Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte IV

(José Catarino Soares, 17/02/2024)

Kiev, 9 de Abril de 2022. Boris Johnson, no papel de deus Mercúrio, encontra-se com Volodymyr Zelensky e outros dignitários ucranianos. Foto:Twitter @AndriyYermak.

7. As incompreensões, erros e omissões de Arestovych

A alegação de Arestovych de que os acontecimentos de Bucha poderão ter sido a razão pela qual Zelensky fez abortar o acordo de Istambul não tem fundamento empírico. A notícia seguinte da Associated Press (AP), datada de 10 de Abril de 2022, intitulada A entrevista da AP: Zelensky procura a Paz apesar das atrocidades, refuta essa alegação:

«Kiev, Ucrânia (AP) – O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse no sábado [dia 9 de Abril de 2022] que está empenhado em fazer força pela paz, apesar dos ataques russos a civis que surpreenderam o mundo, e renovou o seu apelo por mais armas antes de um aumento esperado nos combates no Leste do país. O Presidente fez estes comentários numa entrevista à Associated Press, um dia depois de 52 pessoas, pelo menos, terem sido mortas num ataque a uma estação de comboios na cidade de Kramatorsk, no Leste do país, e quando surgiram provas de assassinatos de civis [em Bucha, n.e.], depois de as tropas russas não terem conseguido tomar a capital, Quieve, onde o Presidente se encontra encurralado. “Ninguém quer negociar com uma pessoa ou pessoas que torturaram esta nação. É tudo compreensível. E como homem, como pai, compreendo-o muito bem”, disse Zelensky. Mas “não queremos perder oportunidades, se as tivermos, para uma solução diplomática”. /…/ [n.e. = nota editorial].

Zelensky disse estar confiante que os ucranianos aceitarão a paz, apesar dos horrores que testemunharam durante a guerra de mais de seis semanas. Entre elas, incluem-se imagens horríveis de corpos de civis encontrados em quintais, parques e praças da cidade e enterrados em valas comuns nos subúrbios de Bucha, em Quieve, após a retirada das tropas russas. Os dirigentes ucranianos e ocidentais acusaram Moscovo de crimes de guerra» [12].

Assim, em 9 de Abril de 2022, à hora que deu a sua entrevista à AP, Zelensky ainda estava firmemente decidido a levar por diante o acordo de Istambul, malgrado o alegado ataque russo a Kramatorsk em 8 de Abril e as alegadas descobertas macabras de civis alegadamente assassinados pelas tropas russas em Bucha.

A verdadeira razão que levou Zelensky a abortar o acordo com a Rússia que tinha sido alcançado em Istambul é outra (que o próprio Arestovych não descarta quando se refereao papel de Boris Johnson) e convém expô-la, uma vez mais, para que não possa desaparecer sem deixar rasto num “buraco da memória” do Ministério da Belicosidade Perpétua (OTAN, em Novilíngua) dos EUA e dos seus aliados-clientes em quatro grandes regiões do planeta (“Ocidente alargado” em Novilíngua).

Na cimeira extraordinária da OTAN de 24 de Março de 2022, em Bruxelas, na qual Joe Biden fez questão em participar, os Estados-membros desta aliança belicista decidem não apoiar a proposta de Zelensky de neutralidade militar e renúncia ao objectivo de aderir à OTAN. Como noticiou o Washington Post de 5 de Abril de 2022:

(A) «Para alguns membros da OTAN, vale mais que os ucranianos continuem a combater e a morrer do que chegar a uma paz demasiado precoce ou demasiado dispendiosa para Kiev e o resto da Europa» [13].

O ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Çavuşoğlu, que organizou as reuniões negociais entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul, foi ainda mais explícito. Em 20 de Maio de 2022, numa entrevista à CNN-Turquia, ao comentar o malogro do Acordo de paz finalizado em Istambul no fim de Março de 2022, Çavuşoğlu afirmou que nunca lhe tinha passado pela cabeça, nessa altura, que a guerra entre a Ucrânia e a Rússia pudesse continuar tanto tempo depois dessas conversações de paz. Mas mudou de ideias mais tarde, porque, acrescentou:

(B) «Após a reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da OTAN, ficou a impressão de que há, entre os países membros da OTAN, quem queira que a guerra continue para conseguir enfraquecer a Rússia» [14].

Não é possível interpretar (A) e (B) se não for desta maneira: para os altos dignitários da OTAN sacrificar centenas de milhares de vidas ucranianas numa guerra para enfraquecer a Rússia não é “demasiado “dispendioso”. Pelo contrário, é um negócio extremamente lucrativo, como o director da CIA, William Burns, nos fez o favor de explicar há poucos dias com um cinismo imbatível:

«A chave do êxito reside na preservação da ajuda ocidental à Ucrânia. Representando menos de cinco por cento do orçamento de defesa dos EUA, é um investimento relativamente modesto com retornos geopolíticos significativos para os Estados Unidos e retornos notáveis para a indústria americana» (“Spycraft and Statecraft”. Foreign Affairs, January 30, 2024).

No entanto, em 27 de Março de 2022, três dias depois da cimeira extraordinária da OTAN, Zelensky defende publicamente a sua proposta de acordo — a mesma proposta que tinha feito à Rússia no início de Março, por intermédio de Naftali Bennett, e que a Rússia tinha aceitado. No dia seguinte, 28 de Março, num gesto de apoio a esse esforço, Putin afrouxa a pressão militar sobre Quieve e Cherniguive, e retira as suas tropas deste sector. Em 9 de Abril, como vimos, Zelensky reitera o seu apoio ao acordo que foi alcançado na Turquia em 3 de Abril (consignado no “Comunicado de Istambul”) e que incorpora a sua proposta inicial. Depois, nesse mesmo dia, ao fim da tarde, Boris Johnson chega a Quieve numa visita-surpresa. A partir daí, tudo muda, como foi já analisado na primeira parte deste artigo, em 12 de Dezembro de 2023.

