Um tsunami de crises está prestes a atingir a Europa

(Por Philippe Rosenthal, In Reseau International, 09/11/2022, Trad. Estátua de Sal)

Uma crise econômica “inimaginável” aguarda a Europa devido à recusa em comprar gás russo, escreve o analista financeiro japonês Kazuhiko Fujii.


Choque económico perigoso

O economista sublinha que a União Européia terá que gastar um trilião e meio de dólares para ajudar as empresas de eletricidade, mas ainda assim não será possível salvar a área da UE de um perigoso choque económico. O motivo é o chamado “spread negativo” enfrentado pelas empresas na Europa quando o custo dos empréstimos supera o rendimento das operações realizadas com recurso ao crédito. A empresa Uniper é um exemplo. O governo alemão anunciou  em 21 de setembro de 2022 que havia aceitado a nacionalização da gigante de gás alemã Uniper, que estava com dificuldades financeiras após a redução do fornecimento de gás russo.

A competitividade económica da UE perdida para sempre

E o economista japonês alerta ainda a UE. Ele aponta que, se a indústria de energia europeia não gerar e não puder gerar lucros, tal significa o colapso inevitável de toda a economia europeia. A Europa perdeu para sempre a sua competitividade económica e nunca mais terá recursos energéticos baratos, a pedra angular da economia moderna, acrescenta a revista Foreign Policy ao analista japonês. “Os preços europeus da eletricidade e do gás são agora quase dez vezes superiores à média dos últimos dez anos.”

Até 2021, a Europa, incluindo o Reino Unido, cobria 40% de suas necessidades de gás natural por meio de importações da Rússia, e também comprava uma quantidade significativa de petróleo e carvão. Em tempos normais, o custo dos recursos energéticos na Europa é de cerca de 2% do PIB. No entanto, devido ao forte aumento nos preços, eles aumentaram significativamente e chegaram a 12%”, escreve aquele jornal inglês.

A eclosão da crise é apenas uma questão de tempo. Apenas a inércia da pesada estrutura económica da UE não permite que ela se desmorone da noite para o dia. Um indicador de que o crash está próximo é a queda na confiança dos consumidores, em resposta ao choque energético. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) é um indicador destinado a medir a confiança dos consumidores conforme o grau de otimismo sobre o estado da economia, expressando a população essa confiança por meio do consumo e da poupança. 

Hoje, a confiança dos consumidores na Europa está completamente destruída. O índice ICC para a zona da UE caiu  para o seu nível mais baixo da história quando atingiu -30, o que é muito pior do que a crise de 2009 (menos 21), a crise ligada à pandemia (menos 24,7) e a crise de início da década de 1990 (menos 18,9). Este índice desceu para voltar a subir no final dos confinamentos ligados à Covid-19. Desta vez, mais de seis meses após a aplicação das sanções da UE contra a Rússia, não há perspectiva de melhoria. As razões são conhecidas. A crise energética está a impulsionar os preços dos alimentos, dos serviços públiucos e dos combustíveis. Isso é ainda mais agravado pela queda do euro.

O aumento implacável dos preços dos alimentos é sem precedentes

Tal não acontecia na Alemanha desde a década de 1920. Em agosto, o maior crescimento global de preços da história da zona euro foi registrado com 9,1% em termos anuais. A principal razão para a aceleração da inflação é a rejeição do gás russo imposta pelos Estados Unidos. A inflação voltou a atingir o pico , situando-se em 10,7% em outubro ao longo de um ano na zona euro. 

Os preços elevados da energia afetam todos os setores da economia da UE. Metade da capacidade de fundição de alumínio e zinco da Europa já está fechada. Cerca de 70% da produção de fertilizantes na Europa foi interrompida devido aos altos preços do gás, que é uma matéria-prima para a produção de fertilizantes nitrogenados. Isso, por sua vez, provocou um aumento no preço dos alimentos e nas despesas diárias com bens essenciais. A pressão adicional sobre os preços dos alimentos vem de colheitas fracas devido à pior seca em décadas. Além disso, o baixo nível de água do Reno criará dificuldades logísticas na Alemanha e, na França, já que a falta de água afecta o arrefecimento e a operação das centrais nucleares.

