Os que se opõem ao governo atual da Ucrânia estão presos ou mortos

(Maxim Goldarb, in Resistir 17/05/2023)

A Ucrânia foi por muito tempo considerado o país mais livre do espaço ex-soviético. Até há dez anos, partidos políticos e organizações públicas de todas as cores e uma variedade de meios de comunicação operavam livremente na Ucrânia e opositores políticos, jornalistas e ativistas podiam criticar abertamente e sem medo das autoridades. Qualquer tentativa de evitar críticas às atividades das autoridades convertia-se num grande escândalo, de modo que eram poucas essas tentativas.

Mas tudo mudou espetacularmente desde o [golpe do] Euromaidan 2014. O regime oligárquico de extrema-direita que assumiu o poder com uma ideologia nacionalista começou a perseguir aos seus opositores utilizando métodos terroristas.

O exemplo mais trágico não de perseguição, mas de assassinatos do regime no poder em Kiev contra opositores ideológicos ocorreu em Odessa em 2 de maio de 2014, quando militantes nacionalistas com total conivência e assistência das autoridades impediram as atividades antifascistas que ocorriam na Casa dos Sindicatos incendiando o prédio, o que fez com que muitas pessoas se atirassem pelas janelas para fugir das chamas e acabar com a vida quando caíssem no chão. Mais de 40 pessoas foram mortas então, incluindo Vadim Papura, membro do Komsomol (união de jovens comunistas), bem como Andrei Brazhevsky, membro da organização de esquerda Borotba.

Ninguém foi punido por este crime, embora os que participaram no ataque estejam registados em muitas fotografias e vídeos. Como se isto fosse pouco, um dos organizadores do massacre tornou-se mais tarde presidente do Parlamento ucraniano e outro entrou no Parlamento nas listas do partido do ex-presidente Poroshenko.

O mesmo aconteceu com os assassinatos de vários políticos e jornalistas conhecidos da oposição mortos depois de 2014: a ex-deputada do Partido Socialista Ucraniano, Valentina Semenyuk-Samsonenko, (assassinato disfarçado de suicídio em 27 de agosto de 2014); o ex-deputado, organizador de ações da oposição Oleg Kalashnikov (morto a 15 abril de 2015); o popular escritor e publicitário antifascista Oles Buzina (morto em 16 de abril de 2015) e muitos outros. Do mesmo modo as atividades do maior partido de esquerda do país naquela época, o Partido Comunista da Ucrânia foram proibidas.

Além disto, políticos, jornalistas e ativistas de oposição, muitos deles da esquerda, foram espancados, presos e encarcerados nos últimos anos, sob falsas acusações de “alta traição” e outras acusações manifestamente políticas. Foi assim, concretamente, com os jornalistas Vasily Muravitsky, Dmitry Vasilets, Pavel Volkov e o ativista de direitos humanos Ruslan Kotsaba, entre outros. É característico que, uma vez em tribunal, e apesar da pressão das autoridades, essas acusações geralmente desmoronavam-se e revelavam-se completamente insustentáveis.

A situação política vem piorando ano após ano, especialmente desde que Vladimir Zelensky se tornou presidente da Ucrânia. O motivo formal para a eliminação completa dos resquícios de liberdades civis e o início de uma repressão política aberta foi o conflito militar que começou na Ucrânia em fevereiro de 2022.

Todos os partidos da oposição na Ucrânia, maioritariamente de esquerda, entre as quais se encontra a União de Forças de Esquerda (por um Novo Socialismo), do qual sou líder, foram banidos com base em acusações inventadas e falsas de ser “pró-russo”.

Ao mesmo tempo, o único membro do parlamento ucraniano que foi abertamente trabalhar com as autoridades criadas pela Rússia no território da Ucrânia, Oleksiy Kovalyov, representava o partido do presidente Zelensky, Servo do Povo. Além disso, ao longo da guerra, o partido no poder viu-se abalado por grandes escândalos de corrupção que minam a autoridade dos representantes públicos aos olhos do povo e destroem os restos de autoridade da Ucrânia aos olhos da comunidade mundial como, nomeadamente, os casos do Chefe Adjunto da Gabinete do Presidente, Kyrylo Tymoshenko; o Ministro da Defesa, Oleksiy Reznikov e seu vice, Vyacheslav Shapovalov; o vice-ministro de Desenvolvimento das Comunidades, Territórios e Infraestruturas Vasily Lozinsky; o Presidente do Conselho de Administração da Naftogaz Ukrainy Andriy Kobolev; o Chefe da Administração Militar Regional de Dnepropetrovsk Valentyn Reznichenko, entre outros. Apesar do facto de que esta “atividade” do partido no poder é uma ameaça direta à segurança e existência do país, por algum motivo, ainda não foi proibida pelas autoridades.

