Delenda Cabrita

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 02/07/2021)

Podia-se montar uma equipa multidisciplinar para descobrir quem é a figura da democracia portuguesa mais odiada desde o 25 de Abril. Essa equipa reuniria e trataria os megadados disponíveis e chegaria inevitavelmente a este nome: José Sócrates. Sabemos empiricamente que tal seria a conclusão pelo que escusamos de cansar os imaginados investigadores. O que não sabemos é porquê. Não por faltarem explicações, antes por serem tantas quantas as opiniões. Será por causa do TGV que nunca se construiu? Do aeroporto que nunca passou dos planos? Da avaliação dos professores que se manteve a farsa que sempre foi? Da aposta na ciência, nas tecnologias da informação, na educação de adultos, nas energias verdes, na dignidade e segurança dos mais pobres, nos direitos das mulheres e das minorias? Será que foi Sócrates quem causou a Grande Recessão de 2008, e depois a crise das dívidas soberanas, e por fim deu ordens ao PS para chumbar o PEC IV pois queria afundar o País para brincar à reengenharia social e vender empresas públicas com o respaldo da Troika? Ou será por causa de um certo dinheiro que lhe emprestaram (ou deram) e que não saiu do bolso de nenhum de nós nem existe quem consiga relacioná-lo com algum dano ao Estado?

Não. O ódio a Sócrates é uma construção mediática para efeitos de exploração sensacionalista e luta política. Alimenta-se disso e, num plano mais decisivo, da real força política de Sócrates. É por ser um adversário formidável que, especialmente na direita, a resposta é de pavor, depois de secreto fascínio, e por fim de ódio, como única resposta que mantém a solidez da identidade. Esse ódio não precisou das revelações da Operação Marquês para existir, pelo contrário. Ver o terrível inimigo ferido de morte (política) e humilhado deu real consolo às patologias que corriam soltas muitos anos antes da sua prisão. Só que Sócrates continua biologicamente vivo (portanto, nunca se sabe, né?), teve uma estrondosa vitória na Justiça (abafada e deturpada pelos impérios mediáticos), e isso desperta mecanismos automáticos de protecção que alimentam o fogaréu do ódio.

Nesta arena, Cabrita tornou-se um alvo prioritário dessa energia contagiante, como se vê pela exploração odiosa (no sentido em que se procura intencionalmente provocar respostas de ódio nas audiências e na sociedade) do acidente de automóvel em que está envolvido. Recomendo que se use a gravação do que Clara Ferreira Alves disse no último “Eixo do Mal” sobre Cabrita – onde deixou a tese de que esse ministro deve ser castigado por ser odiado – como material de estudo em várias universidades (e não só portuguesas) onde haja departamentos dedicados ao estudo do fenómeno.

O desejo de falar do Rui Rio é quase irresistível mas malhar em quem acaba de ir de cornos contra um bloco de granito não seria decente. Pelo que vou recorrer a um outro fulano muito mais significativo para dar conta da extensão do ódio como cultura ubíqua na ecologia mediática. Eis o que se lembrou de escrever o Daniel Oliveira:

«Outra questão é mais simbólica, mas conta muito: se for verdade que nem condutor nem ministro saíram do carro, é humanamente miserável.»
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«Há uma discordância quanto à sinalização dos trabalhos na estrada, com um comunicado da Brisa que desmente o que foi dito pelo MAI. Isso terá de ser esclarecido. Não sabemos se essa sinalização tinha alguma ligação com o lugar onde o trabalhador foi colhido. Mas, se ela existia, sabemos que o comunicado mentiu, o que num caso destes é inaceitável e politicamente incontornável.»
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«A minha opinião sobre Eduardo Cabrita é clara e há muito tempo que acho que devia ser demitido. É um monumento à incompetência política e, todos os sinais o indicam, falho de sensibilidade e empatia.»

