Os sucessos ucranianos em uma perspetiva fria

(Por Seth Harp*, in Velho General, 19/09/2022)

Soldados do exército ucraniano em Kharkov, Ucrânia, em janeiro de 2022

Embora a imprensa chame os recentes ganhos territoriais ucranianos de “ponto de virada”, é bom estar ciente de que a guerra na Ucrânia pode estar se encaminhando para algo mais “congelado” e menos satisfatório.


A ofensiva da semana passada para libertar a zona rural a leste de Kharkov foi uma vitória impressionante para os militares e o governo ucraniano, bem como seus patrocinadores e gerentes no Pentágono, Departamento de Estado, CIA e outras agências de inteligência dos EUA.

A tomada da estação ferroviária de Izyum pela Ucrânia foi especialmente importante, já que as forças russas dependem fortemente de trens para transporte de suprimentos. Desde a bem-sucedida defesa de Kiev, o governo Zelensky não conseguiu uma vitória tão importante no campo de batalha. Mas relatos triunfalistas na mídia dos EUA retratando a contraofensiva como uma grande mudança na direção da guerra exageram o significado desses desenvolvimentos.

A Rússia já havia perdido a guerra no norte. Após o colapso de seu ataque a Kiev em março, os soldados russos abandonaram os oblasts de Chernihiv e Sumy e nunca chegaram perto do controle total sobre Kharkov, a segunda maior cidade da Ucrânia. A ocupação continuada da zona rural ao norte e leste de Kharkov era um vestígio remanescente daquela primeira fase fracassada da invasão, o que poderia explicar por que foi tão pouco defendida e por que as forças russas, pegas de surpresa, foram tão rápidas em recuar.

Reportagens da imprensa ocidental retrataram a “ofensiva relâmpago” da Ucrânia, como é invariavelmente chamada, como um grande ponto de virada na guerra. Quase todos eles usam a palavra “humilhante” para descrever a perda da área pela Rússia. As defesas russas “colapsaram” e eles “fugiram em pânico”, nos dizem. Isso foi amplamente atribuído à suposta “exaustão” e “baixa moral” das tropas russas. Como resultado, as linhas de batalha foram “redesenhadas” e os contornos da guerra “reformulados”. Putin é considerado “lívido” e “isolado”. Na linguagem maximalista do Conselho do Atlântico, a “vitória ucraniana destruiu a reputação da Rússia como uma superpotência militar”.

Há uma boa quantidade de ilusão em toda essa retórica. Desde abril, ficou claro que Putin, depois de não conseguir tomar Kiev e Kharkov, mudou para um plano B reduzido de garantir uma ponte terrestre para a Crimeia, no sul. Não apenas isso pode ser percebido de uma olhada em um mapa de movimentos de tropas, mas o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse isso explicitamente em julho.

No futuro, o sucesso ou fracasso dessa jogada estratégica é como o regime em Moscou definirá vitória ou derrota. E a retomada da zona rural de Kharkov pela Ucrânia terá pouco efeito significativo na capacidade da Rússia de manter cidades portuárias críticas ao sul como Kherson, Melitopol, Mariupol e Berdyansk. Neste ponto, Kharkov não é um objetivo tão importante quanto Mykolayiv ou Odessa. Os russos podem facilmente passar sem a ferrovia de Izyum.

O exército ucraniano e a milícia de reserva mostraram extraordinária bravura e resistência em sua defesa de Kiev – coragem inspiradora, na verdade – e golpearam bem acima de seu peso novamente na campanha da semana passada para empurrar os russos para o leste do rio Oskil. Mas para vencer a guerra de uma vez – o que seria uma vitória milagrosa para o azarão – eles precisariam atravessar o Mar de Azov ou retomar um importante centro como as cidades de Donetsk ou Luhansk.

Nas condições atuais, é improvável que isso aconteça. Uma ofensiva ucraniana contra a Kherson ocupada, lançada em conjunto com a blitz a leste de Kharkov, não produziu ganhos apreciáveis. As linhas de batalha em torno de Mykolayiv e Zaporizhzhia mudaram muito pouco desde março. Mesmo que as forças ucranianas no nordeste conservem seu ímpeto e continuem a pressionar a contraofensiva a leste do Oskil, elas podem retomar todo o oblast de Luhansk ao norte do rio Donets e ainda assim não colocar em perigo o controle russo da costa e da Crimeia.