Em 5 de Maio de 2022, os jornalistas ucranianos Iryna Balachuk e Roman Romaniuk, do jornal ucraniano Ukrayinska Pravda, escreveram:

«De acordo com fontes do Ukrayinska Pravda próximas de Zelensky, o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que apareceu na capital quase sem aviso prévio, trouxe duas mensagens simples: a primeira é que Putin é um criminoso de guerra, deve ser pressionado e não trazido para negociações; e a segunda é que, mesmo que a Ucrânia esteja pronta para assinar alguns acordos de garantias com Putin, eles [os membros do “Ocidente alargado”, n.e.] não estão.

A posição de Johnson era a de que o Ocidente alargado, que em Fevereiro tinha sugerido que Zelensky se rendesse e fugisse, sentia agora que Putin não era tão poderoso quanto imaginavam e que esta era uma oportunidade para o “pressionar”. Três dias depois de Johnson ter partido para a Grã-Bretanha, Putin veio a público dizer que as conversações com a Ucrânia “tinham-se transformado num beco sem saída”» [15]

Numa entrevista que deu à jornalista Natalia Moseichuk, em Novembro de 2023, o chefe da delegação de negociadores ucranianos nas negociações da Turquia, Davyd Arakhamia, corroborou inteiramente este relato dos jornalistas da Ukraisnka Pravda 18 meses antes.  

«Arakhamia: Eles [os membros da delegação russa, n.e.] estavam esperançados, e mantiveram essa esperança até quase ao último momento, que nos obrigariam a assinar um acordo desse género para que assumíssemos a neutralidade. Era o mais importante para eles. Estavam dispostos a acabar com a guerra se nós concordássemos com a neutralidade — como outrora fez a Finlândia — e nos comprometêssemos a não aderir à NATO [= OTAN, n.e.]. De facto, esse era o ponto-chave. Tudo o resto era apenas retórica e “tempero político” sobre a desnazificação, a população de língua russa e blá-blá-blá» [o realce, por meio de traço grosso, foi acrescentado ao original, n.e.]

Arakhamia acrescentou que os “parceiros ocidentais” estavam a par das negociações e que leram os rascunhos dos documentos que foram redigidos enquanto as negociações duraram [17 ou 18 rascunhos sucessivos, segundo confidenciou Bennett na sua entrevista], mas que não tentaram substituir-se à Ucrânia tomando uma decisão por ela. O que fizeram, isso sim, foi dar conselhos, disse.

«Arakhamia: Na verdade, aconselharam-nos a não aceitar garantias de segurança efémeras [da parte dos russos — nota editorial da Ukrainska Pravda], que não poderiam de modo nenhum ser dadas nessa altura».

Mas, logo a seguir, acabou por confidenciar que, vindos de quem vêm, os conselhos desta natureza são ordens para os “Serventes do Povo”:

«Arakhamia: Além disso, quando regressámos de Istambul, Boris Johnson veio a Quieve e disse que nãoíamos assinar com eles [os russos, n.e.] coisíssima nenhuma, vamos mas é lutar contra eles» [o realce, por meio de traço grosso, foi acrescentado ao original, n.e.] [16]

E foi assim que o acordo de Istambul entre a Ucrânia e a Rússia morreu na praia. Foi esse documento que Vladimir Putin mostrou à delegação africana com quem se reuniu em 17 de Junho de 2023. O presidente russo disse nessa ocasião:

«Gostaria de chamar a vossa atenção para o facto de que, com a ajuda do Presidente Erdogan, como sabem, teve lugar na Turquia uma série de conversações entre a Rússia e a Ucrânia, a fim de elaborar tanto as medidas de reforço da confiança que mencionaram, como o texto do acordo. Não acordámos com a parte ucraniana que este tratado seria confidencial, mas também nunca o apresentámos [publicamente], nem o comentámos [publicamente]. Este projecto de acordo foi avalizado pelo chefe da equipa de negociação de Quieve [Davyd Arakhamia, n.e.]. Ele colocou nele a sua assinatura. Aqui está ela» — disse o Presidente russo, mostrando o documento à delegação africana.

De acordo com Putin, o projecto de acordo sobre a neutralidade militar permanente da Ucrânia (incluindo a componente nuclear) e as garantias de segurança da Ucrânia continha 18 artigos, com um anexo onde «tudo está especificado, desde o número de unidades de equipamento militar até ao pessoal das Forças Armadas», disse.

«Assim que a Rússia, conforme tinha prometido, retirou as suas tropas das cercanias de Quieve [num gesto de boa vontade demonstrativo do seu empenho no êxito do acordo, n.e.], a Ucrânia atirou o acordo para o caixote do lixo da história» — acrescentou Putin

(A intervenção completa de Putin nesta ocasião, com legendas em Inglês, pode ser vista e ouvida aqui).

8. As alegadas atrocidades de Bucha e o morticínio de Kramatorsk

Tendo ficado esclarecido, no essencial, o modo como o Acordo de Istambul foi torpedeado e quem o torpedeou, a recomendação de Arestovych («os historiadores terão de encontrar uma resposta para o que aconteceu» na Ucrânia entre 4 e 9 de Abril de 2022) perde grande parte da sua acuidade.

Ficam apenas por averiguar, cabalmente, os acontecimentos que muitos procuraram invocar como explicação para o Acordo de Istambul ter ido por água abaixo: os morticínios de civis em Bucha e Kramatorsk [17]. Mas já tivemos ocasião de ver que se trata de uma pseudo-explicação. Assim sendo, o que resta esclarecer a este respeito não tem que ver com o Acordo de Istambul, mas com a memória dos civis inocentes que poderão, eventualmente, ter morrido inutilmente como pretexto para tentar impedir que ele fosse celebrado. Essa é, de facto, uma tarefa para os historiadores.

Mais imediatamente, caberia a uma equipa internacional multidisciplinar de peritos forenses independentes, competentes e isentos, deslindar (A1) a identidade das vítimas do bombardeamento da estação ferroviária de Kramatorsk e (A2) a autoria do bombardeamento; (B1) a identidade das pessoas assassinadas em Bucha, (B2) quando e como foram assassinadas e porquê, e (B3) a identidade dos assassinos. 

