A indústria do medo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/12/2024)

Agora, e apesar de as despesas militares dos 27 terem aumentado 10% no último ano e pelo nono ano consecutivo, a nova meta é 3% do PIB para cada país. Para tal, esclareceu Rutte, “é preciso fazer sacrifícios”, sobretudo os europeus, cortando nas despesas com saúde, pensões e segurança social, mudando os espíritos para “uma mentalidade de guerra”.


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Em 2024, o planeta aqueceu 1,5 graus, e o Ártico, cujo aquecimento é superior ao da zona continental, aqueceu o dobro. Nos últimos dez anos, a perda de gelo nos polos e sobretudo no Ártico, por efeito do aquecimento global, acelerou de forma repentina, fazendo subir a temperatura dos oceanos 2 graus e diminuindo equivalentemente a massa da criosfera, que reflecte a luz solar e contribui para arrefecer o planeta. Tudo isto é sabido de todos os cientistas e de todos os estudos, como o da Agência Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Caminhamos conscientemente, pois, para a destruição do nosso modo de vida — de que algumas imagens premonitórias, como incêndios e inundações devastadoras, nos são servidas regularmente nas televisões.

Reunidos em Bruxelas na semana passada no Conselho Europeu, os líderes da Europa — o continente mais ameaçado pelas alterações climáticas — não gastaram, porém, um minuto que fosse com o assunto. Em lugar disso, um só tema os ocupou: Ucrânia, Ucrânia, Ucrânia; armas, armas, armas. Para que não restassem dúvidas do que ali os trazia, na véspera da reunião do Conselho, o novo secretário-geral da NATO, o holandês Mark Rutte, aproveitou para juntar previamente a cúpula europeia. Como não havia nenhuma cimeira da NATO marcada, ele reuniu num “jantar privado” na sua residência oficial Macron, Scholtz, Meloni, Von der Leyen, António Costa e, claro, Zelensky — que não tem lugar formal à mesa da NATO ou da UE, mas que está em todas as reuniões e determina todas as agendas. Assim, sem disfarce, se tornou clara a íntima confusão entre a NATO e a UE e os interesses e desejos comuns de ambas as organizações. Rutte aproveitou para subir a fasquia das despesas com a defesa dos membros da NATO: afinal, disse ele, os 2% estabelecidos como patamar para cada país só garantirão a segurança do Ocidente nos próximos quatro ou cinco anos.

Agora, e apesar de as despesas militares dos 27 terem aumentado 10% no último ano e pelo nono ano consecutivo, a nova meta é 3% do PIB para cada país. Para tal, esclareceu Rutte, “é preciso fazer sacrifícios”, sobretudo os europeus, cortando nas despesas com saúde, pensões e segurança social, mudando os espíritos para “uma mentalidade de guerra”.

Mas se a ideia do secretário-geral da NATO era apaziguar os maus fígados de Donald Trump antes de 20 de Janeiro, foi insuficiente: a equipa do próximo Presidente americano já fez saber qual o acréscimo com defesa que ele vai exigir aos “aliados” da NATO: 5%. Nada menos do que 5% da riqueza de cada país (para Portugal seriam 13.300 milhões por ano) terá de ser destinada à defesa, em preparação para a guerra.

A tese entre os europeus é a de que a Rússia, uma vez ganha a guerra da Ucrânia, não se deteria nas suas fronteiras — uma tese cujo fundamento não se baseia em nada nem esclarece até onde iria a Rússia, se teria capacidade para tal e um verdadeiro desejo de se lançar numa guerra contra a NATO. Mas uma vez que Putin se viu obrigado a aumentar as despesas com a defesa por força do pântano que encontrou na Ucrânia (ele, que a seguir se lançaria Europa adentro…) tal é suficiente para os arautos da guerra apregoarem a inadiável corrida às armas. Ora, não obstante toda a propaganda, as despesas militares da Rússia representam apenas um sétimo das dos Estados Unidos (126 mil milhões de dólares contra 916 mil milhões). Para quem achar, então, que isto, toda esta histeria bélica, pode ser apenas um exagero inocente, fruto de erros de cálculo ou pânico desencadeado pela invasão russa da Ucrânia, há alguns dados que podem servir de meditação. Como os 100% de crescimento bolsista e os 600 mil milhões de euros de lucros da indústria de armamento europeu no ano passado, com a alemã Rheinmetall, fabricante dos tanques Leopard-2 fornecidos à Ucrânia, à cabeça, com um aumento de 158% nos lucros, bem assim como a capitalização bolsista de 120 mil milhões (mais 26% desde o início da Guerra da Ucrânia) da americana Lockheed Martin, fabricante dos mísseis antitanque Javelin ou dos sistemas de artilharia Himars, igualmente testados na Ucrânia. E todas as demais empresas de armamento dos dois lados do Atlântico.