O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) deteve vários líderes de opinião e jornalistas que fizeram comentários nos media antes da guerra e criticaram o governo. Todos eles foram acusado de promover uma postura pró-Rússia, alta traição, espionagem, propaganda, etc.

Uma longa lista de detenções, desaparecimentos e mortes

Em fevereiro-março 2022 bloguistas e jornalistas conhecidos foram presos sob a acusação de alta traição e prisão preventiva, como Dmitry Dzhangirov (de ideologia de esquerda, colaborou com o nosso partido), Yan Taksyur (de ideologia de esquerda), Dmitry Marunich, Mikhail Pogrebinsky, Yuri Tkachev, etc. O motivo para a sua prisão não foi de forma alguma traição, mas o medo das autoridades à sua posição pública, que não coincidia com a oficial.

Em março de 2022, o historiador Alexander Karevin, conhecido pela sua cidadania ativa, desapareceu sem deixar vestígios após agentes da SBU irem a sua casa. Karevin tinha criticado repetidas vezes a ação das autoridades ucranianas no terreno das ciências humanas, da política linguística e da memória histórica. Em fevereiro de 2023, Dmitry Skvortsov, um publicitário e bloguista ortodoxo, foi preso num mosteiro perto de Kiev e levado para um centro de detenção preventiva.

Em março de 2022, em Kiev, a advogada e ativista de direitos humanos conhecida pela sua posição antifascista, Olena Berezhnaya, foi enviada para a prisão preventiva por suspeita de traição (nos termos do artigo 111 do Código Penal). Esta ativista tinha falado no Conselho de Segurança da ONU, em dezembro de 2021, sobre as ilegalidades que estavam a acontecer na Ucrânia.

Em 3 de março de 2022, os irmãos Alexander e Mikhail Kononovichi, ativistas antifascistas, foram presos em Kiev acusados de violar o Artigo 109 do Código Penal da Ucrânia (“Ações direcionadas”) para mudar pela força a ordem constitucional ou tomar o poder do Estado. Foram colocados num centro de detenção provisória até o final de 2022, onde foram espancados e torturados, sendo-lhes negada assistência médica em tempo útil.

Em maio de 2022, em Dnipro, o SBU prendeu Mikhail Tsarev, irmão do ex-candidato o presidente presidencial, Oleg Tsarev, acusado de “desestabilizar o situação sociopolítica na região”. Em dezembro de 2022, foi condenado por terrorismo a cinco anos de prisão.

Em 7 de março, 2022, seis ativistas da organização de oposição Patriotas para a Vida desapareceram sem deixar vestígios em Severodonetsk, em maio um dos líderes do grupo Azov, Maxim Zhorin, colocou na Internet uma foto dos seus cadáveres, afirmando que “eles tinham sido executados” e que os seus assassinatos estavam relacionados com os cargos que desempenhavam e tinham sido realizados por estruturas paramilitares.

Em 12 de janeiro, 2023, Sergei Titov, residente em Belaya Tserkov, uma pessoa deficiente, quase cega, com uma doença mental, foi preso e internado num centro de detenção preventiva por “sabotador”. Em 2 de março, foi noticiado que ele tinha morrido no centro.

Desde novembro 2022, Dmitry Shymko, de Khmelnytsky, está nas masmorras por suas convicções políticas.

Centenas são perseguidos por distribuírem conteúdo político online

As autoridades têm sob rígido controlo o espaço de informação da Ucrânia, incluindo Internet. Quaisquer publicações pessoais na Internet de cidadãos sobre erros na frente, corrupção das autoridades e dos militares ou sobre mentiras dos funcionários, são declaradas crime. Essas pessoas, além dos bloguistas e administradores dos canais do Telegram, estão sujeitos a assédio por parte da polícia e do SBU.

