Virgolino Faneca põe 2017 a nu. Uma pouca vergonha

(Celso Filipe, in Jornal de Negócios, 30/12/2016)

 

Distinto Marcelo

Foi com indisfarçável alegria que recebi a tua carta natalícia desejando-me uma óptima quadra festiva e uma boa Páscoa. Este “dois em um” é mais uma prova de que estás sempre um passo à frente e de que antecipas os factos muito antes de eles acontecerem. Por força desta tua capacidade, fiquei surpreendido com o facto de solicitares os meus préstimos para prever 2017, esgrimindo os argumentos de ser vizinho do professor Bambo, jogar à bisca dos nove com a Maya e comer caracóis com o mestre Baio. Obviamente, o teu pedido envaidece-me, mas em simultâneo o elevado sentido de responsabilidade que o mesmo acarreta tolhe-me as capacidades preditivas.

Ainda assim, é-me impossível dizer não a um amigo, pelo que vou colocar todo o denodo na tarefa de que me incumbes, com muito afecto de premeio, porque sem isso o país fica muito mais sensaborão.

Ora, a minha primeira previsão é a de que, em 2017, Portugal fará história, conquistando o Festival da Eurovisão. Tal feito será protagonizado por Maria Leal, com a música Dialectos da Fruta, sendo que a artista actuará com um cabaz da dita na cabeça com dois propósitos concomitantes: dar imagens às palavras e homenagear Carmen Miranda. O inusitado de colocar a cantar alguém que não o sabe fazer convencerá o exigente júri.

Prevejo também que Bruno de Carvalho vai culpar os árbitros pelo facto do Sporting não ganhar o campeonato nacional de futebol. Para os teus botões desabafarás: ora bolas, Virgolino, isso não tem nada de novo. Mas tem, Marcelo. A novidade desta previsão é de que Bruno de Carvalho fará a acusação no interior da jaula de leões do circo Victor Hugo Cardinal e proferirá a seguinte frase: que estes me comam se não estiver a dizer a verdade. Victor Hugo, dono do circo, dilatará as pupilas antecipando poupanças na alimentação dos felinos. A coisa não será bonita de se ver.

Também está escrito nas estrelas, em maiúsculas, para se ler melhor, que Augusto Santos Silva irá participar na inauguração de uma dezena de feiras de gado vacum, incluindo a da Golegã, provocando a ira de Capoulas Santos. Ai, se é assim, vou ali a Nova Iorque chamar charoleses aos tipos da ONU, para ver se o Augusto gosta que se metam nos assuntos dele, dirá o ministro da Agricultura a António Costa. O PAN irá manifestar-se contra o uso de animais para fins políticos e/ou piadas de gosto duvidoso.

Uma grande surpresa em 2017 será a participação de Hillary Clinton no programa televisivo “O Aprendiz”, destinado a celebridades, que tem como produtor executivo o presidente dos EUA, o senhor Trump. A senhora Clinton explicará ao seu “staff” que esta é a melhor forma de aprender certas e profícuas manhas com o maior mestre do ofício, constituindo um sinal claro que poderá voltar a ser candidata à Casa Branca ou, em alternativa, administradora da Trump Organization.

O próximo ficará ainda marcado pela tentativa de António Costa aprender a andar de bicicleta sem rodinhas. Catarina e Jerónimo vão ficar chateados com o facto e, pela calada da noite, irão roubar o guiador da geringonça. Na manhã seguinte, Costa acordará e, verificando a ausência do dito, vai à polícia queixar-se de Passos Coelho.

Por fim, posso garantir-te, por obra e graça de todas as cartas de tarot, búzios e demais artefactos proféticos, que 2017 será um ano marcado pela imprevisibilidade, com um misto de surpresas positivas e negativas.

Um abraço deste que te estima,
Virgolino Faneca


Quem é Virgolino Faneca

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um “vasco pulidiano” assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: “É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro”. É presença constante nos “Prós e Contras” da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.

 

Fonte: Virgolino Faneca põe 2017 a nu. Uma pouca vergonha – Weekend – Jornal de Negócios

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2017: está aí alguém?

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 05/01/2017)

 

Começaremos este Novo Ano fazendo um contra-ponto à última crónica do Ano Velho. Peço ao leitor mais ávido por tópicos de actualidade que veja mais abaixo: há três contundentes pontos de serena emergência (avisos claros, se me é permita a expressão).

Comecemos novamente com umas ou duas notas sobre cultura, uma actividade que mesmo num mundo destes faz mexer mais que apenas a economia.