Até lá, remeto os leitores interessados nas respostas a estas questões para a investigação que Michel Collon, com a ajuda do colectivo Test Media International, fez destes dois casos, que qualificou (juntamente com outros 48) de “exemplos de desinformação”. No seu livro, Ukraine, La guerre de Images: 50 exemples de desinformation (Investig’Action, 2023), Michel Collon analisa minuciosamente o caso de Bucha (pp. 182-219) e o caso de Kramatorsk (pp.270-273).  A sua investigação e análise corroboram as de outros autores, portugueses e estrangeiros (todos altamente habilitados pela sua formação escolar e experiência profissional para se pronunciarem sobre casos desta natureza) que tinham analisado esses casos à distância e imediatamente a seguir à sua ocorrência — especialmente o caso de Bucha, que causou uma grande comoção internacional [18].

[continua]


Notas e Referências

[12] Adam Schreck & Mstyslav Chernov, “The AP Interview: Zelenskyy seeks peace despite atrocities”. Associated Press, April 10, 2022.

[13] Michael Birnbaum & Missy Ryan, “NATO says Ukraine to decide on peace deal with Russia — within

limits”. The Washington Post, 5 April 2022.

[14] Handan Kansaci & Rabia Iclal Turan,Some NATO states want war in Ukraine to continue”. AA, 20/04/2022. Ver aqui..

[15] “Possibility of talks between Zelensky come to an halt after Johnson’s visit”. Ukrainska Pravda, 5 May 2022).

[16] A entrevista a Arakhamia pode ser vista aqui [https://www.youtube.com/watch?v=6lt4E0DiJts] para quem saiba ucraniano. Os trechos citados das declarações feitas por Arakhamia durante essa entrevista foram extraídos da transcrição feita pelo jornal ucraniano Ukrayinska Pravda na sua edição inglesa, em 24 de Novembro de 2023.

[17] Nos dias 5 e 6 de Abril de 2022, a Rússia negou a autoria destes morticínios. «Num vídeo publicado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Lavrov argumenta que as alegações de atrocidades russas em Bucha e noutros municípios ucranianos estão a ser fabricadas para sabotar o processo de negociação. Lavrov afirma: “Estamos inclinados a pensar que a razão é o desejo de encontrar um pretexto para interromper as negociações que estão a ser conduzidas” e afirma que a Ucrânia “tentou interromper completamente o processo de negociação” depois de os meios de comunicação social internacionais terem divulgado alegações de crimes de guerra» (“Ukraine-Russia Ceasefire Negotiations: Chapter II”. Parley Policy Initiative, May 24, 2022). [18] Refiro-me, entre outros, aos seguintes artigos: Raul Cunha, “Desinformação e perfídia, é o que temos na comunicação social” (Estátua de Sal,3/04/022);); Joe Lauria,“Questions abound About Bucha Massacre” (Consortium News, April 4, 2022); Scott Ritter, “The truth about Bucha is out there, but perhaps too inconvenient to be discovered” (RT, April 4, 2022); “Interview with Scott Ritter, by Don Bar”(YouTube, April 6, 2022, https://www.youtube.com/watch?v=kfHohl6gCJY); Jason Michael McCann, “The Bucha Massacre” (Standpoint Zero, 4 April 2022, https://standpointzero.com/2022/04/04/the-bucha-massacre/);   Jason Michael McCann, “The Anatomy of a Russian Massacre” (StandPoint Zero, 7 April 2022, https:// standpointzero.com/2022/04/07/the-anatomy-of-a-russian-massacre/);Carlos Branco, “As inteligências inúteis e as interrogações necessárias” (Público,15/04/2022); Tony Kevin, “Lies, truth, and forensics in Ukraine. The case of Bucha” (The Floutist, 16/04/2022, https://thefloutist.substack.com/p/lies-truth-and-forensics-in-ukraine); Jean Neige, “Retour sur les allégations de crimes de guerre russes en Ukraine: Boutcha (3/6)”(France Soir, 7 septembre 2022); Alexandre Guerreiro,“Valas comuns” ? Não. Fake news que nem 24h duraram” (Estátua de Sal, 16/09/2022); Scott Ritter, “Bucha, Revisited” (Scott Ritter Extra, 21 October 2022, https://www.scottritterextra.com

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Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte III

(José Catarino Soares, 13/02/2024)

Oleksiy Arestovych numa das suas intervenções diárias como “terapista-mor” da Ucrânia, antes de ter caído em desgraça, em Janeiro de 2023.

3.3. A recomendação e a profecia de Arestovych em 18 de Fevereiro de 2019

A recomendação de Arestovych foi a de que a presidência de Zelensky (que na altura era apenas um simples candidato a esse cargo e cuja candidatura Arestovych apoiou) deveria pedir à OTAN(/NATO) um “Plano de Acção para a Adesão Individual” (Ingl. “Membership Action Plan”) a esta aliança militar. Esse pedido, frisou Arestovych, não poderia deixar de desencadear como resposta uma invasão da Rússia, razão pela qual a Ucrânia deveria empenhar-se «numa guerra total com a Rússia», como «preço a pagar para a entrada da Ucrânia na OTAN” e, sobretudo, como sua recompensa com “base na vitória” da Ucrânia.

Esta confiança ‒ auto-ilusória e auto-intoxicante, como se viu ‒ na vitória da Ucrânia nessa guerra com a Rússia, decorria, declarou Arestovych nessa entrevista, da certeza de que a Ucrânia seria «muito activamente auxiliada pelo Ocidente — com armas, equipamento, assistência, novas sanções contra a Rússia e, muito possivelmente, a introdução de um contingente da OTAN, a interdição do espaço aéreo da Ucrânia [pela OTAN], etc. Nós não perderemos e isso é bom».

A profecia de Arestovych, que se revelou certeira, foi a de que essa guerra começaria em 2021 ou 2022, quando a Rússia se convencesse de que teria de desmilitarizar (anular o poderio militar) a Ucrânia e neutralizar a potencial ameaça nuclear que a Ucrânia representava [7] antes de esta ser admitida como membro de pleno direito na OTAN e de maneira a impedir que isso acontecesse [8].

(O trecho mais importante da entrevista de Arestovych de 2019 pode ser visto e ouvido, com legendas em Inglês, aqui.

Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de Fevereiro de 2022, até Janeiro de 2023, Arestovych fez pontos de situação diários em vídeo sobre a evolução da guerra, na qualidade de assessor e porta-voz do Gabinete do Presidente da Ucrânia. Esses vídeos, quase sempre ultra-optimistas (“vamos ganhar”, “estamos perto da vitória”, “Putin vai ser afastado”, etc.), juntamente com a certeira profecia de 2019, granjearam-lhe a alcunha de “terapeuta-mor” da Ucrânia (por levantar o moral da sua população, acabrunhada pelas agruras da guerra) e um enorme número de seguidores: cerca de 700 mil no FaceBook, 1 milhão no Instagram e mais de 1,6 milhões no YouTube [9].

Todavia, o aspecto importante a salientar para o propósito deste artigo é o facto de Arestovych ter sido, tal como Oleksandr Chalyi e Davyd Arkhamia, um dos membros da delegação da Ucrânia nas negociações de paz com a Rússia que tiveram lugar na Turquia em Março-Abril de 2022.

4. O testemunho de Chaliy: “Putin fez tudo para conseguir um acordo”

O outro ponto a salientar ‒ e bem mais importante para o propósito deste artigo ‒ é que os testemunhos de Davyd Arakhamia e Gehrard Schröeder (eles próprios antecedidos pelo testemunho de Naftali Bennett, ex-primeiro ministro de Israel em 4 de Fevereiro de 2023) foram corroborados pelos recentes testemunhos de Oleksandr Chaliy e Oleskiy Arestovich.

Numa conferência realizada na Suíça, em 5 de Dezembro de 2023, pelo Geneva Centre for Security Policy (GCSP), o embaixador Chaliy afirmou:

«Eu fazia parte, nesse momento, do grupo de negociadores ucranianos que negociámos com a delegação russa praticamente durante 2 meses, em Março e Abril [de 2022], um possível acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Como se lembrarão, nós finalizámos o chamado “Comunicado [=Acordo] de Istambul” e estávamos muito perto, no meio de Abril e no fim de Abril [é evidente que se trata, aqui, de um lapso verbal do embaixador Chaliy, que teria querido dizer “no meio de Março e no fim de Março,” n.e.], de alcançar o nosso objectivo de celebrar um acordo de paz. Por alguma razão, o acordo foi revogado. Mas, no meu entendimento ‒ esta é a minha opinião pessoal ‒ Putin, uma semana depois de ter iniciado a sua agressão em 24 de Fevereiro do ano passado, rapidamente compreendeu que tinha cometido um erro [ao fazê-lo] e tratou de tentar tudo o que era possível para concluir um acordo com a Ucrânia. Foi uma decisão pessoal dele aceitar o texto do comunicado de Istambul, que se afasta completamente da proposta inicial, do ultimato que a Rússia apresentou à delegação da Ucrânia em Minsk. Por conseguinte, ele conseguiu realizar um compromisso muito sério e, portanto, Putin quis realmente chegar um acordo de paz com a Ucrânia. É muito importante lembrá-lo» [o destaque, por meio de negrito, foi acrescentado ao original, n.e.] [n.e. = nota editorial]

(O depoimento de Chaliy pode ser visto e ouvido, em Inglês, aqui. O trecho citado começa no momento 28m13s e termina no momento 29m39s).

5. As incompreensões, erros e omissões do embaixador Chaliy

O embaixador Chaliy parece incapaz de compreender (ou sequer admitir como hipótese plausível) que a denominada “operação militar especial” (OME) da Rússia em 24 de Fevereiro de 2022 se destinava, num primeiro tempo, não a tomar Quiev (como fantasiosamente alvitram tantos comentadores de meia-tijela), mas a levar a Ucrânia rapidamente à mesa das negociações. No entanto, foi isso exactamente o que aconteceu.

No dia seguinte à entrada das tropas russas na Ucrânia, Zelensky (e não Putin, como sugere Chaliy) propôs negociações com a Rússia, que foram aceites. A primeira reunião foi realizada quatro dias após o início da OME, em 28 de Fevereiro de 2022, na cidade de Gomel, na Bielorrússia. Terminou sem resultado, com as delegações de ambos os lados regressando às suas capitais para consultas. A segunda e terceira rondas de negociações ocorreram em 3 e 7 de Março de 2022, em Brest, outra cidade da Bielorrússia perto da fronteira com a Ucrânia. A quarta e quinta rondas de negociações foram realizadas em 10 de Março, em Antália, na Turquia, e em 12 de Março por videoconferência. A sexta ronda ocorreu em 29-30 de Março, em Istambul, prolongando-se pelos dias seguintes de Abril, desta vez com os resultados relatados por Arakhamia e Schröeder.

Mas não podemos de modo nenhum escamotear o que viemos a saber em 4 de Fevereiro de 2023 (pela boca de Naftali Bennett). É um assunto sobre o qual o embaixador Chaliy não diz uma palavra, a saber: logo na primeira semana de Março de 2023, Naftali Bennett (na altura, primeiro-ministro de Israel) foi contactado por Zelensky, que lhe pediu para mediar um acordo entre a Ucrânia e a Rússia. Bennett aceitou o pedido e conseguiu realizá-lo com êxito. Em 4 de Março, Bennett encontra-se com Putin em Moscovo e negoceia com ele um acordo. Nesse acordo, Putin garantia que não tinha quaisquer planos para assassinar ou derrubar Zelensky do poder (um receio que Zelensky expressou publicamente em 24 de Fevereiro de 2022 e que Bennett transmitiu a Putin) e deixava cair a exigência de “desmilitarização” da Ucrânia. Por seu turno, Zelensky comprometia-se a adoptar um estatuto de neutralidade militar para a Ucrânia, em que esta renunciava concomitantemente ao objectivo de entrar na OTAN [10]. Por conseguinte, a terceira, quarta e quinta rondas de negociações decorreram já sob o signo desse acordo preliminar entre os dois Presidentes. 

O embaixador Chaliy afirma que o acordo entre a Ucrânia e a Rússia «foi revogado por alguma razão». Só não diz por quem (Zelensky!), nem qual a razão: a interferência directa e avassaladora do “Ocidente”, mais concretamente ‒ como revelaram Bennett, Arakhamia e Schröeder ‒ dos EUA, Reino Unido (com Boris Johnson no papel de deus Mercúrio), a Alemanha e França. Não obstante, e esse é o ponto importante do seu depoimento, Chaliy faz questão de frisar que Putin fez tudo o que era possível para que esse acordo fosse feito.

