O Presidente russo, Vladimir Putin, durante a sua maratona anual de resultados do ano, um debate interativo na televisão com o público russo e os meios de comunicação social em Moscovo, a 19 de dezembro, falou longamente sobre os recentes acontecimentos na Síria.
Em 1970 passei a noite de Natal na zona de Nambude, na região de Moçimboa da Praia, em Cabo Delgado, em Moçambique, com uma companhia de comandos à espera que amanhecesse para assaltarmos uma base de guerrilheiros da Frelimo, tinha 24 anos. Em 1973 passei o Natal na península do Cantanhez, no sul da Guiné, com o Batalhão de Comandos a tentar expulsar o PAIGC das suas bases e zonas libertadas. Dois Natais em guerra, com armas a disparar, corpos a caírem, vultos a fugir, crianças a chorar, cheiro a pólvora e a vísceras. Talvez devido a esta experiência me sinta mais perto dos que passam o Natal debaixo de tiros e bombas. Talvez por essa experiência, todos os anos, pelo Natal, me confronto com a mesma perplexidade: Sei que feliz Natal desejo aos outros, sou sincero quando transmito os meus votos de Feliz Natal, mas sei de experiência certa e vivida que o Feliz Natal que eu desejo aos meus amigos, aos meus concidadãos, não é o Feliz Natal que os dirigentes do “meu mundo”, da minha civilização, da minha cultura, da minha religião me desejam nem aos meus concidadãos e, mais, o meu sincero Feliz Natal é, na boca deles e nas ações deles, uma hipocrisia, um jato de veneno. O Feliz Natal que os poderosos me desejam é que lhes obedeça e acredite neles.
Que Feliz Natal desejam os grandes do meu mundo, os do Ocidente Global, que é a nova alcunha do até agora Ocidente, o mundo que, como escreveu Camões, “nós, os portugueses, somos do Ocidente” e com essa afirmação, mais do que uma informação geográfica, queria dizer que eram cristãos? Sim, que feliz Natal nós, os do Ocidente, desejamos aos palestinianos (Israel é uma criação do Ocidente), aos ucranianos, aos russos, mas também aos sudaneses, e aos sírios, e aos afegãos e aos libaneses e aos magrebinos? Que prendas ou presentes enviamos, nós, os do Ocidente, aos outros povos? Que brinquedos ocidentais, cristãos, são distribuídos às crianças pelos aviões F35 e pelos carros de combate Merkava? Quem são os nossos Pai Natal? Netanyahou? E o presépio da Ucrânia inclui Vitoria Nuland, a promotora da revolta da Praça Maidan e parteira de Zelenski? E Putin é Herodes? E Trump faz de qual rei mago? Vivemos numa farsa que nós próprios alimentamos com perus e filhoses — e votos de Feliz e Santo Natal!
Santo Natal? Só por piada de mau gosto.
Nós, os cristãos do Ocidente, aceitamos que os nossos reis e rainhas façam do Natal uma feira de armamento, de ruínas, de mentiras, um casino com luzes a piscar e máquinas de fazer tilintar moedas? Sim, aceitamos. Vestimo-nos a preceito para a missa do galo, engalanamos as mesas com guardanapos coloridos e aumentamos as esmolas aos pobres à porta dos templos. E não nos esqueçamos de beijar o pezinho da pequena estatueta do Menino Jesus no final das missas. O menino Jesus teve sorte em escapar para o Ocidente a tempo. Se tivesse nascido em Gaza estaria cadáver embrulhado num lençol.
Sinto-me um privilegiado por poder passar o Natal com os meus, com a minha família e amigos, sem medo que a minha casa se desmorone, trocando presentes e não balas. Tenho direito ao meu Natal, sou cristão. É certo. Mas, e os outros? Trump, o reciclado imperador do Ocidente afirma-se cristão, também o rei Charles de Inglaterra, anglicano, com arcebispo de Cantuária devidamente entronizado, e o nosso presidente Marcelo, o sorridente, mais o rei de Espanha, a quem a família inferniza a vida, e os neofascistas italianos que vão fazendo o que podem para afogar os imigrantes no Mediterrâneo, os luteranos, os ortodoxos, os protestantes, os evangélicos e também o cristianíssimo António Guterres, secretário geral na ONU e excelente pessoa, orará pela paz, mas no seu caso sem jamais se ter atrevido a entrar em Gaza, a enfrentar os assassinos e a exigir a coragem de o matar em direto, todos se afirmam cristãos e desejam Feliz Natal em mensagens de filme da Walt Disney, de Tom&Jerry, enquanto distribuem bombas e minas por meio mundo.
Sim, o Ocidente, o cristianismo, está em guerra com meio mundo: na Eurásia, no Médio Oriente, na fronteira com o México, com a Venezuela, no centro de África, no Congo, em Moçambique, na Nigéria, na China, guerras quentes e guerras económicas. O Ocidente cristão mata povos cercados à fome! E não será da Praça de São Pedro, com bênção Urbi et Orbi, nem da catedral de São Paulo em Londres, ou da renovada Notre Dame que virá uma esperança de Feliz Natal! Talvez da NATO, que vai aumentar as cotas?