A guerra é imprevisível, e é sempre possível que uma concatenação inesperada de perdas russas realmente possa precipitar um colapso total da força expedicionária de Moscou e uma retirada completa do Donbass. Há uma pergunta assustadora não respondida de como o regime de Putin responderia nessa eventualidade, porque eles mantiveram certas munições altamente destrutivas em reserva, mas provavelmente é prematura, a menos e até que a Ucrânia acumule ganhos territoriais adicionais.

O clima de inverno que se aproxima, que pode ser brutalmente frio e gelado na Ucrânia, provavelmente desacelerará os movimentos de tropas e talvez os faça quase parar (como aconteceria no Afeganistão todo inverno). Em um sentido mais metafórico, o conflito pode já estar congelado. Desde cerca de maio, essa tem sido cada vez mais a realidade fria e dura, por mais que os propagandistas de ambos os lados detestem admitir.

Um “conflito congelado” é o termo para uma guerra cujas linhas de batalha endureceram e congelaram, mas sem nenhuma trégua ou tratado para ceder formalmente o território conquistado ao agressor, resultando em uma espécie de zona cinza no mapa – pontos mortos na ordem internacional. Exemplos incluem territórios ex-soviéticos como Transnístria, Abkhazia e Ossétia do Sul, que legalmente pertencem à Moldávia no caso da Transnístria e Geórgia no caso dos outros dois, mas que foram ocupados pela Rússia durante anos.

Os estados fantoches da Rússia no Donbass são apenas a adição mais recente a essa ideia de vassalagem quase soberana em países que costumavam pertencer à URSS. Em parte, porque as pessoas de lá são cultural, étnica e linguisticamente inclinadas para a Rússia. É por isso que Putin os atacou em primeiro lugar.

“Conflito congelado” também pode descrever estados fraturados e balcanizados como Iraque, Síria, Líbia, Somália, Iêmen, Mali e outros locais de intervenção dos EUA e da OTAN. Nesses países, as agências militares e de inteligência dos EUA, muitas vezes agindo por meio de proxies, derrubaram com sucesso ou desestabilizaram mal o governo existente, mas não conseguiram instalar completamente um regime substituto que fosse subserviente a Washington e capaz de governar com eficácia.

Senhores da guerra, gângsteres, jihadistas, mercenários, traficantes de escravos, traficantes de armas, traficantes de drogas, paramilitares e espiões fluíram para o vácuo de poder. Na Síria, que é parcialmente ocupada por forças dos EUA até hoje, a Rússia também interveio, resultando em uma divisão com dois terços do país governados por uma coalizão apoiada pela Rússia e o restante controlado por forças americanas e soldados de operações especiais.

Esse tem sido o status quo na Síria por quase uma década; e nesta conjuntura, apesar da contraofensiva de Kharkov, parece ser o futuro mais provável para a Ucrânia também: uma guerra que nunca termina, em um país azarado preso entre duas superpotências do passado, nenhuma das quais tem a capacidade de ganhar sem rodeios, nem a humanidade para negociar um compromisso, com o resultado de que muitos milhares morrem em vão.


Publicado no Responsible Statecraft.


*Seth Harp é jornalista investigativo e correspondente estrangeiro. Fez reportagens na Ucrânia para a Harper’s Magazine durante os primeiros dois meses da invasão russa. É editor colaborador da Rolling Stone e escreveu sobre militares, conflitos armados e crime organizado para uma variedade de outras publicações, incluindo The New Yorker, The New York Times, The Daily Beast, Texas Observer e Columbia Journalism Review. Harp é veterano de combate da guerra do Iraque e, antes de se tornar jornalista, era advogado e procurador-geral assistente do estado do Texas. Ele vive em Austin, Texas, onde nasceu e foi criado.


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Tanta verdade junta mereceu publicação – take XIX

(Por Carlos Marques, 20/09/2022)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Maria ver aqui. Perante tanta verdade junta, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 20/09/2022)


Comentário de Júlio Sousa referido no artigo abaixo:

“Parabéns à autora por dizer aquilo que penso. Não me importo de chocar quem quer que seja: Estes ”
leader” do ocidente evidenciam toda a hipocrisia do ser humano, escondendo crimes que lhe são imputáveis, fazendo pilhagens de recursos e para isso fazem guerras e matam milhões de pessoas. Esta gentalha que apoia a guerra é a mesma que apoia o imperialismo terrorista. Não esquecer os jornalistas mentirosos e cúmplices com esta guerra promovida e sustentada pelos genocidas dos EUA/NATO. Grato à autora deste artigo “desenpoeirado”, a bem da paz.”


