Do caos ao delírio: o Cairo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

Eu tinha estado no Cairo há uns vinte e tal anos e guardara uma recordação de uma cidade imensa, fervilhante, caótica, imunda e, porém, fascinante. Sempre me atraíram os lugares onde os povos, a história, a geografia e as civilizações se cruzaram para formarem esses cross­roads onde diversos mundos tiveram de abrir passagem uns aos outros porque estavam ali, no lugar por onde uns e outros tinham de ir e vir: o Egipto, a Turquia, Marrocos. Há vinte e tal anos a paragem no Cairo antes de descer ao Alto Egipto tinha como consolação para o tamanho desgaste que isso implicava a inevitável visita às pirâmides, ao Museu do Cairo e às mesquitas mais importantes, sempre na expectativa do outro Egipto desafogado do deserto, do Nilo e dos oásis, com templos ao longo do deserto. Lembro-me de que era Maio e estavam 42 graus à sombra e que eu tirei o lenço que levava ao pescoço para limpar uma gota de suor que escorria do rosto de âmbar de Nefertiti. E que mais tarde ela retribuiria o meu gesto no Museu do Cairo com uma noite de luar entre as colunas da ilha de Philae, um longo olhar ao Nilo, ao pôr-do-sol, no cais de Luxor ou uma inesquecível limonada no terraço do Hotel Old Cataract, em Assuão. Mas tudo isso aconteceu antes. Agora, de regresso ao Cairo, dou-me conta de que não houve salvação possível. Esta é uma cidade impossível.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Hoje o Cairo são 20 milhões de habitantes: 10 milhões no centro e o resto nas periferias, das quais a mais importante é El Giza (Gizé), separada das pirâmides por uma extensa cerca de barras de ferro, para não as abocanhar. Tirando o centro em volta da Praça Tahrir, onde ficam os grandes hotéis e o velho Museu do Cairo (o novo tem visto a sua inauguração sucessivamente adia­da), quase todo o resto da cidade é um aglomerado caótico de casas e prédios clandestinos que cresceram à revelia de qualquer planeamento ou projecto arquitectónico: onde se autorizaram cinco andares, construíram-se sete; onde se autorizaram sete, construíram-se nove, e, como resultado, quase todos estão a desfazer-se aos bocados, mostrando interiores esventrados e paredes em vias de desabamento. E como o IMI só é devido após o licenciamento e a conclusão da obra, nenhum prédio está acabado, todos permanecem em tijolo sem reboco nem pintura ou telhado. Ao nível do piso térreo, como em todo o mundo árabe, a rua é integralmente preenchida pelo comércio de tudo e mais alguma coisa, com destaque para as inúmeras oficinas de pneus e jantes de automóveis. O que logo se percebe quando se mergulha no célebre trânsito do Cairo, que eu, pessoalmente, só consigo comparar ao de Bombaim ou Deli.

Tudo o que se diga sobre o trânsito do Cairo fica muito aquém da imaginação e da capacidade de descrição. Mas talvez se possa começar por enunciar as regras do jogo: mesmo nas avenidas mais largas, não há faixas de rodagem traçadas no piso, pelo que cada um inventa as suas; não há rotundas; não há semáforos; não há sinaleiros; não há lugares marcados para estacionamento; não há controles de velocidade, e, coisa extraordinária, não há passagens de peões, os quais atravessam as ruas e avenidas entre os carros e as motas, arriscando a vida a cada metro. Finalmente, todos — automobilistas, motociclistas e peões — estão ocupados ao telemóvel cada minuto do santo dia (cheguei a ver motociclistas com as duas mãos no volante e a cabeça inclinada para encaixar o telemóvel entre o ombro e a orelha, e todos, claro, sem capacete). Como resultado disto, uma densa nuvem castanho-avermelhada de mortal poluição paira permanentemente sobre a cidade e os seus infelizes milhões de sobreviventes. Talvez haja cidades que não têm solução, sobretudo quando à sobrepopulação se acrescenta a miséria e absoluta degradação das condições de vida e de habitação. E talvez o Cairo seja uma delas. E talvez também seja isso que levou o Presidente-general Abdel Fattah el-Sisi a congeminar uma solução radical. Grandiosa e, segundo os críticos, delirante e ruinosa: uma nova capital.