6. O testemunho de Arestovych: “o acordo era tão bom que abrimos uma garrafa de champanhe”

O segundo testemunho é de Arestovych, numa entrevista datada de 15 de Janeiro de 2024, e vai no mesmo sentido.

Arestovych: Sim, fui membro do processo de Istambul e foi o acordo mais proveitoso que podíamos ter feito. /…/ Mas agora — não sei. Porque a meio do acordo em Istambul viemos para Quieve e depois de Bucha ouvimos o Presidente [Zelensky] dizer que tínhamos parado as negociações. A próxima reunião deveria ter lugar no dia 9 de Abril e foi recusada no dia 2 de Abril.

Entrevistador: Então o senhor regressou de Istambul pensando que as negociações tinham sido bem sucedidas?

Arestovych: Sim, completamente. Abrimos uma garrafa de champanhe. Tínhamos discutido a desmilitarização, a desnazificação, questões relativas à língua russa, à igreja russa e muito mais. Nesse mês,

a questão do número de forças armadas ucranianas em tempo de paz foi discutida e o Presidente Zelenskyy disse: «Posso decidir esta questão indirectamente com o Sr. Putin». Os acordos de Istambul eram um protocolo de intenções e estavam 90% preparados para um encontro directo com Putin. Esse seria o passo seguinte das negociações.

Entrevistador: Qual foi a sequência e como é que Bucha fez descarrilar esse processo?

Arestovych: De facto, não sei. O Presidente ficou chocado com Bucha. Todos nós ficámos chocados com Bucha. Eu estava em Bucha no segundo dia, quando as forças russas foram repelidas. Zelensky mudou completamente de cara quando chegou a Bucha e viu o que tinha acontecido. Muitas pessoas dizem que foi o Primeiro-Ministro Boris Johnson que veio a Quieve e pôs fim às negociações com a Rússia. Não sei exactamente se isso é verdade ou mentira. Ele foi a Quieve, mas ninguém sabe do que falaram, excepto, penso eu, Zelensky e o próprio Boris Johnson. Penso que foi no dia 2 de Abril, e eu estava em Bucha no dia seguinte. O Presidente chegou um dia depois, por isso pode ter sido no dia 4 de Abril, e a reunião seguinte seria no dia 9 de Abril. Portanto, alguma coisa aconteceu nesses cinco dias. Mas os membros do grupo de negociações interromperam todas as negociações. Quando perguntámos como poderiam ser retomadas, o Presidente disse: “Algures, um dia, mas não agora”.

Entrevistador: Então, alguma coisa fez Zelensky mudar de ideias?

Arestovych: Sim, absolutamente. E os historiadores terão de encontrar uma resposta para o que aconteceu.

Entrevistador: Mas acha que a Rússia foi sincera? Ter-se-ia mantido fiel a esse acordo negociado?

Arestovych: Os russos mostraram-se disponíveis para continuar as negociações e nós recusámos. /…/ [11] [destaque, por meio de negrito, acrescentado ao original, n.e.].

(A entrevista de Arestovych pode ser vista e ouvida, em Inglês, aqui. O trecho citado começa no momento 35m34s e termina no momento 41m30s).

[continua]


Notas e Referências

[7] Em 15 de Abril de 2021, Andriy Melnyk, embaixador da Ucrânia na Alemanha, anunciou a intenção da Ucrânia de se dotar de armas nucleares, caso não fosse integrada na OTAN a breve trecho. «Ou fazemos parte de uma aliança como a OTAN e damos o nosso contributo para reforçar esta Europa, ou só temos uma opção: rearmarmo-nos. De que outra forma poderíamos garantir a nossa defesa?», disse Melnyk, citado pela agência noticiosa alemã DPA (cf. “Ukraine may seek nuclear weapons if left out of NATO”, Aljazeera, 16 April 2021; “Ukraine Gave Up a Giant Nuclear Arsenal 30 Years Ago. Today There Are Regrets”. New York Times, February 5, 2022). Em 19 de Fevereiro de 2022, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, discursando na Conferência sobre Política de Segurança de Munique, reafirmou a intenção da Ucrânia de se dotar de armas nucleares e de renunciar assim, na mesma passada, ao estatuto de neutralidade militar que a Ucrânia aceitara ao subscrever o “Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança” (1994) e que tinha cumprido até então. Zelensky declarou que esse memorando estava obsoleto (cf. “Zelensky’s full speech at Munich Security Conference”. The Kyiv Independent, February 19, 2022).

[8] Para a boa compreensão desta profecia de Arestovych, convém recordar dois factos: um sobre a preparação da Ucrânia para uma grande guerra com a Rússia ‒ adiante referido como A ‒ e outro sobre o momento propício para o começo dessa guerra, adiante referido como B

A) Com o auxílio de instrutores e conselheiros militares da OTAN (/NATO) e de oito dos seus Estados-membros (com destaque para os EUA, o Canadá e o Reino Unido), foram treinados 10.000 soldados ucranianos por ano, durante oito anos, a partir de 2014, num centro de treino de 288 km2 em Yavoriv, a 16 km da fronteira polaca (“The Secret of Ukraine’s Military Success: Years of NATO Training.” Wall Street Journal, April 13, 2022). Em 24 de Março de 2021, Zelensky promulga o decreto n.º 117/21 que define o objectivo e a estratégia para reanexar a Crimeia (incluindo Sebastopol), uma república autónoma (e uma cidade federal) da Federação Russa.

B) O artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, base da OTAN (/NATO), diz o seguinte: «As Partes concordam em que um ataque armado contra uma ou várias delas na Europa ou na América do Norte será considerado um ataque a todas, e, consequentemente, concordam em que, se um tal ataque armado se verificar, cada uma, no exercício do direito de legítima defesa, individual ou colectiva, reconhecido pelo artigo 51.° da Carta das Nações Unidas, prestará assistência à Parte ou Partes assim atacadas, praticando sem demora, individualmente e de acordo com as restantes Partes, a acção que considerar necessária, inclusive o emprego da força armada, para restaurar e garantir a segurança na região do Atlântico Norte».