Depois do jantar de Mark Rutte, veio então o tal primeiro Conselho Europeu presidido por António Costa. O português, caso alguém esperasse diferente, mostrou-se perfeitamente afinado com a narrativa oficial e a única tolerada: é preciso continuar a apoiar a Ucrânia durante todo o tempo que for necessário e eventuais negociações para pôr termo à guerra só quando e como a Ucrânia quiser. Até lá, fornecemos armas e armamo-nos, na espera da invasão russa. Um plano de paz da própria UE é coisa que ninguém pensa nem ninguém acha necessário, pois isso seria fazer o jogo de Putin. De passagem, também se falou da Síria, para exigir ao novo poder acabado de se instalar rápidas eleições e a expulsão dos russos do seu território. Nem uma palavra, porém, sobre a descarada invasão israelita, os seus bombardeamentos contra alvos indefesos e a apropriação da totalidade dos Montes Golã: há invasões más e invasões invisíveis. Porém, nesta espécie de doutrina oficial europeia, há uma coisa que não deixa de me surpreender. Toda a gente fala e toda a gente concorda na necessidade de uma política externa e defesa europeia autónoma e coordenada, apesar de, como se viu no curioso jantar íntimo de Mark Rutte, já estarem todos prontos a agachar-se perante as exigências e ameaças do “democrata” Donald Trump. Ora, a Europa, sem a Inglaterra, deve, creio eu, ter uma política externa e de defesa coordenada entre as restantes grandes potências europeias: Alemanha, França, Espanha, Itália. Porém, quem é que Ursula von der Leyen foi buscar para as pastas destas áreas na sua nova equipa da Comissão Europeia? Como representante da política externa e vice-presidente, a estoniana Kaja Kallas, conhecida por um insanável e compreensível ódio à Rússia; para a política de defesa e segurança, o lituano Andrius Kubilius. Dois representantes de países do Báltico, que, por razões históricas bem legítimas, vivem no permanente medo da Rússia e contam com o resto da Europa e a NATO para os defenderem. É assim deste ponto de partida nacional e pessoal que eles pretendem definir as políticas europeias em matéria diplomática e militar. Kaja Kallas já declarou ter a certeza de que a Rússia, caso não a detenham entretanto, não se deterá nas fronteiras da Ucrânia. E Andrius Kubilius defendeu um “big bang de 500 mil milhões de euros anual” a gastar em defesa pelos europeus (já deve estar ultrapassado…). Mas o que me surpreende é isto: a Europa tem 700 milhões de habitantes, a Estónia 1,3 milhões e a Lituânia 2,8 milhões. Juntos, os comissários da Estónia e Lituânia, que representam pouco mais de 0,5% da população europeia, vão agora ditar a sua política externa e de defesa? Será isto uma coincidência ou antes uma criteriosa escolha segundo o princípio “quanto mais favorável à guerra com a Rússia, mais europeu”? O antecessor de António Costa no Conselho Europeu, Charles Michel, deixou um aviso que ninguém deve ter ouvido ou querido levar a sério: “A III Guerra Mundial é possível. Temos urgentemente de cair em nós.”

E você, meu caro português, já decidiu começar a preocupar-se com o assunto? Já sabe, ou não quer saber, o que pensar de tudo isto? É que chamar bandido a Putin nas caixas de comentários ou condenar a invasão da Ucrânia é muito fácil e aparentemente não custa nada para quem não associa a guerra à inflação ou à paralisia no combate às alterações climáticas.