Subscrevo o texto e também o seu comentário.

Acrescento outro “não percebo” aos “não percebos” da Maria: como é possível que tanta gente continue a repetir a mentira de que a Crimeia é Ucraniana e que foi anexada “pelo Putin”, quando na realidade aquele povo decidiu livre e democraticamente que era contra o golpe Maidan, era contra a ditadura e a extrema-direita/nazi que se estava a implantar no poder (governo, polícias, e militares) em Kiev, queria voltar oficialmente ao seu país de sempre (Rússia), e sondagens ocidentais posteriores confirmaram os resultados esmagadores do referendo?

E pior, “não percebo” como é possível que se apoie com dinheiro e armas a ditadura e o exército de nazis que tem como promessa/ameaça o alargamento da guerra até à Crimeia.

O “não percebo” obviamente vem da perplexidade e da não aceitação da estupidez/ignorância e ódio/belicismo da maioria. Obviamente que todos percebemos (aqui na EstatuaDeSal e noutros espaços ainda Democráticos) muito bem o que está por trás de tudo isto, e de todas essas posições dos “democratas liberais”, desde a Ana Gomes até ao Mário Machado…

É exatamente por isso que a propaganda atingiu um nível tão gigantesco e agressivo, e que o bullying contra os que usam o cérebro chega a níveis comparáveis com o ódio. Eles (os do império, do sistema, seus vassalos, e avençados) sabem bem o que lhes acontecerá, agora que fizeram all-in na mentira e nas consequências da mentira, no dia em que a maioria do povo Ocidental abrir os olhos.

Assim, os oligarcas da ditadura Bilderberg/Davos/Bruxelas/Washington, têm 4 opções: guilhotina, forca, suicídio, ou prisão perpétua. Quem é genocida, apoia nazis, manda milhões para a miséria, prende/persegue os jornalistas que ainda dizem a verdade, e arrisca a 3ª Guerra Mundial (que sendo nuclear, será a última…) não merece mais nada.

Olhando para o Parlamento Português, ficam de fora os 2 partidos que, muitíssimo bem, votaram CONTRA o imperialismo belicista da oligarquia de Washington, votaram CONTRA o aumento da ameaça contra a Rússia e China e Não-Ocidentais, e votaram CONTRA a negociata com a ditadura Turca (AGORA a invadir a Síria e a matar Curdos) que viola Direitos Humanos de refugiados.
BE e PCP votaram contra o alargamento da NATO: grupo de terrorismo de Estado Ocidental, fundado pelos genocidas USAmericanos, pelos imperialistas Britânicos, e pela ditadura fascista Portuguesa em 1949.

Uma NATO que teve pouco depois da 2ª Grande Guerra um dirigente (Chairman of Military Committee, 1961-1964) formado, treinado, doutrinado, fanatizado em altos quadros (Operations Chief (nº3 na hierarquia do exército), 1938-1944) dos Nazis: Adolf Heusinger.
Um tipo procurado pela URSS nos anos 60 para ser julgado pelos crimes de guerra cometidos em territórios ocupados, mas que morreu sem nunca se fazer justiça. E pior, segundo documentos divulgados em 2014, fez parte do Schnez-Truppe, um exército secreto que veteranos da Wehrmacht e das Waffen-SS tentaram criar nos anos 50, a mesma década em que este Nazi foi chefe do exército da Alemanha Ocidental (1957-1961).

Imaginem que algures nos anos 2010, o Osama Bin Laden despia os trajes com os quais ficou conhecido, testemunhava num julgamento contra gente em posições inferiores na Al-Qaeda, vestia um fato e gravata, e passava a ocupar o lugar que é hoje em dia de Stoltenberg, ou o da Leyen.
É basicamente esta a história da NATO, mas com Nazis, ou seja, de longe bem piores que a Al-Qaeda.

