Conversas de alcova

(José Gameiro, in Expresso, 20/11/2020)

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As histórias de espionagem através das alcovas são muito antigas. Mais as de mulheres a espiarem homens do que o inverso. Talvez porque os homens são mais ‘tontos’ a guardarem segredos quando estão embeiçados por uma senhora. As grandes guerras europeias estão repletas de histórias de mulheres que correram grandes riscos de vida, algumas foram executadas, porque seduziram inimigos para lhes ‘sacar’ informação política e militar. Nos tempos atuais, as coisas são mais sofisticadas, mas os riscos de partilhar informação financeira nos calores da intimidade podem ser elevados.

O amor é o sentimento que mais desperta emoções violentas, para o bem e para o mal. Esta verdade de La Palisse raramente acaba nos tribunais e nas prisões, felizmente. Mas há traições que são muito mal vistas por quem as sofre.

Chamemos-lhe Adérito. Um nome que acho adequado a um tratamento de código .O nosso homem teve uma vida vulgar até àquele dia fatídico. Fez o seu curso superior quase todo à custa das colegas, que lhe passavam os apontamentos e o deixavam copiar nos testes. Contava, entre amigos, um episódio de que se gabava. Numa disciplina de cálculo — o Adérito só sabia a tabuada e pouco mais —, a namorada de ocasião, rápida e eficiente, conseguiu passar-lhe o teste já resolvido. Ele copiou-o e aproveitou para vender as respostas aos amigos. Na hora de o entregar, ouviu-se na sala uma voz feminina desesperada: “Onde está o meu teste?”

Casou com a namorada da juventude, depois de adiar a união durante uns dez anos, como ele dizia, para poder gozar a vida. Única herdeira de um industrial de sucesso, rapidamente engravidou e, por pressão do pai e do marido, ficou em casa a tratar dos filhos. O Adérito lá ia cumprindo as suas obrigações conjugais, nos mínimos. Em abono da verdade, ela agradecia que ele “não a procurasse muito”. As aventuras iam-se sucedendo, cada vez mais às claras. O Adérito não se apaixonava, gostava, como ele dizia, de “carninha fresca”. Não tinha amigas que lhe explicassem o que é uma mulher. Os negócios iam de vento em popa. As comissões sucediam-se e os testas de ferro também. Movimentava-se cada vez melhor no mundo do imobiliário e nas cascatas de empresas que não se sabe onde nascem nem onde desaguam. Até que, um dia, se tomou de amores. Parecia ser mais uma secretária, das muitas que ia tendo mas que despedia quando já sabiam demais. Nem sequer era muito “fresca”, como ele dizia aos amigos. Mas tinha qualquer coisa que o prendia, pela primeira vez. Saiu de casa e foi viver com ela. Negociou com a mulher o divórcio, deixou-a bem, como se diz nestes meios.

A pouco e pouco, ela foi tomando conta de todas as operações financeiras. Viajavam sempre juntos, espalhando glamour junto das famílias tradicionais que tinham aderido ao mundo das margens da legalidade. Mas o Adérito tinha dentro dele o gene da transgressão. Numa destas viagens não resistiu a uma princesa falida mas que tinha artes de encantar como ele nunca tinha conhecido. Pela primeira vez, ficou preocupado. Tentou justificar viagens em que teria de ir só. Telefonemas e mensagens a horas mortas, um azar nunca vem só, e a senhora vivia num fuso horário muito diferente.

Quando foi apanhado, tentou a velha tática, negar tudo e sempre. Percebeu que era, afinal, um grande ingénuo. Estava tudo gravado. Pensou: “Paciência, vou ter mais cuidado, mas não consigo deixá-la. Nunca ninguém me tocou tão fundo.” O Adérito confirmou, umas semanas depois, que, mesmo tendo ‘colecionado’ dezenas de mulheres, não fazia a mínima ideia do que elas eram capazes. Sei que estou a ser injusto na generalização. A secretária, organizada como lhe competia ser, entregou o dossiê completo. Às 7h de uma manhã de nevoeiro, ainda com poucas horas de sono, depois de uma noite real, a polícia local bateu-lhe à porta do quarto, num hotel de luxo, algures no mundo. Algemado, não conseguiu deixar de pensar numa frase que o cineasta Luis Buñuel disse no ocaso da vida. “Nunca mais me vejo livre do tirano…”


Requiem para Rio

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 20/11/2020)

Clara Ferreira Alves

“A política é um capítulo da moral e por isso estamos aqui”
Sophia de Mello Breyner

(Sessão de apoio ao Solidariedade da Polónia, promovida por Mário Soares nos anos 80)


Apontando a “urubuzada de prato cheio”, Jair Bolsonaro atesta que é tempo de o Brasil deixar de ser um “país de maricas” e de ter medo da covid. “Toda a gente tem de morrer” diz o másculo profeta que compara os jornalistas a um bando de abutres ou urubus. Quase 170 mil mortos mais tarde, aqui chegámos no país irmão.

