Os cinco erros da direita sobre o crescimento económico em Portugal

(Ricardo Paes Mamede, 25/01/2022)

Os partidos de direita apresentam-se a estas eleições com um discurso simples sobre a economia portuguesa. Afirmam que Portugal tem tido um crescimento medíocre comparado com os países do Leste europeu, que eram pobres e hoje são mais ricos que nós. E que essa diferença se deve às políticas adoptadas: liberais naqueles países, “socialistas” aqui. Logo, segundo a direita, é preciso liberalizar, privatizar e desregulamentar para Portugal crescer.

Este discurso é simples e eficaz. É também errado, por cinco razões.

1. O desempenho das economias de Leste é menos diferente do português do que parece

As economias não crescem sempre ao mesmo ritmo – há momentos em que aceleram, outros em que abrandam. Nas economias menos avançadas, as acelerações devem-se quase sempre a factores externos e nem sempre são virtuosas.

Na UE, todos os novos Estados membros passaram por um período de rápido crescimento económico nos anos que se seguiram à integração. Tal deve-se a três motivos principais: a abundância de fundos de coesão, a liberalização dos movimentos financeiros internacionais e os fluxos de investimento estrangeiro (que exploram as novas oportunidades de investimento e de produção a baixos custos).

Isto aconteceu também a Portugal na década e meia que se seguiu à entrada na então CEE, em 1986. A este nível, Portugal não compara nada mal com os oito países da Europa de Leste que aderiram à UE em 2004: destes, só a Polónia teve uma taxa anual de crescimento superior à portuguesa nos 15 anos posteriores à integração europeia (ver gráfico).

O problema vem depois – e não é por acaso. À medida que os rendimentos médios aumentam, o montante de fundos europeus diminui e as vantagens competitivas associadas aos baixos custos também. Os fluxos de financiamento externo invertem-se, então: se no início o capital entra para emprestar a juros baixos e investir em diferentes actividades, na fase seguinte o capital sai sob a forma de lucros, juros e amortização dos empréstimos entretanto contraídos. Quem julga que os elevados ritmos de crescimento dos países de Leste se vão manter ad eaternum enquanto a economia portuguesa estagna não presta muita atenção à história do crescimento económico.

2. Os países de Leste tinham condições para crescer que nada têm que ver com “medidas liberais”

A direita defende que o rápido crescimento dos países do Leste europeu se deve a políticas liberais, em particular impostos baixos e um Estado de dimensões reduzida. Qualquer explicação para o crescimento económico que se baseia num único factor é de desconfiar – se assim fosse, os economistas não andavam há 250 anos a tentar compreender o fenómeno. Neste caso concreto, a explicação apresentada esquece alguns dos elementos essenciais.

A ideia de que os países de Leste tinham menos condições do que Portugal para crescer é simplesmente errada. Se há coisa que se sabe sobre o crescimento económico é que este tende a beneficiar muito das qualificações das pessoas – e os países de Leste têm desde há muitas décadas os níveis mais elevados de educação entre as nações europeias.

Outro facto bem conhecido dos processos de crescimento diz respeito à importância do perfil de especialização dos países. E, ao contrário do que muitos sugerem, as economias que mais têm crescido no Leste europeu não eram pouco desenvolvidas: uma década antes de aderirem à UE (ou seja, quando ainda estavam na transição para o capitalismo), países como a Estónia, a Eslovénia, a República Checa, a Eslováquia e a Polónia tinham já um perfil de exportação mais sofisticado do que o de Portugal (ver gráfico construído a partir daqui).

Índice de complexidade económica das exportações de cada país

Às vantagens na educação e ao perfil de especialização, alguns países do Leste somam a proximidade histórica e geográfica a economias muito mais avançadas, de cuja força tendem a beneficiar. Os casos mais óbvios são a República Checa (que se tornou uma extensão da indústria transformadora alemã) e a Estónia (que se tornou um prolongamento da economia finlandesa).

