Mudança de paradigma na Palestina

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 11/10/2023)

O Primeiro-Ministro israelita, Benjamin Netanyahu anuncia que Israel está em guerra. Pela primeira vez na sua história, o Estado hebreu é atacado no seu próprio território. Primeiro, ele vai “limpá-lo” , depois lançará uma guerra contra-insurreição em Gaza, no do modelo da « batalha de Argel » e da « operação Fénix » no Vietname : Tratar-se-á de uma guerra muito suja, mortífera e ilimitada. Israel poderá restabelecer a ordem em seu proveito, mas jamais poderá vencer.

O conflito sangrento que começou na Palestina geográfica acontece após 75 anos de mortíferas injustiças. Do ponto de vista do Direito Internacional, os Palestinianos tem o direito e o dever de resistir à ocupação israelita, tal como os Israelitas tem o direito e o dever de responder ao ataque que sofrem. É da responsabilidade de todos ajudar a resolver as injustiças de que os dois grupos são vítimas, o que não significa apoiar a vingança cruel de alguns deles.
Além disso, o apoio que se possa dar aos povos palestiniano e israelita não deve levar a amnistiar os seus respectivos dirigentes pelos crimes que cometeram, nem as grandes potências que os manipularam.


O Próximo-Oriente é um universo instável no qual muitos grupos se enfrentam para sobreviver. Para simplificar, consideramos no Ocidente que a sua população se compõe de judeus, cristãos e muçulmanos, mas a realidade é muito mais complexa. Cada religião compõe-se ela própria de uma infinidade de crenças. Por exemplo, na Europa e no Magrebe, estamos cientes que os cristãos se dividem em Igreja Católica, Igrejas Ortodoxas e Igrejas Protestantes, mas no Médio-Oriente existem dezenas e dezenas de Igrejas diferentes. A mesma constatação é verdadeira no seio das religiões judaica e muçulmana.

Cada vez que uma peça é modificada no tabuleiro, todos os outros grupos têm de se reposicionar. É por isso que os aliados de hoje, serão talvez os inimigos de amanhã, enquanto os inimigos de hoje eram os nossos aliados de ontem. Ao longo dos séculos, todos se tornaram simultaneamente vítimas e carrascos. Os estrangeiros que vão ao Médio-Oriente identificam-se a priori com pessoas que têm a mesma cultura que eles, a mesma fé, mas ignoram a sua história e não estão preparados para a aceitar.

Se quisermos promover a paz, não devemos escutar unicamente aqueles de quem nos sentimos próximos. Temos que admitir que a paz supõe resolver não só as injustiças de que sofrem os nossos amigos, mas também as de que sofrem os nossos inimigos. Ora, não é isso que fazemos espontaneamente. Assim, nos meses precedentes, em França, ouvimos exclusivamente o ponto de vista de certos Ucranianos face aos Russos, de certos Arménios face aos Azeris e agora de certos Israelitas(Israelenses-br) face aos Palestinianos.

Finalmente, entre as múltiplas fontes às quais podemos recorrer, devemos distinguir aquelas que defendem os seus interesses materiais imediatos, aquelas que defendem a sua pátria e aquelas que defendem princípios. Contudo, as coisas são complicadas por grupos, não religiosos, mas teocráticos. Estes últimos não defendem nenhum princípio superior, antes utilizam uma linguagem religiosa para vencer.

Fixando estes pontos prévios, vamos aos factos.

O Hamas atacou Israel em 7 de Outubro de 2023, às 6 horas da manhã, quer dizer, por ocasião do 50º aniversário da «Guerra de Outubro de 73», conhecida no Ocidente pelo nome israelita de «Guerra do Kippur». À época, o Egipto e a Síria atacaram Israel de surpresa para ir em auxílio dos Palestinianos. Mas Telavive, informada por Amã e apoiada por Washington, esmagou os exércitos árabes. Anwar el-Sadat traíra os seus, enquanto a Síria acabou perdendo o Golã.