De acordo com a AIE (Agência Internacional de Energia), em 2022 os países europeus só poderão substituir cerca de metade das importações de gás da Rússia de fontes alternativas (GNL dos EUA, gasodutos alternativos, carvão, biocombustíveis, fontes nucleares e renováveis). Em outubro de 2022, o nível médio de enchimento das instalações de armazenamento de gás nos Estados-Membros  era  superior a 92%, mas essas reservas não durarão muito.

Assim, de acordo com a estimativa da Bundesnetzagentur, o regulador de energia alemão, até novembro as instalações de armazenamento de gás no país estarão 95% cheias, mas, segundo o chefe da agência, Klaus Müller, isso só será suficiente para dois meses e meio no período em que o aquecimento é necessário.

Os governos da UE estão reduzindo proativamente o consumo de energia. Por exemplo, em Espanha, depois das 22h00, é obrigatório desligar a iluminação das janelas; na Alemanha, começou-se a cortar a água quente em estabelecimentos públicos e planeia-se estabelecer um limite de 19°C de temperatura nos quartos. De acordo com o chefe da maior empresa de petróleo e gás da Europa, a Royal Dutch Shell, Ben van Beurden, o racionamento e a economia de energia podem durar vários anos.  A zona da UE enfrenta, pois, um empobrecimento da população e isso afeta o declínio da atividade empresarial. 

A zona euro está enfrentando uma crise de custo de vida, alerta Isabelle Schnabel, membro do Conselho Executivo do BCE. O impacto no poder de compra das famílias é enorme. Os salários reais caíram mais de 5% num ano. Como a confiança dos consumidores se situa em níveis muito baixos, é improvável que as famílias poupem. E, como as empresas também sofrem com o choque energético e as condições financeiras estão mais apertadas, há um declínio no investimento empresarial. O mercado de energia continuará muito apertado e, portanto, com preços elevados. O governo francês prevê  um crescimento do PIB de apenas 1% em 2023.

O spread negativo no qual as empresas de energia da UE caíram torna sem sentido até mesmo um apoio hipotético (ainda não concedido) de 1 trilião de dólares, por parte dos líderes da UE. E a população já percebeu isso expressando o seu pessimismo nas sondagens. Os industriais europeus também já o entenderam e estão rapidamente a transferir os seus negócios para os Estados Unidos.

Assim, a Europa mergulha numa crise inimaginável a todos os níveis. A população está empobrecida e sofre com o frio do inverno. As empresas fecham ou saem para os Estados Unidos. Os governos estão a correr a reduzir o consumo de eletricidade e Berlim está assumindo a liderança da catástrofe sobre os outros países da UE.


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Um doloroso acordar para a realidade

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 08/11/2022)

O acordar da ilusão é sempre doloroso para os que mergulham a fundo nas mais fabulosas fantasias. Quanto maior o sono, mais difícil o acordar. Não obstante, a realidade, essa fenomenologia material que tem connosco uma relação dialética, é inexorável: tarde ou cedo acaba por se revelar. As dores do acordar, para a Europa, começam a ser difíceis de suportar.

Primeiro foram os franceses, cujo ministro das finanças veio dizer que “a diferença nos preços da energia entre a Europa e os EUA, bem como os subsídios pagos pelo governo federal para atrair investimento externo, coloca os produtores europeus em desvantagem em relação aos americanos, nos mercados globais”. É razão para dizermos: “a sério?”; “eu nem tinha pensado nisso!”; “ná… não acredito!”.