Ignorar todos estes factores – o impacto da integração europeia, os níveis de educação e de sofisticação tecnológica de partida, ou a proximidade a economias mais avançadas – para insistir na tese da abordagem liberal como factor de sucesso económico, só pode ser resultado de ignorância ou má fé.

3. A estagnação económica em Portugal nada tem a ver com a “falta de liberalismo”

Falar em falta de liberalismo em Portugal como estando na origem da estagnação económica é um contrassenso. A “agenda liberal” tem estado bem presente nas políticas seguidas por sucessivos governos ao longo das últimas décadas. Nos últimos 30 anos:

  • privatizou-se quase tudo o que havia para privatizar em Portugal: empresas industriais, bancos, seguradoras, empresas de transportes e de energia, até o tratamento de resíduos;
  • liberalizou-se o sistema financeiro e a circulação de capitais;
  • desregulamentaram-se por três vezes as leis do trabalho, facilitando os despedimentos, os horários flexíveis e os contratos atípicos;
  • abriram-se as portas aos privados na saúde e na educação;
  • abdicou-se de uma moeda própria, deixando o financiamento do Estado nas mãos de especuladores privados internacionais.

Neste contexto, dizer que o mau desempenho da economia portuguesa nas últimas décadas se deve a falta de “liberdade económica” e ao excesso de intervenção do Estado, faz mesmo muito pouco sentido.
Para além disso, ignora aspectos cruciais para perceber a estagnação da economia portuguesa, como sejam:

  • o processo de endividamento privado, decorrente da liberalização financeira e dos erros de supervisão bancária;
  • os choques competitivos associados à entrada da China na OMC e o ao alargamento a Leste;
  • a forte apreciação do euro face ao dólar até 2008; ou
  • a forma desastrosa como as lideranças europeias lidaram com a crise da zona euro entre 2010 e 2012. 

Só por indigência ou desonestidade intelectual se podem ignorar todos estes factores quando se explica a evolução da economia portuguesa nas últimas décadas.


4. Baixar os impostos e esperar que chova não nos vai salvar
Dificilmente um mau diagnóstico dá origem a uma boa prescrição. Quem tem uma má explicação para a estagnação da economia portuguesa não terá boas soluções para a resolver.
Os partidos da direita acreditam tanto que o fraco crescimento relativo de Portugal se deve à “falta de liberdade económica” que a sua receita para o crescimento é pouco mais o que baixar os impostos, reduzir os custos de contexto e esperar que chova.
O pressuposto é de que o crescimento depende do investimento privado e que o investimento privado depende dos custos de fazer negócios – custos fiscais, laborais, administrativos e outros.
É óbvio que nenhuma economia atrai investimento se as condições de fazer negócios forem miseráveis. Mas essa não é a situação de Portugal. Em nenhum dos domínios referidos Portugal apresenta indicadores muito distintos da média europeia. O conhecimento existente não nos permite afirmar que a redução dos impostos traria mais crescimento. Quanto à redução dos salários ainda menos: o seu impacto na procura interna seria imediato, enquanto o seu efeito na competitividade da maioria dos sectores exportadores seria residual.
É possível e necessário melhorar muitos aspectos que afectam a vida das empresas: os custos da energia, alguma burocracia excessiva, a lentidão da justiça, entre outros. Mas estes problemas estão identificados há muito tempo e têm vindo a melhorar. Exija-se que melhorem ainda mais, claro, mas não se espere que venha daqui um salto qualitativo da economia portuguesa.
Os principais entraves ao crescimento económico em Portugal são, em primeiro lugar, o perfil de especialização produtiva (baseado em actividades de baixo valor acrescentado e que enfrentam fortes pressões da concorrência externa) e, em segundo lugar, o elevado endividamento externo (que leva a que uma parte importante dos rendimentos gerados todos os anos seja canalizado para o exterior).
Em quaisquer circunstâncias, seria sempre difícil ultrapassar estes obstáculos. No contexto português actual, estas dificuldades são acrescidas pelo facto de o país não dispor de instrumentos de política económica que outros usaram no passado – como a política monetária e cambial ou a política de comércio externo – estando o uso de outros instrumentos muito limitado pelas regras da UE (como a política orçamental, as empresas públicas ou as compras públicas).
Mais uma vez, só por indigência ou desonestidade intelectual se pode afirmar que todas estas dificuldades se resolvem aumentando a “liberdade económica”.


