Robert Fico: O “canário na mina” – A metanarrativa europeia está a levar-nos ao desastre

(Por Alastair Crooke in Reseau International, 21/05/2024, Trad. Estátua de Sal)

(Não é estranho que os líderes políticos, que se opõem às narrativas do Ocidente na Ucrânia e/ou em Gaza, estejam a sofrer atentados ou a ter acidentes funestos? Foi na Eslováquia, foi agora no Irão… Coincidências?! Quem virá a seguir? O procurador do Tribunal Penal Internacional? Pelo menos já foi ameaçado. (Ver aqui).

Estátua de Sal, 21/05/2024)


A Eslováquia está profundamente polarizada: Há uma fação fortemente pró-UE, que desprezou particularmente a oposição de longa data do primeiro-ministro às políticas ocidentais para a Ucrânia.



O primeiro-ministro Robert Fico foi atingido por quatro balas disparadas à queima-roupa durante uma tentativa de assassinato na semana passada. Após cinco horas de intervenção cirúrgica, Fico não está mais em risco, mas o seu estado é considerado grave.

A polícia teria acusado um poeta e escritor de 71 anos de tentativa de homicídio (um perfil incomum para um atacante do tipo “lobo solitário”).

“ Na conferência de imprensa que se seguiu ao ataque”, relata o Politico, “Šutaj Eštok, o ministro do Interior, apelou ao fim da linguagem violenta e dos ataques às redes sociais que definiram a política eslovaca durante a era Fico. “Quero apelar ao público, aos jornalistas e a todos os políticos para que parem de espalhar o ódio”, disse ele. “Estamos à beira de uma guerra civil .”

Um deputado do partido de Fico gritou à oposição no Parlamento que Fico está “hoje a lutar pela sua vida por causa do seu ódio”. Enquanto o vice-presidente do parlamento, Andrej Danko, líder do Partido Nacional Eslovaco, de extrema-direita, desafiou a oposição : “Estão satisfeitos? »

A Eslováquia está profundamente polarizada: há uma fação fortemente pró-UE, que desprezou particularmente a oposição de longa data do primeiro-ministro às políticas ocidentais para a Ucrânia (Fico foi primeiro-ministro durante 11 dos últimos 18 anos).

No entanto, a reação à tentativa de assassinato em algumas partes da Europa foi pouco simpática e, em várias ocasiões, quase critica das tentativas de desculpabilização. No entanto, mesmo dentro desta corrente, é aceite que a campanha contra Fico foi “tóxica”. Foi acusado de ser pró-russo, pró-Putin e de dificultar o apoio à Ucrânia.

Na Europa, o apoio à Ucrânia tornou-se o preço de admissão a qualquer conversa em Bruxelas. É também o preço de entrada para a prossecução de qualquer política na UE, como Orbán e Meloni aprenderam. Isto não é racional, assemelha-se antes a uma psicose de massas que afecta as elites, que começam a desesperar por verem o seu projeto de uma “Europa geopolítica” ruir e os seus erros de julgamento político e económico tornarem-se óbvios, à medida que a Europa desliza para uma crise social e económica demasiado previsível.

Isto não é de todo “racional”, mas estas elites compreendem que Putin e a Rússia podem ser usados como símbolo do “outro” autocrático e sombrio na conceção Straussiana (Leão) – segundo a qual o “inimigo”, de uma forma particularmente intensa, é alguém diferente e estrangeiro, pelo que o conflito contra “ele” é possível, ou mesmo obrigatório (pela sua própria natureza).

Além disso, a própria dinâmica de reconhecimento e destruição do adversário torna-se um elemento crucial da identidade nacional ou, neste caso, da identidade do “Estado” transnacional da UE: “A democracia contra os autocratas”.

Esta formulação de um inimigo existencial tão diabólico e estranho implica que a comunicação e as relações devem ser consideradas inimagináveis. Ouvir o outro lado é ultrapassar os limites de um comportamento cívico aceitável.

 O meme “Putin/Xi são ditadores” foi concebido precisamente para acabar com a liberdade de expressão aqui no Ocidente. O seu objetivo é assustar os críticos da elite e legitimar a punição daqueles que se “associam” ao inimigo.

 Na Europa, a Rússia é o principal objeto de ódio; nos Estados Unidos, o antissemitismo assume o comando, enquanto a Rússia, a China e o Irão são agrupados como partilhando uma malignidade comum num eixo do mal.

Em última análise, esta abordagem tende a materializar um sobre investimento maciço numa única narrativa autorizada e, quando esta se desmorona (como aconteceu hoje), não há saída. Perseverar é a única opção (mesmo quando esta linha de ação é considerada irracional).

Infelizmente, este pode tornar-se o caminho demasiado previsível para o desastre. Começa lentamente: encorajar a Ucrânia a pedir tropas, enviar “formadores” militares, depois um pequeno destacamento de tropas uniformizadas, etc. Depois, mais rapidamente, quando os líderes se apercebem de que os seus pressupostos básicos estavam errados.

