Psicopatas em desfile:Líderes ocidentais cúmplices nos crimes de guerra e genocídio de Israel

(Strategic Culture Foundation in Resistir, 22/10/2023)

Os líderes ocidentais que apoiam o regime israelense na sua barbárie genocida são totalmente cúmplices desse genocídio.

Líderes ocidentais têm-se deslocado a Telavive na última semana, prometendo dar todo o seu apoio a Israel, mesmo quando o regime israelense trava uma guerra genocida contra os palestinos.

É absolutamente chocante que o mundo esteja a assistir a uma tal matança em massa de civis e, no entanto, os governos ocidentais e os meios de comunicação social pareçam fazer tudo para justificar, minimizar e encobrir as atrocidades. Encobrem porque são cúmplices deste massacre horrível.

O presidente dos EUA, Joe Biden, bem como o britânico Rishi Sunak, o alemão Olaf Scholz e a chefe da União Europeia, Ursula Von Der Leyen, estão entre os líderes ocidentais que têm sangue a pingar das mãos.

Falam do “direito de auto-defesa” de Israel, enquanto o exército israelense pulveriza Gaza com ataques aéreos indiscriminados e mata palestinos a tiro nos guetos da Cisjordânia. O povo palestino em ambos os enclaves está a ser alvo de uma ferocidade genocida, enquanto os dirigentes israelenses o denigrem como “animais humanos”.

Em Gaza, nas últimas duas semanas, uma população de 2,3 milhões de pessoas tem sido mantida sob um cerco total, sem água, alimentos ou eletricidade. Não há lugar seguro na zona costeira, pois as bombas israelenses fornecidas pelos EUA e pelo Reino Unido chovem sobre casas, centros de refugiados, hospitais, escolas, igrejas e mesquitas. Trata-se de um bárbaro castigo coletivo infligido a civis inocentes e de uma violação grosseira das Convenções de Genebra. É o terrorismo de Estado em grande escala.

E, apesar do horror diário, os líderes ocidentais não dizem nada, exceto repetir o mantra cínico de que Israel tem o direito à autodefesa em resposta ao ataque assassino em massa dos militantes do Hamas em 7 de outubro. Mais de 1.400 israelenses foram assassinados nesses ataques com armas e foguetes do Hamas. Essas mortes não podem, de forma alguma, ser remotamente utilizadas para justificar o subsequente massacre de civis em Gaza e na Cisjordânia.

O que é preciso reconhecer é que o Estado israelense efetua uma ocupação assassina contra os palestinos há décadas, desde a criação violenta do Estado em 1948. A sórdida criação de Israel foi um acordo elaborado pelo imperialismo britânico e americano para encobrir as suas próprias culpas de antissemitismo e de manipulação das nações árabes. Os palestinos pagaram e continuam a pagar o preço.

Os Estados ocidentais, principalmente os Estados Unidos, deram aos regimes israelenses uma licença para continuar e expandir a sua ocupação em flagrante violação do direito internacional. Washington utilizou o Estado israelense como uma guarnição para projetar o seu poder imperialista no Médio Oriente, rico em petróleo. Quando os palestinos resistem a esse crime, os atos de desafio são desesperados e sangrentos. Ninguém pode tolerar a morte de civis inocentes. Mas é preciso compreender as condições sistemáticas da violência e o jogo de poder hegemónico que garante que nunca se conseguirá alcançar a paz.

Pôr fim ao ciclo de violência significa acabar com a ocupação israelense patrocinada pelo Ocidente e com a repressão genocida contra os palestinos. A negação dos direitos nacionais e da condição de Estado aos palestinos é inaceitável, mas esta negação prolongada é, em parte, a razão pela qual não há paz naquela região.

A Rússia, a China e a maioria das outras nações do mundo reconhecem que tem de haver justiça para os palestinos se alguma vez houver paz.

O facto de os líderes ocidentais continuarem a invocar o direito de Israel à autodefesa é uma distorção cínica da realidade. Um regime de ocupação ilegal e brutal não tem esse direito. É um oximoro e um insulto para além de injúria.

Biden e o desfile de outros políticos ocidentais a Israel para abraçar o regime belicista de Benjamin Netanyahu é um espetáculo repugnante. É um desfile de criminosos e psicopatas.

