Os pobres e a marca do dinheiro

(Júlio Marques Mota, 17/12/2025, Revisão da Estátua)


Lamento profundamente que Fernando Alexandre tenha dito o que disse ontem, lamento profundamente que o ministro Fernando Alexandre diga agora, o que não disse da forma como o disse. e como todos os meios de comunicação informação noticiaram. Por exemplo o Expresso:

“Os estudantes bolseiros têm prioridade nas residências e só podem receber a bolsa com o valor do custo do alojamento fora da residência se não tiverem lugar na residência”, e a prática do Estado é “não misturar” e “pôr nas residências universitárias os estudantes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos. E por isso também, já agora, é que elas depois se degradam, por isso é que elas depois não são cuidadas. E é por isso, devo dizer, que pedi ao CNIPES [Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior] que pusesse a reflexão essas ações, mas confesso que não estou nada otimista. Porque quando metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar do serviço público, nós sabemos que esse serviço público se deteriora”, disse Fernando Alexandre, que acrescentou que “é assim nos hospitais, é assim nas escolas públicas ( o sublinhado é do no original). Nós sabemos que é assim. Vamos ter residências todas renovadas que nos próximos anos se podem começar a degradar.” Fim de citação

Mandaram-me o vídeo com as declarações de Fernando Alexandre e reagi dizendo à pessoa que mo enviou: não tem qualidade para me ser vir dele . Frases soltas não me servem, disse. Lembrei-me de uma partida que em tempos que o Tempo e a memória já consumiram que fizeram à Manuela Ferreira Leite quando numa frase longa utilizaram só o primeiro período distorcendo assim a intenção da autora. Não quis correr esse risco.

À tarde leio o Expresso on-line e acabaram-se as dúvidas: ele tinha dito o que disse! Era inacreditável que um ministro da Républica tenha dito o que disse. Não era seguramente um ministro de Abril quem disse o que disse, era um ministro de 25 de novembro que estava a falar dizendo o contrário que não disse o que disse.

 Depois veio o comunicado do Ministro que anexo a este texto e onde não explica nada e é pena que não tenha aproveitado a oportunidade para se retratar. À Antena 1, Fernando Alexandre explicou que “Se andar uns segundos antes para trás na minha intervenção, estava a falar com um estudante que foi bolseiro, que viveu numa residência, e sabe bem que quando temos um serviço público onde apenas estão pessoas com rendimentos baixos e não têm voz, os gestores que são responsáveis por esses serviços não cuidam deles devidamente”.

Pasme-se, o ministro enganou-se afinal! Os problemas existem, um deles, e é o fundamental, é não haver residências que cheguem para alojar os estudantes que não tem dinheiro nas grandes cidades para alugar um quarto. Pediram-me há dias, por um quarto em Queluz para a minha neta, a módica quantia de 450 euros, para um ordenado que seria de novecentos euros; um segundo problema , o problema citado pelo ministro e comentado por ele da forma mais desastrosa que se possa imaginar: é a conservação das residências; um terceiro problema agora pelo ministro sublinhado é a qualidade dos gestores das residências universitários que “não cuidam deles devidamente” e um quinto problema, esse sim muito relevante, no contexto atual da juventude que temos: de jovens, muito jovens,. deslocados e a viverem longe das famílias, que precisam de serviços de apoios médicos e socais específicos que o governo não dá, e não dá este como não deram os governos socialistas anteriores. Para esta classe de gente política sem classe, os jovens só valem pelos votos que colocam nas urnas de voto e na altura própria. E, lembro aqui as conversas tidas com António Luzio Vaz que matou a fome a muita gente, que o grupo dos estudantes com depressão era sobretudo constituído por estudantes oriundos das ilhas, do Algarve e do Baixo Alentejo, ou seja, de gente jovem que vivia afastada dos seus lares, das suas famílias, gente bem especial que precisa de apoios bem especiais, apoios que não são as longas filas de espera para ir aos hospitais. Mas esses cuidados especiais, não existem e nem o ministro fala deles, e devia fazê-lo e tal não é sobretudo um problema de pobres, repito..

No argumento do ministro dado á Antena 1, já que reduz anedoticamente o problema, poderia ter dito: “os responsáveis por esses serviços não cuidam deles [e delas, das residências] devidamente”. Mas nem isso disse.

