(In Rede Voltaire, 12/01/2024, Trad. Estátua de Sal)
(Ainda acham que há liberdade na comunicação social? Alguém viu esta notícia nas televisões? Eu não vi. Só vejo propagandistas da treta travestidos de comentadores e, mais recentemente, o André Ventura com uma auréola de santo a fazer o milagre da multiplicação do pão e dos peixes para saciar os portugueses. É o que temos. E mais ainda Israel que tem o direito a defender-se e os russos que são todos uns filhos de put(a)in…
Estátua de Sal, 17/01/2024)
Os democratas da Câmara organizaram uma aparição surpresa de Hunter Biden e dos seus advogados em 10 de janeiro, durante a sessão do Comité de Supervisão para deliberar se deveriam processá-lo por afronta ao Congresso.
Hunter Biden sentou-se na primeira fila, olhando feio para os legisladores, enquanto eles aprovavam a moção. Esta deve ser votada na assembleia geral na próxima semana.
Hunter Biden recusou-se por duas vezes a participar numa reunião à porta fechada para falar sobre o papel do seu pai, Joe Biden, nos seus assuntos no estrangeiro.
No dia seguinte, 11 de janeiro, Hunter Biden compareceu no tribunal federal de Los Angeles sob a acusação de não pagamento de impostos e de apresentação de declarações fiscais falsas durante quatro anos.
As acusações fiscais – três crimes e seis contravenções – podem resultar numa pena de prisão até 17 anos. A data do julgamento está marcada para 20 de junho.
De acordo com a acusação: “O réu recebeu mais 1,2 milhões de dólares em apoio financeiro que foi usado para pagar diversas despesas pessoais, incluindo algumas das suas dívidas federais do imposto sobre o rendimento de 2016 a 2019. Entre 2016 e 15 de outubro de 2020, o arguido gastou esse dinheiro em drogas, acompanhantes e namoradas, hotéis e imóveis de aluguer de luxo, carros exóticos, roupas e outros artigos pessoais, enfim, tudo menos o pagamento dos seus impostos.”
(André Campos, in Estátua de Sal, 15/01/2024, revisão da Estátua)
(Este artigo resulta de um comentário ao texto que publicámos “O epicentro da corrupção de Biden e Burisma está na Ucrâniado“, ver aqui. Resolvi dar-lhe destaque pelo que, aqui fica.
Estátua de Sal, 16/01/2024)
Bem, temos 6 epicentros no mundo que nos podem levar à 3° Guerra Mundial.
2024 é o ano de todos os perigos! O ano de 2024 promete ser turbulento, e o período eleitoral nos EUA vai contribuir para um clima de incerteza.
Convido-vos a consultar o site do Fórum Económico Mundial de Davos. Leiam os temas prioritários. Censura e guerra, deixo-vos adivinhar o resto…
Infelizmente, há demasiados focos de tensão nos quatro cantos do mundo, em todos os continentes e ao mesmo tempo! Mais cedo ou mais tarde, tudo vai correr mal – China-Taiwan, risco de alastramento do conflito no Médio Oriente, risco de endurecimento do conflito na Ucrânia, tensões no Mar Vermelho, no Equador, tensões entre a Venezuela e a Guiana, golpes de Estado em África -, para não falar das enormes dívidas das maiores potências ocidentais.
Os EUA têm sempre interesse em multiplicar os conflitos regionais, sem precisar de os ganhar. Na Ucrânia, ao contrário do que se pensa, eles ganharam. A Europa, pobre cretina, é que falhou.