Sendo este o Natal que os cristãos têm para oferecer, e já que dos dirigentes políticos cristãos nem sequer seja de esperar um mínimo de humanidade, sim, de humanidade — porque não têm o Papa dos católicos, os bispos anglicanos, luteranos, os patriarcas ortodoxos, os bispos das “Iurdes”, os batistas, os adventistas, aqueles que tanto invocam o “santo nome de Deus” (em vão) a coragem de decretar: “Este ano não há Natal!”
Nada de extraordinário, acreditem. Não corriam risco de vida! Seria uma declaração como a de Lisístrata, a ateniense que na peça de Aristófanes reúne num templo as mulheres fartas da guerra e ali decidem por votação decretar uma greve sexual para forçar uma negociação de paz. Uma decisão do tipo da que que seria retomada no romance Tereza Batista Cansada da Guerra, de Jorge Amado, em que as prostitutas decidem uma greve de “balaio fechado”.
Este ano de 2024 foi marcado pelo facto inaudito de um ser humano, de nome Elon Musk, ter acumulado uma fortuna de tal modo monstruosa que lhe permitiu comprar um imperador e impô-lo ao mundo. Elon Musk ofereceu Trump ao mundo, um Menino Jesus de peso! O Natal de 2024 é o do nascimento de Trump nas palhinhas douradas de Musk. A cristandade abençoou o ato e deseja um Feliz Natal para todos nós! E enviamos cartões de Boas Festas uns aos outros!
Este ano, o meu desejo seria, pois, que os líderes religiosos cristãos decretassem que não há Natal enquanto houver guerra. Mas há a cobardia e o negócio das armas que promove os dirigentes políticos que por sua vez promovem os dignitários religiosos num sistema de vasos comunicantes…
O meu desejo seria que, existindo, o secretário geral das Nações Unidas reunisse a Assembleia Geral e convidasse os delegados das mais desvairadas partes do mundo a seguirem-no até à cave do edifício e aí, com a maior solenidade e em várias línguas, anunciasse que desligava a luz daquele mamarracho e que, inerte o monstro envidraçado, cada um dos embaixadores regressasse a casa, já que nada estavam a fazer ali a não ser a gastar energia nos gabinetes e nos elevadores.
Desejaria, pelo menos, que as luzes do comércio do Natal fossem desligadas na noite de Natal para assinalar a falsidade dos desejos que nos vão ser enviados dos púlpitos e dos ecrãs de televisão, mas há eleições para as câmaras municipais…
O Ocidente tem uma religião: há Natal porque há negócio! Presentes! Também há guerra porque há negócio… Alguém tem de pagar as iluminações de Natal e as bombas durante todo o ano.
Queria escrever hoje um texto anódino, afastado da política, dos conflitos e das mazelas que grassam pelo mundo, uma salva de palmas aos sorrisos e à esperança. Não o consegui fazer completamente, porque não quis adornar sob um peso grande de consciência.
Daí ter escolhido a imagem acima, como embaixadora da nossa mensagem de Natal. Sim, há milhares que estão a ser imolados no altar do genocídio prepertado pelos assassinos de Israel, e cujo Natal é uma ode ao terror e uma porta para a morte.
Não fora esse cancro humano, que alastra diante dos nossos olhos e que ninguém ousa parar, e a imagem que teríamos escolhido seria a que podem ver aqui ao lado.
Por isso, algumas reflexões que partilhamos nos assaltam.
Natal. Seja lá o que isso for. Não é por fazermos votos de bom Natal que passaremos a ter um Mundo melhor. Nem que a vida passe a ser melhor para milhões de deserdados e sofredores da iniquidade e de um sistema económico que prospera cada vez mais para poucos em detrimento da grande maioria.
Mas as comunidades também vivem de rituais e da partilha de comportamentos. As tradições são isso mesmo. Uma herança da memória de outros tempos, por vezes atavismos fora de época. E essa partilha pode gerar uma resultante social, positiva ou não, construtiva ou não. Dinâmica para a esperança ou dinâmica para coisa nenhuma.
E neste Natal, em particular, dinâmica também para o perigo da escalada dessas guerras insanas que estão a povoar o Mundo e a ameaçar as nossas vidas. Sim, porque os morticínios não são “lá longe”, entram-nos casa adentro, todos os dias em doses cavalares, servidos pela nudez crua das imagens das televisões. E que nos lembremos que não são marionettes mas sim seres humanos que estão a ser espezinhados por outros seres humanos. A barbárie a que urge pôr cobro, assim a paz se impusesse, ao menos porque é Natal…
Natal. Seja lá o que isso for, é pelo menos uma pausa na rotina de muitos de nós. Algumas liturgias tomam conta do quotidiano. As prendas, as crianças, as ceias, os encontros e reencontros familiares, os presépios e outros símbolos para os crentes e até para os menos crentes.
E por isso mesmo, quer queiramos quer não, o Natal é sempre uma singularidade, no percurso do calendário anual. Quer para os que o vivem em esperança, em fervor e em otimismo, quer para os que amargamente sofrem o desânimo de nada ter para vivenciar, e para os quais o Natal é apenas mais um dia no caminho de um calvário repetido e constante. Lembremo-nos desses, reflitamos porque são as coisas assim e questionemos porque terão que ser assim.
E para que se mantenha a tradição, para todos os meus amigos e para todos os que me lêem. aqui ficam os meus votos de Feliz Natal. Seja lá o que isso for. Seja lá o que cada um queira que seja, e que possa ser, nestes tempos sombrios de guerra e de barbárie.