Quando digo [delas, das residências] é porque isso significa falta de investimento e o não investimento não tem a ver com os pobres; neste caso, tem a ver com a politica da AD e nada mais que isso. Quanto à falta do termo [delas] relata o jornal Publico hoje :

“Totalmente falso”: após críticas do PS, Fernando Alexandre nega que considere que cidadãos mais pobres degradem os serviços públicos. O ministro admite que o facto de as residências continuarem a ser ocupadas “apenas por estudantes bolseiros deslocados”, contribui para que persistam “os riscos da falta de investimento das universidades e politécnicos, o que pode levar à degradação destes equipamentos”. “Este risco na gestão das residências é o que está na origem da ‘degradação’ referida hoje na intervenção do ministro e não a sua utilização pelos estudantes”, refere o ministério no esclarecimento. Fim de citação

De novo, também aqui o ministro baralha as coisas pois não são os pobres afinal que degradam as residências é a falta de dinheiro dos pobres para pagarem a conservação dos edifícios que estão a ser utilizados de forma corrente. Sendo assim, como solução para o problema levantado pelo ministro, ou o governo financia a renovação das residências, o que ele não quer, ou aumenta-se as receitas através do aumento do preço de ocupação por quarto e os pobres não podem suportar esse aumento, mas também não podem ser insultados por isso, como fez o ministro. E como não podem pagar aumentos, o ministro quer pô-los fora das residências, na rua, porque o Estado também não quer gastar dinheiro na reabilitação das residências, mas isso não é dito, subentende-se..

 Mas naquela frase é apenas importante o que lá não está, a palavra delas. É igualmente a palavra que lá está: deles; como está, a frase diz-nos que os gestores responsáveis por esses serviços não cuidam deles, ou seja, não cuidam dos filhos dos pobres e se estes forem para a rua, entram para as residências outros universitários e então será que os filhos dos que têm não precisam de cuidados dos diretores de residências?

Ou seja, o dinheiro marca de uma maneira positiva os que o têm, marca com carimbo e de maneira negativa, fria e conscientemente, os que o não têm. Não há volta a dar ao texto do ministro para se poder eliminar a questão de discriminação da classe social.

Mas há um problema importante a sublinhar, com muitos créditos positivos para Fernando Alexandre, por enunciá-lo, mas com notações negativas pela forma como lhe responde e esse problema fundamental é o do mixing social.

Diz-nos o Gabinete do Ministro: A qualidade dos serviços públicos e da sua gestão é beneficiada pela diversidade social dos seus utilizadores, facto que está demonstrado por inúmeros estudos científicos. Por isso, é objetivo deste Governo que as residências académicas sejam espaços de diversidade social, integração e bem-estar para todos os estudantes. Fim de citação.

Este é um problema complexo, que exige muita lucidez, muito empenho e de todo o sistema porque a melhor forma de conduzir o mixing é no espaço de aulas, de bibliotecas, de outros espaços coletivos para estudar em grupo nas próprias Universidades e saúdo o ministro por enunciá-lo, saúdo-o apenas por isso, enquanto afirmo publicamente que neste momento não há nem pode haver condições para levar a cabo esse mixing, dada a forma como as Universidades e as suas carreiras estão estruturadas. Sobre isso nunca se ouviu uma palavra do ministro Fernando Alexandre nem dos anteriores ministros do PS ou do PSD.

 Desta triste história, só tiro uma conclusão alternativa à que escrevi ontem, a qual não a retiro do campo das explicações possíveis: o ministro ou tinha dormido mal, ou estava muito cansado, ou tinha bebido algum copo que lhe tinha caído muito mal, para dizer o que disse e da forma como o disse, mesmo no que disse à Antena 1 e ao jornal o Público.

) Paraa terminar. Tem-se dito que temos uma juventude universitária doente. O ministro di-lo, os jornais dizem-no, mas este problema , a existir, tem raízes profundas. Não querendo falar do caso português aqui vos deixo dois textos; um texto de fundo e extenso sobre sobre a juventude universitária americana e as suas universidades (ver aqui) e um texto curto de Mattews Yglésias de comentário ao primeiro (ver aqui). Se a leitura destes dois textos vos interessar comecem por em primeiro lugar o texto comentário de Yglésias.