A operação actual combina em simultâneo uma chuva de foguetes, destinados a saturar a Cúpula de Ferro, e 22 ataques terrestres em território israelita. Pela primeira vez na Palestina, os disparos de foguetes foram dirigidos sobre centros de comando israelitas de maneira a favorecer as acções dos comandos. Estas últimas são oficialmente destinadas a fazer reféns de modo a poder negociar a sua troca com os 1. 256 detidos palestinianos em prisões de alta segurança. As infiltrações tiveram lugar simultaneamente por via terrestre, marítima e aérea (com ultraleves).

A preparação desta operação, a obtenção de Inteligência, a formação de um milhar comandos e a transferência de armas exigiram meses, senão anos de trabalho. Ora, cegos pela nossa convicção de superioridade, não o vimos. Ela foi, portanto, concebida por Mohammad Daif, o chefe operacional do Hamas, que havia desaparecido dos radares durante dois anos e reapareceu ao lado do porta-voz do Hamas, « Abu-Obaida ».

Conseguindo detectar os foguetes, mas incapaz de os destruir a todos, Israel encaixou pelo menos 3. 000 dos 7. 000 disparados. As redes sociais e os canais de televisão árabes mostraram que o Hamas capturou vários tanques e pelo menos o posto fronteiriço a Oeste da Faixa. Além disso, ele atacou uma “rave party” no Kibutz Re’im, onde violou e massacrou pelo menos 280 participantes. Por todo o lado, sequestrou um grande número de reféns, incluindo generais. Os seus comandos penetraram em várias cidades israelitas, disparando de metralhadora sobre os moradores. Listam-se pelo menos 700 mortos e 2. 200 feridos graves do lado israelita, o dobro do lado palestiniano.

Trata-se da mais importante acção palestiniana desde há meio século.

O que se passa é o fruto de 75 anos de opressão e de violação do Direito Internacional. Dezenas de Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas foram violadas por Israel, sem nenhuma sanção a respeito. Israel é um Estado fora da Lei que não hesitou em corromper ou assassinar a quasi-totalidade dos dirigentes políticos palestinianos. Deliberadamente, ele impediu o desenvolvimento económico dos Territórios, ao mesmo tempo favorecendo a criação de um Estado palestiniano separado que controla parcialmente.

A frustração e o sofrimento acumulados ao longo de 75 anos traduzem-se em comportamentos violentos e cruéis de alguns Palestinianos, cientes de terem sido há muito tempo abandonados pela Comunidade internacional. No entanto, os tempos mudam. A maioria dos membros das Nações Unidas, que puderam constatar na Síria e na Ucrânia o falhanço militar dos Ocidentais e a vitória da Rússia, já não se limitam a baixar a cabeça perante os Estados Unidos. A Assembleia Geral reafirmou, por ocasião do aniversário da autoproclamação da independência de Israel e do massacre e expulsão dos Palestinianos (a Nakhba), que o Direito Internacional está do lado dos Palestinianos e não dos Israelitas. O que não impede o Hamas de cometer crimes de guerra.

A actual situação é uma situação sem saída para os dois campos. Após três quartos de século de crimes, Israel já não pode fingir grande coisa. A sua população está agora dividida. Durante os últimos meses, os «sionistas negacionistas», isto é, os discípulos do Ucraniano Vladimir Jabotinsky, favoráveis ao supremacismo judaico, tomaram o poder em Telavive apesar da oposição de uma pequena maioria da população e de gigantescas manifestações. Os seus jovens, que aspiram a viver em paz, recusam servir nas Forças Armadas para brutalizar os árabes, mas ainda assim juntaram-se a elas para defender as suas famílias que amam e o seu país, no qual não acreditam.

