Até já

(Raquel Varela, in Blog raquelcardeiravarela.wordpress.com, 11/10/2025)


Como é público, a nova Direção de Informação da RTP decidiu não continuar a contar comigo nos programas de debate semanal. Quero, ao final destes 11 anos, deixar aqui algumas notas que serão, espero, sinceras e delicadas.

Quero agradecer a quem me convidou, a quem esteve na organização e na produção, dos jornalistas aos técnicos de som, imagem, produção, realização, maquilhagem, cabeleireiro, um trabalho imenso e essencial. Fui acarinhada por tantos. 

Quero agradecer aos amigos, colegas, camaradas (gosto desta palavra) com quem discuti semanalmente os temas, e a muitas outras dezenas de pessoas a quem, consoante os assuntos, telefonei, com quem me reuni para aprofundar saberes que nenhum indivíduo sozinho domina. 

Vivi anos em países “nórdicos” onde a sinceridade não é vista como má educação. São países mais adultos e com uma esfera pública mais desenvolvida. Em Portugal, o desacordo frontal é mal visto (a não ser nos programas sobre futebol) e rapidamente se passa de debater ideias a acusar e insultar pessoas. Em suma, as pessoas fogem ao debate porque acham que assim evitam conflitos ou porque assim fomos habituados à força por décadas de ditadura. Mas o que acontece é que a violência verbal, a desconfiança, a coscuvilhice se instalam nessa ausência de debatermos frontalmente as divergências. 

A minha saída do comentário semanal da RTP não se deve certamente a audiências, já que em todos os programas onde estive elas subiram. Há, porém, muitos programas sem grandes audiências que são excelentes, outros com grandes audiências que são uma desgraça para o nível geral de educação do país (desqualificam-no e embrutecem-no) e alguns com boas audiências que são bons ou excelentes. Saio por uma escolha política – todas as escolhas são políticas, e devemos falar abertamente delas.

Há um quadro de mudança política no país. Está no poder um Governo da AD, com o apoio da IL, com influência crescente do partido fascista Chega. Há uma situação mundial de degradação do modo de vida e do debate de ideias. O Presidente dos EUA comunica por tweets e memes, e disse querer transformar Gaza num resort. Por cá, o presidente do Chega lidera uma organização racista que usa a mentira como arma política de eleição, e a internet está cheia de perfis falsos que reproduzem a propaganda do Chega. A União Europeia corta o orçamento para a saúde, para a educação, para a agricultura para produzir drones carros e aviões de combate, munições para matar, amputar e dizimar o género humano, a primeira pátria a que pertenço.

Pautei-me todos estes anos por uma defesa intransigente da liberdade de expressão.  Mesmo contra um centro-esquerda capitulador, moralista e descafeinado. Aquilo a que hoje se assiste é, porém, de enorme gravidade. Tenho vinte anos de carreira como historiadora e professora. Se afirmo que o Chega é fascista não é para produzir efeito mediático. Sou cuidadosa com os conceitos. Estamos a viver a legitimação do irracionalismo, do culto do Estado, da punição, da violência verbal (e física) contra os percebidos como mais fracos e da mentira como “opinião”. Que o Estado tenha legalizado isto é uma coisa, que eu como historiadora o aceitasse seria uma rutura ética com o meu trabalho. 

A minha saída de comentadora da RTP fragiliza ainda mais a esfera pública. Não por mim, pois ninguém é insubstituível. Mas porque as vozes como a minha não representam mais uma “opinião”. Reflectem um modo de pensar a sociedade em que vivemos, com demonstração de argumentos e critério de verdade – errando, também  -, que  discorda abertamente dos grandes mantras da opinião publicada: a inevitabilidade do capitalismo, e da guerra, a naturalização do sofrimento e assédio contra quem trabalha. Defendi a Democracia sem adjetivos, que só pode ser de base, participativa, e a auto-organização dos cidadãos, plenos no uso da Razão, independente do Estado. 