Leiam-no com atenção e perguntarão, como nós, o que é que se passa com a juventude americana para se gastarem milhares de dólares em atestados médicos para que os estudantes possam fazer os exames padronizados em condições especiais quanto a ruído e com prolongamentos de tempo também eles especiais.

Depois de lerem os textos pensem na situação portuguesa e questionem-se sobre se os problemas de fundo serão ou não muito diferentes em Portugal e sinceramente, pelo que já vi, não vejo o ministro, e muito menos vejo a coligação AD , (para mim são coisas diferentes) a estarem à altura de resolução dos problemas que estão implícitos em toda esta história de pobres e não pobres que preenche os noticiários de hoje…

O rolo compressor

(Por José Gabriel, in Facebook, 16/12/2025, Revisão da Estátua)


Eles e elas não se cansam de repetir: Ventura é, em debates, um “rolo compressor”. Tal diagnóstico só prova uma coisa: cresce a percentagem de idiotas e analfabetos funcionais entre os entrevistadores e os alegados jornalistas televisivos.

Na verdade, se ser um rolo compressor fosse o que Ventura faz nos debates, então poderiam, com menos compromissos e custos, substituí-lo por um Equus africanus asinus que zurrasse ou escouceasse diligentemente de modo a impedir o oponente de pensar ou falar. Ou um qualquer arruaceiro que encontrassem pela rua – talvez um daqueles que estiveram em frente à AR depois da manifestação sindical. Ou um elemento de uma claque abrutalhada. Nenhum deles seria um rolo compressor, mas fariam o mesmo que Ventura faz.

Tudo o que se passa nestes debates é o contrário de um confronto dialógico entre interlocutores informados, que trocam argumentos devidamente articulados e fundamentados, mesmo que diferentes ou contrários em matéria de opinião. Aí sim, se um deles refutasse com fundamento e competência os argumentos do adversário e fizesse vencer os seus por demonstração convincente, então podiam usar a imagem de rolo compressor. Sem ofensa para nenhum dos participantes.

Mas notem como a maioria dos comentadores se enternece com o bruto. Ai como ele é tão eficaz, ai que não perdeu nenhum dos seus eleitores, ai como ele defende as suas causas. Venceu mais um debate, vou dar-lhe uma nota alta que ele merece, o queriducho. Todos o temem, ai, ai.

Nunca lhes parece relevante analisar a validade –  material e formal – dos argumentos, nunca se passa do devaneio vão e da treta de quem ganha e perde, como se fosse uma partida de bisca lambida. Os poucos comentadores que ousam ir mais longe, depressa são, eles sim, sujeitos ao rolo compressor dos avençados, sempre em maioria.

Não, imbecis, ninguém o teme. O que os seus oponentes sentem é uma compreensível repugnância e uma normal náusea de stress. Sabem que as suas razões, por respeitáveis e justas que sejam, nunca serão respondidas pela criatura – serão objecto de insultos e caneladas verbais tasqueiras. Sabem, ainda por cima, que os dados estão viciados – se um debate correr mal ao “rolo”, logo uma estação lhe fará uma entrevista de fundo, ou melhor, uma entrevista longa, já que as coisas nunca vão fundo, fica tudo ali na babugem da inteligência do entrevistado, do entrevistador e do que eles esperam sejam os destinatários.

Rolo compressor? O único rolo que tal é o gerado pela vossa informação prostituída que, diariamente, vai amassando consciências, mentindo, rastejando ao ritmo dos vossos donos. Criando uma representação do mundo fictícia. De tal modo que os que habitam o fundo da vossa platónica caverna nem se disponham a espreitar a luz.

“O capitalismo “está morto”, mas Varoufakis não está contente: eis o tecnofeudalismo

(Pedro Rios sobre entrevista de Yanis Varoufakis, in Público, 20/11/2025)

O capitalismo morreu e deu lugar a algo pior, defende Yanis Varoufakis em Tecnofeudalismo

Somos servos nos territórios digitais de Bezos, Zuckerberg e companhia, os senhores feudais do século XXI. A tese de Yanis Varoufakis no livro Tecnofeudalismo.


