As sanções de Biden contra o Afeganistão: matar um povo à fome, cometer genocídio

(Joaquim de Freitas, in Facebook, 21/03/2022)

(Onde andam e andavam os belicistas indignados com a invasão da Ucrânia quando Biden cometeu este crime bárbaro? Não têm pena destas crianças? Calam-se e enfiam a cabeça na areia como a avestruz? Não se sentem nem se sentiram incomodados? Porquê? Eu não quero acreditar que seja porque estas crianças não têm cabelos loiros e olhos azuis. E fico-me por aqui.

Estátua de Sal, 25/03/2022)


Quando os Estados Unidos roubaram US$ 7 bilhões do Afeganistão em 11 de Fevereiro, não foi um simples roubo.

Foi um crime de guerra e um crime contra a humanidade que provavelmente condena milhões de afegãos à fome. Em suma, o prelúdio do genocídio.

Biden hesita na sua desculpa para este roubo total de fundos afegãos, ou seja, compensação para as vítimas do 11 de Setembro.

Não foi o governo afegão que matou os seus compatriotas da WTC de Nova Iorque.

De facto, em 2001, os Talibã ofereceram-se para entregar os culpados da Al-Qaeda a Washington. Os Estados Unidos recusaram esta oferta e invadiram o país.

A ação chocante de Biden torna todos os americanos cúmplices de atrocidades abomináveis.

Segundo a UNICEF, “mais de 23 milhões de afegãos enfrentam fome aguda, dos quais 9 milhões estão à beira da inanição”.

Em meados deste ano, 97% dos afegãos estarão na miséria, segundo estimativas da ONU.

Dizer que essas pessoas precisam de cada centavo dos seus US$ 7 bilhões é um eufemismo.

Dizer que aqueles que roubam metade são monstros é a única avaliação moral de tal roubo. (A outra metade deve-lhe ser devolvida numa data posterior não especificada).

Biden saiu-se melhor do que os salteadores: “A bolsa ou a vida” é a nova mensagem americana, transmitida em tom de autossatisfação.

Esse roubo em particular representa cerca de 40% da economia afegã e cerca de 14 meses de importações afegãs, de acordo com Mark Weisbrot no Sacramento Bee em 4 de Fevereiro.

Mas Biden já havia imposto outras sanções ao país, como presentes de despedida quando as tropas americanas finalmente deixaram o país após 20 anos de destruição.

No geral, as sanções de Biden significam “mais pessoas morrerão... no ano atual do que o número que morreu em 20 anos de guerra”.

Assim, Biden desfez o bem que havia feito ao retirar as tropas americanas do Afeganistão. Os militares retiraram, mas o presidente americano abriu a porta para a fome. E este assassino entrou sem hesitação.

Esse desastre inteiramente causado pelo homem poderia ser evitado, é claro. Levante as sanções. Devolva ao Afeganistão todo o seu dinheiro e vidas serão salvas. Caso contrário, muitas pessoas morrerão.

Dezenas de milhares de cidadãos afegãos foram forçados a fugir em busca de comida e segurança, cinco milhões de crianças enfrentam fome, morte agonizante e dolorosa, um aumento de quinhentos por cento nos casamentos infantis e a venda de crianças apenas para poder sobreviver, e nem uma única menção sobre isso, nem aqui nem em qualquer lugar, sem cobertura televisiva contínua, sem resposta humanitária de emergência, sem plenários, sem rezas nas igrejas do Ocidente.

Meu Deus, eles devem estar se perguntando o que torna a sua crise humanitária tão sem importância. Onde estao os concertos musicais para lhes vir em socorro? Onde estao as missas ao ar livre por estes humanos? Onde estão os cortejos de oferendas?

É a cor da pele deles, é o facto de não serem brancos? Que eles não são europeus? Será porque a decisão de despojar o seu país de sua riqueza foi tomada por um presidente americano despótico e não por um presidente russo?