Pelo Direito, os Palestinianos formaram um Estado, que obteve o estatuto de observador nas Nações Unidas. À morte de Yasser Arafat, o chefe da Fatah, Mahmud Abbas, foi eleito Presidente. Contudo, no seguimento da vitória do Hamas nas eleições legislativas de 2007 e na impossibilidade de fazer aceitar aos Ocidentais um governo do Hamas, os Palestinianos envolveram-se numa guerra civil. Em resumo, a Cisjordânia é governada pela Fatah, o Partido laico criado por Yasser Arafat. Mahmud Abbas e os seus próximos são financiados pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por Israel. Enquanto a Faixa de Gaza está nas mãos do Hamas, quer dizer, do ramo palestiniano da Confraria dos Irmãos Muçulmanos. Ela é governada por indivíduos que não concebem o Islão do ponto de vista espiritual, mas como uma arma de conquista. Eles são financiados sobretudo pelo Reino Unido, Catar, Israel, Turquia, Irão e União Europeia. Desde há 16 anos, os dois campos opuseram-se a quaisquer novas eleições. Os seus dirigentes vivem num luxo mafioso que contrasta com as
condições de vida miseráveis do seu povo.

Aquando da sua criação, o Hamas era financiado pelo Reino Unido. Ele foi apoiado pelos Serviços Secretos israelitas para enfraquecer a Fatah de Yasser Arafat. Depois Israel combateu-o e assassinou o seu líder religioso, o Xeque Ahmed Yassine. A seguir, de novo Israel usou o Hamas para eliminar os dirigentes da Resistência palestiniana marxista, desta vez. Assim, combatentes do Hamas enquadrados por agentes da Mossad e jiadistas da Alcaida atacaram o campo palestiniano de Yarmuk no início da guerra contra a Síria [1]. Mas hoje, uma vez mais, o Hamas combate o seu aliado de ontem, Israel.

Mohammad Daif é conhecido por ser o fundador das brigadas Izz al-Din al-Qassam. Como todos os Irmãos Muçulmanos, ele é um supremacista islâmico. Ele refere-se a Izz al-Din al-Qassam (1882-1935), um opositor do mandato francês no Líbano e do mandato britânico na Palestina. Portanto, ele não tem qualquer inspiração no antigo Mufti de Jerusalém e aliado dos nazis, Amin al-Husseini, embora partilhe o seu “anti-semitismo”. Em 2010 ele escrevia : «As Brigadas Izz ad-Din al-Qassam… estão mais bem preparadas para continuar na nossa via exclusiva onde não há alternativa, e é o caminho da jihad e da luta contra os inimigos da nação e da humanidade muçulmana…. Dizemos aos nossos inimigos : vós seguis pelo caminho da extinção (zawal), e a Palestina ficará sendo nossa, incluindo Al Qods (Jerusalém), Al -Aqsa (mesquita), as suas cidades e aldeias desde o mar ( Mediterrâneo) até ao rio (Jordânia), do Norte até ao Sul. Vós não tendes direito a nem tanto como um centímetro disso ». Mohammad Daif não é um militar, mas sim um especialista em captura de reféns. A sua operação foi concebida para este fim e não para libertar a Palestina.

No momento em que a saúde do Presidente Mahmud Abbas se deteriora, a Fatah está dividida em três facções militares :
• a de Fathi Abu al-Ardate, o Chefe da Segurança Nacional
• a de Mohammad Abdel Hamid Issa (aliás « Lino »), comandante da Kifah al-Mussallah (a luta armada). Ela insere-se na corrente de Mohamed Dallan, 0 antigo chefe das Informações palestinianas que assassinou Yasser Arafat. Ela é actualmente apoiada pelos Emirados Árabes Unidos.
• a de Munir Maqdah, antigo chefe militar da Fatah, que se aproximou do Hamas, do Catar, da Turquia e do Irão.