De acordo com o SBU, na primavera deste ano, 26 canais do Telegram foram bloqueados nos quais as pessoas se informavam mutuamente sobre as convocatórias de mobilização. Seis administradores foram registados e considerados suspeitos. Deste modo foram bloqueadas páginas operando nas regiões de Ivano-Frankivsk, Cherkasy, Vinnitsa, Chernivtsi, Kiev, Lviv e Odessa, as quais estavam subscritas mais de 400 000 utilizadores. Os administradores destas páginas enfrentam dez anos de prisão.

Em março de 2022, foi introduzido no Código Penal da Ucrânia o artigo 436-2 sobre “Justificação, reconhecimento como lícito, negação de agressão armada da Federação Russa contra a Ucrânia, glorificação dos seus participantes”, que na verdade é dirigido contra qualquer cidadão da Ucrânia que pense algo diferente da posição política oficial.

Esta norma está formulada de tal forma que, no essencial, prevê a punição de “delito de pensamento”:   palavras, frases ditas não só em público, mas também numa conversa privada, escrita num canal privado ou numa mensagem SMS enviada por telefone. Na verdade estamos a falar da invasão da vida privada do cidadãos, dos seus pensamentos. Isto viu-se confirmado pela aplicação da lei: até março de 2023, havia 380 condenações no registo de decisões judiciais por simples conversas na rua e “likes” na Internet, incluindo penas reais de prisão.

Assim, em junho 2022, em Dnipro, um morador de Mariupol que em março de 2022 afirmou que o bombardeamento de civis e infraestruturas civis de Mariupol tinha sido executado por militares das Forças Armadas da Ucrânia foi condenado a 5 anos de prisão. Outra sentença, baseada numa conversa telefónica em março de 2023, foi ditada contra um morador de Odessa, condenado a dois anos de liberdade condicional por conversas “antipatrióticas e anti-Estado” através de um telemóvel.

Um morador do aldeia de Maly Bobrik na região de Sumy, que em abril de 2022, estando no seu quintal na presença de três pessoas, aprovou as ações das autoridades russas em relação à Ucrânia e que não admitiu logo a sua culpa, foi condenado sob o Artigo 436-2 do Código Penal em junho de 2022 a uma pena real de seis meses de prisão.

Pelo menos 25 ucranianos foram condenados por “atividades antiucranianas” nas redes sociais. Segundo a investigação, aqueles residentes na Ucrânia distribuíam símbolos “Z”, bandeiras russas nas suas páginas e qualificavam a invasão como “libertação”.

Eles também impuseram sentenças não apenas àqueles que distribuíram essas publicações, mas também aos que “gostaram” (expressando a sua aprovação nas redes sociais) – pelo menos os textos de dois acórdãos dizem que os chamados “likes” tinham o objetivo de “levar a ideia para uma ampla gama de pessoas de mudança das fronteiras do território da Ucrânia” e “justificar a agressão armada da Federação Russa”. A justificação dos investigadores foi que as páginas pessoais têm acesso aberto e as publicações com “likes” podem ser vistas por muita gente.

Assim, em maio de 2022, em Uman, uma pensionista foi condenada a dois anos de prisão com um período suspensão de um ano, pelo facto “que devido à rejeição das atuais autoridades ucranianas […] ter colocado os chamados “likes” na rede de Internet Odnoklassniki numa série de publicações que justificavam a agressão armada do Federação Russa contra a Ucrânia”.

Em Kremenchug em Maio de 2022, nos termos do artigo 436.º-2 do Código Penal de Ucrânia, foi condenado um cidadão da Ucrânia, que sob pseudónimo falou no Odnoklassniki sobre os nazistas na Ucrânia e o desenvolvimento de armas biológicas financiadas pelo Pentágono.

A repressão usada pelo atual governo para lutar contra quem discorde converteu a Ucrânia no Estado mais carente de liberdade da Europa, um Estado onde qualquer um que se atreva a opor-se às autoridades, à oligarquia, ao nacionalismo e ao neonazismo arrisca a liberdade e, muitas vezes, a vida.

Solicitamos toda a difusão possível destas informações dado que na situação atual apenas ampla publicidade internacional dos factos apresentados neste artigo pode ajudar a salvar milhares de pessoas cuja liberdade e vidas estão agora ameaçadas na Ucrânia.