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Pode ser que haja um cidadão a achar graça a Bolsonaro, gabando-lhe o estilo solto e incorreto que cai muito bem nas redes e nas seitas. Pode ser que haja um cidadão que veja neste chefe de caserna um labrego moralmente responsável por milhares de mortos no país. E não vamos falar da destruição das florestas da chuva da Amazónia.

Nenhuma das duas definições apaga a principal característica de Bolsonaro, a ignorância aureolada de estupidez. Sim, Bolsonaro é um estúpido, ou boçal, ou bestial (de besta), ou entupido, ou grosseiro, ou falho de inteligência e delicadeza, segundo a velha definição do dicionário. Bolsonaro é idiota, imbecil, estólido, estulto. É um asno na definição popular que compara o estúpido a um animal inocente como o burro, que de estúpido nada tem. Disse Einstein que só havia duas coisas verdadeiramente infinitas, o universo e a estupidez humana. E sobre a infinitude do universo, não estava certo. A estupidez está descrita clinicamente, e tem leis que a regem descritas por Carlos Cipolla. É uma verdade científica a sua existência, embora possa ser empiricamente apreciada com facilidade. E é subestimada, ao subestimar-se o número de indivíduos estúpidos em circulação. Cipolla, historiador da economia e medievalista, preocupou-se em distinguir o estúpido do ingénuo, com o qual pode ser confundido com benevolência.

No exemplo de Bolsonaro, a ingenuidade não entra. Neste mandarim detetamos a luz bruxuleante dos parcos atributos escoados numa política assassina. Bolsonaro é um estúpido clássico promovido muito acima da sua competência num país com uma subclasse sem instrução e uma classe superior instruída na corrupção, no oportunismo e na manipulação que autorizem a manutenção da subclasse num estado supersticioso, iletrado e miserável. Uma perfeita sociedade pós-colonial que se julga moderna e civilizada.

Um chefe de uma democracia europeia ocidental não pode nem deve ignorar isto. E não pode nem deve aliar-se a isto, sob pena de trair tudo o que postulam a constituição, o Estado de direito e a liberdade de expressão. Sob pena de trair a democracia ocidental tal qual a conhecemos e construímos, desde Atenas.

No dia 8 de agosto deste ano, lemos a notícia de que André Ventura foi recebido na residência de Duarte de Bragança, na companhia de Diogo Pacheco de Amorim, vice-presidente do Chega. Na reunião, os dois foram pedir a interceção do duque de Bragança para chegarem a Bolsonaro, que admiram. O candidato à Presidência da República de Portugal admira também o nacionalismo de uma dinastia defunta, a de Orleães e Bragança, que no Brasil apoia Bolsonaro. O candidato a presidente admira as monarquias, e parece que queria ainda “estabelecer contacto com a monarquia de Marrocos e as casas reais europeias”. A desenhar a ponte brasileira, estava o deputado italiano Roberto Lorenzato, descendente de aristocratas, íntimo de Matteo Salvini, o líder fascista italiano, e de Bolsonaro, tendo apresentado os dois. Podemos concluir que esta gente é política e afetivamente próxima. Salvini é não um idiota clássico, é um fascista clássico, sem a cultura do Mussolini que lia livros e ouvia ópera.

Descontando as contradições entre monarquia e república, e a vassalagem a monarcas destituídos, o que se retém deste estranho encontro é o tráfico de influências e a vassalagem a Bolsonaro, a que Ventura e afins reconhecem atributos.

Isto, por si só, deveria ter feito acender todas as luzes vermelhas e campainhas de alarme de Rui Rio, um chefe de um partido que dá pelo nome de social-democrata. Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és, diz o povo. É com os estúpidos que Rui Rio resolveu aliar-se, comprometendo o programa do partido fundado por Francisco Sá Carneiro e traindo os eleitores, todos os que não se reveem na aliança de António Costa com as esquerdas e que são de centro-direita ou de direita clássica, a direita democrática e historicamente pró-europeia, a direita liberal secular ou cristã que não aprecia as ditaduras e que fundou a democracia em Portugal. A direita que acredita na liberdade, na prosperidade e na paz social, e que detesta a demagogia, a revolução e o extremismo.

Nenhuma das escusas da praxe desculpam este PSD. António Costa teve uma oportunidade de, a bem do interesse nacional, ter chamado o PSD de Rui Rio como parceiro para um acordo de regime. A situação trágica do país assim o exigia. Num assomo de estupidez que pagaremos caro, Costa resolveu que era outra vez de esquerda e podia dispensar o PSD. E o PSD, posto fora da mesa, aproveitou a oportunidade para, numa estupidez orgástica, aliar-se nos Açores a um partido como o Chega, que não passa de uma cortina de fumo democrático num movimento sustentado pela iliteracia, a pobreza e o populismo autocrático. Costa e Rio traíram as expectativas dos eleitores e traíram o país quando, na história da democracia portuguesa, o país mais precisava que se entendessem. Não subestimem a gravidade da crise económica que vem aí e a gravidade da crise política que se sobreporá. Não subestimem a raiva que fervilha por aí, o desespero, o cansaço, a depressão. E com este país doente, Costa e Rio resolveram tornar-se em inimigos e cavar trincheiras.