Putin não está a fazer bluff… Quando as tropas europeias voltarem em caixões, nessa altura, será que vão recuar ou será que o medo de parecerem fracos os levará a fazer coisas estúpidas?

O Presidente da Finlândia é apenas um exemplo dos que seguem a “linha” obrigatória: “A Ucrânia tem de ganhar esta guerra… aconteça o que acontecer”. “Está a enfrentar um agressor poderoso, que está a violar todas as regras da guerra”.

É claro que a resposta racional é: “E depois?”. Estará o presidente finlandês a propor seriamente que a Europa se mobilize para atacar a Rússia? Será que Sua Excelência não nota que a Ucrânia está em desvantagem em relação à Rússia e que a NATO também está? Que a Ucrânia não pode “ganhar”?

Deveremos então considerar a explosão do presidente como uma mera “história”, o que significa que não deve ser levada a sério? É impossível para a UE encarar uma guerra contra a Rússia. A proposta é absurda.

É verdade, mas o facto é que a linguagem das camadas dirigentes da Europa está hoje impregnada de fervor pelo militarismo e pela guerra (“preparar o recrutamento”; avançar para “uma UE geopolítica orientada para a defesa e a segurança”, etc.).

Fonte aqui.


Sebastião Maria vai para Bruxelas

(Fernando Campos, In o Sítio dos Desenhos,27/04/2024)

Ele é um menino-prodígio. Um superdotado. Um predestinado. Loquaz e petulante, insidioso como um Rasputine e armado em espertinho como um alho (como um Marcelo em ponto pequenino).  Sebastião Maria Reis Bugalho assume-se como de direitacatólico e conservador. Dizem dele, embevecidos (enfim, no seu meio) que é uma espécie de “novo Paulo Portas” – talvez um pouco menos sagaz, mas muito mais heterossexual.

Também oriundo de boas famíliasSebastião Maria frequentou desde muito cedo os mais exclusivos colégios privados. Mas não dava trabalho nenhum aos professores pois não era preciso ensinar-se-lhe nada – ele levava sempre a lição estudada de casa. Um menino de sua mãe.

E não faltou à catequese – cursou ciência política, na madrassa da Católica e, dizem, ainda mantém estudos, no isqueté.

Betinho, muito lavadinho e penteadinho, ainda a cheirar a cueiros e pó de talco, fez a primeira comunhão debutando no jornal i “focando-se na cobertura noticiosa do partido CDS. Subsequentemente foi convidado a assinar uma coluna de opinião. Pouco antes de abandonar a carreira jornalística, publica uma peça acerca da futura lista de candidatos do CDS às eleições de legislativas de 2019, lista essa que ele mais tarde integrou”..

Como não foi eleito, regressou ao “jornalismo”. Decerto para “a comunhão solene”. Era um regalo vê-lo então, a analisar, a fazer conjeturas e elucubrar cenários e assim. Sim, porque Sebastião Maria fez-se comentador, e analista. Na televisão, claro. Em Carnaxide. Sempre que ele aparecia na pantalha, lavadinho e penteadinho como um acólito, enchia-se-me logo a casa toda de um insuportável fedor a sacristia (aquele odor a velho, assado e azedo, com notas de velhacaria e vício recalcado e final acentuado a naftalina) que nunca se dissipava sem que eu incinerasse um lancero da Cohibapor lo menos.

Mas agora vai abandonar, de novo, o “jornalismo”. Desta vez é a confirmação, a unção do santo crisma. Depois de ter assinado uma reluzente (de brilhante) exegese da estratégia eleitoral da AD, O jovem Sebastião Maria foi imediatamente convidado por Luís Montenegro para encabeçar a lista de candidatos a deputados ao parlamento europeu (o que terá causado o amuo, e consequente desistência despeitada, de Rui Moreira, um coirão político muito mais experimentado, dado há muito como o titular absoluto do lugar).

O que quer dizer que Sebastião Maria já está eleito. Ou, como o diz o povo, em linguagem conventual, “são favas contadas”.

O povo de direita, católico e conservador gosta deles assim betinhos, airosos e fresquinhos – mas com ressaibo intenso, e prolongado, a antigamente.

Fonte aqui.

Os “ratinhos” dos nossos tempos

(Whale project, in Estátua de Sal, 20/05/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Daniel Oliveira, sobre a imigração, (ver aqui). Pela sua atualidade e assertividade de pontos de vista, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 20/05/2024)


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No tempo em que ninguém para cá queria vir não havia no Alentejo imigrantes mas havia emigrantes. Os chamados “ratinhos” que iam das Beiras trabalhar na altura das ceifas. E, tal como os imigrantes de hoje, aceitavam trabalhar por muito pouco, viver ás vezes até ao relento e comer para ali uma côdea de pão.

Ontem, como hoje, muita gente culpava os “ratinhos” e não os agrários, que tudo faziam para pagar o menos possível a quem trabalhava. Os agrários exploradores que tinham na polícia rural, que era a GNR, os jagunços perfeitos para pôr em sentido quem protestava. E, se para pôr o gado em sentido, fosse preciso matar em plena rua uma mãe de quatro filhos, matava-se.