O Daniel é um dos mais importantes comentadores nacionais, tanto pela qualidade como pela quantidade do seu trabalho. Escreve todos os dias úteis e desmultiplica-se em vários canais e actividades neste universo do jornalismo de opinião. Acima de tudo, esforça-se por aparecer intelectualmente honesto. Esse esforço tem mérito e por si só chega para o separar da pulharia. Porém, é igualmente recorrente a cena de o vermos a escorregar para o chinelo da hostilidade cega quando entra em cena Costa, o seu alvo de estimação nesta legislatura. No caso, Cabrita aparece-lhe com o rosto de Costa e o resultado é um exercício de apelo ao ódio.

Nos exemplos que cito acima, vemos o prestigiado comentador, no prestigiado Expresso, a revelar que, tratando-se de Cabrita, a atitude mais inteligente quando se tem um acidente numa auto-estrada é sair do carro. E sair do carro para quê? Isso, infelizmente, o Daniel não chega a dizer. Será que ele queria o ministro a correr em direcção à vítima para a tentar salvar com os seus conhecimentos clínicos ou ficar a dar-lhe palavras de consolo enquanto não chegasse a ambulância? Para quem não esteve lá e nada sabe das condições no local nem das circunstâncias do atropelamento, o que parece “humanamente miserável” é a calúnia preemptiva que deixa estúpida e sonsamente. O mesmo mecanismo trambiqueiro em relação à problemática da sinalização, situação em que ambas as partes poderão ter razão calhando a sinalização existente não ser a adequada para as reais condições do acidente. É precisamente isso que o inquérito irá apurar, estar já a festejar a culpa do ministro é só reles, soez. Finalmente, repare-se como a pulsão do assassinato de carácter é libertada em toda a sua fétida violência ao se permitir descrever a pessoa na berlinda como sendo falha de “sensibilidade e empatia”. Quem és tu, Daniel, para validares a sensibilidade e empatia daqueles com quem não privas?

A empáfia do “a minha opinião é clara e há muito tempo que acho” não sei quê é marca d’água desta actividade de livre crítica dos poderes que podia ser preciosa para a cidade. Só que, como vemos, a nódoa do ódio chega a quase todos. E quando ele chega, defender a cidade implica denunciá-lo e combatê-lo. O ódio merece o nosso ódio – não os ministros, os governantes, os políticos, os cidadãos, as pessoas, pois eles somos nós.

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Operação Joe por causa do 13 de Julho

(Por Valupi, in Aspirina B, 01/07/2021)

Por que razão Sócrates foi detido a 22 de Novembro de 2014, e não meses antes ou meses depois? Quem souber responder à pergunta, seguramente saberá responder também a esta: por que razão os procuradores responsáveis pela Operação Marquês decidiram cometer o crime de publicar o essencial da sua investigação e respectivo alguidar de invenções em Julho, 4 meses antes do espectáculo de shock and awe preparado com a comunicação social? Para além de todos os poderes despóticos a que podem recorrer, os procuradores do Ministério Público possuem completa liberdade – consagrada na sua autonomia – para escolherem os calendários das buscas e detenções que melhor favoreçam as suas agendas, sejam elas quais forem. Visto de fora, nunca nada se explicando, parece completamente arbitrário. Mas mesmo que haja algum dever de justificação interno, como igualmente me parece lógico por todas as razões e mais algumas, continua a valer a imagem da “Rainha de Inglaterra” lançada por Pinto Monteiro como retrato de uma instituição dominada pelo sindicato e pelo negócio dos crimes de violação de justiça. Um vero Oeste selvagem pejado de xerifes que, não disparando mais depressa do que a sombra, só disparam pela sombra.

Neste caso do Joe Berardo, a investigação começou em 2016. Porquê, então, só agora as buscas e as detenções? Sabendo o que a casa gasta, a explicação mais provável, dentro das minhas duvidosas capacidades adivinhadeiras, remete para o dia 13 do corrente. É a data em que vai ser lido o acórdão do julgamento de Armando Vara.