Mas, entretanto, o gelo do Ártico continua a derreter e o planeta continua a aquecer. Os ucranianos continuam a morrer no campo de batalha e o seu país a ser destruído, mas não há pressa alguma em alcançar a paz porque são eles que morrem e depois a reconstrução da Ucrânia será um excelente negócio para algumas empresas ocidentais, financiado com o dinheiro russo depositado nos bancos ocidentais e entretanto confiscado por decisão informal de um tribunal ad hoc da NATO e União Europeia — como antes aconteceu com a Sérvia, destruída pelos bombardeamentos da NATO, reconstruí­da por empresas americanas. Mas, atenção, porque agora, de crescendo em crescendo, já não basta enviar armas para a Ucrânia “por quanto tempo quanto necessário”: agora somos nós também que temos de entrar “em mentalidade de guerra”. Cortar na saúde, nas pensões, nos direitos sociais, começar a desmantelar o nosso querido modelo social europeu, porque — só não vê quem não quer ver — tudo isto é igual à situação em 1939. Sem tirar nem pôr, com a única diferença de que agora os judeus estão por cima e só praticam o bem e os nazis são os russos. E, com o medo induzido convictamente pelos grandes líderes que temos e alimentado por uma imprensa dócil e alinhada como nunca antes, preparamo-nos para nos curvar perante o génio do mal da Casa Branca. O homem que olha para os estudos sobre o clima, para as imagens do gelo a derreter no Ártico e na Gronelândia e resume tudo a três palavras: “drill, baby drill!”. Nós, tugas, vamos desde já investir em mais dois submarinos para combater os russos (se os marinheiros quiserem embarcar, não se tratando de exercícios), e, apesar da falta de pilotos, vamos investir 5000 milhões em F-35, o último grito dos céus. Mas isso não é nada comparado com o que nos vão exigir: 3%, 3,5%, 5% de toda a riqueza que produzimos neste país a trabalhar, a investir, a pensar no futuro. Mas qual futuro? É a guerra, estúpido! O futuro é investir em acções das empresas de armamento.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Em busca da empatia

(Por Scott Ritter, in Substack, 25/12/2024, Trad. Estátua de Sal)

O marechal do Reich Hermann Göring sendo condenado por crimes de guerra, Nuremberga, 30 de setembro de 1946

“No meu trabalho com os réus (nos Julgamentos de Nuremberga dos nazis após a 2ª Guerra Mundial), eu estava a procurar a natureza do mal e agora acho que cheguei perto de o definir. Uma falta de empatia. É a única característica que é comum a todos os réus, uma incapacidade genuína de sentir algo pelos seus semelhantes. O mal, eu acho, é a ausência de empatia.”

Capitão GM Gilbert, psicólogo do Exército dos EUA, autor do “Diário de Nuremberga”.


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Em setembro de 1995, eu estava a trabalhar para a Comissão Especial das Nações Unidas (UNSCOM), encarregada de eliminar as armas de destruição em maciça do Iraque. Era o principal elo entre a UNSCOM e a inteligência israelita na época e fazia viagens frequentes a Israel que podiam durar entre alguns dias e algumas semanas. Durante uma dessas visitas, convidei a minha esposa Marina para vir ter comigo num fim de semana. Marina é georgiana e uma devota cristã ortodoxa e ficou emocionada com a oportunidade de ver a Terra Santa em primeira mão. Caminhámos pela “Via Dolorosa” (o “caminho doloroso”) em Jerusalém, traçando a jornada de Jesus até sua crucificação. Mergulhámos os nossos pés no Rio Jordão no local onde João teria batizado Jesus. Fizemos um tour pelo Mar da Galileia, visitando os vários locais do ministério de Jesus, conforme registado na Bíblia. Todas essas experiências repercutiram profundamente em nós.

Mas foi a excursão que a minha esposa fez ao Yad Vashem, o Centro Mundial de Memória do Holocausto, localizado no Monte Herzl, em Jerusalém Ocidental, que nos causou a impressão mais profunda. Foi lá que Marina ficou cara a cara com fotografias de algumas das crianças vítimas do Holocausto. Marina deu à luz as nossas filhas gémeas em fevereiro de 1993, e na época de sua visita ao Vad Vashem as nossas meninas tinham 2 anos e meio — a mesma idade de algumas das crianças nas fotografias em exposição no centro. Marina viu as nossas filhas nos olhos dessas crianças e imediatamente desabou e chorou. Ela foi tomada pela empatia.

