Uma sorte dos diabos

(João Gomes, in Facebook, 27/06/2026)


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Em Portugal existe uma expressão antiga: “foi uma sorte do diabo.” Diz-se quando alguém passa anos a tentar abrir uma porta sem conseguir e, de repente, acontece qualquer coisa que faz essa porta escancarar-se sozinha. Não porque tenha vencido o argumento. Não porque tenha conquistado a confiança. Mas porque a realidade resolveu fazer-lhe o trabalho.

É uma expressão curiosa, porque encerra uma ironia: há sortes que vem envolvidas em tanta desgraça que quase parecem uma provocação do destino. E é impossível não pensar nela quando se olha para a Venezuela.

Durante anos ouvimos falar de sanções, bloqueios, isolamento financeiro, ameaças, tentativas de mudança de regime, reconhecimento de governos paralelos, operações clandestinas, recompensas milionárias pela captura dos seus dirigentes, discursos sobre intervenção e sucessivas promessas de que “o fim estava próximo”. Nada disso conseguiu derrubar o poder instalado em Caracas. Pelo contrário. A resistência, goste-se dela ou não, continuou.

E então chegou aquilo que ninguém deseja para povo algum: um terramoto devastador. Não escolheu partidos. Não perguntou em quem votavam as vítimas. Não distinguiu chavistas de opositores. Destruiu casas, hospitais, escolas, estradas, fábricas e vidas. De um momento para o outro, a prioridade deixou de ser a política. Passou a ser sobreviver.

Uma nação que já vivia enormes dificuldades passou a necessitar de praticamente tudo: alimentos, medicamentos, água potável, máquinas, engenheiros, hospitais de campanha, habitação temporária, reconstrução de cidades inteiras e recursos financeiros durante muitos anos.

É nestes momentos que se mede a autenticidade dos discursos. Durante anos, muitos afirmaram falar em nome do povo venezuelano. Onde estão agora? Onde estão os grandes rostos da oposição? Onde estão aqueles que diziam representar o sofrimento do país? Onde estão os empresários milionários que abandonaram a Venezuela levando consigo fortunas consideráveis? Onde estão os dirigentes políticos instalados confortavelmente no estrangeiro? Onde está aquela solidariedade que tantas vezes ocupou conferências internacionais e noticias de jornais? Onde estão María Corina Machado, Juan Guaidó e Edmundo González Urrutia? Limitam-se a apelos simbólicos nas redes sociais?

É precisamente agora que deveria ser visível. Não através de comunicados. Mas através de hospitais. De comboios humanitários. De navios carregados de alimentos. De aviões com medicamentos. De fundos para reconstrução. De regresso ao país para ajudar quem ficou. Porque amar um povo não se demonstra apenas quando é conveniente atacar quem governa. Demonstra-se quando esse povo está soterrado sob os escombros. Naturalmente, também será legítimo perguntar se as grandes potências irão colocar a ajuda humanitária acima dos seus interesses estratégicos.

A História ensina que as grandes reconstruções raramente são apenas exercícios de solidariedade. Muitas vezes tornam-se igualmente oportunidades económicas, financeiras e geopolíticas. Quem financia reconstrói. Quem reconstrói influencia. Quem influencia ganha acesso. É por isso que qualquer processo desta dimensão exigirá transparência e respeito pela soberania venezuelana, independentemente das posições políticas de cada um.

Porque uma tragédia humana nunca deveria transformar-se num concurso internacional de oportunidades.

No meio de tanta destruição, uma verdade permanece. As vítimas não precisam de propaganda. Precisam de cimento. Precisam de água. Precisam de hospitais. Precisam de eletricidade. Precisam de escolas. Precisam de esperança. E talvez seja precisamente agora que se descubra quem realmente estava ao lado do povo venezuelano e quem apenas utilizava o seu sofrimento como instrumento político.

Há tragédias que revelam o melhor da Humanidade. E há outras que expõem, sem qualquer disfarce, a dimensão da nossa hipocrisia. Talvez seja por isso que, olhando para tudo isto, a velha expressão portuguesa nunca tenha parecido tão adequada.