Eu terei sido o último de uma longa lista de opinadores que escreveu sobre isto: toda a marosca ucraniana e a operação anti russa visou impedir a Europa de continuar a contar com energia e matérias-primas baratas, com qualidade e em quantidade. O milagre industrial alemão e da Europa central não existiria sem o gás soviético e, mais tarde, o russo. Os EUA, com a  indústria de aviação na corda bamba, ultrapassada pela Airbus, a indústria automóvel, ou comprada pelos europeus, ou na falência, ultrapassada pelas marcas europeias; a industria de armamento em cheque por causa dos preços exorbitantes por produtos ultrapassados, com os europeus a comprarem, cada vez mais, noutras paragens (Coreia do Sul, p.e.); a indústria de gás liquefeito de fracking a sobreviver com subsídios de biliões do governo, por ser uma indústria deficitária; estava bom de ver que, caso os EUA deixassem a Europa continuar a crescer, ao ritmo que estava, beneficiando da interminável fonte de matérias-primas russas e da cooperação, cada vez mais intrincada com a China (e Ásia), rapidamente ficariam para trás, ficando como um mercado secundário em relação à construção euroasiática, suportada na geografia real que une os dois continentes, e ainda o africano. Não, não podia acontecer.

Quebrar o acesso às matérias-primas, primeiro, e ao mercado explosivo do Oriente, em segundo, constituem os grandes objetivos da política hegemónica americana, visando tratar a UE como uma colónia, apropriando-se do que tem de valor e gerindo, como recursos próprios, a relação entre esta colónia e a Eurásia.

Pode haver Eurásia, mas nos termos ditados por Washington. Eis a razão de mais uma guerra fria, da provocação ucraniana, da contenção chinesa e da provocação a preparar-se em Taiwan. A NATO cumpriu assim o papel para o qual havia sido criada: keep Germany down (manter a Alemanha em baixo); Keep UE in (manter a Europa dentro); Keep Rússia out (manter a Rússia fora).

E tanto que se falou e tem falado disto e dos efeitos nefastos que tal teria na economia europeia, até 2014/15 a ultrapassar o PIB dos EUA e, agora, muito abaixo. Desde 2014 que pudemos ter a certeza de que a estratégia era esta, mas desde 2008 que se falava do problema. Muito antes dos Zelensky e da “tirania” de Putin. A maioria – uns por desconhecimento da História, outros por conluio e traição, outros por ingenuidade e cobardia, outros por qualquer razão doentia -, não conseguiram perceber o que estava em causa. Hoje, uma UE à deriva e à beira de um colapso económico anunciado, é suficiente demonstrativa da razão que assistia a quem tanto tem tentado alertar de que nem tudo é o que parece.

Depois de Van Der Lata falar da necessidade de “desacoplar” da China, o grande investidor atual na UE, constatamos que Washington entra apressadamente na segunda fase. Cortado o acesso à energia e a matérias-primas baratas, segue-se o corte no acesso ao mercado. O mercado chinês é para os EUA, visando criar uma situação de tal dependência da China em relação à economia americana que permita conter o crescimento acelerado do gigante asiático e, com essa contenção, conseguir instabilizar o país e conseguir uma “democrática” revolução colorida. As sanções, já na calha e as que já estão em vigor, serão um dos primeiros passos do processo. É sempre igual, nunca muda. Em 49 a China era o país mais pobre do mundo, a India estava um pouco acima. Passados 70 anos, a China tem a maior economia, o maior número de licenciados, erradicou a miséria extrema e tem um PIB 6 ou 7 vezes superior ao da Índia, que tem quase a mesma população. Um é “tirano”, o outro é “democrático”, num, a vida do povo melhora todos os dias, no outro a vida do povo está como sempre esteve, na miséria extrema. Os EUA não se podem permitir “tiranias” que resolvem os problemas do seu povo.

Mas se a França já desconfia de algo, os industriais alemães já têm a certeza. Eis que Scholz, encostado à parede por quem tem, de facto, o poder político no país, lá teve de pedir uma cimeira ao Sr. Xi, para resolver, no longo prazo, os problemas com que se debate a indústria alemã em desagregação acelerada.

Claro que, no meio da polémica com Annalena Baerbock, qual cavalo de Troia, e Van Der Lata, Scholz teve de incluir na agenda a treta trumpista do Xinjiang (já desacreditada pela ONU) e aquele que é o maior objetivo dos EUA nas relações com a China – como com qualquer país industrializado, suportado num estado forte e cioso da sua soberania -, “exigir que se privatize o sector público industrial, seja aberto o mercado de capitais e parem os subsídios à economia por parte do governo de Xi”. A tríade neoliberal do FMI: privatizar; abrir; desinvestir. Tudo para que venha alguém que compre, invista e controle, aos poucos, mas inexoravelmente, o país que o fizer.