5. Se a história nos ensina alguma coisa é que é preciso mais – e não menos – intervenção pública
A direita defende a redução da presença do Estado na economia, vendo-a como um problema e não como parte da solução. Também este discurso é simplista. Na verdade, o Estado está sempre presente – como produtor, regulador, comprador ou prestador de serviços – e é sempre indispensável.
O que distingue a direita liberal é a noção de que o Estado deve manter uma distância higiénica das empresas privadas, limitando-se a regulá-las de forma a promover a concorrência (ou simulá-la, quando ela não pode existir). Mas a história do desenvolvimento económico mostra-nos que a mudança estrutural e o reforço das capacidades produtivas dos países exigiram sempre um Estado muito mais interventivo, contribuindo activamente para a acumulação de conhecimentos e competências, e apoiando de forma estratégica sectores que se revelavam em cada contexto mais promissores. Isto aconteceu em países com regimes políticos muito distintos, em circunstâncias históricas diversas. É esta a história da Inglaterra da dinastia Tudor, dos EUA desde a independência até hoje, da Alemanha, da Coreia do Sul, do Taiwan, da China e de tantos outros.


O problema de Portugal hoje não é Estado a mais nem Estado a menos. O problema é ninguém parecer saber muito bem o que fazer com o Estado e como – e aqui o problema não é só da direita. Mas isso fica para outra ocasião.


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Da coragem de não ser puro

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 25/01/2022)

Só há duas formas de mudar um país – ter uma política diferente e ter mais de 50%. E se uma destas condições não existe então transforma-se em algo de inútil para disputar o poder. (…) Ter poder sem princípios não serve de nada. Mas ao mesmo tempo ter os princípios sem poder é igualmente inútil.”


As palavras são de Marisa Matias, no início de 2015, numa entrevista a Pablo Iglesias, secretário geral do Podemos e atual vice-presidente do governo espanhol. Ouvi-as, recordo, com espanto, quando preparava um perfil daquela que mais tarde nesse ano seria anunciada como a candidata presidencial do Bloco: era a formulação exata do meu pensamento sobre aquilo que via, com impaciência, como a infantilidade tradicional dos partidos à esquerda do PS face à realidade – a resistência a sair do lugar confortável do protesto, a assunção de pureza irredutível dos que não se conspurcam nas negociações e nos compromissos, dos que não se rendem às vicissitudes da realidade.

Afinal, pensei, ainda há no Bloco quem se lembre de que este foi apresentado, em 1999, na sua criação, como o novo partido à esquerda do PS que, ao contrário do monolítico e inamovível PCP, estava disposto a fazer pontes, a puxar o PS para a esquerda e até, talvez, a governar. O BE que surgia, com o seu grupo parlamentar paritário e sem gravata, as suas causas igualitárias, feministas, ambientalistas, como a lufada de ar fresco de que a esquerda portuguesa tanto precisava, um possível “desempatador” de um panorama parlamentar em que a direita conseguia fazer maiorias compostas e a esquerda nunca.

Esse espírito de entendimento e diálogo vimo-lo aliás seis anos depois, quando, na perspetiva da provável vitória sem maioria do PS, o BE então liderado por Francisco Louçã se prefigurava como o parceiro óbvio de governo – era essa a pergunta que se fazia insistentemente ao então secretário-geral do PS: se iria coligar-se com o BE e em que condições. Não aconteceu – o PS teve a sua primeira e única maioria absoluta até hoje – e a distância entre os dois partidos iria crescer até romper. Mesmo se em 2008, Louçã, num debate promovido pela editora Tinta da China, admitia que o governo socialista tinha até então posto em prática uma parte considerável do programa do Bloco – e não se referia apenas às matérias ditas “fraturantes”, longe disso. “Ainda bem, significa que conseguimos fazer valer o nosso ponto de vista”, comentou o coordenador do BE, sem discutir o essencial, ou seja, que os programas dos dois partidos eram essencialmente compatíveis. Sabemos, porém, o que sucedeu depois; e sabemos também o resultado que o sucedido teve.