Porque meu Deus, todas as guerras são ruins, e todas as vítimas valem a pena apoiar, e até que consertemos isso, não teremos credibilidade.”

Levou 20 anostrilhões de dólares e 4 presidentes dos EUA para substituir o Talibã pelo Talibã. Lindo serviço americano !

A lição a ser tirada da derrota dos EUA no Afeganistão e das sanções resultantes é esta: dane-se se o fizer e dane-se se não o fizer.

Os EUA é o pior perdedor do mundo. Derrotado, ele vinga-se de forma atroz.


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Pitágoras e Cabul

(Miguel Romão, in Diário de Notícias, 03/09/2021)

Num jornal, em pleno agosto indolente, noticiava-se uma descoberta que em nada abalará o mundo ocidental: o “teorema de Pitágoras” já era, afinal, conhecido e usado nas terras da Babilónia mais de um milénio antes de o dito grego ter nascido… Não deixará de haver teorema de Pitágoras – era o que faltava haver agora um teorema revisionário, babilónio ou iraquiano. O quadrado do comprimento da hipotenusa parece que é igual à soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos, haja um triângulo retângulo. Mil anos antes ou mil anos depois. Eu não posso absolutamente garanti-lo, mas há quem seguramente o faça.

Ao mesmo tempo, neste aparente agosto que acabou, a presença norte-americana, ocidental, no Afeganistão, fazia o seu fade out definitivo, com os resultados preliminares conhecidos. Não deixa de ser curioso também que muitos dos que se acaloraram pela presença americana no Afeganistão, há duas décadas, sejam também aqueles que hoje se indignam pela sua saída e pelas suas consequências. Pode, talvez, fazer sentido.

Como me explicou em Washington, há uns anos, um diplomata norte-americano, com graça, há políticas americanas definidas para países amigos, para países inimigos e para países “recentemente ocupados pelos Estados Unidos”. Quando já passam duas décadas da ocupação, as políticas tornam-se mais difíceis de estabelecer e de aplicar, porque fogem à matriz e à previsão…

E o que tem isto que ver com o teorema babilónio?

Alguns podem querer ver a conexão em virtude da obsessão ocidental de que tudo de bom por nós foi criado e oferecido ao mundo, sem mácula e sem dúvida, quer a matemática moderna quer a pacificação aparente e transitória de um território sem paz ou sem essa ideia, ocidental, de Estado. A verdade aqui é o menos importante, até porque ela não existe. O que se vê depende sempre de onde se vê. As grandes explorações marítimas dos portugueses e dos espanhóis dos séculos XV e XVI foram antecedidas pelas grandes explorações marítimas dos chineses, por um ou dois séculos, por exemplo, que pelo Ocidente não são conhecidas, ensinadas, enaltecidas.

Aqui, em poucas palavras, não se pretende apoucar o mundo ocidental e as suas invenções e estabelecimentos civilizacionais. Pelo contrário. Para além da ciência e da tecnologia, este espaço foi decisivamente responsável pela estabilização e a generalização, da forma mais universal que conhecemos até hoje, de direitos fundamentais que não devem admitir retrocesso, de modelos de decisão política com participação geral, da laicização da decisão pública e do expurgo da sua apropriação por alguns iluminados de circunstância. E isso é um património extraordinário e que não deve ser menorizado. Na verdade, o Ocidente descolou do ponto de vista do seu desenvolvimento diretamente retribuído às pessoas “comuns” quando diminuiu a sua dependência de uma cartilha de um poder religioso ou pararreligioso ou construído exclusivamente por uma aristocracia fechada e inerte. Uma opinião. Mas diversos espaços do mundo usam ainda esse mesmo esse modelo de poder e de sociedade, mais ou menos cleptocrático, mais ou menos securitário, mais ou menos repressivo. É útil e funcional para muitos – e terrível para tantos outros.