Ver também:
O regime de Kiev intensifica atentados contra os direitos humanosBorotbaRepressão brutal contra democratas ucranianosOs cãezinhos de Pavlov e os rinocerontes de Ionesco

[*] Presidente da União das Forças de Esquerda (por um Novo Socialismo)

A versão em castelhano encontra-se em rebelion.org/las-personas-que-se-oponen-al-gobierno-actual-estan-detenidas-o-muertas/

Este artigo encontra-se em resistir.info


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Os tiranos da paz e os democratas da guerra

(Hugo Dionísio, in Facebook, 15/05/2023)

As eleições na Turquia ensinam muito – ou deviam – sobre a percepção popular relativamente às coisas da guerra. Em geral, os povos, as massas trabalhadoras e as suas famílias, não querem guerra ou perigosas confrontações. Exceptuando as lutas pela libertação, os povos apenas querem continuar com as suas vidas em paz, procurando a previsibilidade, a estabilidade e a melhoria gradual das suas condições de vida.

Ora, hoje, aderir à estratégia dos EUA significa precisamente o contrário disto tudo. Como podemos constatar, a submissão da EU e dos países que a integram, à estratégica hegemónica dos EUA, apenas nos tem trazido a imprevisibilidade, resultante das constantes sanções que têm efeito boomerang; instabilidade, quer em relação ao estado actual e às previsões futuras para a economia, quer em relação à própria ameaça de guerra, sempre no horizonte; degradação rápida das condições de vida, traduzida numa percepção geral de que tudo está a piorar, sem que se vejam luzes ao fundo do túnel. Algum povo vota para isto?

O que é que justificou tanta propaganda contra Erdogan? O que é que justificou a sua responsabilização directa pelo sismo ocorrido no Sul do país? O que é que justificou uma cobertura mediática ocidental, sem precedentes, relativamente às eleições turcas? O que justifica tais ingerências nas eleições turcas, no fundo, é a mesma causa que justifica a ingerência nas demais eleições e os inúmeros golpes de estado – militares ou civis – “democraticamente” instaurados pelos EUA. Trata-se da integração do país – neste caso da Turquia – no quadro da relação de forças que se estabelece entre os EUA e o sul global, em especial, a Rússia, mas não só.

A preocupação dos EUA é tão grande que leva uma comentadora da CNN Portugal a dizer “era importante a Turquia ficar com uma democracia verdadeira”. Leia-se: democracia pró-ocidental, o que neste momento é muito perigoso e danoso para quem o faz. E é esta contradição que terá estado na escolha do povo turco. Em eleições com mais de 93% de participação (e depois fala a outra de “democracia verdadeira”), num país assolado pela inflação, pelos danos do terremoto, pelo autoritarismo do sultão e pela corrupção endémica do seu movimento, o que é que justificou tal votação? Mesmo os “analistas” pró-Nato parecem admiti-lo: as pessoas tiveram medo dos resultados de uma viragem da política externa do país, no sentido da confrontação com a Rússia, com a China, com a Síria, etc. Todos perceberam para onde voaria Kemal Kilicdaroglu a seguir. E rejeitaram-no.

Não fosse esse detalhe e Kemal teria ganho à primeira. Mas esse detalhe é fundamental para quem quer paz, estabilidade, previsibilidade e desenvolvimento. Mesmo não havendo “desenvolvimento”, como sucede, em parte com Erdogan, pelo menos que haja o resto. O povo turco não quis entrar em confronto com um país com o qual partilha uma fronteira marítima enorme (Mar Negro), de onde recebe energia, cereais, maquinaria, armas, investimento e cerca de 4 milhões de turistas anuais. Percebe-se e ajuda a entender o quão danosa pode ser a venda de uma Pátria aos interesses dos EUA.

Na segunda volta, prevê-se que Erdogan volte a ganhar. E a suceder, o que ganha com ele é a neutralidade da Turquia. A mesma neutralidade que Zelinsky rejeitou e contra a qual destruiu o seu país e traiu o seu povo. A Ucrânia é um exemplo muito real do que está em jogo. Em 2021, o corrupto comediante ganhou as eleições com 70% dos votos, eleições essas em que havia prometido duas coisas: fazer a paz com a Rússia e cumprir os acordos de Minsk. O povo ucraniano, ao contrário do que a propaganda ocidental diz vezes sem conta, não queria, não quer e não votou pela guerra, pelo belicismo, pela agressão ao Donbass. Votou ao contrário disso tudo, não sendo despiciendo que até às eleições, quando instado sobre o povo e cultura russas, o comediante respondia sempre: é um povo irmão, é a minha cultura, é a minha língua.