Como declarou na sua famosa entrevista de 2019, Arestovych entendia que a Ucrânia e a Rússia tinham uma avaliação coincidente (embora por razões distintas) do momento propício para começar uma guerra entre ambas. Para a Ucrânia, esse momento seria necessariamente ANTES da sua admissão na OTAN, precisamente porque esse seria o preço a pagar pela sua admissão na OTAN, a qual, por sua vez, seria a recompensa que a Ucrânia teria se alcançasse uma vitória sobre a Rússia. Para a Rússia, esse momento seria também, necessariamente, antes da admissão da Ucrânia na OTAN, porque se fosse depois dessa data, a Ucrânia poderia invocar o artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte a fim de assegurar a sua defesa. A entrevista completa de Arestovych, com legendas em Inglês, pode ser vista aqui [https://www.youtube.com/watch?v =1xNHmHp ERH8]. O trecho mais relevante começa no momento 7m15segundos.

[9] Estes números variam segundo a fonte consultada: “Olekseiy Arestovych”, Wikipedia em Inglês; Dmytro Oliinyk, “Zelenskyi’s spokesperson: soldier, actor, psychologist, propagandist.” OpenDemocracy, 26 April 2022; Emmanuel Grynszpan, “Who is Oleksiy Arestovych, the ‘shrink’ raising Ukrainian morale?” Le Monde, 23 Septembre 2022. Optei pelos valores máximos de cada uma delas. Sobre a alcunha de “terapeuta-mor” atribuída a Arestovych, ver Konstantin Skorkin, “The rise and fall of Ukraine’s ‘therapist-in-chief’: Zelensky adviser Oleksiy Arestovych is out of a job, but likely not for long”. Meduza, January 20, 2023.

[10] Ver “Bennett speaks out” [https://www.youtube.com/watch?v=qK9tLDeWBzs]. O trecho interessante para o assunto deste artigo vai do momento 2h31m22s até ao momento 3h00m39s, em que Bennett descreve o acordo entre Putin e Zelensky feito com a sua mediação, e como os EUA, o Reino Unido, a França e a Alemanha impediram que fosse por diante.

[11] Freddie Sayers, “Oleksiy Arestovych: Zelenskyy’s challenger.” Unherd, January 15, 2024.


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Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos – Parte II

(José Catarino Soares, 12/02/2024)

Valodymyr Zelensky, fotografado em 9 de Abril de 2022, o dia em que tomou a decisão mais vil da sua carreira política e a mais desastrosa para os destinos da Ucrânia.

  1. Introdução 

Em 12 de Dezembro de 2023, publiquei um extenso artigo, intitulado: “Em 9 de Abril de 2022, Zelensky preferiu a guerra à paz pelos motivos mais mesquinhos” (ver aqui). Nesse artigo, divulguei e interpretei dois testemunhos de peso de um facto da máxima relevância ‒ aquele que é enunciado no título do artigo ‒ que o sistema mediático dominante da comunicação social em Portugal não achou por bem dar a conhecer ao público português.

Neste artigo, que é a continuação do artigo de 12-12-2023, divulgo e interpreto mais dois testemunhos de peso, mais recentes, relativos a esse mesmo facto, os quais, uma vez mais (salvo melhor inventariação), o sistema mediático dominante da comunicação social em Portugal não se dignou dar a conhecer ao público português.

Isto, não obstante a sua enorme importância para a boa compreensão das duas guerras na Ucrânia — a que começou em 13 de Abril de 2014 (entre a Ucrânia e as então recém-proclamadas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk na região da Donbass) e a que começou em 24 de Fevereiro de 2022, entre a Rússia e a Ucrânia, com a “Operação Militar Especial” (OME) da Rússia, antes de se fundirem, militarmente, uma com a outra em Fevereiro de 2023.

Como o artigo é muito extenso, vou dividi-lo em 4 partes (2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª) para facilitar a sua leitura. Esta é a 2.ª parte, já que o artigo de 12-12-2023 passou a ser a 1.ª parte por retroacção.

2. Lembrete

Os testemunhos a que me referi no artigo de 12 de Dezembro de 2023 são declarações públicas de duas pessoas: (i) Davyd Arakhamia, chefe do grupo parlamentar do partido Servente do Povo (o partido  fundado pelo presidente Volodymyr Zelensky) e chefe da delegação da Ucrânia nas negociações com a Rússia que tiveram lugar na segunda quinzena de Março de 2022, na Turquia, com vista a alcançar um acordo de paz entre os dois países; (ii) Gerhard Schröeder, ex-chanceler da Alemanha (1998-2005), que participou nessas negociações como mediador, a pedido da Ucrânia.

Estes dois homens declararam ambos, publicamente ‒ em 24 de Novembro de 2023 e 21 de Outubro de 2023, respectivamente (cf. fontes indicadas no artigo referido na Introdução) ‒ que a Ucrânia e Rússia tinham chegado a um acordo para pôr termo ao conflito armado entre ambas em Março-Abril de 2022 e que esse acordo de paz era, atendendo às circunstâncias, altamente favorável à Ucrânia.

3. As bases do acordo de Março-Abril de 2022

Porquê? Porque as principais exigências de que a Rússia não abria mão eram (a) a adopção pela Ucrânia de um estatuto de neutralidade político-militar (semelhante, por exemplo, ao da Áustria); e (b) a sua desvinculação total da OTAN (NATO em Inglês). Por outras palavras, a Ucrânia renunciaria a todos os acordos actuais com a OTAN e a qualquer plano futuro de adesão à OTAN, e comprometer-se-ia a não instalar armas nucleares (de fabrico próprio ou alheio) no seu território, nem acolher instalação de bases militares estrangeiras ou contingentes de tropas estrangeiras no seu território.  Repare-se que, para cumprir esta parte do acordo, a Ucrânia teria, entre outras coisas, de revogar três artigos da sua Constituição (os artigos 85, 102 e 116) que prescrevem aos seus órgãos de governação a obrigação de tudo fazerem para a Ucrânia ser aceite como Estado-membro de pleno direito da OTAN.