Mas os industriais alemães têm outras ideias: consagrar a entrada do porto de Hamburgo na BRI (já está) e garantir o acesso das empresas alemãs a componentes baratas e ao maior mercado da atualidade e com maior taxa de crescimento (o asiático). Ao mesmo tempo, a China pode reenviar para a Alemanha a matéria-prima e energia baratas vindas da… isso mesmo! Da Rússia!

Mas, perguntam-se, e como aceitou Scholz fazer este flip-flap nas suas intenções de destruição da economia alemã? Terá ele acordado da ilusão? Não. Ele nunca foi dos iludidos. Pepe Escobar explica isto com um toque de investigador privado: parece que o rapaz, quando foi presidente da câmara de Hamburgo, não terá feito tudo bem (parece que é moda entre os governantes europeus preferidos dos EUA); os casos amontoam-se nas prateleiras ameaçando sair para os jornais; os industriais alemães decidiram não esperar mais, sob pena de vermos as Mercedes deste mundo passarem-se para o outro lado do Atlântico. Scholz não teve hipótese senão aceitar a proposta e negociar com Xi. Van Der Lata e Baerbock devem estar com toneladas de ansiolíticos, sob pena de se afogarem na própria espuma raivosa.

Mas não se pense que foram apenas os alemães ricos a acordarem para a vida. Os holandeses já tinham dito que, ou a coisa muda, ou só existem dois sítios para onde ir: a China ou os EUA. A Eslováquia está em processo de renegar o apoio ao gangue neonazi de Zelensky e a Bulgária para lá caminha. A Áustria já manifestou por diversas vezes a sua “neutralidade” e a Hungria já se sabe. Ou seja, parece que os amigos europeus, afinal, não estão todos abraçados.

O serviço privado de comunicação de massas ao serviço da oligarquia, mesmo privado de jornalistas sérios, já começou a fazer algum eco de movimentações que demonstram este nervosismo. O nosso Correio da Manhã, qual marca registada da propaganda atual, a fonte de propaganda em massa que é o New York Times e mesmo o Wall Street Journal, todos, no mesmo dia, vieram falar em perspetivas de se negociar a paz. Como diz o NYT, Washington já terá informado Z. que é para “integrar a abertura a negociar, aos poucos, no seu discurso”.

Agora, não tenhamos ilusões. A razão para estas notícias chama-se “midterms”. Perante a rejeição massiva, pelo povo americano, do apoio a esta guerra (é um apoio à guerra e não à paz, perceba-se), o corrupto partido democrata faz o que qualquer partido oportunista faz nesta altura: promete o que não pretende fazer. Afinal, uma das características do atrasado e ultrapassado modelo de partido liberal, ou burguês, se quisermos (cuja estrutura e doutrina é inspirada na era liberal de há 200 anos), é que o poder lhe importa por si só. Não importa a estes partidos “o que fazer com o poder para melhorar a vida do povo”. O poder, para eles, é apenas o objetivo em si. Hoje, o estado de coisas em que vivemos, demonstra a visão curtinha, míope, do sistema liberal, burguês, herdado da revolução francesa. Teve o seu tempo, como tudo, mas já não serve. Já não são capazes de sustentar uma estratégia de longo prazo que trilhe um caminho sólido de desenvolvimento humano.

Passadas as eleições e ganhando o partido democrata, business as usual, volta o “deep state” à carga e os Sullivans, Nullands e Pelosis à carga. A política externa americana é um amontoado de operações secretas, financiamentos encapotados e processos subversivos dos interesses dos outros povos.

Mais ainda do que na guerra fria, a CIA é uma agência de desestabilização de países soberanos. São peritos em abrir buracos negros sociais que fazem implodir as organizações sociais que tentam resistir. Depois, é o povo quem decide. Se o “regime” (são todos catalogados desta forma) for suportado, de forma real, na vontade popular, com dificuldade, lá se vai aguentando. No caso de o apoio ser contextual, após a primeira saraivada de sanções, lá entra o FMI e acaba o “regime” para se dar início a uma democracia florescente.