Adiante: quando em 2015 Marisa Matias, provavelmente a mais social-democrata dos bloquistas (é um elogio), disse o que cito no início deste texto sobre poder e princípios ainda não tinha acontecido a debacle do Syriza na Grécia, o referendo convocado para 5 de julho de 2015 pelo governo para ouvir o povo quanto ao ultimato europeu e o subsequente ignorar da negativa que recebeu em resposta e pela qual fizera campanha; ainda não tínhamos visto um partido da dita “esquerda verdadeira” a render-se, de modo totalmente inesperado, ao princípio da realidade e a aceitar o memorando austeritário cuja rejeição tinha pedido ao povo para em seguida, após eleições legislativas, se aliar a um partido de direita de modo a continuar a governar. Ainda não tínhamos visto o BE a tentar digerir o que pode suceder a um partido irmão quando em vez de protestar, criticar e exigir passa para o outro lado e se vê a ter de escolher entre atirar a toalha e fugir, ou ficar e aceitar o que parecia inaceitável.

Ainda não tínhamos visto Catarina Martins, na campanha para as nossas legislativas de 2015, comentar assim a vitória do Syriza nas eleições gregas convocadas a seguir ao referendo: “Prova que o povo grego não quer voltar atrás. É verdade que o plano que foi imposto ao governo grego não é uma rutura com a política de austeridade, e é conhecida a oposição do BE a esse plano assinado pelo governo grego. A rutura de que precisamos na Europa não existiu ainda. Mas se ganhasse a Nova Democracia [partido grego de centro direita] seria voltar ainda mais para trás.” Na mesma entrevista ao DN em que aceitava ser melhor um Syriza em capitulação perante a austeridade que um governo de direita que faria decerto pior, Martins negava que o BE quisesse continuar a ser um partido de protesto: queria ser governo, mas sem “ceder em objetivos essenciais”.

Seis anos depois e quase 23 após a sua fundação, o BE não foi ainda governo; nunca teve realmente de sopesar a importância relativa do poder e dos princípios. Parece, no entanto, ter sopesado a importância relativa do que é melhor para o partido: continuar a apoiar um governo PS, com as cedências necessárias nas negociações, ou arriscar eleições.

Neste jogo em que todos culpam todos, parece óbvio que, como escreve Boaventura Sousa Santos no Público, a esquerda portuguesa decidiu, depois de uma iluminação redentora em 2015, voltar a ser burra e esquecer de novo aquilo que parecia ter aprendido: que a direita nunca tem problema nenhum em fazer cedências e dar todas as cambalhotas necessárias, incluindo, como se constata no namoro sonso de Rui Rio e da IL ao Chega, vender a alma (a existir) ao diabo, para segurar o poder.

Relembremos então: ter princípios sem poder é inútil – se a ideia é mudar o mundo ou um país e não apenas fazer manifestos para o vento. É agora que vivemos e não nos amanhãs cantáveis – e até o PCP, a maior surpresa dos últimos seis anos, parecia ter percebido isso. Podemos então, por favor, por favor, ser crescidos? Podemos ter – outra vez – a coragem de não ser puros?


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Terapia de grupo

(Carmo Afonso, in Expresso Diário, 24/01/2022)

O contributo que cada um pode dar, para que a noite de domingo não seja outro desgosto, vai para além do voto. A esquerda deve combater a direita e não combater-se entre si. A guerra deve acabar. Qualquer voto à esquerda tem a utilidade de contribuir para uma solução, são todos úteis. Os partidos já o disseram. António Costa, ontem, afirmou finalmente que chegou o tempo de dar força a quem ao longo da vida se dedicou a erguer pontes. Está aqui o momento de viragem.