Década de 1770. A vida corria mais ou menos como dantes em vários lugares da Europa. Homens ricos dominavam as zonas rurais e quarteirões urbanos, comandavam exércitos e marinhas. A renda das terras continuava a ser a força económica mais poderosa. Para onde olhássemos, víamos o que ainda podia ser descrito, em termos económicos, como uma forma de feudalismo, mesmo que esse sistema social, económico e político já estivesse teoricamente morto. Noutros sítios, as nuvens de fumo lançadas pelas fábricas alimentadas pelas primeiras máquinas a vapor poderiam levar alguém a falar em “feudalismo industrial” ou “feudalismo de mercado”, mas observadores perspicazes chamaram “capitalismo” a este emergente sistema económico e abriram os olhos da humanidade para a “grande transformação” que estava a acontecer. A imagem está em Tecnofeudalismo, livro de Yanis Varoufakis agora publicado em Portugalpela Objectiva.

Em 2025, o economista e ministro das Finanças grego em 2015 também vê um sistema a nascer nas ruínas de outro. Usa um nome, polémico, audaz, para ele: tecnofeudalismo. “Qual é, então, a minha hipótese? É a de que o capitalismo está morto, no sentido em que a sua dinâmica deixou de governar as nossas economias”, escreve em Tecnofeudalismo, editado originalmente em 2023. Ao Ípsilon, Varoufakis, uma das mais conhecidas figuras da esquerda europeia, diz que “o parasita cresceu mais do que o organismo”: o tecnofeudalismo matou o capitalismo.

Treinar máquinas para que nos treinem para que as treinemos

É uma imagem forte, uma poderosa analogia. No feudalismo, o sistema económico pré-capitalista que marcou a vida na Europa, os servos trabalhavam sem remuneração nas terras dos senhores feudais (ou dos seus vassalos). No tecnofeudalismo, segundo Varoufakis, os utilizadores da Internet são novos servos: com cada scroll, texto, fotografia ou vídeo carregados para a Net, com cada minuto de atenção despendido, contribuímos para a acumulação de riqueza pelos novos senhores feudais — Jeff Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Alphabet), Elon Musk (X, Tesla), Tim Cook (Apple) & companhia. Nos feudos digitais destes ultra-ricos, somos “servos não remunerados, cuja função é fornecer as nossas informações, a nossa atenção, a nossa identidade e, sobretudo, os padrões de comportamento que treinam os seus algoritmos”, lemos em Tecnofeudalismo.

A “mutação” do capitalismo

O tecnofeudalismo, um termo já usado em 2020 pelo economista francês Cédric Durand,​ não equivale ao feudalismo, esclarece Varoufakis. “Todos os meus críticos cometem o erro de pensar que estou a sugerir que voltámos ao feudalismo, ao passado. Não, não voltámos. Vamos em direcção ao futuro, a um futuro muito distópico”, diz ao Ípsilon, numa videochamada a partir de sua casa, na Grécia.

Podia ter usado expressões como capitalismo “da nuvem”, “digital”, “algorítmico” ou “da vigilância”, este último cunhado por Shoshana Zuboff​​, socióloga que denunciou a maneira como as big tech extraem os nossos dados e manipulam o nosso comportamento para maximizar receitas. Porém, acredita o ex-ministro grego, a questão hoje não é “quem sabe o quê e o que acontece com os nossos dados”, mas antes quem “detém e quem lucra com este poder exorbitante”. O “jogo intensificou-se”, indo muito além da vigilância: para ele, está em causa uma mudança profunda na economia e uma nova forma de capital, o capital-nuvem (referência à computação em nuvem) — com consequências políticas que já são visíveis.

Socializar o “capital-nuvem”

“O que produz a Uber? O que produz o Airbnb? O que produz a Amazon? Nada, absolutamente nada, excepto o poder de cobrar rendas”, defende. “E depois há máquinas, como esta aqui [mostra o telemóvel] — o Google Assistant — ou a [Amazon] Alexa, que são interfaces com uma forma de capital que nada produz. Treina-se [a máquina] para que ela nos conheça e ela treina-nos para que a treinemos a conhecer-nos melhor. E depois ela dá-nos conselhos — sair ou não de casa consoante a meteorologia, que livro comprar.”

