Raízes

(Carlos Coutinho, 22/09/2021)

“NÃO há machado que corte /a raiz ao pensamento. / Não há morte para o vento, / não há morte.” Isto é o que Carlos de Oliveira pensava e Fernando Lopes Graça musicou. Manuel Freire e muitos milhares de portugueses ainda não desistiram de o cantar.

Todos tinham razão e eu – às vezes, reticente – dei esta manhã o braço a torcer quando saí de casa para ir comprar o jornal.

O vento, de facto, consegue derrubar uma árvore, como fez esta noite a 200 metros da minha porta, mas, por mais que o tenha tentado, foi-lhe impossível cortar a raiz a um aloendro – se é que é mesmo um aloendro – que não conseguiu resistir à fúria salazarista do mítico Bóreas.

Também é verdade que não há pensamento sem raízes e que só por isso é que não morre, como se viu numa certa madrugada de 1974. Só que as raízes podem morrer, se não as nutrirmos com os fertilizantes de que o pensamento dispõe.

Acontece que bastaram algumas horas para que o Equinócio de Inverno desse esta noite um primeiro sinal do que traz no alforge, ao deitar por terra um ser vegetal que também é mais de quebrar que de torcer e, assim, não logrou manter-se inseparável da sua raiz, como alguns humanos que eu conheci.

A verdade que em 1943, um mês depois do meu nascimento, era institucionalizada a República Social Italiana, os seja, o fascismo, tal como Salazar o apreciava, a pontos de ter uma fotografia autografada de Mussolini na sua mesa de trabalho. Uma imagem arrogante a preto e branco que todos os dias contemplava e reverenciava.

Mas nem tudo é feio neste dia, porque hoje o genial saxofonista e compositor Jonh Coltrane, se não tivesse morrido em 1967, faria 94 anos e um seu grande amigo – que nos deixou em 2004 e era também músico de excelência, o cantor e pianista Ray Charles, apesar de invisual – também não deixaria de celebrar, comigo e com o resto do mundo, o seu 91.º aniversário. E talvez até cantasse qualquer coisa que confirmasse a fortíssima ideia de que “não há machado que corte a raiz ao pensamento.”


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Rui Moreira, o grande beneficiário do centralismo lisboeta

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/09/2021)

Daniel Oliveira

Do caso Selminho ao Queimódromo, tudo seria assunto de debate apaixonado se acontecesse na capital, porque quase toda a comunicação social nacional está em Lisboa. A isto junta-se o facto de, tirando o BE e o PCP, todos estarem ou terem estado no bolso de Moreira. Moreira é imbatível porque todos os que contam querem que ele seja imbatível. E porque os jornalistas não ligam a nada que aconteça para cima de Mafra. Sem escrutínio ou oposição, não é difícil governar.


Imagine-se que Fernando Medina era acusado de um crime e corria o risco de perder o mandato. Mal ou bem, havia outro tema nesta campanha? Pois a acusação contra Rui Moreira parece ter sido uma bênção eleitoral, permitindo que quase toda a oposição passasse a dizer: “à justiça o que é da justiça” E está encerrado o tema. Nada digo em relação ao processo, que me levanta, aliás, muitas dúvidas. Mas é mais assunto a investigação de casos que surgiram há quatro anos e envolvem um ex-vereador da Câmara Municipal de Lisboa do que a acusação já conhecida contra o presidente da Câmara Municipal do Porto que lhe pode custar o mandato.

Mas não é só o caso Selminho. Em véspera de eleições, rebentou a bronca com a vacinação no Queimódromo, por incompetência técnica. Rui Moreira, que nunca deixou de fazer pressão pública para a abertura daquele centro privado, pôs-se ao fresco de qualquer responsabilidade, quando as coisas correram mal. Foi quase nota de rodapé nas televisões e na imprensa com impacto nacional.

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Não vou aqui avaliar o trabalho estrutural de Rui Moreira. Nem a explosão do turismo e os seus efeitos na gentrificação da cidade, nem a reabilitação que a explosão do alojamento local permitiu, no Porto como em Lisboa – no que toca à política de urbanismo, Moreira e Medina não são muito diferentes. Nem a contínua perda de população, nem a recuperação de alguma e centralidade cultural perdida nos tempos de Rui Rio. Nem a rapidez como reagiu a algumas falhas do Estado na resposta imediata à pandemia, nem o facto da Câmara do Porto, que serve metade da população de Lisboa, ter gasto quinze vezes menos do que a CML em apoios sociais e económicos durante esta crise, em 2020 – depois não terá sido melhor. Nem a dificuldade em responder pelos seus falhanços em contraste com a rapidez com que apontou o dedo ao que falhou no Estado central. Todas as avaliações que faça falharão na sua profundidade, por distância.