Sisi chegou ao poder por golpe militar em 2014, depondo o radicalismo islâmico do Presidente eleito Mohamed Morsi e, de caminho, sufocando também as aspirações democráticas da população, que, três anos antes e durante 18 heróicos dias, tinha levado a Primavera Árabe à Praça Tahrir e às ruas do Cairo. Em troca de uma repressão sem contemplações, ele prometeu progresso, desenvolvimento, modernidade. Começou por alargar o Canal do Suez, a segunda maior fonte de receitas do Egipto a seguir ao turismo. Nisso gastou oito biliões de dólares, mas as receitas esperadas foram metade do previsto. Então, congeminou outro plano, digno de um faraó dos tempos modernos: uma “New Cairo”, ou “Nova Capital Administrativa”, ou “5th Setlement”, até se fixar no nome definitivo e oficial: “Wedian”, o plural da palavra árabe wadi, que quer dizer um vale no deserto que retém água das raras chuvas.

Mas o primeiro problema da Wedian de Sisi é exactamente a água. Fica a 45 km a leste do Cairo e mais longe ainda do delta do Nilo, a única fonte de água mais próxima e já bastante explorada. Não obstante, a New Cairo terá um rio artificial, lagos e mais lagos, milhares de árvores, que estão a ser plantadas em pleno deserto, e um parque que terá o dobro do tamanho do Central Park, em Nova Iorque. Porque tudo está pensado para esmagar estatísticas: a superfície total de Wedian é de 714 km2, igual a Singapura e quatro vezes Washington, D.C.; terá 700 hospitais e clínicas e duas mil escolas, num país tão carenciado de uma e outra coisa; 1200 mesquitas e igrejas e um complexo militar, o Octógono, com quatro vezes o tamanho do Pentágono; o ­maior arranha-céus de África, e, cereja no topo do bolo, 40 mil camas de hotel, obviamente destinadas às moscas, pois não se alcança que turista queira visitar o Cairo para se instalar a 45 minutos do Nilo e da cidade antiga, num arranha-céus com vista para torres e deserto. Todo este imenso delírio, cujas obras se iniciaram em 2015 e estão agora oficialmente em fase de conclusão, está enxameado de urbanizações e bairros com nomes tão apelativos como Utopia, Belle Vie ou Palmar Hills, e por todos os lados pululam centros comerciais, malls e stands de todas as marcas de automóveis, pois aqui não há outro meio de transporte acessível e de futuro que não esse. Para lá, Sisi vai mudar também todo o poder executivo, legislativo e administrativo — segundo os críticos, para não ter de enfrentar novos embaraços como manifestações na Praça Tahrir. E, obviamente, também lá terá o seu imenso palácio, digno de um faraó, e cujas críticas rebateu com toda a naturalidade: “Qual é o mal de ter palácios? Eles são de todos os egípcios!”

O mal, está bem de ver, são os custos do delírio do general-Presidente. Na última década, o Egipto multiplicou por quatro a sua dívida externa e recebeu 20 biliões de dólares de ajudas do FMI, estando já a pedir novo auxílio. Mas o sonho de Sisi vai custar, em números oficiais, mais 60 biliões — a serem custeados pelos amigos do Golfo, pelos chineses e pela emissão de mais dívida em condições que vão onerar o futuro do país por décadas. Entretanto, com a construção da nova capital, não só o Governo abandona o Cairo à sua sorte — procedendo, por via administrativo-urbanística, à maior separação de classes da idade moderna — como não se percebe como irá conseguir povoar com sete milhões de pessoas a nova capital. De facto, num país onde o rendimento médio per capita é de 220 dólares por mês e a taxa de juro 12% ao ano, quem conseguirá ir viver numa cidade onde o apartamento mais barato custa 80 mil dólares e a renda de um T2 vai de 400 a dois mil dólares por mês?