Mas isto sai muito caro, caríssimo. Manter um império, implica manter uma máquina militar desproporcionada e um complexo militar industrial, que, sendo privado (como é o caso do americano), consome quase todos os recursos disponíveis, sendo um buraco negro que suga todas as forças vitais de um país, instrumentalizando-o em função as suas necessidades. Foi o próprio Eisenhower, no final do mandato, quem avisou para isto. De nada serviu.

Eis que, passados 21 anos após a cartada da “guerra ao terror” que ainda provocou mais terrorismo, e do plano de invadir 7 países em 5 anos, a desagregação a que assistimos, em andamento, vem forçar (e aconselhar) uma aterragem apressada. A opção de “prá frente é que é caminho” e “venha o caos”, tem os seus dias contados. Afinal, todo o Sul Global já percebeu o que significa continuar a insistir na mesma tecla em que tocam há 500 anos.

Os primeiros sinais de travagem podem vir de dentro, sendo que, esta travagem não implicará uma paragem. Pode significar, apenas, uma inversão de sentido, mas sempre com o mesmo objetivo: o domínio hegemónico; o “governo” mundial; a “nova ordem”; não faltando classificações sobre o assunto. O primeiro sinal veio de uma candidata republicana, ao referir que “com a nossa vitória, nem mais um tostão para o país de Z.”, e “utilizaremos todo o nosso dinheiro para acorrer aos problemas do povo americano”. Ontem, foi o próprio Trump a assumir que, com ele: “Não haveria guerra na Ucrânia”. Agora, veio Musk dizer que, “para equilibrar as coisas, sugiro o voto no partido republicano”. O que isto provocou!

Hoje, o folhetim de serviço ao Partido Democrata americano em que se transformou o jornal Público, já veio dizer que “os famosos estão a fugir do Twitter”, tentando assim ferir Elon Musk, apenas porque ele teve a veleidade de exercer a sua liberdade de opinião, num órgão que comprou, mas que o Partido Democrata usava para censurar as opiniões antiguerra e outras que não lhe convinham.

O nervoso miudinho do mainstream (centrão) partidário ocidental continuou a fazer-se sentir. Atualmente, os partidos mais militarizados já não são os da extrema-direita, mas os liberais e sociais-democratas, nomeadamente os que se colocam na orla do partido democrata dos EUA e da franja neoconservadora do partido republicano, também dos EUA. Por cá, equiparável aos partidos apelidados de “moderados”. São estes, apoiados pelas claques dos partidos identitários, animalistas, “transgenistas” ou pseudo ambientalistas (a que a esquerda de classe americana chama de “shitlibs”), que constituem a grande base de apoio ao Império estado unidense e à sua matriz militarista, cada vez mais agressiva e ingerente.

O comentador de serviço na SIC (não me recordo o nome porque já não os distingo, visto que dizem todos o mesmo) lá veio exprimir a sua preocupação, dizendo de forma inflamada – quiçá inspirado no ódio xenófobo de Milhazes -, que “o que eles não dizem é que tudo começou porque a Rússia não aceitou que a Ucrânia exprimisse o seu direito de entrar nas organizações internacionais que quisesse”. É verdade, “eles” não disseram isso.

Mas, pergunto eu, valerá a pena começar pelo que “eles não dizem”? Teremos, outra vez, de dizer tudo o que “eles não dizem” sobre o assunto? É que, o que “eles”, os comentadores de serviço, de TODA a comunicação social empresarial ocidental, quais homens duplicados, “não dizem”, é infinitamente mais grave, mais manipulador e deturpador da realidade, do que o não dizer que Rússia “desconsiderou a independência da Ucrânia“.

Se alguém o fez primeiro, todos sabemos quem foi. Em 2012, o mapa eleitoral da Ucrânia era bem elucidativo da divisão de forças reinante. Ao contrário do que se repete, hoje, vezes sem conta, como se de verdade se tratasse, a população pró Rússia não era uma minoria, uma mera minoria. Como se o facto de o ser justificasse as agressões que viria, a partir de 2014, a sofrer. Nunca justificaria.