Netanyahu teve a ousadia de descrever a situação desta semana como “a hora mais negra do mundo”. Tem toda a razão, mas por razões completamente opostas.

Quando homens, mulheres e crianças estão a ser chacinados e os assassinos são abertamente apoiados pelos governos ocidentais, então essa situação equivale certamente a uma “hora mais negra”.

Os crimes de guerra que estão a ser cometidos em Gaza e na Cisjordânia são comparáveis à conduta assassina do Terceiro Reich nazi. E, no entanto, o regime sionista que leva a cabo o genocídio atual invoca, sem vergonha e sem descanso, o Holocausto nazi para justificar as suas supostas credenciais. Netanyahu chamou ao Hamas os “novos nazis”.

Os dirigentes ocidentais que apoiam o regime israelense na sua barbárie genocida são totalmente cúmplices desse genocídio. O público ocidental e o resto do mundo podem ver a qualidade real e feia dos Estados Unidos e dos seus aliados que se entregaram à duplicidade e ao engano durante tanto tempo.

Biden, ao regressar a Washington depois de ter dado licença a Telavive para expandir o seu assassínio em massa, teve a coragem de se dirigir à sua nação num discurso em horário nobre a partir da Sala Oval. Anunciou que a sua administração estava a tentar dar 100 mil milhões de dólares em “ajuda de emergência” a Israel e ao regime nazi de Kiev que luta na guerra por procuração contra a Rússia. Biden chamou a isto um “investimento inteligente”.

No seu discurso televisivo cheio de balbúcios e incoerente, Biden disse:   “A liderança americana é o que mantém o mundo unido”.

Quão iludido e insano se pode ser?

Cada vez mais pessoas em todo o mundo têm horror às mentiras e ao belicismo descarado dos Estados Unidos e do seu círculo de lacaios ocidentais.

Esta semana, os EUA vetaram uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas que apelava a um cessar-fogo em Gaza.

Washington e os seus parceiros da NATO têm-se recusado repetidamente a aceitar um cessar-fogo na Ucrânia, preferindo que a guerra por procuração continue até ao “último ucraniano”, depois de quase 500 mil soldados terem sido mortos nos últimos 18 meses.

Absurdamente, Biden comparou o líder russo Vladimir Putin com o Hamas na “tentativa de destruir a democracia”.

Biden e os seus lacaios ocidentais, e os regimes fascistas que apoiam em Telavive e Kiev, estão a destruir qualquer último vestígio de moralidade e de direito internacional.

Talvez uma coisa boa que possa resultar deste terrível caos no Médio Oriente e na Ucrânia seja a clareza com que o mundo vê quem e quais são os verdadeiros inimigos da paz mundial:   Os regimes desonestos ocidentais e o seu imperialismo belicista.

As ilusões auto-engrandecedoras do Ocidente estão a ser desfeitas perante os olhos do mundo. E isso é eminentemente bom e necessário para que este mundo possa alguma vez progredir em direção à paz, à justiça e à comunidade das nações.

O original encontra-se aqui.


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Discurso de Biden à Nação: A hipocrisia vergonhosa é o último prego no caixão da América

(Simplicius, TheThinker, in Resistir, 20/10/2023)

Bem, é isso. Esta noite marca o que pode muito bem ser o último suspiro de le siècle Américain.

O repugnante discurso de Biden à nação estava repleto de uma falta de auto-consciência sem precedentes. Inchado de arrogância, mostrou a face nua e crua da servidão dos Estados Unidos aos globalistas que se apoderaram não só da política externa da América, mas também da sua política interna – e de tudo o que está no meio.

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Mas onde estão as dúvidas?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 20/10/2023)

Enquanto vamos vendo desfilar imagens de terror, destruição e sofrimento humano de uma violência inaudita, assistimos aqui, paralelamente, a uma espécie de competição Benfica-Sporting pela primazia do mal ou a prevalência do bem, com cada lado a desafiar o outro a denunciar as vilanias dos seus, enquanto cala as dos próprios. Tal como na Ucrânia, o que interessa é a vitória dos nossos “bons” e a derrota dos “maus” deles, mesmo que no final tudo o que restar seja, como escreveu Eugénio de Andrade, “um horizonte de cidades bombardeadas”, ou “duas nações, a dos vivos e a dos mortos”, como escreveu Mia Couto. Mas eles acreditam que mais vale a sua razão sobre os mortos do que a paz entre os vivos.