A democracia portuguesa foi uma conquista. O valor que se dá à revolução que nos deu a democracia é um bom critério para aferir o posicionamento político de uma pessoa ou de um partido político. Também é um bom medidor para avaliar a evolução do posicionamento político de país. A gratidão e o reconhecimento da importância do 25 de abril estão com níveis baixos. O país tem vindo a movimentar-se para a Direita e a desvalorizar o impacto da revolução, a apontar-lhe falhas e a quem a protagonizou. Defender que o 25 de novembro é que foi importante tornou-se habitual.

Complementarmente também se tornou habitual ouvir, dos tempos da ditadura, que não foi nenhuma ditadura, que não era bem fascismo e, claro, que tinha algumas virtudes. Ainda anteontem ouvíamos Rui Rio afirmar que “Em termos de eficácia, a justiça piorou desde o 25 de Abril.”

As afirmações, como esta de Rui Rio, são normalmente feitas no espaço público de forma a terem uma possibilidade de recuo. Podem sempre ser compostas como uma piada, uma ironia, justificadas como uma maneira de dizer as coisas que só quem é muito quadrado é que não entende. Ser muito quadrado – o nome que agora se dá é ser extremista de esquerda – significa que não se aceita relativizar a leitura de factos.

Neste momento talvez já nem seja preciso qualquer recuo. A Rui Rio, que quer ser o próximo primeiro-ministro, não é exigido que justifique o que disse, que diga se estava a falar a sério ou se era mais uma piada como a do avanço do fascismo nos Açores, que se retrate junto das famílias de quem foi torturado, preso ou perdeu a vida nas mãos da eficácia da justiça nos tempos da ditadura.

E porquê?

Este fenómeno está integrado num maior. As linhas vermelhas foram recolocadas, estão agora muito distantes. Às vezes já é difícil localizá-las. Nada parece ser suficientemente sério ou grave a ponto de determinar que a generalidade dos portugueses ponham o pé no travão.

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Recentemente assistimos a imagens em que homens, da Guarda Nacional Republicana, trataram de forma criminosa imigrantes em Odemira. Não se trata apenas de não respeitarem a vida e a dignidade daquelas pessoas. Cometeram crimes. Violaram a lei que estão obrigados a fazer cumprir. Não vejo que, a partir destes factos, se tenha iniciado uma reflexão sobre alguns aspectos que são inultrapassáveis: existe racismo estrutural em Portugal e esse problema está especialmente enraizado nas forças de segurança. Forças de segurança racistas colocam numa situação de fragilidade comunidades que já têm bastantes razões para se sentirem fragilizadas. Mais, elementos das forças de segurança que se sentem impunes perante o não cumprimento da lei, não são verdadeiras forças de segurança, são um perigo efetivo para a segurança de todos.

O tema aqui é a normalização do inaceitável.

O tema aqui somos todos nós como povo. Qual é o limite? Porque damos estes sinais de que quase nada tem a gravidade de nos abalar?

Vamos a eleições no dia 30 de janeiro e claro que não devemos temer os resultados. Se o fizermos estamos a temer a própria democracia e a temer-nos a nós próprios. Não podemos defender os valores democráticos e depois não aceitar os resultados da dinâmica da democracia.

Mas é claro que o partido Chega é uma exceção aqui. Outra vez: não deveria lá estar. Não deveria ser uma possibilidade de escolha no boletim de voto. Nunca se combateu o fascismo a votar. Tudo isto é profundamente ridículo mas claro que não terá consequências ridículas, o adjetivo aplicável às consequências deverá ser outro.

Sucede que a exceção está no meio de nós e sucede que podemos ter uma solução governativa que integre André Ventura. Ainda ninguém à direita,

interessaria sobretudo que fosse Rui Rio a fazê-lo, afirmou de forma inequívoca que em circunstância alguma haverá entendimento com o partido Chega.

Várias observações podem ser feitas a esse respeito mas novamente a mais importante é sobre nós como povo. O líder partidário do maior partido de direita português está, segundo as sondagens, a passar impune (falo de impunidade nas intenções de voto) fazendo uma admissão tácita de um entendimento com um partido de extrema-direita neofascista e racista.