Ganhou e revelou-se. Perseguiu russos, pró-russos, russófonos, russófilos e tudo o que tinha sabor, cheiro ou cor de russo. Fechou partidos, sindicatos, confiscou propriedades, fechou igrejas, prendeu, censurou, fechou TV’s, revistas e jornais, proibiu a língua nas escolas e nos livros, bombardeou diariamente civis indefesos no Donbass e instalou nazis russófobos no poder. Tudo isto antes do malogrado dia 24/02/2022. Kyrylo Bogdanov disse para quem o quis ouvir que “continuaremos a matar russos”. Não disse militares. O chefe do GUR (a CIA ucraniana) disse “russos”. Para quê tão ódio? Em nome de quê? Quando quer matar em nome dos EUA, é ao seu povo que ele mata! Mata-o um bocado todos os dias!

Outro povo que parece não querer que lhe aconteça o que aconteceu ao ucraniano – e a tantos outros que são traídos – é o povo de Taiwan. O que justifica que, depois de tanta propaganda, o candidato da oposição ao partido do poder, apresentado como defendendo o retorno à China continental, esteja à frente das sondagens e por larga vantagem? A previsibilidade, a estabilidade, a melhoria das condições de vida e a paz. Taiwan não quer tornar-se numa versão degradada da Ucrânia.

Ainda outro exemplo em marcha é o que se passa no Paquistão. Ihmram Khan era Primeiro-ministro e mantinha a neutralidade do pais, em função dos interesses da sua Nação. A CIA operou uma golpada civil e retirou-o através da dissolução do seu governo. O povo revoltou-se em massa e os jagunços da CIA no Parlamento ficaram sem saber o que fazer. Se o deixassem em paz, ele ganharia as próximas eleições… O que fizeram então? Uma “lulada paquistanesa”. Acusação de corrupção e prisão com ele. Tudo extremamente democrático. Fosse Maduro a fazer isto…. Viu-se com o inseto Navalny o que aconteceu. Hoje, o povo revolta-se nas ruas, parte, incendeia, e com medo de perderem as eleições, já se fala de uma nova ditadura militar apoiada pelos EUA, como no passado. Aliás, a história prova que os EUA se dão muito mal com as escolhas democráticas no Paquistão – não só por lá…

O caso da Geórgia também é paradigmático. Foram buscar uma Presidente que nunca tinha lá vivido e nem a língua falava. Elegeram-na e colocaram-na no poder. No dia em que ela começou a insistir em não hostilizar a Rússia, em não atacar a Ossétia, em controlar o financiamento das ONG’s da CIA, logo deixou de ser “democrática” e colocaram-lhe um Maidan nas previsões. Perante a adesão popular às suas políticas, inclusive a reposição dos voos entre a Rússia e a Geórgia, os EUA ameaçaram com sanções. Mas como é que alguém se atreve em falar em democracia nestas situações?

Quando estes “analistas” de taberna falam em “democracia verdadeira”, deve ser uma espécie de código para “traição dos interesses do povo e da Pátria”. A verdade é que, como já provou Michael Hudson num livro seu sobre o perdão das dívidas ao longo da História, sempre que um governante perdoava as dívidas aos pobres era apelidado de “tirano” pelos ricos. Hoje, muitos dos classificados “tiranos” estão no mesmo patamar. A maioria defende interesses que os seus povos consideram fundamentais, mas que vão contra os interesses das classes dominantes, as quais, detentoras do poder económico, conseguem colar-lhes uma imagem que nem sempre corresponde à verdade.

No caso de Erdogan, não há um único elemento que o classifique como autocrata que não seja praticado pelos EUA e pelo Ocidente. Um único. Onde é que isto nos deixa relativamente à nossa “democracia verdadeira”, cujos representantes optam pelo confronto, pela guerra e pela degradação das condições de vida?

Só para dar um exemplo dos danos para a Ucrânia que esta traição fatal provoca, veja-se o caso das munições de Urânio empobrecido. Há uns tempos escrevi sobre isto, referindo um parecer jurídico internacional que apontava para os efeitos que tais munições têm em matéria ambiental. As gentes neoliberais fartaram-se de rir. Ontem na Ucrânia ocidental (Khmelnitsky e Ternopyl), dois depósitos enormes com armas vindas do ocidente foram bombardeados pelas forças russas. Nesses depósitos encontravam-se quantidades enormes de munições de urânio empobrecido. Hoje, há milhares de pessoas a abandonar a região, os fogos são apagados com ajuda de drones e existem equipas de técnicos equipados com dosímetros para medição e radiação, por toda a região. Ainda de manhã, foram divulgados os dados dos níveis de radiação da região, e verifica-se um pico acentuado nos níveis. Eis o resultado do uso destas munições.

