Donbass. Uma guerra contra um importante amigo.

E se este “apoio” da India a Kiev, por si só, coloca tudo em termos muito pouco éticos e transparentes, fazendo da hipocrisia e cinismo os principais facilitadores das relações bilaterais e multilaterais nos BRICS, o que dizer do fornecimento de mísseis Brahmos, como anunciado também pelo The Print, às Filipinas? Os Mísseis Brahmos são mísseis cruzeiro supersónicos (Mach 2.8) e foram desenvolvidos num projecto conjunto com a Rússia. Estes mísseis também são anti-navio e serão utilizados pelas Filipinas contra… A China! Mas, não pára aqui: as Filipinas caminham para se tornarem a “Ucrânia” do Mar do Sul da China, usadas pelos EUA como monumental base naval para os eu projecto de “contenção” do gigante asiático. Enfim, os EUA passaram a ter acesso privilegiado a uma das mais avançadas tecnologias de mísseis russa. A nova versão destes mísseis (o Brahmos II) é hipersónica e terá sido uma evolução a partir da primeira versão.

Ora, quando as contradições são políticas, todos relevaram; quando se tornam económicas, muitos desvalorizaram; mas agora, as contradições tornam-se militares e no meio de uma corrida desesperada aos armamentos, da qual nem o Brasil escapa. Todos conhecemos a cobiça das empresas públicas de armamento brasileiras, pelos países da Ordem Baseada em Regras. O Brasil a contribuir para o bombardear da Rússia não seria apenas uma traição, seria uma clarificação da situação.

Não se encontrando, no domínio institucional e regulatório, uma solução para todas estas contradições, um momento haverá em que desta confusão começará a sair alguma claridade. Da tese e a antítese, sairá algum tipo de síntese. Para já, é minha opinião que a Rússia é o maior dos interessados (pelo menos momentaneamente) no sucesso dos BRICS. O segundo grande interessado, é a China. Os BRICS são uma vacina (como a Organização de Cooperação de Xangai) contra as tentativas de isolamento destes dois países, em relação aos restantes países com peso internacional. India e Brasil, têm muito interesse nos BRICS, mas o mesmo é, nestes países, difusamente considerado e conciliado – quase nunca priorizado – com os interesses nas relações de pertença à Ordem Baseada em Regras (casos do G20). A África do Sul vive num limbo parecido, mas tendo ainda menor possibilidade de escolha.

Daí que não seja fácil a resolução destes problemas e o que se passará em Kazan, determinará com que profundidade, Lula e Modi enterraram a farpa no coração da organização. O tempo deixará antever em que medida cada um puxará – ou enterrará – a organização. No caso de nos parecer que a Rússia – e China – puxam mais do que os outros… Não teremos boas notícias para o mundo multipolar.

Esperemos que não seja nada!

Fonte aqui.


O Ocidente, embriagado de poder, cada vez mais à beira do abismo

(Por Mohamed Lamine Kaba in Reseau International, 16/08/2024, Trad. Estátua de Sal)


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A queda do Muro de Berlim em 1989 e a ilusão do fim da Guerra Fria em 1991 marcaram um ponto de viragem na história mundial, conduzindo a um período de hegemonia ocidental caracterizado pela embriaguez do poder. Este período de hegemonia ocidental foi caracterizado por uma série de intervenções militares, pela imposição da democracia liberal e do capitalismo total, e por um maior controlo sobre a economia global. No entanto, este domínio também conduziu a um défice de legitimidade e a crescentes tensões geopolíticas, evidenciando os limites e as contradições desta intoxicação pelo poder.