No mês passado, confrontos opuseram estas três facções às dos islamistas do Hamas, bem como do Jund el-Sham e do al-Shabab al-Moslem, dois grupos jiadistas que combateram ao lado da OTAN e de Israel contra a República Árabe Síria. Violentos combates tiveram lugar no campo de Aïn el-Héloué (Sídon, Sul do Líbano). Na altura, eu interpretara-os à luz dos de Nahr el-Bared (Norte do Líbano), em 2007 [2], antes de perceber que estavam ligados à agonia de Mahmud Abbas [3].

Durante 75 anos, Telavive fez tudo o que estava ao seu alcance para negar a igualdade entre todos, sejam judeus ou árabes. Pelo contrário, desde o Apelo de Genebra, tem promovido « a solução de dois Estados », quer dizer, o plano colonial da última chance de Lord William Peel, que os britânicos não conseguiram impor, nem no terreno, em 1937, nem nas Nações Unidas, em 1948, mas que hoje em dia reúne consenso. Agora, apenas os marxistas da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) pregam no deserto propondo criar um Estado único no qual cada homem disporia de uma voz igual [4].

Face ao que ele considera como uma invasão palestiniana, mas que do ponto de vista palestiniano não é mais que um regresso a casa, o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu prometeu a vitória. Mas o que será ? Matar todos os combatentes do Hamas não resolverá 75 anos de injustiça. Os seus filhos retomarão a sua chama tal como estes retomaram a de seus pais.

Para atingir o seu objectivo, Benjamin Netanyahu deve primeiro unir os Israelitas que ele dividiu. Seguindo o exemplo de Golda Meir durante a « Guerra dos Seis Dias », ele deve fazer entrar a Oposição para o governo. Assim encontrou-se com Yaïr Lapid e com o General Benny Gantz. No entanto, o primeiro pôs como condição que os supremacistas judeus, Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, abandonem o governo, ou seja, que o Primeiro-Ministro abandone o seu projecto político e o dos seus actuais patrocinadores [5], os straussianos da Administração Biden [6].

Os dirigentes do Hamas apelaram aos refugiados palestinianos no estrangeiro, a todos os árabes e a todos os muçulmanos para se unirem ao seu combate. Os refugiados palestinianos, significa dizer primeiro a maioria da população jordana e os do Líbano. Os árabes, quer dizer o Hezbolla libanês e a Síria, dois poderes que renovaram com o Hamas no decurso dos últimos meses. Os muçulmanos significa o Irão e a Turquia.

De momento, apenas a Jihad Islâmica, quer dizer, o Irão, e os diversos grupos da Resistência da Cisjordânia se juntaram ao Hamas.

Saindo da sombra, o Presidente Erdogan apelou, em 8 de Outubro, à aplicação das Resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina.

Contrariamente ao que pretende o Wall Street Journal, não é o Irão que dirige o Hamas. Isto é esquecer o acordo feito entre Hassan El-Banna, o fundador dos Irmãos Muçulmanos, e Ruhollah Khomeini, o fundador da República islâmica do Irão. Os dois grupos dividiram o mundo muçulmano entre si e abstêm-se de intervir significativamente na esfera de influência do outro. Teerão não para de afirmar ruidosamente o seu apoio aos Palestinianos, mas a sua acção concreta na Palestina limita-se à Jihad Islâmica.

Os dirigentes políticos do Hamas vivem na Turquia, sob a protecção dos Serviços Secretos. É Ancara que dirige o Hamas e a operação « Dilúvio de Al-Aqsa ». Inaugurando, no domingo, 8 de outubro, uma igreja ortodoxa siríaca, o Presidente Recep Tayyip Erdoğan declarou, em tom meloso : «O estabelecimento da tranquilidade, de uma paz duradoura e da estabilidade na região através da solução da questão palestina de acordo com o direito internacional é a prioridade absoluta sobre a qual nos concentramos durante as nossas conversas com os nossos homólogos (…) Infelizmente, os Palestinianos e os Israelitas, assim como toda a região, pagam o preço do atraso na administração da justiça (…) Atirar gasolina para a fogueira não beneficiará ninguém, incluindo os civis dos dois lados. A Turquia está pronta a fazer a sua parte, da melhor forma possível, para pôr fim aos combates o mais rapidamente possível e aliviar a tensão crescente devido aos recentes incidentes ».

