Ode à Diana Só Lérias

(Por Chico Ferrugem, in Estátua de Sal, 06/11/2025, Revisão da Estátua)


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Reflexão sobre a Guerra na Ucrânia (4)

(José Manuel Neto Simões, in Diário de Notícias, 22/02/2025)

Imagem gerada por IA

(Tendo as primeiras partes do ensaio suscitado aqui um debate intenso sob a forma de comentários, segue-se a quarta parte. Serão 6 partes, e só no fim ficarão visíveis (ou não) as omissões do autor. E tenha-se em atenção a data em que os textos foram escritos e publicados.

Parte 1 aqui. Parte 2 aqui. Parte 3 aqui.

Estátua de Sal, 06/11/2025)


Negociações ou escalada

A reeleição de Trump mudou o ciclo para a Ucrânia e Europa. A paz pela força é mais um epíteto para dissimular o cinismo. E os seus conselheiros com narrativas contraditórias sabem que há múltiplos factores, que vão impactar a duração da guerra e os termos do acordo. É sempre mais fácil entrar num conflito do que sair dele.

A estratégia ocidental fracassou com os EUA e aliados no epicentro da ambiguidade ao não definirem sequer um plano para o final do conflito nem prevenirem as consequências da derrota militar, que será também a da grande América prestes a incluir a longa lista. É ilusão querer alcançar a paz sem cedências. A realidade reclama um acordo possível face aos múltiplos interesses, tendo presente que a ausência de guerra não significa a paz.

A Ucrânia acabará por ceder em relação à integridade territorial, como aconteceu em outras geografias. Para Trump, o tecido normativo é sustentado com base na realpolitik da competição estratégica, em que prevalece a razão da força, com o regresso das áreas de influência por razões securitárias e onde imperam os interesses.

A anexação de territórios tem sido feita com total impunidade, na violação do Direito Internacional, sustentada na perversa dualidade de critérios, perante a inaceitável cumplicidade dos EUA e uma UE sem voz. Os líderes europeus não podem, por isso, exigir paz justa, que passou a ser uma ilha sem paradeiro. Na hora da verdade, a paz será a possível com Trump a legitimar o revisionismo.

O Ocidente tem responsabilidade acrescida por desperdiçar oportunidades, quando a situação era favorável à Ucrânia. E com a agravante de querer a guerra de procuração entre a NATO e a Rússia assumida por Boris Johnson. O conflito na Ucrânia tem sido uma guerra de elevada atrição no patamar convencional. Mas os dilemas podem conduzir a erros, arrastando os EUA para um conflito direto que não querem e a Europa não está preparada. Urge restaurar a dissuasão e antecipar a escalada.

O enviado especial de Trump, Keith Kellogg, receia a “Terceira Guerra Mundial”. Considera ainda não ter havido estratégia para derrotar a Rússia, objectivo dos EUA induzido à Ucrânia para a “fazer sangrar”, que se revelou irrealista. Mesmo assim, a UE continua muito vocal na esteira de uma resolução, pedindo guerra total contra a Rússia. Ou seja, um conflito mundial!

A Rússia passou a ter a iniciativa e o sucesso operacional, tendo conquistado no último ano quase seis vezes mais território, após um impasse resultante do fracasso de estratégias concorrentes. Esta situação poderá levar a negociações com a pressão de Trump, tendo em conta a sua agenda, a difícil situação da Ucrânia com recursos exauridos, as dissensões no seio da UE e os riscos da escalada com uma potencia nuclear. Mas com uma linha mais dura do que se pensa.

Nesse sentido, Kellogg elaborou um relatório, cujas premissas são de difícil concertação entre as partes, face aos fatores conflituantes. E estão a criar divisões na UE e NATO. Mas, Trump na previsível cimeira com Putin, pode vir a usar alguns trunfos como o Ártico para alavancar as negociações, dada a sua importância geoestratégica para a Rússia e China. Convém sublinhar que qualquer plano de paz só será viável se forem revisitadas as causas que estiveram na origem do conflito.

Haverá conversas secretas, desde 2023, com Moscovo para as bases de negociações, sendo considerada a possibilidade de congelamento do conflito, que Kiev rejeita. Contudo, Zelensky reconheceu estar em risco de perder a guerra e Kellogg acredita nas negociações. Mas o chefe de gabinete de Zelensky afirma, que isso só acontecerá, quando a Rússia estiver exaurida, existindo na UE inquietação com o poder de Yermak.

Impor custos na ausência de um processo negocial torna inevitável a perigosa espiral de escalada mesmo que seja incrementado o apoio militar ocidental à Ucrânia. Ou seja, a derrota estratégia da Rússia aumentaria o risco ao empurrar Putin para a escalada nuclear evitada, em 2022, pelos EUA.

