Sei onde estiveste no inverno de há vinte anos

(Francisco Louçã, in Expresso, 24/08/2021)

O tempo pode ser cruel quando a memória nos serve: há vinte anos, um jornal de referência titulava a duas páginas “Guerra ao Islão”, os vigilantes admoestavam severamente quem se atrevesse a duvidar da ordem de Bush, “não há mas”, só a obediência total era permitida. Mário Soares e Maria de Lurdes Pintasilgo, entre quem criticou a ideia selvagem da guerra para impor um regime, foram apontados como capituladores e comparados a Chamberlin perante Hitler. No parlamento, Assis admoestava Soares e comparava-se a si próprio a Churchill em nome do “partido da guerra”, para Cabul todos e em força, enquanto os partidos de direita lamentavam que Portugal não tivesse a força operacional para ajudar a ocupar outros países. Foi-nos garantido que o Bem triunfaria sobre o Mal na senda das bombas que iriam civilizar o Afeganistão.

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Vinte anos depois, esta narrativa tropeça na realidade, mas ainda é enunciada nos recônditos da ideologia. Um dos bilhetistas do Correio da Manhã reduz o caso ao anedótico: “As tropas americanas deviam e podem ser uma força para o Bem. E é por isso que a saída atrabiliária de Cabul dói: aos afegãos na carne, pelo abandono; ao mundo, por ver o Bem recuar”, depois de “duas décadas de belíssima liberdade das mulheres afegãs”. Ora, a “belíssima liberdade” foi um raro privilégio para as poucas mulheres que puderam estudar e, para a maioria das adolescentes, a continuação do analfabetismo e do casamento forçado; a “força para o bem” foi a generosa corrupção que permitiu triplicar a área dedicada à produção do ópio. E, se o Bem tanto fazia pela civilização, porque negociou com o Mal e lhe cedeu o país? E logo o campeão do Bem, Donald Trump, e o seu sucessor, Joseph Biden, irmanados na entrega do poder ao Mal?

Como não há nenhum dos chefes do “partido da guerra” que agora venha dizer que continuará a ocupação, soa a falso toda a sua prosápia recente (quem foi que disse Chamberlin?). Diz Merkel que foram cometidos “muitos erros” e que a “comunidade internacional se enganou por completo na avaliação da situação”. A comunidade internacional, aqui, é a Nato, ou seja, ela própria e os seus aliados.

O que ela não nos diz é se a derrota militar e política podia ser evitada, se é possível criar um regime a partir de uma ocupação estrangeira, ou o que queria fazer depois de criado o problema desde esses dias sinistros em que os EUA e o Paquistão financiaram e apoiaram o que hoje chamamos talibãs, naquele tempo em que a “belíssima liberdade” das mulheres não interessava. Os talibãs são filhos do império e do obscurantismo, quando os meios não olhavam para os fins.

Por isso, dizendo ou não dizendo o que querem fazer agora com os “muitos erros”, o que não nos podem pedir é que esqueçamos como andaram nas últimas décadas a destruir aquele país. Chamem-lhe o Bem e o Mal, mas volta-se a descobrir que entre os que se consideram mais civilizados estão os mais selvagens, que usam a guerra como um brinquedo.


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BIDEN, EL FIRME

(Por José Gabriel, 22/08/2021)

As sucessivas comunicações de Biden sobre a situação no Afeganistão lembram aquela velha história do turista que, depois de ser informado sobre a hiena, perguntava: “mas se ela é tão feia, come merda e só faz sexo uma vez por ano, ri de quê?”. Pois.

Biden ufana-se de quê? De onde lhe vem aquela firmeza de pechisbeque pouco condicente com alguém que está, literalmente, de calças na mão? Porque acha um feito tão extraordinário a operação de retirada em curso? Que raio significa o anúncio de que os europeus ficam com os refugiados, dos quais os norte-americanos escolherão, após cuidadoso escrutínio, os melhores – ou os que lhes convêm? Biden, de facto, não consegue garantir nada, não sabe nada sobre o que pode acontecer.

Biden têm as mãos sujas de sangue desde tempos idos em que era um entusiasta das invasões do Iraque – a que a situação actual do médio-oriente está irremediavelmente ligada -, das golpadas sujas na Ucrânia, da tragédia na ex-Jugoslávia, das “primaveras árabes”, das negociatas com os terroristas promovidos a libertadores dentro do velho princípio da política externa norte-americana “são uns filhos da puta, mas são os nossos filhos da puta”.

Biden tenta equilibrar a frágil canoa do seu estatuto de “líder do mundo livre” – o que raio queira dizer tal coisa a que, francamente, nunca vi nenhuma serventia. Lá atrás, em silêncio, a triste da dona Kamala Devi Harris, volátil defensora dos direitos das minorias, de direitos humanos, da igualdade de género – à qual não ouvimos uma palavra que faça uma réstia de diferença, que acenda uma ténue luz neste sombrio cenário.