A escolha por Ancara em desencadear esta nova guerra depois de mal esmagada a República de Artsakh, no Azerbaijão, e quando envia material militar para a Rússia, em violação das medidas coercivas unilaterais dos EUA, leva a pensar que os diplomatas turcos já não têm medo de Washington, a qual, portanto, havia tentado assassinar o Presidente Erdoğan, em 2016. Assim que esta operação estiver terminada, seguir-se-á uma outra contra os Curdos, na Síria e no Iraque.

Se o Hezbolla entrar em cena, Israel não conseguirá repelir o ataque sozinho. A sua existência só pode ser garantida com o apoio militar dos Estados Unidos. Ora, a opinião pública dos EUA já não apoia Israel, enquanto o Pentágono já não tem o poder para o defender. O que se passa actualmente é uma das consequências da guerra na Ucrânia. Washington não consegue fabricar munições suficientes para os seus aliados ucranianos. Foi mesmo forçada a levantar munições dos seus stocks (estoques-br) em Israel. E, já esvaziou lá os seus arsenais.

Nas primeiras horas do conflito, o Hezbolla disparou alguns foguetes contra as quintas de Chebaaa, ou seja, sobre o território disputado entre o Líbano e Israel. Mostrou assim que apoia a Resistência palestiniana dento da retórica da «unidade de frentes». Mas não entrou na guerra, porque desconfia do Hamas que teve de combater na Síria. E de quem não partilha a ideologia, a da Irmandade.

Todos os dirigentes ocidentais garantiram que condenam as acções terroristas do Hamas e que apoiam Israel. No passado, nada fizeram para resolver as injustiças na Palestina e estas posições de princípio atestam que não o farão agora. Por seu lado, a Rússia e a China, recusando tomar partido pelos Palestinianos ou pelos Israelitas, apelaram, não à aplicação das regras ocidentais, mas ao respeito pelo Direito Internacional. Encontra-mo-nos agora face a uma situação onde todos os intervenientes deliberadamente sabotaram antecipadamente cada solução, de modo que é agora quase impossível evitar que tudo isto não termine num banho de sangue.


Notas:

[1] «Agentes del Mossad en la fuerza de al-Qaeda que atacó el campamento palestino de Yarmuk», Red Voltaire , 1ro de enero de 2013.

[2] «Enfrentamientos entre palestinos en Líbano» Voltaire, Actualidad Internacional, Nº 52, 15 de septiembre de 2023.

[3] «En busca de un sucesor para Mahmud Abbas», Voltaire, Actualidad Internacional, Nº 54, 29 de septiembre de 2023.

[4] « Georges Habache et la Résistance palestinienne », par Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 27 janvier 2008.

[5] “O Golpe de Estado dos straussianos em Israel”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 7 de Março de 2023.

[6] Leo Strauss era em simultâneo um judeu fascista alemão e um sionista revisionista. Ele reencontrara o seu ídolo, Vladimir Jabotinsky, em Nova Iorque, acompanhado de Benzion Netanyahu, o pai de Benjamin. NdR.


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Quarenta bebés decapitados destruirão o Ocidente

(Irina Alksnis, in mural de Simon Teles no Facebook,11/10/2023)

Hoje, as primeiras páginas da mídia mundial saíram com matérias sobre o terrível crime do Hamas, que realizou um massacre num dos assentamentos israelenses, matando inclusive 40 crianças, algumas das quais foram decapitadas.