Neste contexto, a resolução do conflito é complexa devido a objectivos irreconciliáveis, à profunda desconfiança entre a Rússia e o Ocidente e às divergências na UE, que recusa a diplomacia. Não obstante, é possível antecipar duas hipóteses. Primeiro, uma solução negociada promovida pelos EUA, através de mediação musculada associada à energia usada como arma para debilitar a economia de guerra russa. Segundo, a Europa assumirá o esforço de guerra, que conduzirá ao inevitável impasse doloroso, tendo em conta o factor político-militar, demográfico, económico e o impacto das sondagens.

Há demasiado ruído mediático como se constata na multiplicidade de planos, profundas dissensões e retórica inconsequente com declarações contraditórias. Todavia, a UE não deve abdicar de participar nas negociações, onde além das garantias de segurança da Ucrânia, devem ser discutidas medidas de restauração de confiança com a Rússia, equilíbrio estratégico e controlo de armamento nuclear.

No entanto, muito vai depender de Putin, que não acredita no cessar-fogo com receio que sirva para rearmar a Ucrânia como aconteceu com os acordos de Minsk -assumido por Merkel e por um think tank. Trump quer um horizonte temporal para acabar com a guerra que não coincide com o de Putin, cujos objectivos estratégicos passam por alterar o regime em Kiev e a arquitectura de segurança europeia no âmbito de uma “nova Ialta”, em que Trump parece estar alinhado desde o anterior mandato.

Na verdade, Trump não quer financiar a guerra nem tampouco quer custear a paz. A retirada dos EUA vai ser paga pelos ucranianos enganados com slogan “as long as it takes”, enfrentando a derrota. E a UE não terá capacidade de assegurar o esforço de guerra prolongada da Ucrânia, considerando a frágil indústria de defesa, a estagnação económica, a dependência energética e instabilidade politica e financeira de vários países da UE.

Enquanto Zelensky corre contra o tempo, a UE insiste nos debates estéreis dividida entre o preço de ganhar ou perder a guerra. A conta dos europeus virá mais tarde graças à liderança europeia. Um verdadeiro hino à hipocrisia!

A Rússia está determinada a uma longa guerra alimentada pela narrativa ocidental com a sua capacidade de sustentação assente na economia de guerra produzindo num ano aquilo que a Europa produz em três meses apesar da UE ter um PIB cerca de dez vezes superior. Além disso, tem maior potencial de combate e mais recursos, mobilizando cerca de 30 mil homens por mês. Putin aposta na fragmentação da UE e na erosão da ajuda militar à Ucrânia. E há ainda a debilidade relativa às munições e às reservas de guerra da NATO.

Porém, sem homens o armamento deixa de ser relevante. O prolongamento do conflito incentivado pelos falcões – cúmplices da inexistente defesa europeia -, não vai alterar o curso da guerra e resulta no colapso da Ucrânia com baixas infindáveis e mais território perdido. A demografia não favorece a Ucrânia. E o tempo favorece a Rússia, cuja sustentação não foi afectada pelas “sanções nunca vistas” com a economia a crescer mais do que a dos EUA. E o apoio do “novo eixo” hostil ao Ocidente vai garantindo o regime.

A questão crucial é o diferencial significativo entre o apregoado colapso da Rússia e o tempo que a Ucrânia não tem para continuar o conflito prolongado com recursos exauridos, efectivos insuficientes e milhares de soldados a desertarem. E, mesmo assim, a NATO e aliados continuam a alimentar falsas expectativas, como aconteceu com Mark Rutte e António Costa. Esta atitude irresponsável contribui para a Ucrânia perseguir a sua estratégia fracassada de derrotar a Rússia e evitar negociações apesar de dizer o contrário.

Assistimos, de facto, ao contorcionismo inusitado e sucessivas cimeiras de burocratas que expõem, de forma perturbadora, a falta de visão de conjunto e de coesão. Com efeito, proliferam a especulação e interpretações sofisticadas. Por outro lado, é pungente ver Zelensky mudar de objectivos, depois de proibir negociações com Putin num decreto presidencial ainda não revogado.

E, apesar de confrontado com o fracasso, está refém da pressão da elite com ligações à extrema-direita, que não aceitou a autonomia do Donbass prevista nos Acordos de Minsk legitimados pela Resolução 2202 da ONU. Em acumulativo as suas iniciativas precipitadas e a retórica, por vezes, arrogante, com contradições insanáveis procuram condicionar os aliados. Isto revela manifesta dificuldade de controlo da gestão político-diplomática.