A voz pública é uma necessidade. Deve ser séria e diversa. É-o cada vez menos. E é isso que tem levado, também, à quebra de audiências – a repetição ad nauseam dos mesmos argumentos, da mesma falta de imaginação ou de vontade para repensar a sociedade. O que produzimos? Para quem produzimos? Como produzimos? Estas questões, que são centrais para a humanidade, quase nunca são feitas, fagocitadas por uma comunicação ligeira e ideologicamente homogénea.

Estive, por vezes sozinha como comentadora, ao lado das primeiras greves dos estivadores, da greve cirúrgica dos enfermeiros, da paralisação dos camionistas e da greve dos trabalhadores da AutoEuropa contra o trabalho ao domingo, todos alvo de campanhas mediáticas que pareciam verdades indiscutíveis na altura e mentiras descaradas dias depois. E estive, com poucos mais comentadores, ao lado das greves dos professores, médicos, maquinistas, transportes em geral, sustentando o que para mim é óbvio – se há alguém capaz de parar esta deriva para a guerra e para a morte são os trabalhadores organizados.  

Nos últimos anos, nunca saí de casa sem que viessem ter comigo pessoas para falar, agradecer, apoiar, conversar. Recebi carinho e afeto, abraços, nos cafés, nos aviões, nas filas de serviços apinhados, nas escolas, entre as empregadas de limpeza de jardins e trabalhadores da ferrovia, motoristas e professores, enfermeiros e médicos. Tudo isso me ajudou a conhecer um país decente, que existe, embora muitas vezes sem voz. Muito obrigado a todas e a cada uma dessas pessoas. Ajudaram-me muito a crescer e a ter força para continuar.

Há um Portugal sentado e outro de pé. O de pé é quem vive do trabalho, e que todos os dias assegura a produção e a reprodução da nossa vida. É nesse país, dos que trabalham, que me revejo e ao qual procurei dar voz. Se fui um pouco voz desse Portugal ignorado, valeu a pena.

Continuarei a fazer ouvir a minha voz e ideias, a defender os trabalhadores e os seus direitos, a dar aulas públicas e conferências, cursos, documentários, livros, a lutar por um outro país assente no bem comum, na igualdade real, na democracia do povo e na liberdade. 

Até breve.

Fonte aqui

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Nobel da Paz a Maria Corina: O Apito de Cachorro do Capitalismo

(Por Camilo Júnior in Tribuna Multipolar, 10/10/2025)


É a paz dos vencedores, a paz do capital que dita quem deve ser canonizado e quem deve ser bombardeado.


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A atribuição do Prêmio Nobel da Paz a Maria Corina Machado não é, antes de tudo, um reconhecimento a feitos pacíficos.

É um gesto geopolítico de alta voltagem, um “apito de cachorro” audível para quem compreende as linguagens do poder global.

Longe de celebrar a paz, o prêmio a instrumentaliza, transformando-a num arsenal de guerra híbrida contra Estados soberanos que desafiam a hegemonia ocidental.

A farsa reside no próprio contraste.

Enquanto a Venezuela, sob o mesmo modelo de sanções econômicas que Maria Corina defende publicamente, vê seu povo passar fome e falta de medicamentos, premeia-se uma figura política cujo projeto está alinhado com os arquitetos desse cerco asfixiante.

O Comitê do Nobel, com essa escolha, não honra a memória de Martin Luther King ou Nelson Mandela; alinha-se à seletividade do Tribunal Penal Internacional, que só morde os “descalços”, como bem lembrou Eduardo Galeano.

É a paz dos vencedores, a paz do capital que dita quem deve ser canonizado e quem deve ser bombardeado.

Maria Corina não é uma ativista pelos direitos humanos em sentido universal. É uma peça no tabuleiro do Grande Jogo pela dominação dos recursos.

Sua luta não é pela paz na Venezuela, mas pela “paz” do capital: a pacificação de um território rico e estrategicamente vital, submetendo-o de volta à órbita de influência que o Chavismo rompeu.

Seu Nobel é o prêmio de consolação que o Ocidente concede a seus aliados nativos quando a vitória não vem pelas urnas ou por meios convencionais.