O império está à rasca, numa palavra. E da insegurança e necessidade de afirmação nunca nasceu nada de bom. Lá longe – no tempo e no espaço – o velho sábio sorri triste e repete: “estes americanos; tanto poder e tão pouca sabedoria”. Nem, diria eu, lhes ocorre a cartesiana ideia de que não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis.


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O nosso almirante fez mais contra o negacionismo…

(Pacheco Pereira, in Sábado, 19/08/2021)

Pacheco Pereira

Não tenho reservas nenhumas quanto às qualidades que fazem com que um homem não se fique e vá defrontar as feras. Como Soares fazia. Aqui foi o nosso almirante dos submarinos que usou um torpedo bem dirigido para atingir os negacionistas, a sua coragem.


… que muitos dos que são complacentes com aquilo que é uma adjacência perigosa do populismo que também alimenta o Chega. Eu tenho reservas quanto à exibição da farda e o sentimento babado diante da tropa que, por estranho que pareça, é próximo do populismo actual. Mas já não tenho reservas nenhumas quanto às qualidades que fazem com que um homem não se fique e vá defrontar as feras. Como Soares fazia. Isso é o tipo de gestos exemplares que faz estragos ao negacionismo que grita que as “vacinas matam” e ajudam a adoecer e a matar os outros. Aqui foi o nosso almirante dos submarinos que usou um torpedo bem dirigido para atingir os negacionistas, a sua coragem. 


A propósito
Nos tempos nefastos em que vivemos no clima político actual, há uma atitude de todo condenável: complacência. O mal tem sempre vantagem, o bem precisa de praticantes e defensores. Sem tréguas. 



O desastre afegão
Há pouco a acrescentar a tudo o que está ser dito nestes dias sobre o desastre afegão. É tudo mau, para as mulheres, para as crianças, para os afegãos, para todos aqueles que foram “talibãs” noutro tipo de escolas, escolas a sério. Há qualquer coisa de profundamente errado na política externa americana e dos seus aliados europeus, como há qualquer coisa de extremamente errado nas opiniões públicas das democracias. Nos EUA e na Europa, há uma grande indiferença com a sorte dos que acreditaram que podia haver um Afeganistão diferente, mesmo com a fragilidade da intervenção externa.

O Afeganistão não foi o Vietname, porque nunca teve a solidariedade que os nacionalistas vietnamitas tiveram na sua longa resistência, numa guerra que encaixava nas divisões políticas e ideológicas da época. A ironia trágica da história é que, com excepção do Irão, ninguém se lhes vai opor e não é por boa causa. Deveríamos, pelo menos, solidarizar-nos com os que estão a fugir da matança religiosa. 


Os pontos

No meio do caos actual da distribuição dos livros, muitos livros nunca se encontram nas livrarias tomadas pelo papel de parede das capas de mau gosto. Por isso, foi com alguma surpresa que encontrei este livro Os Pontos no Teatro Nacional D. Maria II coordenado por Alexandre Pieroni Calado, editado pelo próprio teatro.

Duvido de que muita gente das gerações mais novas e das que estão a deixar de ser novas saiba o que é um ponto. Mas os que fazem o teatro e os que vêem o teatro sabem como o sucesso do espectáculo dependia dos ignorados pontos, que, escondidos do público num buraco, tinham a tarefa de lembrar o texto ao actor. Mas, sei agora por este livro que faziam muito mais do que isso, marcavam tempos, definiam ritmos, muitas vezes com a má vontade dos actores. E havia actores duros de ouvido a quem o ponto tinha de abandonar o seu treino de ciciar, para falar alto. Muitas destas histórias estão neste livro. E também um velho poema elogiando o trabalho humilde do ponto:

Como nunca uma palma me é dada,
E eu entendo que as devo merecer,
Compreendo tamanha estopada…
Venham palmas agora a valer. 

A marciana perseverança e o seu braço voador
Pensava-se que em Marte havia muita coisa a estudar e a conhecer, mas que haveria poucas surpresas. O planeta era o mais escrutinado do sistema solar, várias sondas tinham descido para o solo e algumas tinham tido uma vida útil muito superior ao previsto enviando uma enorme massa de informações. A partir da órbita do planeta, uma cartografia detalhada estava a ser feita. Havia “mistérios” por explicar, mas todos estavam dentro do quadro comparativo com a geologia terrestre, com o que se sabe da atmosfera de Marte e da história do clima do planeta, e dos ensinamentos que traria a uma Terra que todos os dias estragamos afincadamente. Marte, como praticamente tudo fora da Terra (e quase tudo na Terra) era excitante para cientistas e para o público que a NASA tem sabido cativar com a distribuição de fotos e de filmes que mostram a beleza de uma paisagem que não é assim tão diferente na superfície à de um deserto.

Mas a Perseverança e o seu pequeno helicóptero trouxeram genuínas surpresas que não são inexplicáveis, mas que não se sabe ainda o suficiente para as explicar. Para quem é curioso, é um deslumbramento por dia. 

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico


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