Essa notícia é mentira. Além disso, o mecanismo de sua ocorrência é conhecido com precisão. Ontem à noite, Nicole Zedek, correspondente do canal de radiodifusão estrangeiro israelense i24News, falou numa reportagem sobre o crime hediondo no Kibutz Kfar Aza. A informação, é claro, espalhou-se pelo mundo como um incêndio. No entanto, depois de algumas horas, veio uma refutação dos funcionários de Telavive, que afirmaram não saber nada sobre isso. A jornalista começou a justificar-se dizendo que foi informada disso por soldados que estavam estressados ​​​​com o que estava acontecendo e não conseguiam descrever com precisão o que viram. No entanto, a falsificação já começou a ganhar vida própria, a espalhar-se hoje pelas principais páginas do Times e de outros meios de comunicação ocidentais.

Se a ficção dissesse respeito à Rússia, não há dúvida de que continuaria a ser replicada e inflacionada, para eventualmente ser silenciosamente enterrada nos arquivos dos meios de comunicação social quando tivesse servido o seu propósito. Mas a questão diz respeito ao conflito israelo-palestiniano, e aqui tudo é muito mais complicado.

A opinião pública no Ocidente (especialmente na Europa) está profundamente dividida sobre a questão: o apoio público à Palestina é historicamente forte. Além disso, o problema não está apenas nas comunidades muçulmanas, que cresceram muito nas últimas décadas e cujas simpatias são óbvias. A esquerda local gravita tradicionalmente em torno de posições pró-palestinianas, e a direita, por sua vez, em direção a posições pró-israelenses.

As ações do Hamas em 7 de outubro impressionaram o mundo pela sua eficácia (o sistema de defesa e segurança de Israel entrou em colapso durante várias horas), e ao mesmo tempo chocaram com a sua brutalidade, cujas vítimas foram centenas de civis.

Para o Estado Judeu, esta foi uma oportunidade única para conquistar uma grande parte da comunidade mundial – para obter o seu apoio (ou pelo menos a neutralidade) e virar a situação na região a seu favor. Israel desperdiçou com sucesso esta oportunidade, porque os seus métodos acabaram por não ser melhores do que os do Hamas, e as declarações dos funcionários estavam perto de ser abertamente nazis. A demolição de áreas residenciais através de bombardeamentos, um bloqueio total de três milhões de pessoas, uma proibição selvagem na sua crueldade do fornecimento de abastecimentos humanitários a Gaza a partir do Egipto, com a destruição da passagem fronteiriça.

O mundo vê o ódio mútuo levado ao limite, e ambos os lados se recusaram a respeitar as leis da guerra e os princípios humanitários básicos. Num tal conflito, é impossível para um observador não envolvido escolher o lado que evoca simpatia e simpatia, com base no facto de estar mais comprometido com os princípios do humanismo e da moralidade.

É aqui que outros mecanismos começam a funcionar. É também por isso que a maior parte do mundo assume uma posição simples e compreensível: qualquer violência deve ser interrompida – e, finalmente, a decisão da ONU tomada há muito tempo de criar um Estado Palestiniano deve ser implementada.

No Ocidente, a situação é muito mais complicada. Para ele, o conflito israelo-palestiniano não é um conflito distante, como a guerra no Iraque ou no Afeganistão. A Ucrânia já deixou claro que os tempos abençoados das campanhas militares ocidentais, que não afetaram de forma alguma o público americano e europeu, acabaram. Mas as coisas são ainda piores no Médio Oriente, precisamente por causa da vasta comunidade árabe e geralmente muçulmana dentro do próprio Ocidente. Mesmo nos Estados Unidos, que tradicionalmente têm sido o apoio de Israel, independentemente da filiação partidária da atual administração, um influente lobby pró-Palestina brotou e fortaleceu-se, e especificamente no Partido Democrata.