O que não consta é que algum “ratinho” tenha sido morto a tiro ou hostilizado por jagunços fardados. Como acontece hoje com os imigrantes. Afinal eles davam jeito a quem não queria pagar, e sempre podiam dizer aos trabalhadores: ou comem ou, para além de vos podermos denunciar à PIDE como comunistas, ainda mandamos vir mais “ratinhos”.

Os alentejanos que hoje votam na extrema-direita, porque acham que a culpa é dos imigrantes e não dos exploradores, têm a mesma mentalidade dos que deitavam as culpas aos “ratinhos”. E os agrários de hoje, alguns dos quais nem portugueses são, têm a mesma mentalidade de outros tempos. E, quem hoje vota no quarto pastorinho, esquece-se que nesse tempo era a extrema-direita que mandava.

Nos anos 60 começou o êxodo alentejano. Criaram favelas na periferia de Lisboa, onde esgotos corriam a céu aberto. A censura não deixou que fossem vistas mas foram alvo de documentários ingleses. Porque é que se sujeitavam a isso e a continuarem a ser explorados nas fábricas e na construção civil? Porque se voltassem os pides e os jagunços haviam de lhes querer fazer boas contas.

E, se nesse tempo era a extrema-direita que mandava, a extrema-direita de hoje está cheia de saudosistas desse tempo. Por isso tratem de ter cuidado com o que desejam.

E, essa do capitalismo tirar gente da miséria, deve ter sido gerada não sei bem onde. O capitalismo só funciona, sem causar grandes danos, se houver regras. Porque a natureza humana é igual em todo o lado. A mentalidade do agrário alentejano dos anos 60, que queria ter casa luxuosa, bom carro, idas a casinos e prostíbulos na capital, restaurantes e hotéis de alto luxo, apenas com o que a terra dava, é igual ou pior em todo o lado. O capitalismo selvagem dos anos de Yeltsin causou três milhões de mortos pela fome e pelo frio na Rússia. Foram, sem dúvida, tirados da pobreza. Países como a Roménia perderam 25% da população desde 1990, pelo que foram, sem dúvida, tirados da pobreza.

O capitalismo sem regras gera sim, milhões de pobres, que vão tentar emigrar seja para onde for. Muitas vezes, justamente devido às táticas de ódio e divisão da extrema-direita, as pessoas veem-se também às voltas com a insegurança gerada por forcas policiais e milícias que matam. Não é só com a pobreza que têm de contar.

Não foi só com a pobreza que os brasileiros “pardos” tiveram que contar nos anos Bolsonaro, pelo que, a muitos só restou fazer a mala. Às vezes nem isso. Uma criatura que emigrou aos 53 anos trouxe uma mochila às costas. Tudo o que o Brasil lhe deu numa vida de trabalho, iniciada aos 14 anos, cabia numa mochila. Mas, o capitalismo sem regras fez com que, numa idade em que já só queremos sossego, emigrar fosse a solução encontrada por ela e por um marido da mesma idade, um filho e uma nora. O neto já nasceu por cá. Outros três filhos também trataram de fugir para outras paragens.

Por exemplo, quanta gente de orientação sexual duvidosa já não estará a fazer as malas na Argentina, depois de quatro mulheres terem sido queimadas vivas? Para além disso, o capitalismo desregulado do “El Loco” está a produzir pobres a uma velocidade assombrosa.

Tirem o cavalinho da chuva. A extrema-direita não vai impedir a imigração, nunca impediu. Porque a imigração interessa aos exploradores que lhe dão dinheiro para as campanhas. E quanto mais ilegal for, melhor, que assim mais facilmente serão explorados os imigrantes.

Obama deportou mais gente que Trump e, as famosas jaulas horrendas onde se enfiavam crianças, já existiam no seu tempo. Simplesmente, começaram a falar mais disso só no tempo do Trump, porque ele estava pouco disposto a embarcar em aventuras contra a Rússia.

À extrema-direita só interessa, justamente, o desviar das atenções. O culpar os imigrantes é o desviar das atenções do facto de que todos estarmos a perder direitos. Nada mais que isso.

O que a extrema-direita é, também se aplica à Iniciativa Liberal do Cotrim, que quer é um regresso aos anos 60. Um regresso ao tempo em que, além de haver três famílias numa casa de três quartos ou menos, ainda havia milhares de barracas, um pouco por todo o lado e em que, quem tinha a, sorte de ter uma cama e não uma enxerga, só tinha dois jogos de lençóis comprados a prestações.

Quanto mais a extrema-direita, o fascismo, o racismo, a xenofobia crescerem, mais deslocados haverá. Porque ficar à espera de ser morto pela fome ou por uma milícia não é opção para ninguém.

A extrema-direita é parte do problema, aqui e nos países de onde os imigrantes vêm, nunca a solução. E, se não formos capazes de ver isso, estamos tramados.