Em 2012 o Partido das Regiões ganhou, uma eleição limpinha, ao Fatherland. Se o Partido das Regiões tinha a sua implantação a leste e em Kiev, o Fatherland tinha a sua implantação a oeste. Com exceção de Odessa, cuja região havia sido ganha pelo Partido Comunista, mais tarde ilegalizado pelos democratas P. e Z., todo o restante país estava dividido, com vantagem para o leste.

A História, aquela disciplina chata, que insiste em revelar-se, mesmo contra a versão do vitorioso, diz-nos quais as razões que justificavam esta divisão:

  1. O facto de a Ucrânia não ser propriamente um país, mas uma região onde se encontravam dois impérios, um que influenciava a fronteira ocidental e outro a oriental; o significado do nome do país é “fronteira” e constituía uma espécie de zona desmilitarizada entre dois potentados militares;
  2. Em 1917, com a entrada da Ucrânia para a república soviética, foi decidido, a régua e esquadro, juntar à parte ocidental e central, a parte oriental, tal sucedendo porque a ocidente a atividade económica predominante era a agricultura; para dar uma oportunidade aquela república recém-formada de se desenvolver, foi decidido juntar-lhe 4 regiões muito ricas e industrializadas (as tais 4), com um senão: estas regiões eram habitadas por gente da Rússia.

Alguma luzinha? Pois. Esta construção artificial criou um país composto por duas etnias, não apenas com língua distinta, mas com religião e cultura distintas. Uns a puxar mais para a Europa central, outros a puxarem mais para a Rússia. As eleições sempre refletiram esta divisão. De Lviv a Odessa é um país, de Odessa a Lugansk é outro. Kiev é uma ilha oriental, do lado ocidental.

Mas o que não dizem “eles” também, é qual a natureza ideológica dos partidos em confronto. Neste quadro, as forças do Fatherland constituem, por natureza, um partido reacionário, composto por outros movimentos de direita conservadora e extrema-direita, todos pró-ocidentais (é isso que os une), sendo o Partido das Regiões um partido composto por outros mais social-democratas, liberais e até esquerdistas (o PC concorreu sozinho). O Fatherland do centro para a direita, o Partido das Regiões, do centro para a esquerda. É por isso que, hoje, na UE, quem for do PS ou do PSD não teria partido em quem votar, pois foram “democraticamente” extintos.

O que “eles” também não dizem é que, para conseguir ganhar o poder, havia que eliminar alguns partidos que apoiavam o Partido das Regiões, ou que ajudavam a desequilibrar o poder para o seu lado (o caso do PC). E como foi que o fizeram?

O segredo mais mal-escondido da história é o euromaidan. Aproveitando uma legítima manifestação anticorrupção, as forças reacionárias ocidentais – que bom foi ver Ana Gomes que se diz de “esquerda” a dar bolinho aos neonazis de serviço, com Victoria Nuland à cabeça -, organizaram uma ofensiva antidemocrática e subversiva, comandado pelo Sector Direito e pelo C14 (juventude neonazi do Svoboda), para transformar os protestos de Maidan, num golpe de estado contra o Partido das Regiões. A partir daí foi fácil.

Disse o secretário-geral do C14 que, “se não pegássemos na coisa e começássemos a disparar sobre os manifestantes, em vez de um golpe, teríamos uma parada gay”. Está na net para quem quiser ver.

Presos, perseguidos e ilegalizados, os opositores (com o célebre e genocida incêndio da casa sindical de Odessa à cabeça), impedidos de votar muitos dos cidadãos orientais, foi assim desequilibrado, a favor da direita reacionária, o poder no país. Hoje, é um regalo ver tanto europeu que se diz de “esquerda” a apoiar nazis, neonazis, neoconservadores, ultraliberais e corruptos oligarcas, apenas porque lhes dizem que são coloridos como o arco-íris e porque, do outro lado, está um urso que não gostará de homofilos.

É toda uma estratégia programada no tempo e bem documentada no célebre PNAC (Plan for The New American Century), mas não só, que apenas é identificada por quem olhar para o nosso tempo como parte de um tempo histórico.

Uma das estratégias mais usadas pelo capitalismo neoliberal para alienar o povo da sua história consiste em concentrar a sua atenção em períodos muito curtos, tão curtos e tão povoados de informação efémera que o impeçam de olhar numa perspetiva histórica mais longa.