Há um filme a estrear hoje mesmo, dia 5 de Janeiro, que vale a pena assinalar: Zeus, de Paulo Filipe Monteiro. Este é um filme sobre um antigo Presidente da primeira república portuguesa e que mostra que não é só recentemente que há Chefes de Estado interessantes neste país. Teixeira Gomes (alguém sobre o qual já longamente escrevemos aqui) foi um homem de negócios (com importância relevante no mercado europeu de frutos secos), um homem de cultura (escritor, eis um livro gratuitamente disponível num dos principais arquivos norte-americanos), um viajante, um político, homem do seu tempo. Em Portimão há sobre ele um belíssimo e activo museu que vale a pena visitar, embora não seja de todo único grande museu na cidade (este outro é um caso de peso, oficialmente um dos melhores da Europa). A cena cinematográfica portuguesa está mesmo de parabéns, pois tem gente que não desiste de ir a jogo: veja-se o caso do prémio de empreendedor do ano, a Paulo Borges com o seu imprescindível Cinema Ideal em Lisboa.

É preciso também fazer justa referência a um novíssimo músico que voga entre a Ásia extrema e a Europa extrema: João Caetano, que neste momento se presta a lançar os seus primeiros originais em público. Vejamos este fulgurante concerto recente em Macau com esta primeira e poderosa música que avança com letra de Fernando Pessoa: “Menino de Sua Mãe”. Este é exactamente o tipo de jovem músico lusófono global que tem muita coisa nova a construir, até porque sabe exactamente quais as tradições que não quer destruir. É uma lufada de ar fresco vindo de um sítio onde os portugueses sempre se tiveram em demasiada boa conta, e onde tantos aspirantes a políticos fizeram a sua acumulação primitiva de sabujice (sabemos quem são, não sabemos?). Mas Macau ainda tem quem por lá, e entre cá e lá, faça um enorme trabalho sobre as letras em português: um exemplo é a Revista Macau … veja-se o estupendo último número completamente disponível aqui (e já agora a versão, totalmente diferente, em inglês). Veja-se também o caso de Fernando Sales Lopes, o poeta e jornalista que assinou a letra do hino da entrega de Macau à República Popular da China (“Flor de Lótus”), e que tem produzido uma investigação impar sobre o fascinante culto às divindades populares em Macau. Porque falamos disto?! É que o tempo anda rápido… e qualquer dia contar-se-ão 20 anos da transição de soberania – é importante afinal compreender (e renovar) os laços antigos (e estratégicos) que unem China e Portugal. No caso de Hong Kong, os 20 anos são já em 2017.

Bom, … feito este introito soft é agora importante passar a questões de agenda: que já queimam neste ainda infante ano. Alguns pontos merecem ser abordados de imediato e sem contemporizações, a saber:

NOVO BANCO: ENTÃO O MONTEIRO PARIU UM RATO?!

O Banco de Portugal acaba de anunciar que o fundo “Lone Star” é a entidade mais bem colocada para adquirir o ex-BES e vai convidá-lo para um “aprofundamento das negociações”. Mas como é possível?! Todo este tempo e tanto salário de luxo pago a Sérgio Monteiro (o ex-governante do PSD/CDS contratado sem concurso!) e é isto o melhor que se consegue?! Mas o BdP sabe o que acontecerá se põe o Novo Banco nas mãos de um fundo abutre conhecido por casos extremamente graves de manipulação de mercado (a notícia é do Financial Times)?!

Sim: trata-se de um fundo necrófago; o Prof. Francisco Louçã foi bastante refinado e educado quando lhes chamou “flibusteiros”). O BdP está mesmo a cuidar da sua segunda missão crucial que é a “promoção da estabilidade financeira”?! Desde quando entregar uma instituição sistémica a um especulador especialista em operações de mastiga-e-deita-fora é uma atitude compatível com o seu mandato? E que sinal é este aos mercados?! Sinal que o país está de novo a saque?! Que não se aprendeu nada e que é o próprio supervisor que volta a jogar na roleta de operadores que estão a RE-INVENTAR o “subprime”?! (atenção mesmo ao que anda a reportar o Financial Times; o “link” estará disponível só para assinantes) Pelo contrário: a alternativa menos cara é agora suficientemente clara. Mais: Sérgio Monteiro deve entregar todos os seus salários de volta com juros e indeminização. Mas a própria liderança de topo do BdP está em causa e não deveria ser tratada com tanta brandura. Há um sistemático erro de apreciação na Almirante Reis que lesa os alicerces da economia portuguesa. O país entra de novo em mais um ano com outra batata quente nas mãos. É absolutamente intolerável. É o mesmo país em que Salgado e Bava não estão atrás das grades, continuando sentados em cima de mais-que-dúbias fortunas pessoais.