O “apito de cachorro” soa claro para seus destinatários: é uma mensagem de incentivo à oposição interna e um sinal para o mundo de que a campanha de desestabilização contra a Venezuela continua com o mais alto patrocínio.

É a cobertura “humanitária” para uma agenda de mudança de regime.

A linguagem da paz é usada para promover a guerra econômica e a ingerência, tal como fizeram no passado com figuras que, após receberem honrarias semelhantes, presidiram sobre nações arrasadas.

Este prêmio corrompe o significado da paz. Ele a reduz a um instrumento de soft power, uma arma para legitimar a desestabilização de governos não alinhados.

Ao celebrar Maria Corina, o Comitê do Nobel não está promovendo a concórdia entre os venezuelanos; está tomando partido em um conflito político complexo, alimentando a divisão e legitimando uma oposição que não conseguiu, até agora, derrotar o seu adversário no campo democrático.

A verdadeira paz, aquela que brota da soberania, da autodeterminação e da justiça social, não será encontrada em estrelas douradas concedidas em Oslo. É e será construída pelo povo venezuelano, longe dos holofotes internacionais e dos apitos de cachorro do capital.

Este Nobel não é um farol de esperança; é o reflexo dourado de uma nova cortina de ferro, que separa os eleitos do capital daqueles condenados a resistir sob o peso dos seus bloqueios e do seu moralismo seletivo.

Fonte aqui

(*) Texto em português do Brasil de acordo com o original

O regresso do Major-general Carlos Branco à televisão

(Estátua de Sal, 10/10/2025)


Parece que a CNN prefere a Soller e a Ferro Gouveia, que nunca devem ter visto uma pistola na vida, a dissertarem sobre guerra e geopolítica. Sim, porque a estação dar liberdade ao Major-general para dissertar sem peias era uma ameaça para a coerência das suas diárias mensagens de propaganda manipuladora das mentes.

Assim sendo, restava a Carlos Branco mudar de canal, pelo que acaba de escrever na sua página do Facebook:

Serve esta mensagem para informar que reiniciarei o comentário televisivo no próximo domingo, pelas 14 horas, mais coisa menos coisa, no canal NOW, num programa denominado “O Tabuleiro do poder”. Conto que assistam e divulguem esta mensagem pelas vossas redes sociais.

Sobre este regresso, veja-se também a notícia que segue abaixo, assinada pelo jornalista Miguel Azevedo e publicada hoje no Correio da Manhã.

Major-general Carlos Branco reforça o NOW

Estreia acontece dia 12 e a presença passa a ser regular aos domingos na rubrica ‘O tabuleiro do Poder’.


O Major-general Carlos Branco, especialista em assuntos militares, é o novo reforço do NOW. Estreia-se no ecrã já dia 12, passando a ter presença assídua no canal aos domingos na rubrica ‘O tabuleiro do Poder’, incluído no Jornal da Hora do Almoço. Ao CM, Carlos Branco fala de um desafio “bastante aliciante” e explica a opção: “Foi-me dada a oportunidade de ter um programa em que tenho liberdade para escolher os temas que quero discutir. Era difícil de recusar”, explica, sublinhando o caminho que a NOW está a fazer. “A evolução das audiências fala por si. Os recentes desenvolvimentos apontam para o crescimento. Espero contribuir para isso”.

Prometendo “informação isenta de uma pessoa que esteve no terreno e conhece os assuntos”, concorda que a atualidade política internacional está particularmente rica mas lembra que “há mais mundo para lá das guerras da Ucrânia. Há um leque bastante alargado de temas que devem merecer a nossa atenção e que têm um imenso impacto nas nossas vidas”.

De recordar que Carlos Branco deixou a CNN Portugal, em julho, depois de um momento de tensão em direto com o jornalista Pedro Bello Moraes. “O que aconteceu foi muito grave. Foi um exercício de incompetência sem consequências, nem na CNN nem nas instituições que regulam a atividade dos jornalistas”. Sobre as acusações de ser pró-Rússia responde: “ Falar verdade não é ser pró-Putin. Nunca alinhei na mentira, apesar de estar consciente das consequências das posições que tomei”.