Temos assim, de um lado, aqueles que não são capazes de dizer com todas as letras que o ataque do Hamas em Israel representou o ponto extremo da bestialidade humana, um verdadeiro festim da morte, levado a cabo — a palavra custa-lhes a sair da boca — por terroristas (e não me refiro aos jornalistas, que, tal como explica e pratica a BBC, não têm nem devem adjectivar como terroristas ou qualquer outra coisa um dos lados de um confronto). E temos, do outro lado, aqueles para quem o terror é exclusivo de organizações terroristas e os crimes de guerra, de uma crueldade programada, com que Israel se sacia há 10 dias em Gaza, são apenas uma “legítima defesa” e justa retaliação. Não por acaso, são os mesmos que vivem a denunciar os crimes de guerra e os ataques a civis da Rússia na Ucrânia, cuja dimensão e cenário de guerra não tem absolutamente nada a ver com o que está a acontecer em Gaza.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Mas será assim tão complicado tentar ver claro? Condenar, de todas as formas e em todas as circunstâncias, um terror como o de 7 de Outubro e exigir que o Hamas liberte os reféns que fez. Condenar também Benjamin Netanyahu e o seu Governo de extremistas e fanáticos religiosos, que vêm destruindo paulatinamente o Estado de direito em Israel e que, para protegerem os colonatos ilegais da Cisjordânia, deixaram o país indefeso contra o Hamas. Aceitar que Israel tem o direito de perseguir e caçar, um por um, todos os executantes e mandantes do 7 de Outubro, como o fez sempre ao longo da sua História, depois de Munique ou de Entebbe, depois de cada ataque mortífero do terrorismo islâmico, e através do Kidon, a unidade especial de extermínio do Mossad. Perceber que neste caso são muitos os inimigos a perseguir e isso levará muito tempo. Que a sociedade israelita, em estado de choque, exige uma reacção em força, a destruição da raiz do mal em Gaza, a eterna garantia do “nunca mais” e, simultaneamente, a libertação de 150 reféns: uma missão quase impossível e absolutamente impossível sem derramamento de sangue inocente. Mas não aceitar também que isso equivalha à destruição sistemática da cidade, à morte indiscriminada de civis debaixo dos bombardeamentos (que já vai em três mil, dos quais grande parte crianças), não aceitar a desculpa do “escudo humano”, que afinal foi Israel que proporcionou. Indignar-se contra a punição colectiva de todo um povo privado de água, alimentos, energia, intimado a debandar das suas terras e casas para aquilo que o Presidente Herzog garantiu ser uma “zona segura”, no Sul de Gaza, mas onde 600 mil fugitivos continuam privados de tudo, bombardeados na mesma e até impedidos por Israel de receber o auxílio internacional estacionado há dias do outro lado da fronteira egípcia. (Quando oiço o activíssimo embaixador de Israel em Lisboa dizer que “não há um problema humanitário em Gaza”, só posso concluir que ele não considera aquela gente como humana.) Nem tão-pouco se pode aceitar a estratégia, já denunciada por Hussein, da Jordânia, de Israel aproveitar a situação que está a criar em Gaza para “exportar” mais um milhão de refugiados palestinianos para fora do seu território, dando mais um passo em direcção à solução final: na Palestina, um só povo, um só território, uma só nação — a judaica. Por isso, finalmente, a comunidade internacional tem a obrigação de exigir a Israel que desvende os seus planos para quando der por terminado o exercício do seu direito, que será de defesa ou de vingança, conforme a dimensão e duração do mesmo. Porque não é aceitável a declaração do Presidente de Israel à CNN Internacional de que não será mais possível falar de paz ou de dois Estados com os palestinianos.