O complexo centralista do lisboeta acredita que Moreira é popular porque, explorando o ressentimento da segunda cidade (que existe em todas as segundas cidades de todos os países), combate Lisboa. No caso da TAP, mas não só. É verdade que Moreira explora esse filão o mais que pode. É natural. Sabe que ele rende, quando tem e quando não tem razão. Ele é, no entanto, o maior beneficiário do centralismo.

Do caso Selminho ao Queimódromo, passando pelos dados estruturais que nos explicam que as coisas também não estão bem no Porto, tudo seria assunto de debate apaixonado se acontecesse na capital. Porque, com a exceção do “Jornal de Notícias”, a comunicação social com algum peso está toda em Lisboa. Mesmo as delegações reginais, para os órgãos de comunicação social que ainda as têm, são mínimas. E sem o escrutínio dos media Rui Moreira passeia-se como se nada fosse com ele.

A isto junta-se uma péssima oposição. O PSD escolheu o refugo do refugo e deixou que se soubesse de todas as tampas. O ódio de Rui Rio a Rui Moreira é a única estratégia que o partido tem para a cidade. António Costa, pelo contrário, tentou por tudo que o PS escolhesse alguém comprometido com uma aliança pós-eleitoral com Moreira, porque que lhe dá jeito o ter como aliado. E, graças a isso, o PS acabou a escolher o seu candidato muito depois da 25ª hora. As dificuldades da oposição são fáceis de explicar: tirando o BE e o PCP, já todos estiveram ou estão no bolso de Moreira. Está a IL e o CDS, que o apoiam. Esteve uma boa parte do PSD, que lhe deu apoio quando se quis ver livre Luís Filipe Menezes. Esteve o PS, que lhe garantiu maioria depois disso. Até o Chega, cujo cabeça de lista veio direitamente das suas fileiras.

Rui Moreira é imbatível porque todos os que contam querem que ele seja imbatível. E porque os jornalistas não ligam a nada que aconteça para cima de Mafra. Sem escrutínio ou oposição, não é difícil governar.


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E se, de repente, alguém lhe oferece milhões?

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 21/09/2021)

António Costa decidiu correr um risco matreiro ao tentar transformar as eleições num plebiscito acerca da beleza dos milhões dos dinheiros europeus. Não vai parar até ao último dia da campanha. Ele sabe que a repetição exaustiva do refrão do PRR mobiliza a crítica dos seus adversários e cria mesmo incómodo entre alguns dos seus apoiantes mas, no entanto, despreza esse efeito, por estar convencido de que o benefício ganho na credulidade dos eleitores é maior do que o prejuízo pelo enfado de quem acha que o Estado não se deveria confundir com o PS. Manchar as eleições com a convocação de clientelismo e com a transformação do seu próprio partido num partido-regime é, nestas contas de deve e haver, menos problemático do que um resultado no domingo que, como diz Costa com condescendência, ainda poderia significar que o PS não chega a ganhar todos os municípios de Portugal.

Há nisto dois cálculos ganhadores. O primeiro é o efeito imediato, que é a evidente sedução do patronato, que se desbarreta perante o portador dos cheques, e desse modo permite ao PS secar a base social das direitas, enfraquecer o PSD e favorecer o Chega, para assim encurralar a direita tradicional no canto das alianças tóxicas e prolongar o seu predomínio. 

Por outro lado, também há nisto uma sabida gestão de calendário: o primeiro-ministro percebe que é melhor ter agora um pássaro na mão, a promessa apressada mas tonitruante, pois depois o tempo desgastará os anúncios. Dentro de dois anos o truque não pode ser repetido, nessas eleições nem haverá pontes, nem novas casas, nem metro, nem qualquer das maravilhas que agora ficam tão bem quando apregoadas de um tribuna de comício. É agora ou nunca, enquanto os milhões são sonantes e antes que alguém pergunte pela obra.

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Isto não vai parar. Durante toda a campanha o bulldozer de Costa continuará a acelerar sob a bandeira do PRR. O primeiro-ministro mostra assim que sentiu um chamamento, que determinou que a chuva de milhões será a sua herança política. E os autarcas socialistas, que são das primeiras vítimas do estratagema, estão entusiasmados e repetem a mensagem como podem, uma ponte aqui, uma maternidade ali, olhos a brilhar com os milhões que dão para tudo. Nem sentem que as eleições autárquicas estão a ser sepultadas por este vendaval, mirrou o espaço para apresentarem o trabalho feito, nem sobra para as suas propostas, nem para discutirem a vida do seu município. Transformaram-se em paus mandados destes anúncios deslumbrantes e deixaram de ter personalidade, ideias e campanha, limitam-se agora a serem arautos da boa nova milionária. Deste modo, o PS orgulha-se agora de se apresentar como partido-Estado, como a união nacional dos poderes político e económico.

Isto já existiu no Portugal contemporâneo, chamou-se cavaquismo e voltou agora. Talvez alguém se lembre de como acabou, porque acaba sempre por acabar.


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