Em troca, (i) ser-lhe-iam dadas garantias de segurança por vários Estados (como, por exemplo, os EUA, o Reino Unido e a França [membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU] a Turquia, a Alemanha, o Canadá, a Itália e Israel — segundo declarações feitas na altura por Davyd Arakhamia à imprensa, por Mykhailo Podolyak no Tweeter e segundo o testemunho de Schröeder em 21 de Outubro de 2023) ; (ii) haveria um cessar-fogo imediato; (iii) a Rússia abdicaria do objectivo da “desmilitarização” da Ucrânia [entender: a redução das suas Forças Armadas à  porção côngrua] e (iv) retiraria as suas tropas para fora das fronteiras da Ucrânia em 23 de Fevereiro de 2022 (que, convém lembrar, não abrangiam uma parte da Donbass [a parte pertencente às Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk] e a Crimeia) [1].

O acordo previa ainda (??) [2], por proposta da Ucrânia, mais de uma década de negociações posteriores para discutir questões litigiosas (Crimeia [incluindo Sebastopol] e Donbass) sobre as quais as duas partes tinham e têm entendimentos antagónicos. Segundo o testemunho de Schröeder, a Crimeia estava fora de questão por ser há séculos parte do território e da história da Rússia: a Rússia nunca abdicaria dela [3]. Mas estaria disposta negociar um estatuto autonómico para a população russa, russófona e russófila da Donbass no âmbito da Ucrânia. Mais concretamente (segundo o testemunho de Schröeder), as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, onde vive uma grande parte dessa população, obteriam um estatuto de autonomia no seio da Ucrânia semelhante à do Tirol do Sul em relação à Itália, que garantiria os seus direitos linguísticos, culturais, legislativos e administrativos.

Para se entender esta proposta, convém saber que o Alemão é, a grande distância, o idioma maioritário do Tirol do Sul (também conhecido como Província Autónoma de Bolzano ou Alto-Ádige), seguido do Italiano, o idioma maioritário na Itália. As línguas alemãs e italiana são ambas línguas oficiais em todo o Tirol do Sul — tal como eram o Russo e o Ucraniano na Donbass e nos demais oblasti russófonos e russófilos do Leste e Sul da Ucrânia, antes do golpe de Estado de Maidan (Fevereiro de 2014). No Tirol do Sul, o ladino (um idioma românico muito minoritário) é também oficial em algumas comunas. Todos os cidadãos do Tirol do Sul têm o direito de se exprimir na sua língua materna nas suas relações com a administração pública e com os órgãos autonómicos de poder, inclusive nos tribunais e perante um juiz. Existem escolas separadas para cada grupo linguístico e a sinalética do espaço público (edifícios públicos, repartições administrativas, sinais de trânsito, etc.) e semipúblico (lojas, restaurantes, cinemas, etc.) é quase inteiramente bilingue ou, por vezes, trilingue.

Repare-se que para acolher uma autonomia da Donbass (Repúblicas de Donetsk e Lugansk) semelhante à do Tirol do Sul, a Constituição da Ucrânia teria de ser profundamente revista, como, aliás, estava já previsto no artigo 11 do Acordo de Minsk-2 (2015), mas que a Ucrânia nunca cumpriu [4]

3. Mais duas testemunhas de peso

Relativamente às negociações de paz entre a Ucrânia e a Rússia que tiveram lugar na Turquia em Março-Abril de 2023, entraram em cena recentemente mais duas testemunhas de peso: Oleksandr Chaliy e Oleksiy Arestovych.

Istambul, 29 de Março de 2022. Na foto vêm-se vários membros da delegação ucraniana nas negociações russo-ucranianas. O primeiro homem a contar da esquerda, é o embaixador Oleksandr Chaliy; o segundo homem é Davyd Arakhamia, chefe dessa delegação e chefe do grupo parlamentar do partido Servente do Povo (o partido fundado pelo presidente Volodymyr Zelensky); o quarto homem é Mykhailo Podolyak, assessor do chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia; o quinto homem é Rustem Umierov, actual ministro da Defesa da Ucrânia. Não consegui identificar o terceiro homem. Foto: Lokman Akkaya/Anadolu Agency via Getty Images.

3.1. Oleksandr Chaliy

Oleksandr Chaliy é um embaixador veterano que foi primeiro vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Secretário de Estado para a Integração Europeia e Conselheiro para a Política Externa do Presidente da Ucrânia. Actualmente, Chaliy é Presidente da Grant Thornton (uma empresa multinacional de auditoria, fiscalidade e consultoria) na Ucrânia e membro do Painel de Personalidades Eminentes da Organização de Segurança e Cooperação Europeia (OSCE), para onde foi nomeado em 2014. Foi um dos membros da delegação da Ucrânia nas negociações com a Rússia que tiveram lugar na Turquia, em Março-Abril de 2022.

3.2. Oleksiy Arestovych

Oleksiy Arestovych é um major (?) ou tenente-coronel (?) na reserva [5] que trabalhou, entre 1994 e 2005, na Direcção Central de Informações do Ministério da Defesa da Ucrânia (um serviço secreto de informações do governo, não do Estado-Maior General das Forças Armadas da Ucrânia). Quando a população russa, russófona e russófila dos oblasti do Leste e do Sul da Ucrânia (i) se revoltou contra o golpe de Estado de Maidan (Fevereiro de 2014) que derrubou o presidente eleito Viktor Yanukovytch e contra a abolição pelos golpistas do Russo como idioma co-oficial (juntamente como o Ucraniano) nesses oblasti e (ii) proclamou, na região da Donbass, as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, Arestovych ‒ segundo o seu próprio relato ‒ juntou-se à guerra da Ucrânia contra os revoltosos, participando em 33 missões de combate  [6].

Em 28 de Outubro de 2020, Arestovych foi nomeado conselheiro para a política de informação e porta-voz oficial da delegação ucraniana no Grupo de Contacto Trilateral sobre a Ucrânia nas conversações de Minsk sobre a resolução da guerra na Donbass. Em 1 de Dezembro de 2020, o Chefe do Gabinete do Presidente Zelensky, Andriy Yermak, nomeou Oleksiy Arestovych como seu conselheiro para as comunicações estratégicas no domínio da segurança e defesa nacional. Arestovych exerceu este cargo até Janeiro de 2023, altura em que se demitiu. Após o início da invasão da Ucrânia em 2022 pela Rússia, Arestovych tornou-se internacionalmente conhecido por uma recomendação e uma profecia que fez, com o maior cinismo, durante uma entrevista ao canal de televisão ucraniano “Apostrophe.ua,” em 18 de Fevereiro de 2019.