Todas as guerras são da imensa responsabilidade dos poderes financeiros, de cujos interesses os povos são reféns. Os poderes financeiros dirigem os bancos. Dirigem o BCE (Banco Central Europeu), a FED (Reserva Federal dos EUA) e o FMI (Fundo Monetário Internacional). JP Morgan, Rockefeller, Rothschild…
Dito isto, de acordo com relatórios recentes de Scott Ritter, antigo oficial da marinha americana e antigo relator especial para as Nações Unidas, que se mantém ligado à realidade, os Estados Unidos não dispõem claramente nem dos meios nem da competência para se envolverem num tal conflito com a China e a Rússia (Ver aqui e aqui). Além disso, o Estado de Israel enfrenta duas catástrofes: por um lado, a queixa contra ele apresentada pela África do Sul por crimes de guerra, crimes contra a Humanidade e potencialmente genocídio, e, por outro lado, o revés militar que está atualmente a sofrer em Gaza, um aspeto que é totalmente obscurecido pelos principais meios de comunicação social.
Sem entrar em pormenores, é evidente que as peças de xadrez dos atlantistas estão em perigo. Por fim, é importante ter em conta que uma guerra provocada pelo Ocidente não seria um bom negócio para os mais poderosos do planeta, nomeadamente os banqueiros e outros atores importantes da economia. A sua ganância leva-os inevitavelmente ao abismo do perigo, conduzindo diretamente à ruína de um sistema que construíram com tanto esforço. Neste jogo de póquer de mentirosos, encontram-se, pela primeira vez, completamente fora de controlo.
A Europa fracassou em todos os domínios; económico, energético, social, diplomático e militar, estando as nossas elites demasiado ocupadas em expandir a Europa para obter cada vez mais lucros ou em deslocalizar e vender todas as indústrias estratégicas. Há 40 anos que os nossos dirigentes repetem a eterna ladainha de que “a Europa é boa porque é pacífica”, mas esqueceram-se de se preparar para a guerra, esqueceram-se de dotar a Europa de uma diplomacia forte e de um exército poderoso.
A Europa falhou. E, como a natureza abomina o vazio, era óbvio que outros tomariam o seu lugar. Então, o que é que fazemos? Passar a uma economia de guerra? Com que ferramentas industriais, que petróleo, que gás, que aço, que componentes eletrónicos, que munições? Os produzidos pela Rússia ou pela China? É um pouco tarde para acordar! Acima de tudo, devíamos ter escolhido melhor os aliados.
A Polónia e a Suécia têm uma perspetiva NATO. Se ouvirmos os especialistas em geopolítica realista, e outros, bem como os peritos sérios em estratégia militar, a Rússia não tem ambições hegemónicas. A tentação hegemónica é, para o dizer de forma sucinta, anglo-saxónica. No entanto, é certo que, se o Ocidente se envolver mais no conflito ucraniano, corremos o risco de receber uma salva de mísseis hipersónicos na cara. É mais do que tempo de compreendermos que o Ocidente coletivo está em declínio e que já não dispõe de meios para impor o domínio de Washington.
Infelizmente, o mundo atual precisa de conflitos armados para se redefinir. É assim que a Humanidade está a evoluir, e é muito triste. Infelizmente, vamos ter de passar pela fase do caos. Mas o mais grave é que a política está atualmente centrada na vitimização dos políticos. Dito isto, estamos a caminhar para a guerra total?
Os fanáticos decidiram que há demasiadas pessoas na Terra, por isso vão fazer alguma coisa: genocídio aqui e genocídio ali. Depois da Palestina, quem é o próximo?
Há o que é visível e o que é invisível. A ciência não estuda o que é invisível – porque ele não existe. O invisível é maior que o visível. O que nos acontece (por espelho, velocidade da luz – estamos portanto limitados com Einstein), é apenas a “consequência”, não a “causa”. A energia utilizada pelo invisível tem, portanto, uma influência na nossa saúde! Quem somos nós? O que é que estamos a fazer aqui?
Desde março de 2022, a sorte está lançada: a Rússia é mais forte do que todos os países da NATO juntos e, sobretudo, mais inteligente. Na Alemanha, há motins porque a agricultura e a indústria não aguentam mais, mas isso não impede Olaf Scholz de continuar a ajudar a Ucrânia! Vivemos num mundo louco. A União Europeia recebeu ordens dos EUA, que são governados por doentes mentais. E esses lunáticos estão a contribuir para a nossa destruição.
