Montenegro luta pelo poder e receia a crise

(João Gomes, in Facebook, 06/03/2026)


Há apenas poucas semanas, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, garantia aos portugueses que governaria durante quatro anos. A promessa parecia simples, direta e quase tranquila, como quem acredita que o caminho está limpo de obstáculos. A política, porém, raramente respeita calendários anunciados com tanta confiança. De repente, o cenário mudou.

Uma devastadora sequência de tempestades no centro-sul do país destruiu uma parte significativa da produção nacional, afetando cadeias industriais e agrícolas e abrindo um rombo financeiro que poderá ultrapassar os quatro mil milhões de euros. Um impacto próximo de um ponto percentual do PIB – o suficiente para transformar previsões orçamentais otimistas numa realidade muito mais incerta.

Quando um governo ainda procura resolver velhos problemas estruturais – saúde pública em tensão permanente, dificuldades na política de imigração, mercado de trabalho pouco dinâmico e uma execução lenta dos fundos europeus – a chegada de uma crise inesperada tem o efeito de revelar aquilo que já existia: fragilidade na capacidade de resposta do Estado.

É neste contexto que a política portuguesa entra num momento curioso. Passos Coelho decidiu reaparecer no debate público com críticas claras à direção política atual. Não é um gesto banal. Na tradição dos grandes partidos portugueses, antigos líderes raramente intervêm de forma tão direta quando o partido está no poder. Quando isso acontece, normalmente significa que algo mais profundo está a mover-se nos bastidores.

Ao mesmo tempo, surge outra sombra política: o caso da empresa Spinumviva, ligada ao próprio primeiro-ministro. Embora não exista acusação criminal, a decisão do Tribunal Constitucional de permitir a divulgação de informação relevante mantém o tema no centro do escrutínio público. Em política, muitas vezes o problema não é a ilegalidade comprovada, mas a suspeita persistente.

Como se não bastasse, o ambiente internacional também começa a mudar. A tensão no Médio Oriente e a guerra envolvendo o Irão já provocaram oscilações significativas no preço dos combustíveis. A história económica europeia mostra que estas crises energéticas raramente ficam confinadas ao mercado petrolífero: rapidamente se transformam em inflação, aumento do custo de vida e pressão social.

Perante este cenário acumulado – crise natural, pressão económica, escrutínio político e críticas internas – Montenegro tomou uma decisão que revela tanto confiança como prudência: convocar eleições internas no seu partido. Foi uma mensagem clara. Quem quiser contestar a sua liderança terá oportunidade de o fazer nas urnas do partido. É um gesto político clássico. Ao antecipar o confronto interno, o líder procura transformar a contestação difusa num desafio claro e imediato. Se vencer, reforça a sua legitimidade; se perder, o problema deixa de ser apenas político e passa a ser institucional. Porque, nesse caso, Portugal entraria numa zona politicamente delicada.

Se o líder do partido do governo deixar de ser primeiro-ministro – ou se o partido escolher outro líder – abre-se inevitavelmente uma questão constitucional e política: quem governa e com que legitimidade parlamentar? Em teoria, o chefe do governo pode continuar em funções. Na prática, o sistema político português dificilmente toleraria tal dissociação durante muito tempo. É por isso que as eleições internas do partido podem acabar por ser mais relevantes do que parecem. Não se trata apenas de uma disputa de liderança. Trata-se de um teste ao equilíbrio de poder dentro do próprio governo.

Entretanto, enquanto a política se reorganiza, os problemas estruturais do país continuam praticamente no mesmo lugar onde estavam antes das tempestades. O sistema de saúde permanece pressionado, a política de imigração continua a gerar divisões, o mercado de trabalho não mostra sinais claros de transformação e os grandes projetos financiados pela União Europeia avançam mais devagar do que o discurso oficial sugere. Portugal parece viver um curioso paradoxo: a política move-se rapidamente, mas os problemas movem-se muito pouco.

Se Montenegro vencer as eleições internas, poderá apresentar o resultado como uma renovação de confiança. Mas isso não eliminará os desafios que se acumulam à porta do governo. Se, pelo contrário, perder – hipótese ainda teórica – Portugal poderá entrar num novo ciclo político marcado por reorganização partidária, eventual mudança de liderança governativa e até eleições antecipadas.

