(Luís Rocha, in Facebook, 21/11/2025)

(A Estátua não resiste e sublinha a qualidade teórica e literária deste texto. Diz tudo sobre um sistema e uma ideologia perniciosa. Parabéns ao autor.
Estátua de Sal, 22/11/2025)
João Cotrim de Figueiredo é, para o neoliberalismo português, aquilo que o presunto é para o melão. Uma combinação clássica, previsível e absolutamente admirada sem se perceber porquê. Uma peça institucional de cristal Baccarat, cuidadosamente lapidada para brilhar no mercado das ideias… mesmo que as ideias sejam as mesmas desde 1982 e venham entranhadas de mofo ideológico.
Se os neoliberais tivessem um altar doméstico, e muitos têm, a estatueta seria a de Cotrim de Figueiredo, de braço estendido a segurar um manual de Economia 1.0. O homem personifica o sonho húmido destes apóstolos da desregulação. Finalmente alguém que acredita realmente que o mercado é uma espécie de entidade divina que desce dos céus apenas para recompensar quem se portar bem. Uma espécie de fada madrinha com juros compostos.
O problema é que para esta gente, “portar-se bem” significa trabalhar 12 horas por dia, receber um salário que envergonha qualquer tabela, e ainda agradecer a oportunidade, como se ser explorado fosse uma forma de mindfulness económica.
E agora olhemos para a audácia. Cotrim quer ser Presidente da República. Um neoliberal em Belém, o equivalente político de instalar uma máquina de vendas automáticas no Mosteiro dos Jerónimos. Um atentado estético. Um desrespeito arquitectónico. Uma comédia involuntária.
Imaginem o cenário. O Palácio de Belém transformado em open-space com sofás de cowork, onde assessores precarizados fazem brainstorming sobre como transformar o SNS numa cadeia de clínicas low-cost importadas da escola de Chicago. No jardim, placas motivacionais com frases como “A pobreza é apenas falta de visão estratégica” ou “Se o mercado te fecha uma porta, abre uma start-up”. Uma distopia tão ridícula que até o Milton Friedman se levantaria da campa para vir cá dizer: “É pá, tenham calma.”
E os neoliberais, esses entrariam em estado de êxtase teológico com toda a certeza. Assim numa espécie de beatificação histérica colectiva.
Os tipos do Observador fariam fila na porta para lamber a mão ao santo padroeiro da meritocracia. Os comentadores caniche, libertos da coleira da vergonha, correriam pelos estúdios da televisão nacional como galinhas hipertensas, a celebrar cada corte orçamental como se fosse noite de ano novo. E aquela meia dúzia de génios que acha que liberalismo é só legalizar a canábis continuava alegremente a fumar, ignorando que, no maravilhoso mundo neoliberal, as mortalhas são privadas.
Mas a grande piada do neoliberalismo, é a crença infantil de que o mercado é justo. Justo. O mercado. A instituição mais moralmente aleatória desde a invenção do totobola. Só um neoliberal consegue olhar para um cenário onde cinco famílias controlam a economia e dizer: perfeito, isto é a liberdade a funcionar maravilhosamente.
Cotrim, claro, acredita nisto com fervor de seminarista. Para ele, desigualdade não é problema, é uma oportunidade de negócio. Pobreza não é tragédia, é motivação. O SNS não é pilar social, é ineficiência custosa. E a habitação não é direito é activo.
Cotrim é o tipo de pessoa que, se o Titanic estivesse a afundar, sugeria uma privatização parcial dos botes, seguida de um concurso público para acesso prioritário aos remos.
O mais ridículo é que os neoliberais acham-se radicais. Visionários. Contracorrente. Quando, na verdade, são o equivalente político a uma torrada sem sal, desinteressantes, previsíveis e com a capacidade nutritiva de um Excel impresso em cartão canelado.
E por isso, meus caros, a candidatura de Cotrim não é só má. É profundamente hilariante. É como se alguém tivesse decidido transformar o país numa experiência social contínua.
E o que acontece quando deixamos um neoliberal representar um país que já foi suficientemente lixado por neoliberais, é a miséria passar a ser paga em prestações com juros
Beijinhos e até à próxima…
Referências consultadas:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cotrim_de_Figueiredo
https://www.dn.pt/…/cotrim-de-figueiredo-o-isaac-nader…
https://www.europarl.europa.eu/…/JOAO_COTRIM%2BDE…/home
https://www.dn.pt/…/gonalo-almeida-ribeiro-antigo-vice…
https://www.nowcanal.pt/…/cotrim-admite-que-as-suas…
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