Agora, como é cientificamente sabido, aumentarão os casos de cancro nesses locais, tal como sucedeu na Jugoslávia, Sérvia, Iraque e nos soldados americanos e ingleses. O objectivo era envenenar o Donbass…  Eis um exemplo real do que significa, hoje, estar do lado da destruição, da guerra, do terror e da ameaça…

O mais grave é que esta luta pela “democracia verdadeira”, em que só os mais ricos vêem melhorada a sua condição, não cria apenas dificuldades aos que estão do lado de lá… Somos nós todos que sofremos com ela.

Vítimas da degradação da sua consciência de classe e do ataque às suas organizações de massas, os povos ocidentais encontram-se encarcerados entre: o autoritarismo soberanista de gente como Erdogan ou Orban, os quais estando longe de garantir o progresso e desenvolvimento social, tem garantido, pelo menos, a adesão a uma política externa mais neutral e pacífica, em nome, especialmente, dos seus e dos negócios de quem os apoia; e a farsa “democrática” dos EUA, nas mãos de uma reduzida oligarquia, que associa as mais insidiosas práticas de ingerência, vigilância, assédio e subversão dos interesses dos povos, a um discurso superficial pró-ambiental (para os jovens), e à desconstrução dos laços sociais tradicionais no plano dos costumes. Nem uma nem outra conjugam o essencial: a paz e o desenvolvimento das condições de vida!

É razão para perguntar, “mas de que democracia verdadeira estão a falar”?

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Os Estados Unidos da paralisia

(Chris Hedges, in Resistir 15/05/2023)

Quanto mais tempo o Estado corporativo corrói os laços sociais que fornecem um senso de propósito e significado, mais inevitável se torna um Estado autoritário e um fascismo cristianizado.


A paralisia política apaga o que resta da nossa anémica democracia. É a paralisia de nada fazer enquanto os oligarcas no poder, aumentaram a sua riqueza em quase um terço desde o início da pandemia e em quase 90% na última década. Orquestram boicotes fiscais virtuais enquanto milhões de americanos entram em falência para pagar contas médicas, hipotecas, dívidas de cartão de crédito, dívidas estudantis, empréstimos para carros e contas crescentes de serviços públicos, exigidas por um sistema que privatizou quase todos os aspetos da vida nos Estados Unidos.

É a paralisia de não fazer nada para aumentar o salário mínimo, apesar da inflação, de cerca de 600 mil americanos sem-abrigo e 33,8 milhões de pessoas vivendo em famílias com insegurança alimentar, incluindo 9,3 milhões de crianças. É a paralisia de ignorar a crise climática, a maior ameaça existencial que enfrentamos, para expandir a extração de combustíveis fósseis [NT]. É a paralisia de despejar centenas de milhares de milhões de dólares na economia de guerra permanente em vez de reparar infraestruturas como estradas, caminhos de ferro, pontes, escolas, rede elétrica e de abastecimento de água em colapso do país.

É a paralisia de se recusar a instituir cuidados de saúde universais e regular as indústrias de seguros e farmacêuticas com fins lucrativos para consertar o pior sistema de saúde de qualquer nação altamente industrializada, em que a expectativa de vida está caindo e mais americanos morrem de causas evitáveis do que em nações industrializadas. Mais de 80% das mortes maternas só nos EUA são evitáveis, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

É a paralisia de não estar disposto a conter a violência policial, desmantelar o maior sistema prisional do mundo, acabar com a vigilância governamental sobre o público e reformar um sistema judicial disfuncional onde quase todos, a menos que possam pagar advogados caros, são coagidos a aceitar acordos onerosos de delação premiada.

É a paralisia de ficar passivamente ao lado do público, armado com arsenais de armas de assalto, massacrando-se uns aos outros por atravessarem para o seu quintal, utilizarem a sua garagem, tocarem a campainha, irritá-los no trabalho ou na escola, ou são tão alienados e amargurados por serem deixados para trás, que atiram contra grupos de pessoas inocentes em atos de autoimolação assassina.