O Chega não é nem será um partido de matriz democrática, é um partido que alinha com Salvinis e Bolsonaros. E que, instalado no coração da democracia, tudo fará para a destruir ou falsificar. Podemos exemplificar com vigor no caso de Trump e das eleições americanas. E do golpe populista contra a democracia. Quando Trump foi eleito, fui urubu. E fui das raras pessoas que avisaram que um dia isto iria acontecer. Participei em debates e programas onde me foi dito que era necessário dar uma oportunidade a Trump e que ele seria presidenciável assim que assentasse o traseiro na Sala Oval da Casa Branca. Estes são os ingénuos, que não devem ser confundidos com os estúpidos, mas facilitam a vida dos estúpidos. Rui Rio não pode alegar ingenuidade. Nem, noutro assomo de estupidez à Chamberlain, esperar que o Chega fique “mais moderado”.

Rio aqueceu o ovo da serpente. Ou o PSD se vê livre de Rio, ou Rio tentará ver-se livre do histórico PSD e erguerá um partido à sua imagem e semelhança, um partido instrumental e sem princípios, um partido antidemocrático e caudilhista. Para começo de festa, Rio e Bolsonaro estarão de acordo numa coisa, ambos detestam a urubuzada.


A queda

(Daniel Oliveira, in Expresso, 20/11/2020)

Daniel Oliveira

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Em março, a ansiedade coletiva era compensada por uma sensação de partilha. Imagens virais de serenatas para animar os vizinhos em tempo do confinamento davam-nos, no meio do drama, algum autocontentamento com a redescoberta romantizada da ideia de comunidade. Mas, à medida que a crise vai empurrando mais gente para o desespero, essa paz pontuada pela divergência sobre a melhor forma de lidar com a pandemia vai dando lugar à luta pela sobrevivência. Nunca estivemos todos no mesmo barco, esta crise nunca foi simétrica. Essa ilusão acabou e a notícia de que mais de 80% das doses de vacinas estão reservadas para 14% da população mundial mostra que as coisas são como sempre foram. Em Portugal, como noutros países, a política cumprirá a função de traduzir a crise económica e so­cial. E quem siga a via negacionista estará em melhor posição para lucrar com tudo isto. Sei que é um paradoxo que ganhe quem nega a relevância do vírus quando há cada vez mais mortes que a confirmam. Mas as vítimas da crise serão sempre mais do que as vítimas do vírus. E estarão vivas. Quando a pandemia passar e a crise continuar, cada um olhará para a sua tragédia pessoal e procurará culpados. Como sabemos pelas alterações climáticas, os negacionistas não têm de dar respostas a um problema que não reconhecem. E estão dispensados de encontrar o equilíbrio entre saúde e economia, segurança e liberdade. No fim, a culpa será das medidas e de quem as impôs. Os protestos da restauração foram o primeiro petardo. Quando se confirmar que não salvámos o Natal, outros virão. E à medida que a crise e a fadiga forem apertando será cada vez mais fácil espicaçar a irracionalidade.

É uma pandemia num país pobre, com um Estado e uma economia frágeis. O descontentamento é inevitável. E nem preciso de dizer quem, no espectro partidário, mais ganhará com isto. No acordo dos Açores ou na entrevista que a TVI fez a Ventura está toda a displicência de uma elite política e mediática impreparada para lidar com um oportunismo perigoso que nos bateu à porta no pior momento.

Como na anedota do início de “La Haine”, de Mathieu Kassovitz, isto “é a história de um homem que cai do 50º andar e que repete incessantemente para se tranquilizar: ‘Até aqui, tudo bem. Até aqui, tudo bem.’ Mas o importante não é a queda, é a aterragem.” Tentemos minorar os efeitos das tragédias sanitária e económica. Mas não continuemos a ignorar de forma irresponsável as suas consequências políticas. A aterragem vai ser brutal.


A mesada

Há dois anos que as sanções europeias à Hungria estão a ganhar pó numa gaveta. Há mais do que isso que o PPE anda a fingir que se zanga com Orbán. Se a UE é um espaço para democracias, Hungria e Polónia já deviam ter sido suspensas ou expulsas. Mas o que não fez em anos, a Europa achou que era de fazer agora, no meio de uma pandemia, associando o fundo de resolução ao respeito pelo Estado de Direito. Quem desrespeita a democracia não recebe a mesada. É como punir o homicídio com coima.

Um Estado autoritário pode votar e pagar, mas não pode receber. Imagino que se não precisar do dinheiro até pode ser autoritário. Como Hungria e Polónia mantêm o seu direito de veto, aconteceu o que se imaginava: bloquearam todo o processo. E também se conhece o fim: ou a exigência pelo respeito pelo Estado de Direito se transforma numa proclamação vazia ou a cláusula cai. A Europa, que foi incapaz de castigar estes dois países até agora, não vai querer afundar-se por causa disto. E até posso adivinhar que, no fim, haverá castigo para quem não aplique as “reformas estruturais” holandesas, mas não para quem maltrate a democracia. Ou esta não fosse a “Europa dos valores”.