Contexto Histórico

A intoxicação do poder ocidental desde a ilusão do fim da Guerra Fria é marcada pelo fim da bipolaridade e pela emergência dos Estados Unidos como a única superpotência mundial. A dissolução da União Soviética conduziu a um período de reorganização geopolítica, com a criação de novas instituições e a redefinição de alianças. A globalização e a liberalização económica, comummente referidas como a ocidentalização do mundo, também desempenharam um papel fundamental, conduzindo a uma maior integração das economias e dos mercados. A difusão da democracia liberal e dos valores ocidentais acompanhou este período, enquanto as revoluções tecnológicas transformaram os meios de comunicação, transporte e produção, influenciando as relações internacionais. Este contexto criou um ambiente propício à intoxicação do poder ocidental, caracterizado por uma confiança excessiva na sua capacidade de moldar o mundo de acordo com os seus interesses e valores.

Implicações geopolíticas e geoestratégicas internacionais

As implicações geopolíticas e geoestratégicas internacionais da intoxicação do poder ocidental são múltiplas e complexas. Em primeiro lugar, a dominação ocidental levou a uma resistência crescente por parte das potências emergentes, que procuram defender os seus interesses e desafiar a ordem estabelecida. Isto levou a um aumento da rivalidade no poder e à instabilidade regional, particularmente no Médio Oriente e em África. A Primavera Árabe e a ascensão ao poder de movimentos terroristas, bem como a multiplicação de centros de tensão em África ilustram melhor esta tese. A ascensão do nacionalismo e do protecionismo é também uma consequência da hegemonia ocidental, uma vez que alguns países procuram proteger os seus interesses económicos e culturais. Além disso, a intoxicação do poder ocidental levou a um défice de legitimidade, porque as suas acções são frequentemente percebidas como neocoloniais ou imperialistas. Tudo isto poderá levar a uma reorganização da ordem mundial, com o surgimento de novos atores e novas alianças. Na vanguarda desta reorganização estão os países da Aliança BRICS que partilham o facto de estarem sujeitos, de forma diferente, claro, ao ditame, portanto, ao domínio do mundo ocidental. Já na berlinda da história, o desmoronamento do Ocidente é evidente, especialmente porque já está à beira do precipício.

Impactos económicos, culturais e de segurança globais

A intoxicação do poder ocidental, deve ser dito sem hesitação, teve impactos dramáticos na economia, na cultura e na segurança globais. Economicamente, a dominação ocidental conduziu a uma globalização que beneficiou apenas os países ocidentais, exacerbando as desigualdades entre as nações e no interior das sociedades não ocidentais. Os países em desenvolvimento têm sido historicamente forçados a adotar políticas económicas neoliberais que favoreceram os interesses empresariais ocidentais em detrimento do seu próprio desenvolvimento. Culturalmente, a hegemonia ocidental levou à homogeneização cultural, com a difusão de valores, normas e práticas ocidentais que eclipsaram as culturas locais. Isto provocou reacções de resistência e rejeição, particularmente em países muçulmanos e outros em África, Ásia e América Latina. Na frente da segurança, o domínio ocidental conduziu a uma instabilidade crescente, com intervenções militares e interferências políticas que exacerbaram os conflitos e criaram novos riscos.

A chamada “guerra ao terror”, que espalhou as sementes do terror por todo o mundo, também levou ao aumento da vigilância e da repressão, o que corroeu as liberdades individuais e os direitos humanos.

À luz do exposto, podemos deduzir que a embriaguez do poder do Ocidente desde a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 e as ilusões do fim da Guerra Fria em 1991, gerou consequências dramaticamente profundas e duradouras em todo o mundo. Resultou numa hegemonia que exacerbou as desigualdades, provocou resistência e conflitos e corroeu as liberdades e os direitos humanos.

É essencial reconhecer os limites e perigos desta hegemonia e fazer a transição para uma ordem mundial multipolar mais equitativa, mais democrática e mais pacífica. Isto requer um questionamento dos pressupostos e interesses que sustentam o poder ocidental, bem como uma vontade de dialogar e cooperar com outros intervenientes globais para construir um futuro mais justo e mais seguro para todos. É isso que a Aliança BRICS propõe.

Podemos, portanto, dizer que, através da sua intoxicação pelo poder, o Ocidente é responsável pelos males que a humanidade sofreu durante muito tempo.

Fonte aqui.