Quanto mais se lê sobre a história que fica sempre de fora da propaganda, seja as “notícias” ou os filmes de Hollywood, mais se percebe quanta razão está do lado da Rússia, para se sentir provocada e ameaçada, para não deixar escapar um único suspeito de Nazismo, e para ter de novamente recorrer às armas para derrotar o mal (Nazi) que afinal nunca foi derrotado na Europa, mas apenas travestido e mascarado, e levado ao colo por uma máquina de propaganda da qual Goebbels estaria orgulhoso…

Por isso para mim, que já era anti-fascista e obviamente anti-nazi, acrescento agora o anti-atlantista.
É que dizer que aquelas 4 letras significam “North Atlantic Treaty Organization” deve ser o maior eufemismo desde que Hitler se auto-denominou “Humanista”. NATO ou significa Nazis Again Terrorizing Others, ou significa North America Terrorist Oligarchy. Nem mais, nem menos!


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A “pérfida” aliança

(António Filipe, in Expresso Diário, 19/09/2022)

Com a tão celebrada mais antiga aliança do mundo, o Reino Unido nunca teve outro objetivo que não fosse a defesa dos seus exclusivos interesses e o aumento da sua esfera de influência mesmo que à custa da humilhação do seu mais velho aliado.


Foi com alguma estupefação que recebi a notícia de que o Governo do terceiro país europeu a implantar a República, Portugal, ia declarar três dias – três – de luto nacional pela morte da Rainha Isabel II, honra idêntica à que foi concedida aos Presidentes da República Mário Soares e Jorge Sampaio. Não que isso altere o nosso dia a dia, mas pelo que isso significa quanto ao modo como o governo português se posiciona nas relações internacionais e como encara o respeito que deve ao seu país e à sua História.

O culto da personalidade da família real britânica não tem paralelo à escala mundial. Na sociedade hipermediatizada em que vivemos existem estrelas globais cujas proezas desportivas, musicais, ou outras que suscitem o interesse dos circuitos comunicacionais internacionais se transformam em fenómenos de culto, sendo quaisquer pormenores das suas vidas, reais ou inventados, objeto da atenção de centenas de milhões de pessoas.

No plano político, em que existe toda uma história de cultos da personalidade em diversas latitudes e regimes, nada supera o culto mediático que rodeia todos e cada um dos elementos que integram a família Windsor, cujo nome é ele próprio uma invenção destinada a ocultar as origens germânicas da família aos olhos da opinião pública britânica.

Caras dos reis e das rainhas nas moedas e nas notas, um merchandising gigantesco consumido por indígenas e turistas, uma atenção mediática obsessiva, e tudo isto sem outra razão que não seja o privilégio de nascimento de tais personalidades.

Os dirigentes políticos que mais decidem os destinos do mundo e/ou dos seus países são objeto de atenção mediática em função dos seus méritos e deméritos e de critérios jornalísticos bons ou maus. Nada supera, porém, o culto da família real britânica. Na falta de méritos ou deméritos de natureza política substantiva, na ausência de poderes efetivos que, no sistema político britânico, repousam no Chefe do Governo, tal culto assenta em critérios importados da chamada imprensa cor-de-rosa, propagandísticos, apologéticos, de intrigas familiares, tudo em cenários de sumptuosos palácios e de luzentes carruagens dignos das mais caras produções cinematográficas sobre a época vitoriana.

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Como orgulhoso republicano, vejo com alguma perplexidade que se admita no século XXI que o acesso a cargos políticos, e por maioria de razão à posição de Chefe de Estado, com mais ou menos poderes, tenha caráter vitalício e possa decorrer de razões meramente hereditárias, e vejo com alguma perplexidade as manifestações ostensivas de riqueza de famílias reais como a britânica à custa dos contribuintes, em contraste com o escrutínio que ocorre, e deve ocorrer, relativamente às causas de enriquecimento dos demais titulares de cargos políticos.

Claro que independentemente da opinião que cada um pode ter, o Reino Unido é um Estado soberano e tem a forma de governo que os britânicos entendam e que só temos de respeitar, e obviamente que essa opção não pode condicionar a relação bilateral que deve existir entre Portugal e o Reino Unido, cujas bases devem assentar no interesse comum.

Porém, acho manifestamente exagerada a cobertura mediática dada em Portugal, designadamente pelas televisões, às cerimónias fúnebres da Rainha Isabel II, rendendo homenagem a um culto da personalidade manifestamente exagerado, e acho manifestamente excessiva a declaração de três dias de luto nacional decretado pelo governo português.