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Mas essa é, sempre foi e continuará a ser a questão central: quando foi a última vez, desde a cimeira falhada de Camp David, em 2000, com Clinton, Ehud Barak e Yasser Arafat, que Israel quis falar de paz com os palestinianos? O que fez Israel desde então a não ser precisamente promover a emergência do fanatismo religioso dos islamistas do Hamas em Gaza para assim dividir os palestinianos e enfraquecer a OLP, o único interlocutor com quem poderia discutir? Foi uma brilhante jogada de estratégia política, que 20 anos depois — 20 anos de Sharon e Bibi — acaba agora de mostrar os seus resultados.

Ultimamente, e com o pretexto justamente de não ter interlocutor com quem negociar, Israel conseguiu, com sucesso, tirar partido do cansaço geral em todo o Médio Oriente de uma questão que parecia adormecida num impasse definitivo e experimentou a tentação de negociar a paz separadamente com vários países árabes, começando por Marrocos, a quem cedeu o seu sofisticado sistema de escutas em troca do reconhecimento diplomático. Daí até aos Acordos de Abraão, negociados sob a égide dos Estados Unidos, com vários países outrora inimigos, foi um passo — não pequeno, mas de gigante. Faltava a Arábia Saudita, o país do príncipe “assassino”, como lhe chamou Biden, antes de a necessidade política o ter obrigado a visitá-lo e a curvar-se diante dele. Mas faltava também outro dado essencial: em nenhum desses acordos bilaterais, incluindo o iminente acordo com os sauditas, estava presente qualquer cláusula sobre o destino dos palestinia­nos e muito menos sobre a criação do Estado Palestiniano, há tanto tempo reclamado pela comunidade internacional: era como se o problema não existisse, eles não existissem. Foi fácil ao Hamas explorar o sentimento de abandono que, a seguir à comunidade internacional, os palestinianos sentiram por parte do próprio mundo árabe. O 7 de Outubro do Hamas teve como objectivo político impedir, desde logo, o acordo com a Arábia Saudita e, antevendo e provocando a resposta sangrenta de Israel, levantar a rua árabe contra os acordos de paz negociados pelos líderes no silêncio dos seus palácios. E por mais selvática que tenha sido a acção desse sábado sangrento, aos olhos populares foi também a primeira vitória árabe contra Israel em muitos anos: morreram mil civis desarmados, mas morreram também 300 soldados israe­litas, cujas sofisticadas barreiras defensivas foram ultrapassadas. Desde o Yom Kippur, quando Israel foi atacado simultaneamente pelos exércitos de dois países, que não se via nada assim. Mas agora os atacantes que apanharam Israel de surpresa eram um exército de guerrilha, armado de AK-47 e granadas de mão fabricadas em casa. Chamem-lhes assassinos ou combatentes, eles mudaram todo o panorama estabelecido.

Agora seria altura para respirar fundo e pensar — um luxo que parece antes um milagre impossível de alcançar entre dois opositores que só pensam no extermínio mútuo. Mas deve saudar-se o extraordinário esforço diplomático que os Estados Unidos e o Presidente Biden têm estado a fazer para segurar a mão vingadora de Is­rael e obrigá-los a pensar. Fosse Trump o Presidente, e já tudo teria ido pelos ares. Fosse a UE a gerir a crise, e a sua gestão seria uma anedota dentro da tragédia.

Mas o que aí vem, por mais esforços diplomáticos americanos — os únicos viáveis —, não será nada de bom. Ou será mau ou será catastrófico. Para que fique de lição, convém não esquecer que tanto o Hamas como o actual Governo de Israel chegaram ao poder por voto do povo em eleições livres. Não há mesmo inocentes ali.

2 Por voto do povo e em eleições livres, duvido que Luís Montenegro alguma vez chegue a primeiro-ministro de Portugal. A menos que o PS um dia decida suicidar-se e pôr-lhe à frente, para lhe disputar o lugar, Pedro Nuno Santos. Mas, mesmo assim, não sei: a forma, o tom e as razões invocadas por Montenegro para anunciar o chumbo ao Orçamento, sem apresentar qualquer alternativa, ainda que vaga, para mim representam o fim da linha. Não vejo o que possa ainda sair dali que entusiasme um eleitor a votar num PSD dirigido por ele. Por mais que uma maioria possa estar cansada deste Governo, ou vir a estar, entre o cansaço de viver assim e a tentação do vazio não vejo os portugueses a embarcarem no navio-fantasma de Luís Montenegro.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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