Caçadores da democracia

As democracias não são mortas por bufões reacionários como o ex-presidente Donald Trump, que foi rotineiramente processado por não pagar trabalhadores e empreiteiros e cuja personalidade fictícia da televisão foi vendida a um eleitorado crédulo, ou por políticos superficiais como o presidente Joe Biden, cuja carreira política tem sido dedicada a servir doadores corporativos . Esses políticos fornecem um falso conforto individualizando as crises, como se remover uma figura pública ou censurar um grupo nos salvasse.

As democracias são mortas quando uma pequena cabala, no nosso caso corporativa, toma o controle da economia, da cultura e do sistema político e os distorce para servir exclusivamente os seus próprios interesses. As instituições que deveriam fornecer apoio ao público tornam-se paródias de si mesmas, atrofiam e morrem. Como explicar órgãos legislativos que só podem unir-se para aprovar programas de austeridade, cortes de impostos para a classe bilionária, orçamentos policiais e militares dilatados e reduzir gastos sociais? Como explicar tribunais que retiram aos trabalhadores e cidadãos os seus direitos mais básicos? De que outra forma explicar um sistema de educação pública em que os pobres são, na melhor das hipóteses, alfabetizados de forma básica e os ricos enviam seus filhos para escolas e universidades privadas com doações na casa dos milhares de milhões de dólares?

As democracias são mortas com falsas promessas e vulgaridades ocas. Biden disse como candidato que aumentaria o salário mínimo para 15 dólares [por hora] e distribuiria cheques de estímulo de 2 000 dólares. Ele disse que seu Plano de Empregos Americano criaria “milhões de bons empregos”. Ele disse que fortaleceria a negociação coletiva e garantiria a pré-escola universal, licença familiar e médica remunerada universal e faculdades comunitárias gratuitas. Ele prometeu uma opção de financiamento público para a saúde. Ele prometeu não perfurar terras federais e promover uma “revolução da energia verde e justiça ambiental”. Nada disto aconteceu.

Mas, a maioria das pessoas já descobriu o jogo. Por que não votar em Trump e em suas promessas grandiosas e fantasiosas? São menos reais do que as defendidas por Biden e pelos democratas? Por que homenagear um sistema político que é sobre traição? Por que não se separar do mundo racional que só trouxe miséria? Por que fidelizar velhas verdades que se tornaram banalidades hipócritas? Por que não rebentar tudo isto?

Como ressaltam as pesquisas dos professores Martin Gilens e Benjamin Page, nosso sistema político transformou o consentimento dos governados numa piada cruel: “O ponto central que emerge de nossa pesquisa é que as elites económicas e grupos organizados que representam interesses empresariais têm impactos independentes substanciais na política do governo dos EUA, enquanto grupos de interesse baseados na massa dos cidadãos comuns têm pouca ou nenhuma influência independente”.

O sociólogo francês Emile Durkheim, no seu livro Sobre o suicídio, chamou o nosso estado de desesperança, desespero, anomia, definindo-o como “falta de governança”. A falta de regra significa que as regras que regem uma sociedade e criam um senso de solidariedade orgânica não funcionam mais. Significa que as regras que nos são ensinadas – trabalho árduo e honestidade nos garantirão um lugar na sociedade; que vivemos numa meritocracia, somos livres, nossas opiniões e votos importam, nosso governo protege nossos interesses – são mentiras. É claro que, se você é pobre ou uma pessoa de cor, essas regras sempre foram um mito, mas a maioria do público americano já foi capaz de encontrar um lugar seguro na sociedade, que é o baluarte de qualquer democracia, como apontam inúmeros teóricos políticos que remontam a Aristóteles.

Dezenas de milhões de americanos, lançados à deriva pela desindustrialização, entendem que suas vidas não vão melhorar, nem a vida de seus filhos. A sociedade, como escreve Durkheim, já não está “suficientemente presente” para eles. Os deixados de lado só podem participar da sociedade, escreve, por meio da tristeza.

O único caminho que resta para se afirmar, quando todas as outras avenidas estão fechadas, é destruir. A destruição, alimentada por uma grotesca hiper-masculinidade, transmite uma pressa e prazer, juntamente com sentimentos de omnipotência, que é sexualizada e sádica. Tem uma atração mórbida. Essa ânsia de destruir, o que Sigmund Freud chamou de pulsão de morte, atinge todas as formas de vida, inclusive a nossa.

Estas patologias da morte, doenças do desespero, manifestam-se nas pragas que estão varrendo o país – dependência de opioides, obesidade mórbida, jogo, suicídio, sadismo sexual, grupos de ódio e tiroteios em massa. Meu livro, America: The Farewell Tour, é uma exploração dos demónios que dominam a psique americana.