Se os nossos dirigentes persistem e assinam, é porque é do seu próprio interesse. Eles sabem muito bem o que se está a passar e estão a alinhar. Será que estão a ser pagos por contas ocultas ou têm medo de morrer num acidente de carro ou de avião, ou de serem defenestrados? As pessoas inteligentes e normais já não se envolvem na política: deixam-na para os maus, os nocivos e os mentirosos.
Toda a gente sabe que a guerra não cuida de detalhes, por outras palavras, “a história é indiferente à moral”. Tal como a guerra, o cataclismo económico também não fará qualquer diferença e, dada a minha grande desilusão depois de ter dado tanto a uma comunidade ingrata, estou-me nas tintas para as desordens e perdas futuras de todos aqueles que agiram ou deixaram agir no desrespeito pelo indivíduo e pela natureza humana: vacinação obrigatória, censura do livre pensamento, desmantelamento do sistema de saúde, controlo da natalidade (PMA, GPA, imigração descontrolada), gestão desrespeitosa, violação da liberdade de circulação (EV), regulamentação alimentar insuportável no futuro, envio de armas para uma zona de conflito externa… Pareço sombrio? A minha resposta é sim, porque sou um homem e já paguei alguns destes disparates modernos.
O “facto gerador” está nos Estados Unidos… As coisas vão aquecer no final de 2024 e início de 2025…! Tudo será desencadeado a partir daí!
Quanto ao pobre Portugal, vai continuar a gastar milhões de euros, que já não tem. Continuará a “colocar familiares e amigos” em cargos bem remunerados. E Krétinus… vai continuar a engolir tudo o que aparece na televisão!
Não há nada a “salvar” de toda esta confusão. O projeto de reconstrução está mais do que nunca parado. Falta um ano. Um ano antes do “Zé Tempestade”. Um ano… para se prepararem! Não se preocupem… vão ver… vai correr tudo bem!
A guerra? Uma bênção para os ricos, um desastre para os pobres! Mas isso não impede os pobres de se deixarem enganar pelos ricos e de pedirem muitas vezes mais! Mas… será obviamente a última vez!
Os EUA continuam a ver-se a si próprios como um Hegemon, destruindo a Europa para sobreviver e não vendo que se estão a isolar gradualmente.
Deir el-Balah, Faixa de Gaza. 15 de Outubro de 2023. Um adulto palestiniano (possivelmente o pai) transporta nos braços uma criança assassinada pelos bombardeamentos israelitas. Fonte: AP Photo/Hasan Islayeh
1. Introdução
Um bilhete público que escrevi num outro blogue, chamando a atenção para o texto “Processo judicial em nome da África de Sul contra o Estado de Israel”, publicado neste blog aqui, suscitou, da parte de um velho amigo meu, o seguinte comentário:
«É meritória a divulgação das inequívocas intenções genocidas do governo sionista de Israel. Mas sem ilusões na natureza do “Tribunal Internacional de Justiça”, órgão da ONU que patrocinou a criação do Estado de Israel em 1948 e a pseudo-solução dos dois Estados com que o sionismo israelita e o Estado fantoche da Jordânia têm promovido a expulsão da sua terra e o genocídio dos árabes da Palestina que aqueles dois Estados ocupam ilegitimamente».
Este comentário suscitou-me a seguinte resposta, que julgo ter interesse publicar na medida em que toca vários aspectos pertinentes para a boa compreensão da iniciativa da África do Sul.
2. O Tribunal Internacional de Justiça
O gigantesco sistema da ONU ‒ em particular, os seus órgãos principais ‒ é, com certeza,
um sistema com muitos defeitos, cuja actuação é susceptível de crítica severa. É o caso, nomeadamente, do Tribunal Internacional de Justiça, um dos seus seis órgãos principais.