Assim, o país aproxima-se de maio com uma pergunta no ar: saber se estamos perante um simples episódio de turbulência política ou perante o início de uma nova fase na vida política portuguesa. Entretanto, como tantas vezes acontece em Portugal, a política discute o poder enquanto o país espera pelas soluções.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Imagina que a Democracia tem um “final feliz”

(Luis Rocha, in Facebook, 05/03/2026, mural de António Reis, revisão Estátua )


Imagina que um homem extremamente bem relacionado te convida para almoçar. Não um almoço qualquer, claro. Um daqueles almoços onde a lista de convidados parece saída de um encontro entre a realeza, Wall Street, Hollywood e meia dúzia de políticos que juram nunca ter estado ali. Imagina que o anfitrião é educado, inteligente, simpático, daqueles que conhecem toda a gente e que, curiosamente, toda a gente parece conhecer.

Imagina que, a meio da tarde, o anfitrião te pergunta com a naturalidade de quem oferece café se queres uma massagem. Nada de estranho. Stress, agenda cheia, o mundo é duro para quem tem responsabilidades. Depois mostra-te uma sala com jovens raparigas que parecem ter saído de um catálogo de spa tropical.

Imagina que aceitas. Imagina que a massagem termina com um daqueles chamados “finais felizes” que, convenhamos, transformam rapidamente qualquer spa numa tese prática sobre hipocrisia humana. Oral, manual, talvez mais do que isso. Um momento breve de decadência privada entre adultos que, naquele instante, acreditam que ninguém está a ver.

Agora imagina que dias depois o teu anfitrião telefona. E com uma voz perfeitamente tranquila te informa que as jovens eram menores. E que, por acaso, tudo foi gravado. Parabéns. Acabaste de ser promovido a marioneta.

Agora imagina que és juiz. Estás a decidir um processo delicado do tipo pedofilia, corrupção, tráfico de influências ou evasão fiscal. O tipo de caso que aparece nos jornais, e faz os discursos sobre moralidade pública florescer como papoilas em Maio. Imagina que o telefone toca. Do outro lado está o teu antigo anfitrião. Não pede nada de forma direta, claro. Pessoas sofisticadas não fazem chantagem de forma vulgar. Limitam-se a recordar-te que a memória digital é uma coisa extraordinária. E que certos vídeos envelhecem muito mal.

Imagina agora que és político. Tens de votar legislação sobre controlo de armas, direitos laborais ou regulação ambiental. Discursos inflamados no parlamento, entrevistas televisivas, promessas de integridade. Tudo muito digno. Até te lembrares da sala de massagens. E da câmara no canto.

Imagina que és editor de um grande jornal. Um desses guardiões da verdade que escrevem editoriais sobre ética pública e civilização ocidental. E imagina que sabes que existe um ficheiro com o teu nome. Um ficheiro onde a tua dignidade aparece reduzida a meia hora de spa altamente comprometedora.

Agora imagina que o teu simpático anfitrião afinal não era apenas um milionário excêntrico com amigos influentes. Imagina que era um operador. Um ativo. Alguém financiado para recolher segredos, fragilidades e pecados de gente poderosa. Um colecionador de compromissos humanos embalados em vídeo. Um homem chamado Jeffrey Epstein.

Imagina também que a sua companheira, Ghislaine Maxwell, não era apenas uma socialite elegante, mas também filha de Robert Maxwell, figura rodeada durante décadas pela aura de colaboração com os serviços de inteligência israelitas. E imagina que, quando Robert Maxwell morreu, recebeu funeral com honras em Israel.

Mas claro, tudo isto são coincidências. A História adora coincidências. Imagina agora a dimensão da coleção. Príncipes, bilionários, senadores, governadores, jornalistas, juízes, académicos e até presidentes. Um verdadeiro museu das elites ocidentais. Alguns desses nomes surgiram publicamente. Outros ficaram convenientemente protegidos pela névoa jurídica e pelo silêncio institucional.