Declarar e defender direitos das pessoas é distinto de atribuir direitos aos Estados, como o Afeganistão bem ilustra no nosso tempo. O teorema já existia antes do seu reconhecimento. E ainda bem. Ninguém o recordará como tal, é certo. No futuro, notar-se-á que houve, talvez, um detalhe arqueológico em 2021, dir-se-á. Ou nem sequer isso. Mas querer ver o que é como se fosse o que seria é sempre um erro, pelo menos para quem tem alguma tendência pela verdade, exista ela ou não.

O paradigma do Estado está seguramente em crise quando as pessoas são excluídas da equação, como sempre se soube – um Estado como poder, território, povo. E quando não há afinal “território, poder, povo”? Sobram, sempre, as pessoas. E, se houver uma decisão a tomar, ela deveria ser a que melhor as defenda. Mas até de si próprias?

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa


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Sei onde estiveste no inverno de há vinte anos

(Francisco Louçã, in Expresso, 24/08/2021)

O tempo pode ser cruel quando a memória nos serve: há vinte anos, um jornal de referência titulava a duas páginas “Guerra ao Islão”, os vigilantes admoestavam severamente quem se atrevesse a duvidar da ordem de Bush, “não há mas”, só a obediência total era permitida. Mário Soares e Maria de Lurdes Pintasilgo, entre quem criticou a ideia selvagem da guerra para impor um regime, foram apontados como capituladores e comparados a Chamberlin perante Hitler. No parlamento, Assis admoestava Soares e comparava-se a si próprio a Churchill em nome do “partido da guerra”, para Cabul todos e em força, enquanto os partidos de direita lamentavam que Portugal não tivesse a força operacional para ajudar a ocupar outros países. Foi-nos garantido que o Bem triunfaria sobre o Mal na senda das bombas que iriam civilizar o Afeganistão.

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Vinte anos depois, esta narrativa tropeça na realidade, mas ainda é enunciada nos recônditos da ideologia. Um dos bilhetistas do Correio da Manhã reduz o caso ao anedótico: “As tropas americanas deviam e podem ser uma força para o Bem. E é por isso que a saída atrabiliária de Cabul dói: aos afegãos na carne, pelo abandono; ao mundo, por ver o Bem recuar”, depois de “duas décadas de belíssima liberdade das mulheres afegãs”. Ora, a “belíssima liberdade” foi um raro privilégio para as poucas mulheres que puderam estudar e, para a maioria das adolescentes, a continuação do analfabetismo e do casamento forçado; a “força para o bem” foi a generosa corrupção que permitiu triplicar a área dedicada à produção do ópio. E, se o Bem tanto fazia pela civilização, porque negociou com o Mal e lhe cedeu o país? E logo o campeão do Bem, Donald Trump, e o seu sucessor, Joseph Biden, irmanados na entrega do poder ao Mal?

Como não há nenhum dos chefes do “partido da guerra” que agora venha dizer que continuará a ocupação, soa a falso toda a sua prosápia recente (quem foi que disse Chamberlin?). Diz Merkel que foram cometidos “muitos erros” e que a “comunidade internacional se enganou por completo na avaliação da situação”. A comunidade internacional, aqui, é a Nato, ou seja, ela própria e os seus aliados.

O que ela não nos diz é se a derrota militar e política podia ser evitada, se é possível criar um regime a partir de uma ocupação estrangeira, ou o que queria fazer depois de criado o problema desde esses dias sinistros em que os EUA e o Paquistão financiaram e apoiaram o que hoje chamamos talibãs, naquele tempo em que a “belíssima liberdade” das mulheres não interessava. Os talibãs são filhos do império e do obscurantismo, quando os meios não olhavam para os fins.

Por isso, dizendo ou não dizendo o que querem fazer agora com os “muitos erros”, o que não nos podem pedir é que esqueçamos como andaram nas últimas décadas a destruir aquele país. Chamem-lhe o Bem e o Mal, mas volta-se a descobrir que entre os que se consideram mais civilizados estão os mais selvagens, que usam a guerra como um brinquedo.


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