O território do Egipto é formado por 95% de deserto e a sua única fonte de vida é o Nilo, que percorre 3500 km dentro do Egipto até à foz. Ao longo das suas margens e à vista dele, no Alto Egipto, os antigos faraós construíam, há milhares de anos e com trabalho escravo, templos que, desenterrados da areia, irão permanecer para a eternidade: deles ficou o nome dos que os mandaram fazer, não a história dos que viveram e morreram na miséria para que eles fossem feitos. E em 969 d.C. os otomanos fundaram, mais acima, a cidade que seria a sua capital: o Cairo.

Hoje, um general que também aspira à eternidade constrói uma nova capital na areia, um templo ao luxo, contrastando com a miséria do povo. E nos cartazes de rua sorri, esperando que o povo lhe agradeça. Enquanto, por estes dias, recebe nas praias de Sharm el-Sheikh os dirigentes do mundo inteiro na COP27, para, todos juntos, fingirem, mais uma vez, que se preocupam com o futuro dos povos que governam e a salvação do planeta.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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A nossa História construiu-se com independência, não com subserviência

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 10/11/2022)

As mudanças sucedem-se a uma velocidade vertiginosa e precipitam-nos para uma queda acentuada nos padrões de vida. Portugal, como é óbvio, não vive à margem desta realidade. Hoje, prova-se, mais do que nunca, que a UE é uma construção americana, do Partido Democrata essencialmente, e que a UE só é o que a Casa Branca deixa ser.

Hoje, a guerra fria 2.0 tudo justifica, e é ver a religiosa do greenwashing (lavagem verde, falsa verde) que é Annalena Baerbock, a desdizer tudo o que havia dito antes sobre carvão, petróleo, GNL, GPL, desde que venha do outro lado do Atlântico, para poluir ainda mais, ou, especialmente, desde que não venha da Sibéria.

Vejamos o que se passa com o gás natural em Portugal, que nunca pode ficar atrás, nestas competições de “colaborador do mês”. Há uns anos Portugal iniciou o seu processo de instalação de gás natural nos prédios residenciais, um avanço que significou muitas coisas: maior conforto, pois deixámos de andar com a botija às costas; preço mais acessível…

Contudo e sobretudo, o que a instalação de gás natural significou em matéria de impacto ambiental, foi muito importante. A construção, por exemplo, do Gaz Maghreb Europe pipeline, vindo da Argélia para a Península Ibérica, representou a possibilidade de se consumir um gás menos poluente e com menos custos logísticos ambientais (e financeiros) para ser cá colocado (hoje interrompido devido ao conflito Argélia/Marrocos).

E eis que o governo maioritário do PS, se prepara para legislar no sentido de retirar a obrigatoriedade de instalação de canalização de gás natural nos prédios novos ou renovados, revertendo o que foi um importante avanço, não apenas em matéria de preço, mas também do ponto de vista ambiental.

Diz o governo que “no atual quadro de crise energética, torna-se imperioso não estimular o consumo de gás natural de acordo com as orientações da União Europeia”. Ou seja, no atual quadro o ambiente e a salvação do planeta deixa de ser importante, provando-se que agenda verde da UE só é verde porque constitui um ciclo de acumulação de dólares.

Agora que outros ciclos foram compostos, já se pode voltar ao carvão, ao nuclear… Mas não o governo português… Não. Este, encerra centrais a carvão para comprar energia elétrica em Espanha vinda de centrais a… carvão. A UE mandou!

Diz ainda o bem-mandado governo que “afigura-se como imprescindível para dar o sinal correto ao mercado da construção em Portugal, no sentido da sua descarbonização”. Ainda me hão de explicar como é que usar gás de petróleo liquefeito, com emissões superiores ao gás natural, transportá-lo em camiões, refiná-lo, engarrafá-lo e transportá-lo para as residências, fazer as botijas, transportá-las vazias, reenchê-las e no fim, pagar um preço mais elevado, como é que isto contribui para a descarbonização.