No verão de 1997, eu estava Bagdade à frente de uma equipa de inspeção cujo propósito era confrontar o governo iraquiano com suas informações inconsistentes, e frequentemente contraditórias, sobre materiais relacionados com armas de destruição maciça, que eles dispunham por altura do verão de 1991. Armado com relatórios de desertores e imagens de satélite, eu tinha conseguido encontrar esconderijos de equipamentos de produção de mísseis não contabilizados e desvendar as mentiras de altos funcionários iraquianos que serviram de base à sua narrativa, durante mais de seis anos consecutivos. A minha equipa de inspeção não era muito popular entre o círculo interno do presidente iraquiano Saddam Hussein. Como forma de me pressionar e à minha equipa, o governo iraquiano exibia videoclipes de nossa inspeção, acusando-me a mim e aos outros inspetores de trabalhar para a CIA e culpando-nos pelo sofrimento contínuo do povo iraquiano por mor das sanções ocidentais. Tais acusações originaram várias ameaças de morte, e pelo menos uma tentativa de assassinato contra mim e contra a minha equipa por civis iraquianos descontentes, que levaram a sério as acusações do governo iraquiano.

Em vez de recuarmos ou escondermo-nos, a minha equipa e eu adotámos a abordagem oposta: tornámos a nossa presença no Iraque o mais visível possível – uma abordagem de “Cão Alfa” para a inspeção, que nos fez figurativamente “mijar nas paredes” do Iraque para deixar nossa marca e garantir que os iraquianos soubessem quem estava no comando quando se tratava da implementação de nosso mandato.

O autor caminha ao lado de seu veículo Nissan Patrol da UNSCOM na sede da ONU, verão de 1997

À noite, quando as inspeções terminavam, e enquanto as “notícias” dos nossos esforços eram transmitidas pela televisão iraquiana, a minha equipa e eu dirigíamo-nos para o centro da cidade nos nossos omnipresentes SUVs Nissan Patrol brancos, com as letras pretas “UN” pintadas nas laterais e as nossas marcações táticas exibidas nos tetos e capots ​​em fita adesiva cinza (essas eram as designações da equipa para cada veículo — A-1 de “Alpha One”, etc. O meu veículo era marcado com um “W” de “Whiskey”). Estacionávamos à beira da estrada ao lado de qualquer restaurante que tivéssemos escolhido para jantar naquela noite e entrávamos com toda a arrogância de John Wayne e seus cowboys (de facto, o chefe da Missão Humanitária da ONU no Iraque tinha-nos chamado recentemente “cowboys” numa entrevista que tinha dado ao Le Monde. Decidimos que o título, que pretendia ser um insulto, nos servia bem).

Uma noite, enquanto estávamos sentados num popular estabelecimento de frango assado, a televisão começou a passar um “especial de notícias” que me destacava para ser atacado. Os inspetores e eu observámos a multidão enquanto eles olhavam para o écran da TV, onde as nossas fotografias eram exibidas juntamente com uma narrativa contínua dos nossos muitos “crimes”. O clima no restaurante escureceu consideravelmente, e alguém recomendou que saíssemos enquanto a saída era possível.

“Não”, eu retorqui. “Nós pagámos a nossa refeição, e vamos aproveita-la. Fodam-se essas pessoas.”

Eu não estava com humor para demonstrar fraqueza. Tínhamos acabado de passar um dia estacionados do lado de fora da sede da inteligência iraquiana, com a nossa entrada bloqueada por guardas armados. Num instante, fomos conduzidos para dentro da guarita enquanto a polícia desarmava um homem que havia passado de carro com uma AK-47 carregada, com a intenção de me alvejar e aos outros inspetores.

Assim que essas palavras saíram da minha boca, vi uma mulher levantar-se da cadeira numa mesa à nossa frente. Estava vestida com um vestido preto e com um xaile preto a cobrir-lhe a cabeça. Alguém na mesa a tentou puxar para que se sentasse, mas ela repreendeu-o, e ele soltou-lhe o braço. Ela virou-se e foi em direção à minha mesa, os olhos fixos nos meus.