A guerra é caos e sofrimento, mas não terá a solução rápida, porque Putin é inflexível nas condições, os líderes da UE permanecem divididos e a postura agressiva da NATO adiciona complexidade. A continuação do conflito antagoniza mais as relações entre o Ocidente e a Rússia com consequências catastróficas para a Ucrânia, a Europa e o mundo. E não terá solução militar desde que o inesperado não aconteça!

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Entre o roubo e a extorsão, a União Europeia balança

(Por José Goulão, in SCF, 03/11/2025)


Eis o estado a que chegou o comportamento da União Europeia, farol da democracia liberal e da “nossa civilização”.


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Roubar os activos russos congelados em território europeu ou extorquir ainda mais dinheiro aos contribuintes dos Estados Membros, eis o dilema que aflige a União Europeia neste último trimestre de 2025.

Ao contrário do que poderia parecer a quem ainda acredita nos discursos, documentos e propaganda da UE, não são os escrúpulos que tolhem os dirigentes dos Estados-membros, mas sim os riscos que qualquer das hipóteses acarreta, e que alguns “desalinhados” não estão para partilhar. A organização não é propriamente virgem em roubar outros Estados e em extorquir bens aos próprios cidadãos, mas, desta feita, se as coisas não correrem bem haverá perdas, danos e novos amuos e dissidências entre os governos – quiçá deitando mais achas para a fogueira em que arderá uma entidade que mente e falta ao respeito aos seus povos.

O mais relevante busílis da questão é, de novo, a angariação de meios para continuar a dar de mamar ao regime de Kiev e ao energúmeno Zelensky. Bruxelas continua a tentar convencer-nos de que temos de abdicar até ao último cêntimo, no limite até ao último soldado, para impedir que os russos venham tomar conta das Berlengas, dos Farilhões e da ilha do Pessegueiro*, uma verdadeira obsessão no Kremlin. Parece que Moscovo não pensa noutra coisa e então os 27 têm mesmo de transformar o território ainda controlado pelos nazis de Kiev num “porco espinho de aço”, como se ouve dizer a governantes de países da União e a muitos eurocratas.

O que está em discussão é a maneira de arranjar 140 mil milhões de euros para financiar o regime de Zelensky, antes que este fique sem dinheiro, o que se prevê possa acontecer em Março próximo. Como se sabe, Donald Trump não é o mãos largas que foram os seus antecessores desde Obama – ele próprio no primeiro mandato –, pelo que compete à União Europeia arcar com o frete.

Mais um frete, como sabemos. Neste momento Bruxelas procura os tais 140 mil milhões para financiar Kiev, a que se somam os 100 mil milhões necessários para comprar armas aos Estados Unidos e enviá-las para a Ucrânia Ocidental e também os 800 mil milhões calculados para modernizar o “sistema de defesa” (leia-se o aparelho de guerra) dos Estados membros para meter medo a Putin, o terrível.

Contas feitas, a União Europeia anda à procura de mais de um bilião de euros a sério (mil vezes mais volumoso que o bilião usado nas contas anglo-saxónicas) directa ou indirectamente relacionado com a guerra na Ucrânia. Neste sufoco financeiro, que faz inveja ao mais refinado masoquista, a União está ainda envolvida na emissão de 800 mil milhões de eurobonds para mutualizar, à escala dos 27, o investimento considerado necessário à recuperação do estado miserável em que se encontra a sua economia. Uma situação que é, por sinal, uma consequência da política seguida pela União Europeia e que reduziu o aparelho produtivo da zona a um anão manietado perante o resto do mundo.

Extorquir é difícil, roubar é arriscado

Na reunião do Conselho Europeu realizada na segunda quinzena de Outubro, os 27 decidiram não decidir sobre a metodologia a estabelecer para juntar os 140 mil milhões de dólares destinados a alimentar Zelensky e “reparar” o seu território em ruínas.

A alternativa que mais tempo ocupou a Van der Leyen, Costa e aos chefes dos governos dos 27 foi a do roubo. Isto é, levantar os 140 mil milhões de activos russos congelados na Bélgica e enviá-los para Kiev.

Na generalidade, a maioria dos presentes defenderam esta possibilidade, mas Bart De Wewer, o direitista flamengo que chefia o governo de Bruxelas, não esteve pelos ajustes. O dinheiro está sob a tutela de uma entidade denominada Euroclear, sediada em Bruxelas, e o primeiro-ministro belga considera que a União subestima os aspectos legais envolvidos no “movimento” desses activos sequestrados, pelo que os riscos devem ser partilhados pelos 27 no caso de haver uma decisão impondo a devolução do dinheiro a Moscovo. Além de De Wewer ter todo o direito a precaver-se para não ter de assumir a totalidade dos eventuais encargos, os 27 rapidamente perderam alguns membros nesse processo, que exige aprovação por unanimidade. Isto é, ou a Bélgica assume isoladamente as consequências do roubo, ou não haverá envio de dinheiro para Zelensky através deste método. A Hungria, a Eslováquia e, muito provavelmente, a República Checa entendem não assumir a responsabilidade de continuar a guerra na Ucrânia e muito menos a necessidade de extorquir dinheiro aos cidadãos no caso de o vício cleptómano da maioria dos seus colegas de Conselho Europeu ter consequências nocivas.