A falsificação sobre as crianças decapitadas foi simplesmente um presente de Nicole Zedek aos opositores de Israel, porque é agora um trunfo indestrutível nas mãos dos apoiantes da Palestina sob a acusação de mentira e propaganda pró-Israel por parte de quaisquer meios de comunicação e políticos hostis a eles. E este é, antes de mais, um conflito intra ocidental, e os meios de comunicação que publicaram a falsificação, que foi exposta antes mesmo da sua publicação, desferiram mais um golpe na confiança que já neles havia sido destruída.

Concluindo, vale a pena dizer que tal “jornalismo” insulta as verdadeiras vítimas do atentado de 7 de Outubro, como se as suas mortes não bastassem para produzir o efeito político mediático desejado. Mas deixemos que isto permaneça na consciência de Nicole Zedek e dos seus colegas que espalham as mentiras. No entanto, como foi dito, existem grandes problemas de moralidade e humanismo no que está a acontecer em ambos os lados.


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A realidade dos interesses e a hipocrisia do moralismo de conveniência — Palestina

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 09/10/2023)


O que está a acontecer na Palestina é apenas mais um episódio sangrento do processo que teve início com a criação do Estado de Israel e que prosseguirá até este ser um Estado sentinela, habitado por eleitos que se reclamam da superioridade de raça e religião, com uma só história, um só deus. O primeiro massacre desta longa história de violência é, se me recordo, o que ficou conhecido por Deir Yassin, de 1948, ainda antes do fim do mandato britânico, quando milícias sionistas massacraram cerca de 150 refugiados palestinianos desarmados. O mais conhecido dos massacres talvez seja o de Sabra e Chatila, em 1982, no Líbano. Este recente “episódio” terá, de particular, a conjuntura internacional com a emergência de novos poderes mundiais, de redistribuição de fontes de energia, de moedas de troca, da multiplicação de focos de instabilidade em várias partes do globo que obrigam as grandes potências a dividir forças e a abrir “janelas de oportunidade” a potências regionais.

Entretanto, voltando à “guerra eterna” da Palestina, no nosso moralista Ocidente perdemos a conta aos mortos palestinianos e às iniquidades do Estado de Israel. O terror só teve e tem um rosto: palestiniano. A verdade é sempre a do mais forte. E nós, os ocidentais, somos mais fortes que os palestinianos, mais ricos e os palestinianos não têm nada a oferecer-nos. Israel, pelo seu lado, faz parte da nossa força e assegura parte do nosso modo de vida. Somos, os do ocidente, parte interessada no conflito e os nossos combatentes são israelitas! Já os queimámos por nada, mas agora desculpamos-lhes tudo!

O que aconteceu na Palestina há dias e ainda está a acontecer foi mais um ataque-resposta dos palestinianos à ocupação do seu território por europeus de religião judaica, os mais pobres em geral, de que os vencedores da II Guerra Mundial, em particular os EUA e a URSS, com a prestimosa ajuda do Reino Unido, se quiseram livrar. Nos seus estados as comunidades judaicas nunca se haviam integrado, exceto os grandes comerciantes e banqueiros, e eram um corpo estranho a que seria vantajoso dar alforria e terra (Angola teve para ser a terra eleita dos judeus no século XX! E o rei D. Manuel já os havia expulso de Portugal, no final do século XV, seguindo a opção dos reis católicos de Espanha). Para o efeito de atribuição da Palestina para instalar os seus judeus, os ocidentais utilizaram o belo argumento de recompensa pelos danos causados pelo nazismo e até pela santa inquisição.