“Chefe”, disse um dos inspetores, um soldado britânico grisalho. “Há gente a chegar”

“Já vi”, respondi. Observei-a atentamente enquanto ela se aproximava, o meu olhar flutuando nos seus olhos e mãos, tentando adivinhar-lhe as intenções. Não tinha chegado ainda a nenhuma conclusão quando ela parou, de pé sobre mim enquanto eu estava sentado e limpava a gordura de galinha do rosto com um guardanapo.

“Você é Scott Ritter?”, Perguntou ela, com a voz embargada pela emoção.

“Sim, senhora”, disse eu, levantando-me.

“E esses são os seus homens? Os seus inspetores?”

“Sim, senhora”, respondi.

“Eu vejo-o na televisão todos os dias. Eles dizem que é você que eu deveria culpar pela morte dos meus filhos.”

“Sim, senhora”, gaguejei, sem saber o que dizer mais.

“Eles querem que eu te odeie.”

“Sim, senhora.”

Ela olhou para mim, as lágrimas brotando-lhe dos olhos. As mãos estavam enroladas no xaile e, de repente, uma das mãos saiu para fora. Se ela tivesse uma faca, ela teria sido capaz de me esfaquear. Mas era apenas a mão, que ela colocou no meu braço.

“Você está fazendo seu trabalho”, disse ela. “Eu sei disso. Eu sei que, no seu coração, você não me quer mal. Eu sei que, no seu coração, você não queria que o meu filho morresse.”

As lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo seu rosto.

“Eu sei que você é filho de alguém. Que todos vocês,” disse ela, gesticulando para os homens duros sentados ao redor da mesa, “têm mães que os amam, como eu amei o meu filho.”

Ela olhou para mim. “Vou rezar pela sua segurança, para que você possa terminar o seu trabalho, e que as sanções possam ser suspensas, para que outras mães não percam os filhos devido às doenças.”

Apertou o meu braço e virou-se, voltando para sua mesa, onde se sentou e afundou a cabeça nos braços da senhora sentada ao seu lado, soluçando.

Olhei para minha refeição inacabada, sem mais fome.

“Vamos”, disse eu, e a raiva e a arrogância que definiram o meu tom anterior desapareceram.

Saímos, cada um de nós colocando a mão no bolso para deixar a maior gorjeta possível, como se todos estivéssemos a tentar expiar nossos pecados comprando perdão.

A multidão, no restaurante, deixou-nos sair sem incidentes.

Enquanto estava sentado no Nissan Patrol, voltando para a nossa sede, onde terminaria o relatório da inspeção diária, ainda conseguia sentir o aperto da moça no meu braço, no sítio onde ela me tinha apertado.

Tentei descobrir porque o teria feito.

Ela tinha todo o direito de nos odiar. Eu sei que se ficasse cara a cara com o homem responsável pela morte dos meus filhos, o encontro não seria descrito como pacífico.

Mas ela escolheu a paz.

Ela fez isso de uma forma muito pública, destacando-me para todo o restaurante ver.

Eu interrogo-me sobre o que teria acontecido se ela não se tivesse levantado.

Se ela não me tivesse confrontado.

O que teria feito a multidão? Eu já tinha sido atacado em vários ambientes públicos, inclusive num restaurante, quando o humor da multidão azedou. As coisas ficaram muito feias muito depressa.

Mas a intervenção dela impediu isso.

Ela interveio para nos proteger.

Porque ela era mãe.

E ela sabia que tínhamos mães.

Ela foi tomada pela empatia.

No início deste ano, tive a oportunidade de visitar a região de Donbass, na Rússia, incluindo a cidade de Lugansk. Antes, fazendo parte da Ucrânia, esses territórios foram tomados na turbulência que tomou conta da Ucrânia após a chegada ao poder em Kiev de nacionalistas ucranianos anti russos, e da revolta de Maidan orquestrada pelos EUA em fevereiro de 2014. A população de língua russa do Donbass revoltou-se contra os novos nacionalistas ucranianos, que buscavam impor uma espécie de genocídio cultural ao proibir a língua, a religião, a cultura e a história russas. A revolta que se seguiu durou quase oito anos, culminando com a intervenção militar russa na Ucrânia e na subsequente anexação de quatro antigas regiões ucranianas, ou oblasts, incluindo as duas cidades — Donetsk e Lugansk — que juntas formam o Donbass.