Depois diz-se: “ah! Os chineses têm um tempo diferente”. Não, não têm nada. Apenas sabem História e olham para a História quando opinam. Aqui, qualquer um opina sem olhar para a História. E quem não olha para a História, não sabe para onde vai. É hora de deixar de olhar para o chão e olhar para o céu e sonhar em começar algo de diferente!


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Os oligarcas estão a aparecer à luz do dia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 07/11/2022)

Compremos ações das suas empresas em vez de irmos votar!


Tal como o proscrito DDT que era espalhado pelos soalhos de madeira apodrecida fazia aparecer as baratas à luz do dia, a guerra na Ucrânia teve como um dos efeitos colaterais fazer surgir nos palcos do poder, sem disfarces nem homens por si os oligarcas ocidentais das tecnologias da informação, o setor decisivo na atual fase das civilizações dominantes. Os exemplos mais claros são os de Elon Musk (SpaceX, Starlink, Twiter) e de Marc Zukerberg (Facebook/Meta), que dominam as mais importantes redes de dados do planeta e vão despedir milhares de “colaboradores” para concentrarem força (capitais) nos segmentos nucleares do negócio: a investigação e desenvolvimento de novos produtos que lhes assegurem vantagens competitivas no futuro. Eles percebem que têm de estar à frente dos outros e isso implica agir num mercado global, vender um produto essencial e tornar dependentes de si todos os detentores de algum poder. Os despedimentos são uma poda regeneradora para fortalecer as “máquinas” de impor o pensamento único, de normalizar comportamentos, de apresentar a submissão como uma atitude libertadora e fruto da vontade e livre arbítrio. A campanha de manipulação sobre a guerra da Ucrânia demonstra que esta ordem pode ser imposta com o passarinho azul do Twiter e as argolas do Meta que substituiu o FB e que os fiéis ainda vão pagar para fazer parte da igreja, o que é, aliás, uma prática milenar.

Para estes oligarcas tecnológicos (de quem dependem os agora “famosos” nómadas digitais) o regime político, qualquer que seja a intervenção dos seres comuns na vida das comunidades, funciona apenas como um legitimador de negócios e como uma máscara que ilude a concentração de poder como uma calçadeira.

Para os oligarcas o regime político é tão indiferente como os sapatos serem de pala ou de atacadores, desde que eles lá possam meter os pés.

Paulatinamente e ao longo do tempo, os oligarcas foram-se aproximando diretamente do poder, das suas alavancas, recrutando “colaboradores” para as suas políticas, presidentes, ministros, deputados e marionetas que evitassem sujarem as mãos de sangue, mas os tempos estão a mudar, os recursos do planeta são finitos, aproximam-se graves conflitos de luta pela sobrevivência de grandes massas de povos no Primeiro e no Segundo Mundo e eles querem garantir a sua sobrevivência. Há que dar o corpo ao manifesto, ir para ponte de comando. Quem quer vai, quem não quer manda!

Douglas Rushkoff, professor de Media Theory e Economia Digital na Universidade de Nova Iorque, considerado um dos mais importantes pensadores do mundo pelo MIT, é autor do livro «Team Human» (2019), onde descreve a experiência por que passou quando foi convidado por um seleto grupo de oligarcas (cem multimilionários americanos acionistas de bancos de investimentos) para um seminário à porta fechada sobre o futuro. Concluiu: “Os ricos estão a planear deixar-nos para trás!” (Antigamente planeavam andar à nossas costas.)