Claro que, o mesmo governo, vem com a falácia das renováveis, tipo carro elétrico só comprável por ricos, dizendo que “o aumento de soluções alternativas à disposição dos consumidores que, aliás, mais eficazmente contribuem para o objetivo nacional e europeu em matéria de neutralidade carbónica”, justifica esta medida.

E eu pergunto: um trabalhador português médio, que compra ou arrenda uma casa sem instalação de gás, e vendo os preços das “soluções alternativas”, as quais implicam um investimento que não pode fazer (e a eletricidade também não está a diminuir de preço), o que será mais provável fazer? Investir 2, 3, 4 ou 5 mil euros em soluções elétricas, fotovoltaicas ou vitrocerâmicas, ou voltar à célebre botija de gás de petróleo liquefeito? A qual não implica qualquer investimento inicial?

Lá se vai a neutralidade carbónica, até porque, este divórcio que a UE promove entre nações europeias, está a trazer de volta meios de produção energética que a própria UE declara obsoletos. E como estamos todos no mesmo planeta…

Claro que, no final, temos de questionar: e de onde vem o petróleo que usamos para fazer GPL, ou de onde vem o próprio GPL? Pois, vem dos EUA, falando-se também do Canadá ou da Nigéria. Ou seja, mais caro, mais longínquo, mais poluente… E como contribui isto para a neutralidade carbónica? Nada, como sabemos. A neutralidade carbónica é apenas uma batata que é colocada na boca de gente como Úrsula Van Der Lata (também se lhe chama Van Der Pfizer), que seguidores e apaniguados como António Costa, Marcelo, Montenegro, Venturinha, Figueiredos e outros seguem de forma religiosa, e que apenas se destina a uma coisa: desindustrializar a Europa e em especial a Alemanha.

Não existe uma única medida na agenda verde da UE que não tenha este objetivo e que não contribua para ir buscar petróleo e gás ao outro lado do Atlântico, precisamente porque foi aí que foi desenhada a estratégia em causa, sabendo-se que não é possível a uma indústria de ponta funcionar só com renováveis. Mas vá-se lá explicar isto aos religiosos e sectários propagandistas verdes do neoliberalismo.

O facto é que, este tipo de medidas, só nos fazem andar para trás, a todos os níveis. Se em Portugal a soberania restante já não era visível à vista desarmada, depois deste processo de desconstrução europeia, países semiperiféricos como o nosso ficarão reduzidos a meras províncias ultramarinas longínquas. Muito pouco importantes, quer em matéria de recursos humanos, que temos poucos, de recursos naturais ou industriais… Um profundo nada!

É que quem acreditar que um país semiperiférico como este consegue algum dia sair desta morte lenta, seguindo religiosamente os ditames da UE e prescindindo, a cada passo, da sua independência e soberania, em nome de uma “solidariedade” nunca correspondida… É melhor estudar a história de Portugal.

Portugal, nos seus períodos mais gloriosos, sempre esteve contra os poderes europeus instituídos. Como nos seus períodos mais negros, sucedeu, em regra, o contrário. Na Independência, o Papa (a Úrsula da altura) era contra, teve de ser comprado contra a vontade da grande potência europeia da altura, Castela (A Alemanha e França de então). Com D. Dinis e a reorganização da propriedade feudal e a criação de um estado central, Portugal esteve interdito pelo Papa, não se fazendo aqui os sacramentos oficiais com autorização de Roma. Em Aljubarrota, Papa e Castela queriam a posse do país, novamente. Nos Descobrimentos, tivemos de nos revoltar contra todos e competir com todos. Em 1580, foi com a anuência de Roma que o Cardeal D. Henrique entregou isto a Espanha, novamente. Fomos invadidos pelos franceses, duas vezes, pilhados pelos ingleses a seguir. Roubados nas colónias por holandeses e outros. Foi sempre assim. Até no 25 de Abril, a Europa ocidental interferiu para tornar o país cliente da Europa central. Até Timor passou para a Indonésia por ordem do Tio Sam, para, entre outras coisas, pagar ao ditador Suharto a matança de milhões de comunistas e progressistas.