Nesta vida cada vez mais digital, teoriza Yanis Varoufakis, velhos preceitos do capitalismo — o mercado, a competição livre — são derrubados, trocados por territórios digitais controlados por empresas de matriz monopolística. Exemplifica: “Se perguntarmos ‘Alexa, que bicicleta eléctrica recomendas que eu compre?’, somos transportados para um território onde uma máquina — não um anunciante humano, não um especialista em marketing — coloca desejos de consumo na nossa mente.” Ao comprar a bicicleta no site de Jeff Bezos (no seu “feudo”), “parte do que pagámos pela bicicleta vai para a Amazon, que não a produziu”. Uma venda que acontece “fora do mercado” tradicional do capitalismo, um negócio em que o fabricante de bicicletas reduz a sua mais-valia para pagar uma “renda a Jeff Bezos”. Os novos senhores feudais não só exploram o trabalho não remunerado dos servos, apropriam-se também do valor produzido pelos capitalistas tradicionais, os seus vassalos (o fabricante de bicicletas que depende da Amazon é um deles).

O capitalismo “assentava em dois pilares: os mercados e o lucro. Se estiver certo na minha análise, esta nova forma de capital, que triunfou completamente, substituiu os mercados por estas plataformas digitais — ou feudos, como lhes chamo.” Empresas como a Amazon valem mais do que o PIB da larga maioria dos países— cada uma vale mais de 2 biliões (milhão de milhões) de dólares — ​e o seu negócio está sobretudo ligado a “rendas, não a lucros. Já não falamos de capitalismo.” Séculos depois do fim do feudalismo, “a renda voltou a ser a maior fonte de acumulação de riqueza”.

O poder das big tech

As crises de 2008 e da pandemia de covid-19 levaram os bancos centrais a emitir moeda. Em vez de criar empregos ou aumentar salários, os bancos e as empresas preferiram investir nas acções das grandes empresas tecnológicas. Consequência: em vez de reanimar o capitalismo, a “avalanche de fundos públicos” deu início à Era do Capital-Nuvem, lemos em Tecnofeudalismo. As big tech valorizaram em bolsa e ganharam poder. Mais recentemente, aliaram-se a Donald Trump. Varoufakis dá um exemplo recente, vindo dos Estados Unidos: a regulação das stablecoins, criptomoedas indexadas ao dólar. “Pela primeira vez, o Estado cedeu o seu monopólio de imprimir dinheiro. O que a Administração Trump fez foi dizer aos tipos das big tech e aos banqueiros ‘juntem-se e podem imprimir dólares’, o que é uma transição assustadora. Nunca teria acontecido se não tivéssemos tido a ascensão do capital-nuvem.”

Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Sundar Pichai e Elon Musk na tomada de posse do Presidente Trump, em Janeiro Pool / getty images

Este tipo de capital cresce quanto mais dependentes dos ecrãs somos. “Não há conspiração aqui: o código do algoritmo está escrito de maneira a maximizar as rendas da nuvem do seu dono. O algoritmo trabalha por conta própria, apoliticamente, de forma totalmente amoral. Acontece que para maximizar as rendas da nuvem de Elon Musk, o Twitter [agora X], o algoritmo procura deixar-nos zangados. Envenena as nossas conversas, envenena a nossa democracia. [Outros algoritmos] canalizam a nossa criatividade através do Spotify, da Netflix — e depois temos a inteligência artificial a escrever guiões de filmes. A lógica do capital-nuvem penetra em todos os recantos da nossa existência, da mesma forma que Marx e Engels descreviam, em A Ideologia Alemã​[1846], que a acumulação de capital estava a mudar a nossa cultura, o nosso ethos, a nossa alma.”

Assine já

Como podem os países responder à influência desmesurada das big tech? Varoufakis elogia a “muralha” que a China ergueu para impedir a entrada de empresas norte-americanas na sua economia. Diz ainda que Pequim está mais adiantada do que a União Europeia na interoperabilidade entre plataformas online (por exemplo, permitir que os seus utilizadores recebam mensagens de outras plataformas ou que possam transitar entre elas sem perder informações pessoais) — deixarmos de ser “servos” ou reféns das plataformas que usamos “reduz significativamente” o poder das grandes tecnológicas. Critica o facto de, neste ano, a Comissão Europeia ter abandonado os planos de cobrar um imposto sobre as empresas digitais, uma vitória para Trump e os gigantes tecnológicos dos EUA, como a Apple e a Meta. A “soberania digital” europeia e o combate ao domínio das big tech é uma das bandeiras do Democracy in Europe Movement 2025 (DiEM25), a aliança europeia de esquerda que Varoufakis co-fundou.