[continua]


Notas e Referências

[1] Este relato foi também corroborado, um tanto surpreendentemente, por um artigo de Fiona Hill (ex-directora sénior para a Europa e a Rússia do Conselho Nacional de Segurança dos EUA) e Angela Stent (directora do Centro de Estudos Eurasianos, Russos e do Leste Europeu da Universidade Georgetown, em Washington D.C). No meio das suas muitas lucubrações fantasistas sobre Putin e a Rússia, alimentadas pela sua proverbial russofobia, a senhora Hill e sua colega Stent confidenciam-nos que obtiveram informações fidedignas junto de «múltiplos ex-dignitários americanos» [entenda-se: membros do Conselho Nacional de Segurança, CIA e Pentágono que continuam no activo, mas que fazem questão em falar como se estivessem reformados] com quem falámos em Abril de 2022» sobre o que estava a passar nas negociações entre a Ucrânia e Rússia. E ficaram a saber o seguinte: «Os negociadores russos e ucranianos parecem ter chegado a um acordo provisório sobre as linhas gerais de um acordo provisório negociado: a Rússia regressaria à sua posição de 23 de Fevereiro, quando controlava parte da região da Donbass e toda a Crimeia, e, em troca, a Ucrânia prometeria não procurar adesão à NATO e, em vez disso, receberia garantias de segurança de uma série de países» (Fiona Hill & Angela Stent, “The World Putin Wants: How Distortions About the Past Feed Delusions About the Future”. Foreign Affairs, September/October 2022). Apesar de reconhecerem os factos essenciais do acordo de Março-Abril de 2022 entre a Rússia e a Ucrânia, convém não deixar passar em silêncio as imprecisões destas duas autoras. Não era a Rússia que “controlava parte da região da Donbass” em 23 de Fevereiro de 2022, mas a República Popular de Donetsk (RPD) e a República Popular de Lugansk (RPL). Estas duas repúblicas separaram-se da Ucrânia em 2014 e os seus cidadãos expressaram livremente, por grande maioria, a sua vontade de fazer parte da Federação Russa em dois referendos: um realizado em 11 de Maio de 2014, na RPD e na RPL, e o outro realizado em 23-27 de Setembro de 2022 nas mesmas repúblicas. A adesão à Federação Russa só ocorreu, porém, na sequência do último referendo, oito anos depois do primeiro. Também não é exacto dizer que a Rússia “controlava toda a Crimeia” em 23 de Fevereiro de 2022 (seria semelhante a dizer que “Portugal controla o arquipélago da Madeira” ou que “Portugal controla o Arquipélago dos Açores”, em vez de dizer que “a Madeira e os Açores são regiões autónomas de Portugal”). O que é exacto é dizer que a Crimeia é, desde 2014, uma república autónoma da Federação Russa, por vontade maioritária dos Crimeus, expressa num referendo realizado em 16 de Março de 2014.

[2] Pus dois pontos de interrogação a seguir a “o acordo previa ainda” porque desconhecemos o teor exacto, literal e completo desse acordo, conhecido como “Comunicado de Istambul”. Michael Von Der Schulenburg, ex-Secretário Geral Adjunto da ONU, referiu, em 6 de Março de 2022, que esse acordo tinha 15 artigos (“Ukraine: we need peace now”, https://michael-von-der-schulenburg.com/ukraine-we-need-peace-now/). Por sua vez, a jornalista independente russa Farida Rustamova, que não nutre qualquer simpatia por Putin e pelo seu regime, publicou o que diz ser o texto completo desse acordo, na versão entregue pela delegação ucraniana à delegação russa em 29 de Setembro de 2022, em Istambul (“Ukraine’s 10-point plan”, Faridaily, Mars 29, 2022 [substack.com/@faridaily]. Mas Vladimir Putin afirmou no seu encontro com a delegação africana de 17 de Junho de 2023, que o acordo final de Istambul, assinado pelos chefes de ambas as delegações, tinha 18 artigos. Não pode, por conseguinte, tratar-se (pelo menos parcialmente) do mesmo documento de 15 artigos referido por Schulenburg, nem do documento de 10 artigos publicado por Rustamova. Teremos de aguardar a publicação do documento exibido por Putin para termos uma avaliação mais completa e exacta desse acordo.

[3] Elucidei as razões dessa posição da Rússia no capítulo 3 [A colossal patranha da anexação da Ucrânia pela Rússia] do meu livro Dissipando a Névoa Artificial da Guerra: Um roteiro para o fim da guerra na Ucrânia, a paz na Europa e o desarmamento nuclear universal (Editora Primeiro Capítulo, Agosto de 2023).

[4] Sobre este assunto, ver José Catarino Soares, op.cit., pp.11-12.

[5] A entrada “Oleksiy Arestovych” da Wikipedia (edição em Inglês) afirma que Arestovych é tenente-coronel. Porém, uma outra fonte, o jornalista ucraniano Dmytro Oliinyk, afirma que ele é major (“Zelenskyi’s spokesperson: soldier, actor, psychologist, propagandist.” OpenDemocracy, 26 April 2022). Daí os pontos de interrogação entre colchetes.

[6] «Tal como Zelenskyi, Arestovych também tem um passado de actor, tendo trabalhado no teatro, em anúncios publicitários e em filmes durante as décadas de 1990 e 2000. A partir de 2000, realizou seminários e acções de formação em psicologia, inscreveu-se na escola do psicólogo e astrólogo russo Absalom Podvodny e estudou teologia no Instituto de Ciências Religiosas São Tomás de Aquino, em Quieve. A combinação de competências militares, de representação e psicológicas de Arestovych ajudou-o a tornar-se um bloguista de sucesso na década de 2010. Após a revolução ucraniana de 2014, apresentou-se como especialista militar, aparecendo na televisão e noutros meios» (Dmytro Oliinyk, op.cit.).


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