Há cinco anos seria uma impossibilidade. Agora é possível. Atrevo-me a ir mais longe: parte do eleitorado da direita espera que Rui Rio chegue a um entendimento com o partido Chega se tal entendimento for condição necessária para a formação de um governo de direita.

As pessoas são boas a encontrar justificações para aquilo que pretendem ver feito. A leitura de que, se António Costa se pode apoiar na “extrema-esquerda” para formar governo, também Rui Rio tem legitimidade para o fazer à direita é a mais frequente.

E esta foi outra linha que se cruzou recentemente. Bloco e PCP passaram a ser a extrema-esquerda. Esta classificação – errada do ponto de vista da ciência política – foi intencional e tem vindo a passar. Está agora firme na voz de muitos protagonistas de direita. Trata-se de chamar extremismo ao combate às desigualdades sociais, à luta pelos direitos dos trabalhadores, à reivindicação do aumento do salário mínimo nacional, à exigência da correção do valor da reforma de quem tinha longa carreira contributiva e do pagamento das horas extraordinárias.

Ou seja: se António Costa pôde chegar a entendimento com esta esquerda, então é mais que justo que Rui Rio possa chegar a entendimento com quem incita ao ódio à comunidade cigana, assenta o seu programa em diferenciações entre portugueses e, de um modo geral, sugere aos portugueses que devem desconfiar dos outros portugueses, os mais pobres, pois na verdade são uns aproveitadores com Mercedes à porta de casa.

Este é o raciocínio. Estamos falados.

Até acredito que Rui Rio sinta repugnância por estas ideias – é certo que Marcelo Rebelo de Sousa a manifestou, e de forma inequívoca, no debate presidencial com André Ventura – mas isso não conta para nada, talvez até agrave o que aqui está em causa. Mas também é verdade que existem no PSD pelo menos duas direitas e que esta direita de Rui Rio não é a de Marcelo Rebelo de Sousa ou a de milhares de militantes que poderão até estar mais perto de António Costa do que estão de Rui Rio.

Se com esta possibilidade implícita de acordo com o Chega em cima da mesa Rui Rio ganhar as eleições, então será totalmente merecida a sorte que nos espera a seguir. As eleições não são apenas uma avaliação do desempenho dos partidos e dos dirigentes partidários. Elas permitem também uma avaliação do desempenho dos eleitores, de nós próprios.

Esta avaliação deve começar pelos abstencionistas (estabelecer aqui uma diferença entre abstencionistas e os que votam nulo/branco. É um grande tema. Há milhares de portugueses que participam no sufrágio eleitoral, e nessa participação manifestam o seu desagrado com a política nacional, com um voto nulo/branco. Estes sim, são a terceira força política do país): quem se abstém de participar em eleições não tem grande direito a queixar-se seja do que for. Nem que o dinheiro dos seus impostos está a ser mal gerido, nem que a extrema-direita está a avançar muito e nem que a classe política em Portugal não tem qualidade ou qualquer outra queixa. Quem não participa no ato mais importante da vida democrática está a excluir-se das soluções e, com todo o respeito por essas pessoas, de discutir política no espaço público ou de lhe pedir contas. Queixo-me aqui de todos os que não vão votar. Dos que olham para os céus – que numa versão contemporânea significa fazer desabafos nas redes sociais – com revolta mas que não saem de casa naquele dia.

O PSD não está unido em torno de Rui Rio. É de notar a estratégia que Rui Rio usou nas eleições internas do partido e que mantém: a de dizer que, se o Partido Socialista ganhar as eleições, contará com o PSD para viabilizar uma solução governativa. Muito interessante e uma grande armadilha: ao dizer isto Rui Rio apresenta-se como um moderado do Bloco Central. Rui Rio, o mesmo que não consegue afirmar inequivocamente que jamais fará entendimentos com o Chega. Quem vota neste PSD tanto pode estar a viabilizar um governo do Partido Socialista como a votar no primeiro governo, da história da democracia portuguesa, que integra um entendimento com um partido de extrema-direita.