SE O CONSUMIDOR CONFIA, ENTÃO ESTÁ NA ALTURA DO ECONOMISTA DESCONFIAR

O ano 2016 terminou em alta quanto às expectativas das famílias. Crentes que a Troika se foi embora eis que dispara o optimismo consumista, a níveis recordes. Sim, era preciso um impulso para reanimar o compra-e-vende que é a economia do dia-a-dia. Tristezas não pagam dívidas, estavam a agravá-las. Mas aquele grito “Que se lixe a Troika, quero a minha vida de volta!” significa esquecer a insustentabilidade de comportamentos passados que levaram a uma dívida privada (ainda mais que a pública) impagável?! Como diz, e bem, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa 2017 tem ser de crescimento. Não se pode “virar a página da austeridade” para depois se entregar a cidadania ao consumismo. Todas as economias são bipolares, MAS UMAS MAIS QUE OUTRAS. E embora hajam razões para algum optimismo (veja-se o Financial Times esta semana), doses descontroladas deste são precisamente um veneno para a economia portuguesa. É preciso falar de poupança e de investimento num modelo de desenvolvimento robusto e resiliente. Isso não é fácil com bancos destes nem como uma Europa destas, mas ninguém disse que esta legislatura iria ser fácil.

TRUMP GANHOU E VÃO HAVER ELEIÇÕES NA ITÁLIA, NA FRANÇA E NA ALEMANHA: SO WHAT?!

Tal como o Reino Unido já decidiu sair da UE de modo não planeado (e já se vê que trapalhada se está a desenrolar) muitos eventos IMPOSSÍVEIS têm acontecido ultimamente e outros poderão acontecer em breve. Vozes para a saída do Euro têm hoje quase estatuto de “novo normal” nas três maiores economias que ainda restam na UE. Sem qualquer alarme Portugal deve tomar medidas de cenarização e pré-preparação face a eventuais contingências disruptivas. Os Ministérios dos Negócios Estrangeiros, Economia, Finanças e Segurança Interna têm de estar envolvidos, mas também a INCM, a SIBS e o que ainda resta do BdP. Portugal NÃO pode NÃO ter planos caso o impensável suceda. A necessidade de um trabalho de base, discreto mas sério, não pode mais ser evitada. Verificar e apertar o cinto de segurança não significa desejar aventureirismos, somente ter responsabilidade e condução defensiva.


Fonte: Expresso | 2017: está aí alguém?

2017: Recuperar a esperança

(In Blog O Jumento, 01/01/2017)
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Desde 2008 que alguns portugueses vivem em regime de austeridade, ainda com Sócrates foram vítimas de um corte arbitrário do vencimento. Passos agravou a situação, aumentou e consolidou os cortes, reduziu os rendimentos recorrendo aos mais diversos truques e a sua orgia de ódio aos funcionários públicos ficou completa com a condenação pública, acusando-os de serem uma mera despesa.
A perseguição de Passos aos que considerara estarem a mais no país alargou-se aos pensionistas, aos jovens qualificados e, por fim, a todos os que vivem de rendimentos do trabalho. Os funcionários públicos foram condenados a ganhar cada vez menos, a vivem permanentemente com medo e sob ameaça de personagens ridículas como Passos, Vítor Gaspar, Maria Luís Albuquerque, Paulo portas e mais alguns sacanas.
Hoje já me considero um veterano da austeridade, mas o pior do que nos sucedeu talvez não tenha sido a perda de rendimentos, foi o ambiente de medo, a condenação social, a redução da condição de trabalhador a uma despesa pública ou a um custo para os empresários, a perda do direito a negociar cortes de vencimentos ou de horários de trabalho, face a um governo com mais poderes do que os de Pinochet.
Há quase dez anos que muita gente perdeu o direito a ver o seu vencimento actualizado como se isso fosse um crime, a ver os patrões a recusarem quaisquer aumentos como se as empresas tivessem como único objectivo o o lucro a distribuir pelos patrões. A Gerigonça pôs fim ao medo, á incerteza, livraram os portugueses de experiências económicas conduzidas por idiotas. Mas a verdade é que não nos devolveu a esperança.
Portugal já era um dos países mais pobres da Europa, graça a Passos passou a ser um país miserável onde quem trabalha não tem esperança. Estuda-se arquitectura para se ganhar menos que uma mulher a dias, estuda-se direito para se ser escravo de grandes advogados a troco de pouco mais do que o ordenado mínimo, a única esperança dos jovens está na emigração, a grande ambição dos trabalhadores do sector privado é não serem despedidos, os funcionários públicos foram condenados a viver sem expectativas.
2017 será o meu nono ano de austeridade e espero que cobrem impostos em vez de andarem na bola, não vá a sobretaxa ser disfarçada em 2018 de uma alteração de escalões do IRS. Mas já que parece que decretaram que Portugal vai ser um rico país cheio de pobres e já que muitos de nós continuaremos a ser mulas de austeridade, ao menos que devolvam a esperança.

Fonte: O JUMENTO: 2017: Recuperar a esperança