Depois imagina que um dia o colecionador morre numa prisão. Oficialmente suicídio. Câmaras que não funcionam. Guardas que dormem. Protocolos que falham todos ao mesmo tempo, como se a incompetência tivesse decidido fazer uma festa. E imagina que, pouco depois, desaparecem gravações. Desaparecem documentos. Desaparecem provas.

Porque revelar tudo seria… inconveniente. Não para a justiça, naturalmente, essa gosta de luz, mas para uma certa elite global que descobriria, de repente, que a moralidade pública tinha sido administrada por um clube privado de pecadores gravados em alta definição.

Imagina agora a última cena. Milhares de pessoas poderosas continuam nos seus cargos. Fazem discursos, votam leis, escrevem editoriais, tomam decisões sobre guerras, economia e liberdade. E talvez algumas delas, quando o telefone toca à noite, sintam aquele frio muito particular na espinha.

Não é culpa. Não é arrependimento. É apenas a lembrança de que algures pode existir um vídeo.

E que, no grande teatro da política mundial, a democracia pode até parecer um sistema de governo. Mas às vezes funciona mais como um espectáculo de marionetas.

.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Os preços do transporte do GNL disparam 650%, para US$ 300.000 por dia

(Charles Kennedy, in IslanderReports/, 05/03/2026, Trad. da Estátua)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Os preços do transporte marítimo do gás liquefeito (GNL) subiram de US$ 40.000 para US$ 300.000 por dia — um aumento de 650% em menos de uma semana — e os homens que ordenaram os ataques que causaram isso, ainda desfilam pela Sala Oval falando sobre “força”. Isso não é força. Isso é a economia da catástrofe a desenrolar-se em tempo real, que chegará a todas as mesas de jantar, de Tóquio a Turim, antes que alguém em Washington termine de ler o relatório da inteligência que provavelmente nem se darão ao trabalho de ler.

O Estreito de Ormuz — por onde transitam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, representando mais de 20% do comércio marítimo global de petróleo — deixou de funcionar como corredor comercial, e o que está a causar esse fecho tem menos a ver com os mísseis iranianos e mais com o mercado de seguros, a mão invisível do capital que todos em Washington dizem venerar, dando repentinamente o seu veredicto honesto sobre a Operação Epstein Epic Fury. Grandes operadoras comerciais, companhias petrolíferas e seguradoras retiraram-se efetivamente do estreito, criando um encerramento de facto, comparável à interrupção do Mar Vermelho — mas com volumes muito maiores em jogo. O mercado manifestou-se. O lobby da guerra, aparentemente, não lhe deu ouvidos.

O Catar declarou motivos de força maior na interrupção das exportações de gás, e fontes afirmam que pode levar pelo menos um mês para que os volumes de produção retornem aos níveis normais — o que significa que os mercados globais de gás sofrerão com a escassez durante semanas, mesmo no improvável cenário de que o conflito termine hoje. Leia essa frase novamente com calma. Mesmo que parasse agora. Mesmo que todas as bombas parassem de cair esta tarde e todos os mísseis fossem desativados, o dano já seria irreparável. A cadeia de fornecimentos já foi interrompida, a infraestrutura criogénica já está a ser desligada — porque a natureza criogénica do GNL exige armazenamento especializado que mantenha temperaturas de aproximadamente -160 °C, tornando impossível simplesmente armazenar o excesso de produção em instalações temporárias, e, uma vez que as interrupções ocorram, a retoma das operações requer semanas de reabilitação cuidadosa e sequencial para evitar um choque térmico em todo o sistema.

O Catar fornece 20% do GNL mundial — e, sendo essa oferta interrompida, os países terão de competir pelo que resta. O Japão compete. A Coreia do Sul compete. Taiwan compete. A Índia, que obtém quase metade do seu consumo de GNL do Catar através de contratos de longo prazo, compete. Não se trata de atores geopolíticos abstratos — são as fábricas que produzem os semicondutores, as redes elétricas que mantêm os hospitais em funcionamento, as cadeias de abastecimento de fertilizantes que alimentam um bilião de pessoas, e todas elas estão agora a competir num mercado à vista (spot) que perdeu um quinto do seu abastecimento da noite para o dia. É assim que se apresenta uma falha sistémica em cascata antes de chegar aos noticiários.