Uma teia de laços sociais e políticos – amizades e laços familiares, rituais cívicos e religiosos, trabalho significativo que transmite um senso de lugar, dignidade e esperança no futuro – permite que as pessoas se envolvam num projeto maior do que o seu eu. Esses vínculos fornecem proteção psicológica contra a mortalidade iminente e o trauma da rejeição, isolamento e solidão. Somos animais sociais. Precisamos uns dos outros. Tirem esses laços e as sociedades descem ao fratricídio.

Forças predatórias

O capitalismo é contrário à criação e sustentação de laços sociais. Seus atributos centrais – relações transacionais e temporárias, priorizando o avanço pessoal por meio da manipulação e exploração dos outros e da insaciável ânsia pelo lucro – eliminam o espaço democrático. A obliteração de todas as restrições ao capitalismo, do trabalho organizado, da supervisão e regulação governamentais, deixou-nos à mercê de forças predatórias que, por natureza, exploram os seres humanos e o mundo natural até a exaustão ou colapso.

Trump, desprovido de empatia e incapaz de remorso, é a personificação da nossa sociedade doente. Ele é o que aqueles que foram lançados à deriva são ensinados pela cultura corporativa, é aquilo que eles devem esforçar-se por se tornar. Ele expressa, muitas vezes com vulgaridade, a raiva incómoda daqueles que ficaram para trás, é uma propaganda ambulante para o culto do eu. Trump não é um produto do roubo dos emails de Podesta, dos vazamentos do DNC ou de James Comey. Ele não é um produto do presidente russo, Vladimir Putin, ou de robôs russos. Ele é um produto, de aspirantes a doppelgängers (sósias robotizados) como Ron DeSantis, Tom Cotton e Margorie Taylor Greene, de anomia e decadência social.

Os indivíduos estão “envolvidos demais na vida da sociedade para que ela fique doente sem serem afetados”, escreve Durkheim. “Seu sofrimento se torna o deles inevitavelmente”.

Esses charlatães e demagogos, que rejeitam as restrições costumeiras do decoro político e cívico, ridicularizam as elites “educadas” que nos venderam. Não oferecem uma solução viável para as crises que assolam o país. Eles dinamitam a velha ordem social, que já está podre, e clamam por vingança contra inimigos reais e fantasmas como se esses atos ressuscitassem magicamente uma era de ouro mítica. Quanto mais essa idade perdida permanece indefinida, mais cruel ela se torna.

“Uma vez que a burguesia afirmava ser a guardiã das tradições ocidentais, confundindo todas as questões morais ao exibir publicamente virtudes que não só não possuía na vida privada e empresarial, mas na verdade desprezava, parecia revolucionário admitir a crueldade, o desrespeito aos valores humanos e a amoralidade geral, porque isso pelo menos destruía a duplicidade sobre a qual a sociedade existente parecia repousar”.

Hannah Arendt escreve em As origens do totalitarismo acerca daqueles que abraçaram a retórica cheia de ódio do fascismo na República de Weimar. “Que tentação de ostentar atitudes extremas no crepúsculo hipócrita dos dois pesos e duas medidas morais, de usar publicamente a máscara da crueldade, fazendo desfilar a maldade num mundo de maldade!”

A sociedade norte-americana está profundamente doente. Os americanos devem curar essas doenças sociais, mitigar essa anomia, restaurar os laços sociais cortados e integrar os desprovidos de volta à sociedade. Se esses laços sociais permanecerem rompidos, isso garantirá um neofascismo assustador. Há forças muito sombrias circulando dentro dos EUA. Mais cedo do que muitos esperam, eles podem ter os americanos sob o seu controlo.


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[NT] Com toda a consideração por Chris Hedges, ele não é um cientista em climatologia. A tese das alterações climáticas de origem antropomórfica é no mínimo controversa e mais ainda a questão do “diabolismo” do CO2 (um gás não poluente e até indispensável à vida) ou dos combustíveis fósseis. Resistir.info tem, reiteradamente, alertado para tais questões. Ver por exemplo A impostura climática,

[*] Jornalista, Prêmio Pulitzer.

O original encontra-se em consortiumnews.com/2023/04/24/chris-hedges-the-united-states-of-paralysis/

Este artigo encontra-se em resistir.info


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