Foi dito que essa rendição de homenagem se deve ao facto de Portugal manter com o Reino Unido a mais velha aliança do mundo. Só que isto dito assim corresponde a uma simplificação branqueadora da real natureza de tal aliança.

Se é verdade que a dita aliança teve a vantagem de permitir defender a independência de Portugal em face de ambições vindas designadamente de Castela ou de França em determinados momentos históricos, não é menos verdade que tais ajudas vindas da Grã-Bretanha nunca tiveram como motivação qualquer relação de solidariedade anglo-lusa, mas única e simplesmente a prossecução dos estritos interesses do império britânico no seu confronto com outras potências e a manutenção de Portugal na sua esfera de influência tendo em conta o seu posicionamento estratégico como ponto de acesso à Europa continental e ao Atlântico, e tiveram sempre como consequência a instalação de fortes relações de dependência de Portugal em relação ao Reino Unido.

Se olharmos para os últimos três séculos, vemos diversos exemplos do tratamento que o Reino Unidos conferiu ao seu velho aliado.

Em 1703, o Tratado de Methuen, celebrado no quadro da guerra da sucessão espanhola, levou ao abandono da indústria têxtil nacional a favor dos produtos têxteis ingleses, livres de direitos em Portugal e principalmente no Brasil, tendo como contrapartida o favorecimento da exportação de vinhos portugueses para a Grã-Bretanha, criando uma situação comercial profundamente desigual e gravemente lesiva da economia nacional.

Perante as invasões francesas em 1808, a intervenção britânica teve lugar no âmbito de um conflito mais vasto com a França napoleónica que envolveu toda a Península Ibérica. Essa intervenção traduziu-se no apoio à fuga da corte portuguesa para o Brasil, na intervenção militar conjugada com forças nacionais, mas sob o seu comando, que levou à expulsão dos exércitos franceses, e na imposição de um protetorado a que a só a Revolução de 1820 conseguiu pôr termo.

É significativo que tenha sido sob a tutela britânica que foram enforcados o general liberal Gomes Freire de Andrade e outros “mártires da Pátria” acusados de sedição e que a revolução liberal portuguesa de 1820 tenha surpreendido o regente de facto, William Beresford, na sua viagem de regresso do Rio de Janeiro, onde tinha recebido de Dom João VI plenos poderes para a governação de Portugal, o que só a Revolução impediu.

Em 1890, o célebre ultimato britânico constituiu uma humilhação nacional que se tornou reconhecidamente no princípio do fim da monarquia portuguesa. Perante o choque entre as pretensões coloniais portuguesas e britânicas em África, a ameaça militar direta constante do ultimato contra o seu fiel aliado fez levantar uma onda de repúdio nacional para com a traição nacional que constituiu a cedência ao ultimato feito pela “pérfida Albion”. Apesar da troca posterior dos bretões pelos canhões na letra do hino nacional, bem sabemos que “A Portuguesa”, de Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça, nasceu dos protestos contra o ultimato e tem uma origem totalmente antimonárquica e antibritânica.

No final da II Guerra Mundial, apesar da falsa neutralidade salazarista, que disfarçava mal o alinhamento com a Alemanha nazi, o Reino Unido não só não contribuiu com uma palha para o isolamento internacional do fascismo português como o acolheu como membro fundador da NATO, em 1949. Aliás, em 1957 o fascismo português teve a oportunidade de se enfeitar com a visita de Estado da Rainha Isabel II e foi precisamente ao Reino Unido que Marcello Caetano fez provavelmente a última das suas deslocações ao estrangeiro, quase em vésperas do 25 de Abril, sendo recebido com manifestações de oposicionistas portugueses em Londres e com uma manifestação de apoio grotescamente orquestrada pelo regime no seu regresso.

Não defendo que Portugal deva ter uma atitude hostil para com o Reino Unido. Longe disso. Há uma relação histórica de muitos séculos para o bem e para o mal e há todas as razões para que haja uma relação amistosa e de boa cooperação entre ambos os países. Daí a decretar três dias de luto nacional pela morte da Rainha de Inglaterra vai uma grande distância. A distância que vai entre a dignidade e a subserviência.


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