A ocupação da Palestina tem uma história conhecida de violência e de corrupção até o Estado de Israel se transformar no que é: um estado teocrático, governado por um grupo que entende que só o domínio efetivo e total por judeus do território que ocupam garante a sua sobrevivência. Contam com o apoio dos EUA, que tomou Israel como o seu joker estratégico para o Médio Oriente e para o domínio das fontes de petróleo, mas também da Rússia, que enviou um forte contingente de colonos fundadores, asquenazes, que trocam informações e saberes com a grande comunidade judaica que se mantem em Moscovo e São Petersburgo, e tem um papel importante na ciência e no comércio internacional russos, também da Arábia Saudita e da União Europeia. Israel existe devido à sua localização estratégica e ao capital humano que promove saberes/conhecimento de altíssimo valor acrescentado na área das tecnologias de ponta, da informação, do espacial, da medicina, todas de duplo uso, civil-militar, garante ainda a ligação ao comércio de diamantes e de metais raros e ao sistema financeiro mundial. Por fornecer todos estes bens, e ter uma importância estratégica para o sistema de poder ocidental (o que inclui tanto os Estados Unidos como a Rússia) o Estado de Israel foi dotado capacidade militar nuclear e goza dos favores do mundo, que lhe asseguram a impunidade. A propósito do muito proclamado êxito da agricultura israelita. É uma falácia. A agricultura israelita produz colonos e colonatos que justificam a ocupação de terras dos palestinianos. As laranjas israelitas são um produto publicitário da extensão da ocupação de território pela força. A acompanhar os colonos encontram-se sempre os militares israelitas!

Para continuar a desempenhar o seu papel de “polícia mau” do Ocidente, Israel tem de dispor da plena soberania do seu território e concentrar os seus recursos ofensivos nos inimigos externos. O que significa que os palestinianos, o resto dos povos semitas que permaneceram na Palestina ao longo dos séculos e que se converteram ao islamismo, integrando vários impérios, não têm ali lugar. Têm de ser eliminados e é isso que têm estado a ser. A comunidade palestiniana não tem lugar no Estado de Israel. Qualificar qualquer ato de resistência à eliminação de terrorismo faz parte da Palestina faz parte do bê-á-bá da propaganda que serve esse objetivo. Há sempre boas almas a aliviarem a consciência com essas proclamações e uma massiva campanha de manipulação assegura o apoio generalizado aos fins não declarados de defender um forte Estado vassalo do Ocidente no Médio Oriente. A proposta de dois estados é uma falácia sem qualquer possibilidade de existência, não apenas porque as duas comunidades, a palestiniana e a judaica, não têm qualquer ponto de contacto e possibilidade de convivência, mas porque essa solução não serve a nenhum dos poderes fáticos. A quem interessa um estado palestiniano? Aos que ali instalariam bases de ataque a Israel. O estado palestiniano desempenharia para Israel o mesmo que a Ucrânia para a Rússia. Mas há quem defenda sem pestanejar e com o mesmo vigor o “direito à soberania absoluta da Ucrânia contra a Rússia invasora” e defenda o direito de Israel a impedir que os palestinianos sejam os zelenskis e os “azofes” do Médio Oriente e que considere uns heroicos nacionalistas e outros execráveis terroristas. A chamada moralidade “à la carte”!

De facto, não há lugar a um estado palestiniano e a moralidade é sempre hipócrita. O estado de Israel, com os falcões e os fanáticos reunidos à volta da Netanyahu, ou com as pombas que contestam o seu projeto de Estado totalitário, eliminará os palestinianos.

É da natureza e os europeus são históricos praticantes do método de eliminar autóctones para lhes ocuparem o território. O que os israelitas vão (estão) a fazer aos palestinianos é um pormenor, uma coisa pouca, quando comparado com o que os europeus fizeram a todo um continente, o americano, eliminando indígenas e culturas desde o Alasca, a Norte, à Terra do Fogo, no Sul. Os palestinianos que sobreviverem viverão como os índios em reservas. É este o destino que o Ocidente lhes reserva e sabe como fazê-lo.

Entretanto, a propaganda faz o seu papel, tocando em várias escalas, rotula como terroristas a generalidade dos palestinianos, divide-os entre bons, os que morrem, e maus, o Hamas e o Hezbolah, os que lutam, acusa diabólicos aliados (o Irão). Todos sabem que os palestinianos vão ser eliminados como pragas que se matam com um inseticida.


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