Isto dito, não podemos imputar-lhe coisas que não fez. O Tribunal Internacional de Justiça NÃO «patrocinou a criação do Estado de Israel em 1948 e a pseudo-solução dos dois Estados». O Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) não foi tido nem achado na criação do Estado de Israel por três razões.
1.ª) O Estado de Israel foi criado em 29 de Novembro de 1947 por uma resolução da Assembleia Geral da ONU, a resolução 181, aprovada com os votos a favor de 33 países, com 13 votos contra e 10 abstenções.
2.ª) O TIJ não patrocina a criação de Estados. Não é essa a sua missão. A missão do TIJ é julgar qualquer disputa legal que lhe seja apresentada referente a questões previstas na Carta das Nações Unidas ou nos tratados e convenções em vigor (cf. artigo 36.º [1] e [2] do Estatuto do TIJ), nomeadamente: a) a interpretação de um tratado; b) qualquer questão de direito internacional; c) a existência de qualquer facto que, se provado, constituiria uma violação de uma obrigação internacional; d) a natureza ou o alcance da reparação a efectuar em virtude da violação de uma obrigação internacional.
3.ª) O TIJ só se pronuncia quando solicitado por um ou mais Estados membros da ONU, que são actualmente 193. Em 1948, Israel não era membro da ONU. Só passou a ser membro da ONU em Maio de 1949, por uma resolução da Assembleia Geral da ONU. Nunca, até hoje, Israel solicitou a intervenção do TIJ seja para o que for.
3. Ilusões recalcitrantes
Certo, «não devemos ter ilusões no Tribunal Internacional de Justiça». Nem em nenhuma instituição da sociedade em que vivemos, acrescento eu — incluindo os partidos políticos, seja lá quem for ou seja lá o que for que eles reclamem como bandeiras suas. As ilusões só servem para sermos enganados ou fazermos disparates que nos podem custar muito caro. Devemos, tanto quanto possível, procurar conhecer bem a natureza das instituições (económicas, sociais, políticas, culturais) e as suas limitações e actuar em conformidade.
A esmagadora maioria da população portuguesa e mundial (incluindo a que fez estudos superiores) não faz, presumo, a mínima ideia do que seja o TIJ. E são muitos os que, ouvindo falar do TIJ, o confundem com o Tribunal Penal Internacional, que não é um tribunal da ONU, mas que também tem sede em Haia.
Ora, não se pode ter ilusões naquilo cuja existência se desconhece. As ilusões existem, sim, e são imensas, mas são sobre Israel, os EUA, a UE, a OTAN (/NATO) — não sobre o obscuro TIJ. Que ilusões? Pois as de que os seus governantes e dirigentes são os paladinos da liberdade, dos direitos humanos, da democracia e da paz que, no entanto, todos os dias destratam e espezinham.
4. Os méritos da iniciativa da África do Sul
Destarte, o mérito da República da África do Sul (RAS) é triplo.
Primeiro, o da coragem. Em 193 Estados membros da ONU, a RAS foi o único Estado que ousou processar Israel no TIJ por intenção de genocídio. A isto não é seguramente alheio o facto de os sul-africanos de pele mais escura terem sofrido durante décadas as agruras de um regime de apartheid — menos brutal, aliás, do que aquele que Israel construiu para segregar, confinar, oprimir e explorar os palestinianos.