A verdade é que Portugal só tem futuro com uma visão global, universalista e internacionalista, mas independente e soberana. Não podemos ficar à espera que outros façam os planos que temos de ser nós a fazer. Da Europa só podemos esperar alianças contextuais, numa lógica de equilíbrio de poderes, mas o projeto tem de ser nosso e para o nosso povo e não podemos esperar isso de países que nos tratam como país periférico.

A História diz-nos quem somos e aponta caminhos para o futuro. Assim os saibamos identificar. Talvez esteja na hora de mandar o Conde Andeiro pela janela outra vez, desta vez na pessoa dos traidores que entregam a soberania, e com ela o futuro, deste país, às potências estrangeiras. E nem me venham com as tretas do “nacionalismo” barato ou de que “queres é fechar-nos”. Isso é música. Quando muito temos de fechar-nos a quem nos quer, apenas e tão só, instrumentalizar e explorar. Temos de fomentar e multiplicar relações amigáveis, troca, mas em termos justos para as duas partes.

Os termos em que o fazemos hoje, podem parecer-nos bem, porque para cá vêm uns fundos comunitários. Contudo, essa troca é realizada à custa do longo prazo, do futuro geracional do país. Os fundos que recebemos vêm em troca da nossa estratégia não ser, de facto, nossa, mas dos grandes potentados da Europa central, que a desenham de acordo com as suas necessidades de divisão europeia do trabalho, sugando os nossos melhores quadros e mantendo cá o trabalho menos produtivo.

Recebemos esmolas, em troca da nossa força vital, em troca da destruição do nosso aparelho produtivo (Portugal tinha uma industria, agricultura e pescas muito fortes), da nossa soberania monetária e económica, da nossa independência energética. Quando prescindimos disto, temos de ir buscar a quem nos exige uma troca injusta, sabendo que a não podemos recusar. É por isso que hoje, gente que se diz portuguesa e canta o hino a todos os pulmões, não consegue dizer não, a medidas como as que aqui trago.

Se isto não fosse grave, ainda temos de comer e calar.

Quando tanto se fala em liberdade e direitos humanos, saiba-se que apenas ontem, dia 09/11/2022, os estados americanos do Vermont, Oregon, Tennessee e Louisiana procederam à votação de um referendo que visa abolir a escravatura enquanto pena criminal. Ou seja, só ontem, o país que mais religiosamente fala de democracia, votou referendos que eliminam a escravatura, de facto. E acreditem, ou não, no Louisiana, ainda não foi desta.

E temos de levar lições de democracia e liberdade de um país que ainda tem escravatura, que tem pena de morte por cadeira elétrica, que tem 850 bases militares em 57 países e gasta mais em armas que todos os outros juntos, enquanto se multiplicam, nas suas ruas os sem abrigo e as pessoas que vivem em tendas e automóveis. Uma vergonha, que quem diz defender a dignidade da pessoa humana não denuncie isto. Uma vergonha que quem diz que a comunicação social das grandes corporações é livre, não consiga encontrar estas coisas nas notícias.

E a congruência é tão grande que até vemos MarconKinsey cumprimentar o Presidente Maduro, de forma tão efusiva, dizendo-lhe que está aberto a cooperar com o seu país e que o reconhece como presidente legítimo, depois de Úrsula há um mês ter reafirmado reconhecer no traidor Guaidó, o legítimo presidente da Venezuela! Bem podemos ver que jogo de sombras aqui se joga.

Contudo, Macron não é parvo e já viu o que vai acontecer à França se não se chegar à frente. Vejamos o caso alemão: se descontarmos as empresas que já existiam no tempo do Reich, existe alguma empresa de ponta alemã criada nos últimos 40/50 anos?

Quando digo de ponta, digo, em tecnologias de ponta. Há algum telemóvel alemão? Alguma marca de computadores? De aviões? Plataformas eletrónicas? Banco líder mundial? Indústria de chips? Nada… Todas as grandes oportunidades do mundo digital estão reservadas aos EUA, ou à China, e essa é a razão pela qual os EUA não gostam. Porque a China seguiu o seu caminho, não se vendeu.