O memorial “Às crianças da região de Lugansk”, Lugansk, Rússia

Enquanto estava em Lugansk, fui levado a um memorial dedicado às crianças de Lugansk que pereceram na luta que vem ocorrendo desde 2014. Quando o monumento foi instalado, em 2017, havia 33 anjos retratados, um para cada criança de Lugansk que havia perecido na luta. Desde então, 35 crianças adicionais de Lugansk pereceram, elevando o número total de mortos para 68.

O que me impressionou ao visitar o memorial foi como a vida de cada criança ressoou com os cidadãos de Lugansk, como se todos na cidade reivindicassem as crianças perdidas como suas. Eu já tinha testemunhado esse fenómeno antes. Em 2000, visitei o Iraque com o propósito de filmar um documentário sobre a UNSCOM e o desarmamento do Iraque. Enquanto lá estava, visitei a Escola Elementar Martyr’s Place, onde, na manhã de 13 de outubro de 1987, um ataque de míssil SCUD iraniano matou 22 crianças e feriu mais de 160 enquanto elas se reuniam no pátio da escola para começar o dia. Na entrada do pátio havia um memorial representando 22 anjos de bronze subindo ao céu.

Na época da minha visita a Bagdade, cerca de 13 anos após o ataque, os moradores do bairro ao redor da escola ainda estavam emocionados com a perda de vidas das crianças. “Eles seriam jovens adultos hoje”, disse um homem idoso. “Apenas começando suas vidas.”

É a perda das crianças que mais atinge uma comunidade. Seja em Lugansk, Bagdade ou Ma’alot, uma cidade em Israel onde, em maio de 1974, militantes palestinianos ocuparam a escola primária Netiv Meir, onde fizeram cerca de 115 pessoas reféns, 105 das quais eram crianças. Os militares israelitas invadiram o prédio, matando os três atiradores palestinianos, bem como 31 reféns, 22 dos quais eram crianças. Os israelitas ainda falavam sobre Ma’alot quando visitei Israel nem 1995, 21 anos depois.

Algumas coisas não podem ser esquecidas.

E mesmo não tendo testemunhado nenhum desses acontecimentos, como pai de gémeas, senti a dor daqueles que perderam os seus pequenos, como se as vidas perdidas fossem do meu próprio sangue.

Porque eu tinha empatia.

Se a falta de empatia é a principal característica do mal, então a capacidade de empatia deve ser a marca registada do bem.

Nesta época de Natal, o mundo está imerso em conflitos, com tragédias a acontecer diante de nossos olhos diariamente.

Não seríamos humanos se começássemos a ficar imunes ao horror, os sentidos sobrecarregados pelas cenas repetitivas de morte e destruição com as quais somos constantemente confrontados. Estando fisicamente separados da violência, temos a opção de desligar as visões e sons desagradáveis ​​do sofrimento humano.

Afinal, quantas vezes podemos nós ver o corpo dilacerado e sem vida de uma criança retirada dos escombros de Gaza e Beirute? Ou dos destroços de casas na Ucrânia e na Rússia?

A overdose de uma tragédia sem sentido leva ao entorpecimento da nossa alma, ao endurecimento do nosso coração e à diminuição da nossa humanidade.

Mas devemos perseverar, apenas para garantir que aquelas vidas jovens perdidas não tenham sido em vão.

Devemos aprender e lembrar os nomes daqueles que pereceram, não para servir de combustível para a fornalha do ódio que nos leva a buscar vingança, mas porque temos o dever, como seres humanos, de nos colocar no lugar daqueles que perderam os seus entes queridos na guerra, sentir sua dor, entender a sua perda, para que saibamos a importância de tentar pôr fim à violência que ceifou essas vidas.

A guerra nunca é a solução.

A paz é sempre a resposta.

Muitas vezes penso no meu encontro com a mãe iraquiana no restaurante em Bagdade. Foi um momento feio na minha vida, quando fui tomado por um sentido de dever que obscureceu a minha própria humanidade. Eu estava tão singularmente focado na tarefa em questão — desarmar o Iraque — que me esqueci que havia um custo humano associado ao meu trabalho e ao dos meus inspetores.