Segundo, mesmo para quem julgue conhecer o que ocorre em Gaza (e são muito poucos os que podem ter essa pretensão sem nunca terem posto os pés em Gaza), as revelações e testemunhos de metódica crueldade de Israel, compilados pelo documento que a RAS apresentou ao TIJ ‒ e colocados, assim, nolens volens, sob os holofotes da comunicação social e à disposição do mundo inteiro ‒ são horripilantes. Os mais horripilantes e também, juridicamente, os mais importantes são os que constam dos artigos 101.º a 107.º do documento acusatório da RAS. Aí são transcritas as declarações de altos responsáveis do Estado de Israel que atestam a sua clara intenção genocida — o elemento probatório fundamental para sustentar a acusação de genocídio no âmbito da Convenção para a Prevenção e Punição do Genocídio (que entrou em vigor em 1951). Foi por isso que foram estes os artigos que traduzi para Português e cuja publicação propus ao blogue Estátua de Sal para conhecimento do público de língua portuguesa — o que foi aceite e feito [https://estatuadesal.com/2024/01/11/processo-judicial-em-nome-da-africa-de-sul-contra-o-estado-de-israel/].
Terceiro, «Para além de impedir que o inferno de Gaza desapareça, convenientemente para os seus perpetradores, dos noticiários, a petição do país de Nelson Mandela desnuda o niilismo moral dos Governos do nosso “Ocidente”. Enquanto os “valores europeus” ficam silenciosamente na gaveta, Biden e os seus ajudantes mergulham os EUA no aviltante papel de financiador e cúmplice desta descida aos abismos do mal» (Viriato Soromenho Marques, “Quando a Justiça bate à porta do inferno”, DN, 12-01-2024).
Deste processo judicial instaurado pela RAS a Israel pode resultar, no plano estritamente jurídico, um de dois veredictos contraditórios: a) o TIJ não dá como provada a acusação da RAS, ou b) o TIJ dá como provada a acusação da RAS. Vai haver, seguramente, muitas pressões de Israel e dos EUA sobre os 15 juízes do TIJ para deliberarem no sentido de a). Mas não se pode descartar a possibilidade de que b) tenha vencimento. Só o saberemos daqui a muitos meses ou anos.
Seja como for, e independentemente do veredicto final do TIJ a mais longo prazo, há um outro resultado que pode sair do processo judicial instaurado pela RAS a Israel. É que a solicitação da RAS ao TIJ inclui a solicitação de “medidas provisórias” onde se inclui a “suspensão imediata” das acções militares israelitas contra a população civil de Gaza. Na prática, isto significa um cessar-fogo imediato e permanente e a entrada livre em Gaza de ajuda humanitária. E isso permitiria salvar milhares de vidas inocentes!
Esta decisão poderá ser tomada dentro de duas ou três semanas. Se o TIJ tomar essa decisão ela será ‒ como são todas as decisões do TIJ em todos os casos em que é chamado a intervir ‒ de cumprimento obrigatório para Israel, embora, bem entendido, ele possa recusar-se a cumpri-la (mas isso terá um elevadíssimo custo reputacional, como veremos mais adiante). Será uma decisão que não se baseia no veredicto final do TIJ, mas no mérito do caso apresentado pela África do Sul. Por outras palavras, ao exigir que Israel cesse imediatamente as suas hostilidades em Gaza, o TIJ não estaria a caracterizar a campanha israelita como sendo genocida. Estaria, isso sim, a admitir que essa é uma possibilidade muito séria a considerar. Logo, mais vale prevenir do que remediar.
5. Os receios de Israel e dos EUA
Mas essa possibilidade suscita grandes receios por parte de Israel e dos EUA.
«Israel e o governo Biden tencionam impedir qualquer injunção provisória do tribunal, não porque o tribunal possa obrigar Israel a parar os seus militares, mas por causa da necessidade de salvar as aparências, que já são desastrosas. A decisão do TIJ depende do Conselho de Segurança para ser efectivamente aplicada — o que, dado o poder de veto dos EUA [no Conselho de Segurança], torna qualquer decisão contra Israel muito duvidosa. O segundo objectivo do governo Biden [este no longo prazo, n.e.] é garantir que Israel não seja considerado culpado de cometer genocídio. Os membros do governo Biden serão implacáveis nessa campanha, pressionando fortemente os governos que têm juízes no tribunal para não considerarem Israel culpado. A Rússia e a China, que têm juízes no TIJ, estão a lutar contra acusações de genocídio de que são elas próprias alvo e podem decidir que não é do seu interesse declarar Israel culpado.