Pode ser o oito e pode ser o oitenta. Que PSD tão elástico.

Já a estratégia de António Costa tem passado por deixar claro que não tem intenções de se entender com o Bloco e com o PCP. Vamos lá analisar esta posição de António Costa. É que ela é altamente intrigante. Há muitas possibilidades de justificação e, claro, a esquerda vai-se entretendo numa verdadeira guerra civil entre si enquanto as intenções de voto na direita estão aparentemente a subir. Há que conseguir pensar enquanto ainda estamos no olho do furacão, enquanto não chega o momento em que olhamos para os destroços e contamos baixas. Desta vez fomos avisados.

Porque é que António Costa não tem acolhido as aproximações que o Bloco e o PCP lhe apresentam? Poderia ser por ressentimento a propósito dos últimos tempos, concretamente por não ter existido acordo para viabilizar o Orçamento do Estado. Só que não faz grande sentido que assim seja. Não indo buscar a saturada arqueologia da falta de entendimento à esquerda que nos trouxe até aqui, é relativamente seguro pensar que, se fosse por essa razão, Bloco e PCP não estariam no mesmo saco. Deve ser reconhecido ao PCP um esforço acrescido, sobretudo na fase anterior à da discussão deste orçamento, de viabilizar as políticas deste governo, de negociar. Os três partidos não se entenderam, diria que o PCP é quem tem menor responsabilidade nessa falta de entendimento.

Mas adiante na análise das motivações de António Costa. Não acredito em ressentimentos políticos quando está em causa ganhar ou perder uma eleições legislativas. Restam então dois cenários: O primeiro é que a António Costa, como se afirma por aí à boca cheia, não interessa assim tanto ganhar as eleições e que apenas o prenderá cá uma maioria absoluta. Este cenário considera que António Costa tem outros planos pessoais, na União Europeia, e que está farto (não me atreveria a criticá-lo por estar farto e cansado) da dureza destes últimos anos. Segundo esta teoria, António Costa põe o pé no acelerador a fundo e conviverá muito bem com qualquer resultado no próximo domingo. Se puder formar governo sem Bloco e PCP será precisamente o que vai fazer. Se precisar de negociar com Bloco e PCP, como aconteceu em 2015, então António Costa prefere ir à sua vida.

Vamos lá ver: recuso este cenário por várias razões. A principal é que não acredito que António Costa tenha a sua vontade de ganhar estas eleições condicionada por uma circunstância pessoal que só a si diz respeito. Há boas razões para se crer, independentemente da apreciação que se faça do seu trabalho, na sua dedicação ao país.

Há ainda um segundo cenário a considerar e este também dói: António Costa não tem dado conversa ao Bloco e ao PCP porque na sua leitura inicial a maioria do eleitorado português não quer uma qualquer reinvenção da geringonça. O eleitorado português deslocou-se para a direita. A narrativa de que a falta de entendimento da esquerda é culpa destes partidos também está bem difundida e assente junto de parte do eleitorado socialista. E é certo que a simpatia da direita pela geringonça também nunca abundou. Existe uma possibilidade de António Costa ter entendido que teria melhor resultado admitindo entendimentos com a associação protetora de direitos dos animais que se constituiu como partido político e com o Livre (Rui Tavares saiu-se magnificamente nos debates, mostrou bem a sua preparação e, deve ser dito, foi o primeiro a defender publicamente uma convergência à esquerda) do que com esta esquerda. E reparem que o anúncio forte foi o da possibilidade de entendimento com o PAN, o do Livre foi mais discreto e não simultâneo.

Este último cenário entristece. Estará a maior parte do eleitorado português farto desta esquerda e das suas reivindicações? Sempre foi minoritária mas, depois da governação de Passos Coelho, era atrativa. As votações obtidas foram boas e o eleitorado socialista não se opunha ao entendimento. Claro que foi graças a esta esquerda que existiu um governo de esquerda, o melhor governo que conheci e também graças às suas exigências e contributos. Mas em política não há agradecimentos.