Como já se disse, o Conselho decidiu não decidir sobre a matéria, empurrando o assunto para a reunião do fim de Dezembro. Até lá, os mais ardentes defensores do roubo esperam que as enormes pressões que vão exercer (chantagem talvez seja a palavra mais adequada) sobre De Wewer e o seu governo sejam bem sucedidas e a Bélgica assuma sozinha os riscos de enviar para terceiros o dinheiro que não lhe pertence – e à revelia dos legítimos proprietários.

Nada de novo, afinal, nas práticas da União Europeia.

Com o seu toque de desespero foi colocada na mesa uma outra alternativa para financiar o nazismo de Zelensky: emitir eurobonds, ou seja um empréstimo partilhado por todos os governos da União para tentar tapar o irreparável buraco orçamental do regime de Kiev. Ou seja, os nossos governos viriam mais uma vez aos nossos bolsos para sustentar a guerra, a ditadura e a destruição no território ocidental da entidade ainda chamada Ucrânia.

Para começo de conversa, houve logo quem considerasse essa hipótese “tóxica”.

Nos bastidores do Conselho, funcionários anónimos citados pelo “Político” garantiram que países “frugais” como, por exemplo, a Alemanha e a Holanda, não querem nem ouvir falar em emissão de eurobonds “nos próximos dez anos”. A unanimidade exigida ficou, desde logo, comprometida, pelo que nem será necessário esperar pelas previsíveis negativas da Hungria e da Eslováquia, pelo menos.

Por outro lado, países “esbanjadores” como a França, a Itália, e certamente Portugal (onde o respeito pelos cidadãos está abaixo de zero) não têm condições para corresponder à partilha de obrigações, porque excessivamente endividados já eles estão. Além disso, numerosos outros governos desconfiam de mais empréstimos mutualizados porque a “disciplina financeira” na União é uma rematada indisciplina – logo, não haveria garantias de que muitos governos cumprissem as suas obrigações na amortização de uma dívida da ordem dos 150 mil milhões de euros.

Além de tóxico, houve funcionários que qualificaram este acto de extorsão contra os cidadãos como “ridículo”, tal a impossibilidade de se consumar.

Os mais persistentes membros do Conselho levantaram ainda uma outra possibilidade: a de mobilizar os activos russos sequestrados em outros países que não a Bélgica. Segundo o “Político”, o seu valor não vai além de 25 mil milhões de euros, implicando uma desesperada baixa de expectativas em relação aos 140 mil milhões congelados em Bruxelas. Além disso, nada garantiria que os chefes dos governos dos países onde jazem esses activos se comportassem de maneira diferente da Bélgica e assumissem por conta própria os riscos de o roubo ser revertido.

Avaliada a situação, parece que a via mais plausível para tentar corresponder às pulsões ditatoriais e destruidoras de Zelensky é a aposta nas diligências para “vergar De Wewer”, como se diz nos corredores do poder da União. Por um lado, em Bruxelas considera-se certo que a Rússia não terminará a guerra unilateralmente, condição para que os activos de Moscovo fossem descongelados. Por outro, muitos dirigentes e eurocratas temem que a Rússia responda a um eventual roubo dos seus bens com o envio de um exército de experimentados advogados capazes de fazer a vida negra aos cleptómanos e forçá-los a indemnizar Moscovo num total idêntico aos valores de que se apropriaram ilegalmente, acrescidos de juros bem pesados, sem contar com as custas dos processos. Tanto mais que Moscovo tem com a União um tratado de investimento mútuo desde 1989 e cuja existência pode tornar o processo ainda mais complexo e desfavorável a Bruxelas.

Era também a isto que aludia o primeiro-ministro belga quando alertou os seus parceiros de Conselho para o facto de estarem a subestimar os riscos e as possíveis consequências do assalto aos bens de uma outra nação.

Roubo ou extorsão dos contribuintes? Eis o estado a que chegou o comportamento da União Europeia, farol da democracia liberal e da “nossa civilização”, na sua cegueira para financiar uma guerra perdida e sustentar um decrépito regime filonazi.

* Pequenas ilhas ao largo da costa ocidental portuguesa

Fonte aqui