Já contei a história desse encontro algumas vezes, mas deixei sempre de fora uma parte da história, porque a lembrança dela me parte o coração, até hoje.

Depois que a moça me apertou o braço e começou a virar-se, eu estendi a mão e coloquei-a no ombro dela. Ela virou-se e olhou para mim.

“Qual era o nome do seu filho?” Perguntei eu.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas, mas sorriu levemente antes de responder. “Zaynab,” disse ela.

“Zaynab,” repeti eu. “É um nome lindo.”

“Era uma criança linda”, respondeu a mãe.

Não conto essa parte da história porque isso tira a personalidade de durão e de “cão alfa” que desenvolvi naquela época.

Porque quando ela se virou e se foi embora, fiquei sozinho a soluçar.

Mas temos que enfrentar essas coisas.

Zaynab, teria hoje quase 30 anos, idade suficiente para ter encontrado o amor, se ter casado e formado sua própria família.

Mas não foi isso que aconteceu.

Devemos lembrar-nos de Zaynab, assim como devemos lembrar-nos de cada criança cuja vida foi tirada deste mundo cedo demais.

Devemos ter empatia por aqueles que perderam os seus entes queridos por causa das guerras sem sentido travadas pelos homens. Precisamos de garantir que as crianças vivas hoje tenham a oportunidade de crescer e de criar as suas próprias famílias. Caso contrário, nós tornamo-nos instrumentos do mal, senão o próprio mal.

Feliz Natal.

Fonte aqui.

O Grande Israel e o Mashiach vitorioso

(Por Alexandre Duguine, in Reseau International, 25/12/2024, Trad. Estátua de Sal)


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Uma mudança fundamental está a ocorrer em todo o mundo na imagem de Israel e, talvez também, entre os próprios judeus. Os judeus da Europa despertaram sentimentos de piedade, simpatia e compaixão após a catástrofe que experimentaram sob Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Foi isto que tornou possível a criação do Estado de Israel. O Holocausto ou shoah, isto é, os horrores e as perseguições sofridas pelos judeus, tornou-se a base do acordo unânime: depois de tanto sofrimento, os judeus simplesmente tinham o direito de criar o seu próprio Estado. Este tornou-se o capital moral dos judeus e definiu uma atitude sagrada em relação ao Holocausto.

Os filósofos da Escola de Frankfurt proclamaram que devemos agora pensar a partir de Auschwitz. Isto significa que a filosofia, a política e a moralidade devem agora ter em conta a escala dos crimes cometidos pelos Europeus (principalmente os Alemães) contra os Judeus e que o Ocidente, e portanto toda a humanidade, deve arrepender-se.

A imagem dos judeus como vítimas é a sua pedra angular. Eleva os judeus à categoria de povo santo: todos os outros povos são convidados a arrepender-se e a nunca esquecer a sua culpa. Agora, qualquer alusão ao antissemitismo, e muito menos tentativas diretas de revisão do estatuto sagrado dos judeus e da metafísica do Holocausto, é punível.

Mas pouco a pouco, porém, a política cada vez mais dura de Israel para com os palestinianos e os países muçulmanos vizinhos começou a desfocar esta imagem, pelo menos aos olhos das populações do Médio Oriente que, lembremo-nos, nada têm a ver com os crimes dos nazis europeus. Além disso, a atitude violenta dos sionistas para com a população local levou a protestos diretos e, na sua forma mais extrema, à Intifada anti-sionistas.

A identidade dos israelitas e judeus que permanecem na diáspora mudou gradualmente. Há uma ênfase crescente na sua demonstração de força e poder, bem como na aspiração de criar um Grande Israel. Ao mesmo tempo, intensificaram-se as ideias messiânicas: expectativa da chegada iminente do Mashiach, início da construção do terceiro templo (o que exigiria a dinamitação do santuário islâmico da mesquita de al-Aqsa), aumento acentuado de áreas sob controlo israelita (de costa a costa) e resolução definitiva da questão palestiniana (pedidos diretos à deportação e ao genocídio dos palestinianos).