Faço parte de um grupo de pessoas que vivem a vida política de forma intensa. O grupo das pessoas que sofre e que delira com resultados eleitorais. Também é verdade que os respeito. E aqui um há detalhe que é novamente intrigante: Rui Rio apresenta a tranquilidade própria de quem convive bem com qualquer resultado eleitoral. Ele próprio já esclareceu o que fará se perder as eleições e parece evidente que não será o fim de nada, antes o princípio de uma fase política nova, nova como foi a que se seguiu às eleições de 2015. Teremos tempo, se for o caso, para pensar nela.

Também António Costa manifesta a tranquilidade de quem convive bem com qualquer resultado e pouca vontade de descer à cave dos grandes esforços para dar tudo por tudo para um entendimento mesmo que ele seja preciso.

Um dos dois será o próximo primeiro-ministro de Portugal. Têm-se apresentado extremamente calmos e diria até pouco combativos. Irritados, e até fraticidas, estamos nós todos.

Mas vamos ao osso: existe a possibilidade de estarmos num Portugal diferente do de 2015 (um Portugal que, mesmo assim, deu a vitória a Pedro Passos Coelho. Uma vitória que não lhe serviu de muito. O sistema permite o que foi feito. E bem). Parte dos portugueses pode ter-se fartado da geringonça de esquerda e pode mesmo acreditar que Bloco e PC são extrema-esquerda e que, se não fosse o entendimento de 2015, o Chega não teria crescido tanto.

Tem de se admitir esta hipótese e tem de se tirar conclusões sobre ela. Talvez António Costa não acredite que o anúncio da vontade de entendimento à esquerda beneficie o PS. Rui Rio certamente não acredita que não desmentir a possibilidade de um entendimento com o Chega (que aliás já fez nos Açores) o prejudique.

Ambos concluem que este é o estado a que chegou o eleitorado português. Não quero acreditar que tenham razão. Uma coisa é certa: ainda não houve eleições. Tudo pode acontecer no domingo e, deste tudo, o melhor para a esquerda será que ganhe, e no seu conjunto, e que António Costa seja o próximo primeiro-ministro. Acredito que será também o melhor para o país. Digo que esta direita (que traz consigo a Iniciativa Liberal, partido que é contra a existência de um salário mínimo nacional, e eventualmente o Chega) não é o melhor para ninguém ou será para poucos, alguns do costume.

O contributo que cada um pode dar, para que a noite de domingo não seja outro desgosto, vai para além do voto. A esquerda deve combater a direita – e tanto há para recordar das consequências da última governação de direita em Portugal – e não combater-se entre si. A guerra deve acabar.

O mais à esquerda a que conseguimos chegar, a melhor defesa das propostas fundamentais para os portugueses, será num entendimento com um governo socialista. Qualquer voto à esquerda tem a utilidade de contribuir para essa solução, são todos úteis. Os partidos já o disseram. António Costa ontem afirmou finalmente que chegou o tempo de dar força a quem ao longo da vida se dedicou a erguer pontes. Este foi o momento de viragem. O Partido Socialista precisa da esquerda e o contrário também é verdade. Não vai haver nenhuma maioria absoluta. A posição de isolamento do Partido Socialista apenas o tem desfavorecido.

No domingo vamos jogar snooker, um jogo que traduz a lógica atual de participar num sufrágio eleitoral. Uma pessoa chega lá e o que pretende é dar uma tacada seca e certeira – uma daquelas que produzem o “plock” do taco que acertou mesmo no centro da bola e com força. Reparem que neste jogo nunca se dá uma tacada na bola que queremos que entre no buraco. Bate-se na bola branca de forma a que essa bola bata no sítio certo da “bola objectivo” de forma a entrar lá dentro. Há aqui umas série de regras – matemáticas e da física – que se devem dominar para então se tentar jogar. Já as dominamos.

Já consentimos a normalização de desgraças a mais. Que não seja normalizado o nosso desentendimento. Ele não é uma luta política, é um atirar as culpas de fim de relação.

Esse passado trata-se em terapia.

O futuro trata-se em eleições.


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