Para alguns interesses, esta foi, infelizmente, “uma sorte dos diabos”. Para os venezuelanos, foi apenas uma imensa tragédia.

“Não há dinheiro para isto, mas há dinheiro para os bancos”

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 28/12/2019)

Pedro Santos Guerreiro

O “isto” é tudo e mais alguma coisa — a frase diz-se por tudo e por nada e é fácil qualificá-la como populista. Pois é. Mas ela é também outra coisa: é verdadeira.

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Os apoios do Estado à banca são sempre excecionais. São todos os anos excecionais. São há 12 anos excecionais. Mas o que é “excecional” há 12 anos já é regra. O próprio Orçamento do Estado apresenta estas transferências como sendo one-off, que é como quem diz, “uma vez sem exemplo”, mas é eufemismo para a opinião pública e jargão para a Comissão Europeia. Mais sincero seria apresentar a coisa como dotações para o Ministério da Banca ou, vá lá, como transferências para o Instituto de Socorro a Náufragos Financeiros. Doze anos depois do primeiro colapso, o do BPN, as transferências continua­rão em 2020, com €600 milhões para o Novo Banco — e veremos se não será mais.

É uma grandeza sem grandiosidade: num Estado submerso em créditos, será usado mais dinheiro no Novo Banco do que na redução da dívida pública. Ou do que no Ministério da Cultura. Ah, e, €5000 milhões depois, a conta desse caso original chamado BPN ainda não está sequer fechada. Quem nos dera que o problema fosse mesmo de “estabilidade emocional” dos banqueiros: alegremente pagaríamos avenças mensais a todas as suas mulheres e maridos se nos poupassem o gasto multimilionário.

Cinco mil milhões para o BPN. €6,3 mil milhões para a Caixa. €4,3 mil milhões para o Novo Banco. €3,4 mil milhões para o Banif. Foram estes os compromissos assumidos pelo Estado numa dúzia de anos, a que se somam outras injeções que foram devolvidas (€3000 milhões para o BCP e €1,5 mil milhões para o BPI) ou que ainda podem sê-lo (€450 milhões no BPP). O total de compromissos aproxima-se, pois, dos €24 mil milhões, dos quais 80% desapareceram como água pela areia seca. Da Caixa ainda haverá dividendos, mas a conta perdulária devia ser escrita numa lápide, sob uma estátua no centro das cidades, para que não seja esquecida: “Aqui jazem 20 mil milhões de euros”; por cima, a estátua do perdedor desconhecido, o contri­buinte anónimo e os lesados em produtos financeiros com risco oculto que lhes devoraram as poupanças.

Quando Costa e Marcelo chegaram aos seus palácios oficiais, em 2015 e 2016, a situação era surdamente ainda calamitosa. Injetou-se dinheiro na Caixa, com Bruxelas a fechar os olhos a ajudas de Estado, o BPI sanou os seus conflitos acionistas ao ser tomado pelos espanhóis do La Caixa, o BCP acalmou a situação de capital, o Banif foi vendido ao Santander e pagou-se para vender o Novo Banco à Lone Star — mas as transferências para o ex-BES não têm fim, parece que de cada vez que se abre uma gaveta se encontra mais um crédito que não será pago, seja a projetos imobiliários ou a empresas de cogumelos. Daí ter evoluído o cenário de venda ou fusão do banco, o que passa por negociar com a Lone Star o desbloqueamento da sua saída, assim abrindo caminho para uma consolidação. O BCP está na linha da frente, pelas sinergias mais óbvias. Se o processo avançar, “sinergias” quererá dizer despedimentos, claro. Mas mesmo que os acionistas se entendam, é preciso que o BCE aprove, e não é fácil Bruxelas aceitar uma fusão com acionistas angolanos e chineses.

O tema marcará o primeiro semestre de 2020, sendo o interesse do Estado o de se desembaraçar das garantias que deu para cobertura de prejuízos futuros, o que vai prolongando o calendário das ajudas à banca. Com a licença do senhor presidente da Assembleia da República, isto, sim, é uma vergonha. Nada excecional. É o mesmo todos os anos: “Não há dinheiro para isto, mas há dinheiro para os bancos.”