Os contratos de futuros de gás natural TTF na Holanda, o contrato de referência para o mercado europeu, subiram 35% somente na terça-feira, com os preços acumulados durante a semana a subirem aproximadamente 76%, enquanto o índice de referência Japão-Coreia atingiu a maior cotação num ano. A Europa, ainda carregando as cicatrizes de 2022, quando a guerra da Rússia contra a Ucrânia mergulhou o continente numa convulsão energética que custou centenas de biliões para sobreviver, agora enfrenta um segundo choque — este detonado por um aliado que traçou o alvo, puxou o gatilho e entregou à Europa os destroços como um facto consumado — sem consulta, sem aviso prévio, sem estrutura para o que viria a seguir, apenas a conta. A paralisação também afeta produtos derivados, incluindo ureia, polímeros, metanol e alumínio, o que significa que a queda nos preços se propaga pelas cadeias de abastecimento industriais como uma lenta hemorragia em todos os setores que utilizam energia como input — ou seja, todos os setores.

A Maersk, a Hapag-Lloyd e a CMA CGM suspenderam as operações no Estreito de Ormuz, redirecionando os navios para contornar a ponta sul de África — o que acrescenta semanas ao tempo de trânsito e aumenta os custos em todo o ecossistema de transporte marítimo de contentores. A economia global just-in-time já estava com margens reduzidas após a Covid, e agora absorve viagens seis semanas mais longas, com prémios de seguro no limite máximo e sem uma data clara para a normalização. Cada atraso tem um preço. O trabalhador têxtil do Bangladesh cuja fábrica ficou sem energia este mês não votou a favor desta guerra. O marinheiro filipino que redirecionou a sua rota ao redor do Cabo da Boa Esperança pela terceira vez este ano também não. O custo é transferido para baixo com perfeita precisão — longe das pessoas que tomaram a decisão -, para todos aqueles que não tiveram participação nela e não têm proteção contra ela.

Porque o que está a acontecer não é uma perturbação energética regional — é a remoção deliberada de aproximadamente um quarto do abastecimento mundial de energia marítima do mercado global, não por acidente, não por erro de cálculo nas margens, mas como consequência direta e previsível de uma guerra de escolha travada em nome de um governo em Telavive que agora arrastou Washington para um confronto com consequências que se espalharão por todas as economias do planeta que não podem imprimir a sua própria moeda de reserva. Os países fortemente dependentes da energia importada e com espaço fiscal limitado — Japão, Índia, África do Sul, Turquia, Hungria, Malásia — são os mais expostos ao choque, enquanto os arquitetos deste desastre desfrutam do isolamento da produção doméstica de xisto e do privilégio de fixar o preço do petróleo na sua própria moeda. O Sul Global pagará o preço mais alto por uma guerra que nunca votou, nunca quis e sobre a qual nunca foi consultado.

A pandemia da Covid custou ao mundo aproximadamente 13 triliões de dólares, e esta situação será de uma ordem de magnitude pior, a um nível de suicídio económico que faria Darwin revirar-se no túmulo. Não há saída, apenas a aritmética cumulativa de uma guerra de escolha, cujos custos serão distribuídos com precisão implacável por todos os que não tiveram voz na decisão. Chegará não como manchete, mas como uma conta — uma conta de gás em Rotterdam, um corte de energia em Karachi, o fecho de uma fábrica em Busan, que nenhum fundo de emergência conseguirá cobrir totalmente a tempo.

Biliões de pessoas na Ásia, África e no Sul Global são agora as vítimas colaterais não consultadas de uma guerra travada por razões sobre as quais nunca tiveram direito a voto e por objetivos que nunca lhes foram apresentados. Elas sobreviverão, a maioria delas. Elas reconstruirão as suas vidas e lembrar-se-ão — com uma clareza que nenhum briefing do Pentágono, nenhum documento do Departamento de Estado e nenhuma declaração presidencial cuidadosamente elaborada jamais extinguirá — exatamente de quem decidiu e exatamente quem pagou. Mas a conta da traição será apresentada a pagamento, e essa será muito maior do que a económica.

Fonte aqui