Agora retirem à Alemanha a energia e as matérias-primas baratas made in tundra. O que acontece? Pois, acontece que Scholz foi para a China, num avião francês, carregado de CEO’s que querem salvar os seus lucros, pagando aos chineses para que os deixem aí continuar a instalar as suas fábricas de produtos que não fazem falta aos chineses. Mas os alemães precisam muito dos produtos e fábricas chinesas, porque estes, ao contrário dos primeiros, dominam 170 áreas económicas mundiais. Scholz não foi ajudar o povo alemão, para isso teria de ficar no seu país e torna-lo independente expulsando os ocupantes que o colonizam e impedem um alemão de ter orgulho em ser alemão. Scholz foi salvar os lucros astronómicos dos seus apoiantes, financiadores e chantagistas, tentando fazê-los avançar em direção à financeirização: fábricas na China, rendimentos em Nova Iorque ou Londres, Shangai ou Hong Kong. É deste tipo de traidores que falo e é a este tipo de gente que estamos entregues…

E depois ainda tenho de ouvir um lacaio como o Ventura a dizer que é um português de bem… Ó que cara…

Não abram os olhos não, que quando os abrirem só vos sobram as ervas do campo, se não tiver lá chegado algum coelho de estimação e um multimilionário ianque primeiro!


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Um tsunami de crises está prestes a atingir a Europa

(Por Philippe Rosenthal, In Reseau International, 09/11/2022, Trad. Estátua de Sal)

Uma crise econômica “inimaginável” aguarda a Europa devido à recusa em comprar gás russo, escreve o analista financeiro japonês Kazuhiko Fujii.


Choque económico perigoso

O economista sublinha que a União Européia terá que gastar um trilião e meio de dólares para ajudar as empresas de eletricidade, mas ainda assim não será possível salvar a área da UE de um perigoso choque económico. O motivo é o chamado “spread negativo” enfrentado pelas empresas na Europa quando o custo dos empréstimos supera o rendimento das operações realizadas com recurso ao crédito. A empresa Uniper é um exemplo. O governo alemão anunciou  em 21 de setembro de 2022 que havia aceitado a nacionalização da gigante de gás alemã Uniper, que estava com dificuldades financeiras após a redução do fornecimento de gás russo.

A competitividade económica da UE perdida para sempre

E o economista japonês alerta ainda a UE. Ele aponta que, se a indústria de energia europeia não gerar e não puder gerar lucros, tal significa o colapso inevitável de toda a economia europeia. A Europa perdeu para sempre a sua competitividade económica e nunca mais terá recursos energéticos baratos, a pedra angular da economia moderna, acrescenta a revista Foreign Policy ao analista japonês. “Os preços europeus da eletricidade e do gás são agora quase dez vezes superiores à média dos últimos dez anos.”

Até 2021, a Europa, incluindo o Reino Unido, cobria 40% de suas necessidades de gás natural por meio de importações da Rússia, e também comprava uma quantidade significativa de petróleo e carvão. Em tempos normais, o custo dos recursos energéticos na Europa é de cerca de 2% do PIB. No entanto, devido ao forte aumento nos preços, eles aumentaram significativamente e chegaram a 12%”, escreve aquele jornal inglês.

A eclosão da crise é apenas uma questão de tempo. Apenas a inércia da pesada estrutura económica da UE não permite que ela se desmorone da noite para o dia. Um indicador de que o crash está próximo é a queda na confiança dos consumidores, em resposta ao choque energético. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) é um indicador destinado a medir a confiança dos consumidores conforme o grau de otimismo sobre o estado da economia, expressando a população essa confiança por meio do consumo e da poupança. 

Hoje, a confiança dos consumidores na Europa está completamente destruída. O índice ICC para a zona da UE caiu  para o seu nível mais baixo da história quando atingiu -30, o que é muito pior do que a crise de 2009 (menos 21), a crise ligada à pandemia (menos 24,7) e a crise de início da década de 1990 (menos 18,9). Este índice desceu para voltar a subir no final dos confinamentos ligados à Covid-19. Desta vez, mais de seis meses após a aplicação das sanções da UE contra a Rússia, não há perspectiva de melhoria. As razões são conhecidas. A crise energética está a impulsionar os preços dos alimentos, dos serviços públiucos e dos combustíveis. Isso é ainda mais agravado pela queda do euro.