As perguntas que lhe fizeram foram: “A Google está a desenvolver um “lar” para o cérebro onde a consciência do indivíduo viverá durante a transição, até renascer como um todo novo?” — “Como faço para manter a autoridade sobre minha força de segurança após um evento catastrófico?” Com toda sua riqueza e poder, os oligarcas não acreditam que possam modificar o futuro. Têm de tomar conta dele e defender-se em novas versões de castelos. Elon Musk, o proprietário da Starlink, da SpaceX, da Tesla, agora do Twiter foi muito referido como exemplo a seguir pelos oligarcas que temem um acontecimento apocalítico (que consideram inevitável), uma explosão nuclear, uma pandemia incontrolável, revoltas, e até a ameaça de robôs fora de controlo. Aventaram a sugestão de Elon Musk de colonizar Marte, ou de Sam Altman e Ray Kurzweil de colocar os seus cérebros em supercomputadores. “Eles estão a preparar-se para um futuro que tem muito menos a ver com tornar o mundo um lugar melhor do que com transcender a condição humana e isolarem-se de um perigo muito real de mudança climática, migrações, pandemias, pânico e esgotamento de recursos. Para eles, o futuro da tecnologia é, na verdade, apenas uma coisa: Escapar!” Para serem eles a escapar têm de se encontrar no poder. Na política os chefes são os primeiros a abandonar o barco e a garantir a sobrevivência!

Esta não é uma ideia para um filme de ficção científica, é a realidade americana, onde se concentram cerca de 80% das grandes empresas mundiais. A Europa, de há muito anestesiada, começa a tomar consciência desta nova realidade. O editorialista Philippe Bernard, no jornal francês Le Monde noticia com a candura de um anjo a estratégia dos oligarcas seguidores de Elon Musk, de Zukerberg, ou de Bill Gates: «… Necessitamos de imaginar meios para controlar a propensão dos oligarcas (multimilionários) de se substituir aos Estados»Lamenta-se o editorialista: «Eles creem-se os donos do mundo, mas ninguém os elegeu.» Pois não, mas também ninguém elegeu Rockefeller, nem Rothschild: foram e são eles que fazem eleger os seus agentes, ditos políticos. Continua o editorialista do «Le Monde» sermão sobre os malefícios do novo assalto capitalista: «Os sucessores no século XXI dos Rockefellers e dos Carnegie têm ambições mundiais (os originais do século XX também) e não têm moral.» (Os do século XX também não, ou teremos de considerar o colonialismo, as guerras da Coreia, do Vietname, as ditaduras sul-americanas, o Médio Oriente, o Congo atos de elevada moralidade, filantrópicos!)

Elon Musk é de novo convocado para ilustrar a realidade que o editorialista agora descobriu: “ O homem mais rico do planeta não se contenta em ser o dono da Tesla, em dirigir a SpaceX, parceira incontornável do Pentágono e da NASA, que dispõe de mais de 2.200 satélites da rede Starlink (programados 12.500), que forneceu 25.000 terminais de internet à Ucrânia para fins civis e militares e vende um serviço que pode ser acedido em quase todas as partes do mundo. Elon Musk é um poder de facto, um Tycoon, e quer intervir na definição da estratégia mundial que ele em parte paga com os lucros que os poderes instalados lhe proporcionam. (George Orwell em «1984 — Animal farm» antecipou o problema de os porcos a quem o dono da quinta deu possibilidades de comando de tomarem o poder.)

Musk, invocando o seu poder, apresentou um “plano de paz” para o mundo (urbi et orbi), com o reconhecimento da Crimeia como território russo, para desespero de Zelenski, para atrapalhação dos líderes políticos ocidentais e para contida alegria de Putin, que vê um oligarca ocidental desempenhar o papel que os oligarcas russos desempenham no seu regime e propõe ainda ligar Taiwan à China, onde possui uma fábrica Tesla!

A guerra da Ucrânia — a tal que algumas boas almas ainda acreditam ser uma invasão de um alucinado que quer ser imperador — também serve para espiarmos os verdadeiros alicerces onde assenta o regime político que nos governa e nos ignora democraticamente. Para revelar quem são os donos do mundo e o desprezível e desprezado poder do voto e da expressão da vontade dos eleitos e das grandes organizações mundiais.

Em vez de votos, em vez de irmos votar, compremos ações do Elon Musk, ou do Bill Gates! São democráticas e, se não são, representam um poder efetivo, são úteis!

Este é o novo Admirável Mundo Novo!

Artigo do Le Monde: https://www.lemonde.fr/idees/article/2022/10/29/il-faut-imaginer-des-moyens-de-controler-la-propension-de-milliardaires-a-se-substituer-aux-etats_6147849_3232.html


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