Estas ideias são apoiadas por Benjamin Netanyahu e vários dos seus colaboradores, os ministros Ben Gvir, Bezalel Smotrich, etc. Este programa é refletido abertamente na “Torá Real” de Yitzhak Shapira, nos sermões dos Rabinos Kook, Meyer Kahane e Dov Lior. Do ponto de vista estratégico, foi descrito em 1980 num artigo do conselheiro de Sharon, General Oded Yinon. O plano de Yinon era derrubar todos os regimes árabes baseados na ideologia nacionalista Baath, a fim de mergulhar o mundo árabe num caos sangrento e criar um Grande Israel.

Hoje, dez anos depois da Primavera Árabe, e especialmente depois do ataque terrorista do Hamas a Israel em Outubro de 2023, vemos estes planos a ser concretizados a um ritmo acelerado. Netanyahu destruiu Gaza, massacrando impiedosamente centenas de milhares de civis. Atacou o Líbano, matando todos os líderes do Hezbollah. O que se seguiu foi uma troca de disparos de foguetes com o Irão e preparativos ativos para a guerra contra aquele país, incluindo ataques a instalações nucleares. Tudo isto foi seguido pela invasão do que restou das Colinas de Golã e ataques à Síria. Um mês antes, Bezalel Smotrich tinha proclamado que Damasco faria parte de Israel e Ben Gvir tinha aludido diretamente à destruição de al-Aqsa.

A queda de Bashar al-Assad marca o fim do último regime Baathista. O mundo árabe está de facto mergulhado no caos. O Grande Israel e o extermínio dos palestinianos estão a tornar-se uma realidade diante dos nossos olhos.

Este último ponto é importante: os políticos sionistas de direita estão a abandonar a referência ao Holocausto. O capital moral das suas vítimas está agora completamente esgotado. Israel mostra o seu atual poder, grandeza e crueldade, quase como se tivéssemos regressado ao Antigo Testamento.

 Hoje, os judeus não são mais dignos de pena, mas sim temidos, odiados, odiados ou admirados e, em todos os casos, considerados uma força poderosa e implacável.

A identidade judaica mudou. Já não é símbolo de humilhação e sofrimento, mas sinónimo de dominação e triunfo. Não é mais necessário pensar desde Auschwitz. Devemos agora pensar a partir de Gaza.

A própria tradição judaica fala de dois Mashiach, aquele que sofre (Ben Yusef) e aquele que é vitorioso (Ben David). Após o holocausto europeu, o foco estava no sofrimento de Mashiach, a vítima. Hoje, esta Gestalt é substituída pelo vitorioso Mashiach, aquele que ataca, aquele que triunfa. Isto é particularmente evidente no próprio Israel. Mas é claro que não vai parar por aí. Há uma mudança de arquétipo messiânico entre todos os judeus do mundo.

É precisamente neste contexto que Donald Trump, um firme apoiante do sionismo de direita e de Netanyahu, chega ao poder nos Estados Unidos. Uma parte significativa da comitiva de Trump é composta por sionistas cristãos, que estão prontos a dar o seu total apoio a Israel. Mais uma vez, a capital da compaixão torna-se a capital da agressão. Isto é muito, muito sério e em breve irá piorar.

Por outro lado, não devemos tirar conclusões, julgamentos ou avaliações precipitadas. Você deve primeiro analisar cuidadosamente a situação e reunir os numerosos fatos, eventos e incidentes para ter uma imagem coerente dos acontecimentos.


NOTA DO TRADUTOR

A palavra Mashiach significa “ungido”. Antigamente, quando um rei subia ao trono, ele era ungido com óleo. Assim também, haverá um tempo no futuro em que um judeu que seja instruído e descendente do Rei David será ungido como rei e construirá um Templo em Jerusalém, e reunirá todos os judeus em Israel. Este Rei é Mashiach.

Nos dias de Mashiach, não haverá guerras nem fome, e todos terão tudo que desejam. Os judeus poderão sentar-se e estudar a Torá em paz e o mundo inteiro estará repleto do conhecimento de Deus. A geração em que estamos vivendo é a geração anterior à chegada de Mashiach, e esperamos ansiosamente sua chegada todos os dias.

Fonte aqui.