O aumento implacável dos preços dos alimentos é sem precedentes

Tal não acontecia na Alemanha desde a década de 1920. Em agosto, o maior crescimento global de preços da história da zona euro foi registrado com 9,1% em termos anuais. A principal razão para a aceleração da inflação é a rejeição do gás russo imposta pelos Estados Unidos. A inflação voltou a atingir o pico , situando-se em 10,7% em outubro ao longo de um ano na zona euro. 

Os preços elevados da energia afetam todos os setores da economia da UE. Metade da capacidade de fundição de alumínio e zinco da Europa já está fechada. Cerca de 70% da produção de fertilizantes na Europa foi interrompida devido aos altos preços do gás, que é uma matéria-prima para a produção de fertilizantes nitrogenados. Isso, por sua vez, provocou um aumento no preço dos alimentos e nas despesas diárias com bens essenciais. A pressão adicional sobre os preços dos alimentos vem de colheitas fracas devido à pior seca em décadas. Além disso, o baixo nível de água do Reno criará dificuldades logísticas na Alemanha e, na França, já que a falta de água afecta o arrefecimento e a operação das centrais nucleares.

De acordo com a AIE (Agência Internacional de Energia), em 2022 os países europeus só poderão substituir cerca de metade das importações de gás da Rússia de fontes alternativas (GNL dos EUA, gasodutos alternativos, carvão, biocombustíveis, fontes nucleares e renováveis). Em outubro de 2022, o nível médio de enchimento das instalações de armazenamento de gás nos Estados-Membros  era  superior a 92%, mas essas reservas não durarão muito.

Assim, de acordo com a estimativa da Bundesnetzagentur, o regulador de energia alemão, até novembro as instalações de armazenamento de gás no país estarão 95% cheias, mas, segundo o chefe da agência, Klaus Müller, isso só será suficiente para dois meses e meio no período em que o aquecimento é necessário.

Os governos da UE estão reduzindo proativamente o consumo de energia. Por exemplo, em Espanha, depois das 22h00, é obrigatório desligar a iluminação das janelas; na Alemanha, começou-se a cortar a água quente em estabelecimentos públicos e planeia-se estabelecer um limite de 19°C de temperatura nos quartos. De acordo com o chefe da maior empresa de petróleo e gás da Europa, a Royal Dutch Shell, Ben van Beurden, o racionamento e a economia de energia podem durar vários anos.  A zona da UE enfrenta, pois, um empobrecimento da população e isso afeta o declínio da atividade empresarial. 

A zona euro está enfrentando uma crise de custo de vida, alerta Isabelle Schnabel, membro do Conselho Executivo do BCE. O impacto no poder de compra das famílias é enorme. Os salários reais caíram mais de 5% num ano. Como a confiança dos consumidores se situa em níveis muito baixos, é improvável que as famílias poupem. E, como as empresas também sofrem com o choque energético e as condições financeiras estão mais apertadas, há um declínio no investimento empresarial. O mercado de energia continuará muito apertado e, portanto, com preços elevados. O governo francês prevê  um crescimento do PIB de apenas 1% em 2023.

O spread negativo no qual as empresas de energia da UE caíram torna sem sentido até mesmo um apoio hipotético (ainda não concedido) de 1 trilião de dólares, por parte dos líderes da UE. E a população já percebeu isso expressando o seu pessimismo nas sondagens. Os industriais europeus também já o entenderam e estão rapidamente a transferir os seus negócios para os Estados Unidos.

Assim, a Europa mergulha numa crise inimaginável a todos os níveis. A população está empobrecida e sofre com o frio do inverno. As empresas fecham ou saem para os Estados Unidos. Os governos estão a correr a reduzir o consumo de eletricidade e Berlim está assumindo a liderança da catástrofe sobre os outros países da UE.


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