O governo Biden está a jogar um jogo muito cínico. Insiste que está a tentar travar o que, como ele próprio admite, é o bombardeamento indiscriminado de Israel contra palestinianos, enquanto contorna o Congresso para acelerar o fornecimento de armas a Israel, incluindo bombas “estúpidas” [= não guiadas, n.e.]. Insiste que quer o fim dos combates em Gaza, enquanto veta resoluções de cessar-fogo na ONU. Insiste que defende o Estado de direito enquanto subverte o mecanismo legal que pode travar o genocídio. O cinismo impregna cada palavra que Biden e Blinken proferem» (Chris Hedges, “The case for genocide”. The Chris Hedges Report. Substack, January 12, 2024). [n.e. = nota editorial]
Este cinismo e esta hipocrisia só têm rival na hipocrisia e no cinismo dos governantes europeus. Por exemplo, João Gomes Cravinho, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, afirmou recentemente: «Nós veríamos com muito bons olhos que houvesse da parte do Tribunal Internacional de Justiça uma decisão sobre a necessidade de cessar-fogo, porque corresponde àquilo que consideramos também politicamente fundamental» (Lusa/Jornal de Notícias, 11-01-2024).
Estas são declarações do ministro de um governo que, tal como todos os governos constitucionais anteriores, nunca reconheceu a necessidade de trabalhar para (i) revogar a funesta resolução 181 da Assembleia Geral da ONU (que incendiou o território da Palestina ao despedaçá-lo em dois Estados antagonistas ‒ um sionista e colonizador e outro anti-sionista e anticolonizador ‒ e que fornece o combustível inesgotável que mantém o incêndio activo há mais de 70 anos) e (ii) abrir caminho à constituição de uma República palestiniana única e unitária (i.e. do Rio Jordão ao Mediterrâneo), laica e democrática, com igualdade de direitos e de representação para todos os seus cidadãos, seja qual for a sua religião ou a sua etnia — muçulmanos, judeus, cristãos, ateus; árabes, beduínos, drusos, circassianos, etc. [https://estatuadesal.com/2023/11/13/carta-aberta-aos-nossos-aliados-judeus/].
O mesmo ministro J.G. Cravinho disse na audição parlamentar a propósito do Orçamento do Estado para 2024: «Acham que fazia alguma diferença se Portugal, sem mais, reconhecesse o Estado da Palestina [entenda-se: que reconhecesse que os enclaves conhecidos como Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental, pomposamente crismados de “Estado da Palestina”, são tudo o que ainda não foi completamente tragado por Israel, razão pela qual precisam de ser protegidos das constantes incursões israelitas até estarem reunidas as condições para a instituição de uma República palestiniana única, unitária, laica e democrática, n.e.]? Não fazia diferença» (Expresso, 3-11-2023). O embaixador de Israel em Lisboa, Dor Shapira, pôde, pois, dizer com tranquilidade:
«Em relação à questão do reconhecimento do Estado palestiniano, a posição de Portugal segue a linha da UE e neste momento a UE ainda não reconheceu o Estado palestiniano, portanto não vejo qualquer mudança nisso» (Lusa, 6-12-2023).
6. O genocídio é o crime de todos os crimes
Temos de impedir o genocídio dos palestinianos em Gaza. Temos de desmascarar o cinismo e a hipocrisia daqueles que, por acção e/ou omissão, permitem que Netanyahu e os seus comparsas continuem a executá-lo sob os nossos olhos.
«O genocídio não é um problema político. É um problema moral. Não podemos, seja qual for o custo que isso acarrete, apoiar aqueles que cometem ou são cúmplices de um genocídio. O genocídio é o crime de todos os crimes. É a expressão mais pura do mal. Temos de estar inequivocamente ao lado dos palestinianos e dos juristas da África do Sul» (Chris Hedges, ibidem).