Não é um ludita. “Não somos contra o capital-nuvem — somos contra a ditadura do capital-nuvem detido por 0,0001% da população”, diz. “Queremos capital-nuvem, mas queremos socializá-lo. Mas isso exige coragem política e a Europa não a tem.” Imagina, por exemplo, uma versão do Airbnb feita em Lisboa, com “regras votadas pelos cidadãos” para impedir a descaracterização da cidade pelo turismo, uma app compatível e interoperável com outras aplicações do género de outras cidades e com as apps de transportes locais. “Porque é que não a fazemos?”

O erro da esquerda

No capítulo final de Tecnofeudalismo, livro escrito como uma espécie de diálogo com o seu falecido pai, também marxista, Varoufakis arrisca desenhar o que poderia ser uma “fuga ao tecnofeudalismo”, uma visão com “empresas democratizadas”, “dinheiro democratizado”, “a nuvem e a terra como bens comuns”. Uma visão de esquerda: para fazer das ferramentas digitais meios de “colaboração e emancipação humana”, e para voltarmos a ser donos “da nossa mente, temos de possuir colectivamente o capital-nuvem”

As críticas de Varoufakis, que se define como marxista libertário, à esquerda levam-no a recuar ao início do século XX. A esquerda, nas suas várias tipologias, cometeu, então, “um grande erro”.

“Quando a esquerda surgiu com força, no século XIX, era um movimento emancipatório amante da liberdade. Era tudo sobre libertação. Era sobre libertar os trabalhadores da fome e da exploração. Era sobre libertar as mulheres do patriarcado. Era sobre libertar as colónias das metrópoles, do imperialismo. Era tudo sobre liberdade. E algures no início do século XX, abandonámos o conceito de liberdade. Entregámo-lo aos liberais, que não querem saber da liberdade de ninguém que não eles próprios, só se preocupam com a liberdade dos poderosos.” A esquerda focou-se “na igualdade e na justiça”, mas tornou-se “autoritária”, como se viu na União Soviética.

Antes de entrar na política grega, incursão que teria o seu auge em 2015, quando foi, por poucos meses, ministro das Finanças em plena crise da dívida soberana do país, Yanis Varoufakis dava aulas numa universidade. “Ninguém me conhecia excepto pelo trabalho académico”, conta. “Depois de 1929 [o crash da Bolsa de Nova Iorque], com o falhanço da esquerda em fazer avançar uma agenda para transformar a economia social, o descontentamento cresceu devido às políticas de austeridade e o resultado foi o fascismo. Em 2008, senti que isto voltaria a acontecer. Foi por isso que entrei na política, porque sabia que o fascismo teria um ressurgimento. Estava convencido disso por causa desta combinação de austeridade severa para a maioria e de socialismo para os grandes negócios e o grande capital. Isso levaria sempre a descontentamento que seria explorado pelos xenófobos, pelos ultranacionalistas, pelos fascistas.” Ao salvar os bancos, Barack Obama “criou Trump”; na Europa, ao impor austeridade, governos sociais-democratas geraram uma “raiva” que germinou durante anos e alimentou a ascensão da direita radical em vários países, entre os quais Portugal. E a esquerda, o que faz? “Está a travar batalhas de há 50 anos que não podem ser vencidas.”

Ainda assim, Varoufakis não perdeu a esperança. “Figuras como Zohran Mamdani [um socialista democrático eleito presidente da Câmara de Nova Iorque] lembram-nos de que não temos o direito de fazer passar os nossos falhanços por inevitabilidades”, diz. “Faço sempre a distinção entre esperança e optimismo. Não sou optimista. Não tenho o direito a ser optimista. Vivemos num planeta que está a morrer. Há uma catástrofe climática. Temos genocídio. Vivemos sob circunstâncias terríveis. Os historiadores do futuro vão olhar para a nossa geração e não vão ser gentis. O nosso dever moral não é sermos optimistas, mas termos esperança e fazermos dessa esperança algo real.”