Depois do que Ivo Rosa fez à Operação Marquês, demonstrando à prova de estúpidos a fraude política que a engendrou, caso Vara seja absolvido, ou mesmo que leve uma pena suspensa, tal seria mais um grossíssimo prego no caixão de Rosário Teixeira, Carlos Alexandre, Joana Marques Vidal, todos os mandantes da vingança em curso e a direita decadente no seu conjunto. Donde, aquela parte fora-da-lei do Ministério Público quer dar aos juízes que estão neste momento em processo de decisão a munição suficiente para que saia mais uma pena “exemplar” em ordem a salvarem a face e continuarem o abuso iniciado com o Face Oculta e seu desfecho penal. Uma pena à medida do Vara, um dos maiores facínoras da História, o primeiro e único condenado a pena de prisão efectiva na Justiça portuguesa por causa de um crime de tráfico de influência (e mesmo assim teve de se torcer a lei para lá caber e despachar penas violentamente absurdas para os restantes condenados), um génio do crime capaz de ficar com 25 mil euros de um sucateiro (que nunca se encontraram, e para um fim que nunca se realizou) e que teve a ousadia de pôr uns trocos na estranja sem passar pela casa do fisco. O solo que pisa tem de ser salgado como aviso à navegação do que pode acontecer a quem é odiado pela oligarquia que nos deu o BPN e o BCP do Jardim, entre outras jóias do laranjal. A mesma oligarquia que tem milhares de milhões alhures sem pagar tostão ao Estado. Um bode expiatório perfeito, diabolizado obsessiva e sistematicamente nos esgotos a céu aberto. Não há ninguém que o defenda, sequer que mostre compaixão ou peça mínimos de justiça, para além do seu advogado.

O DCIAP publicou um comunicado a respeito das diligências onde se queixa da falta disto e daquilo, assim dando uma aparente explicação para o atraso com que foram vasculhar os computadores e telefones da bandidagem. Mais uma vez, actuam como se a audiência fosse constituída por borregos. Do texto só se aproveita a última frase, que reza assim: “O inquérito encontra-se em segredo de justiça.

Ou seja, e de acordo com a prática corrente, podemos ter a certeza certezinha que daqui até 13 de Julho vamos ter fascículos diários sobre a teoria da conspiração que mais delírio provoca na pulharia, o filme em que Sócrates telefona a dar ordens para que o Conselho de Administração da CGD encha as mãos ao Joe para este ir fazer maldades aos anjinhos do BCP. Muita desta gente, mesmo que viva 300 anos, irá morrer com uma expressão de felicidade a imaginar o Vara abraçado ao Santos Ferreira a fumarem charutos e a rirem à gargalhada enquanto o Joe sai da CGD ao volante de um camião cheio de notas. Não é defeito, são mesmo assim.

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A fábula do trabalhador atropelado

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 29/06/2021)

É em tudo um caso de estudo e o que aprendemos não é bonito: um homem morreu a trabalhar e 10 dias depois não sabíamos sequer qual o seu estatuto laboral nem que auxílio garante a lei à família. Para quê perder tempo com isso se ia um ministro no carro que o atropelou e se o morto pode ser usado como arma política?


Nuno Santos, 43 anos, atropelado na autoestrada, enquanto trabalhava, pelo carro oficial do ministro da Administração Interna.

Era isso que sabíamos, dez dias depois da sua morte, deste homem: a identidade do automóvel que o atropelou. Isso e a chusma de gestos políticos que se foram sucedendo à volta do caso. Como o comunicado do MAI que, com uma investigação a decorrer por parte de uma polícia sob a sua tutela, garantiu ter o morto atravessado inopinadamente a estrada e não existir sinalização dos trabalhos (informação que a Brisa desmentiu publicamente esta terça-feira) – sem porém nos certificar que o automóvel não circulava em excesso de velocidade. Ou o anúncio do partido que, depois de no sábado o Correio da Manhã fazer manchete com a viúva a dizer que as filhas do casal iam “morrer à fome” pela falta do salário do marido, veio nesta segunda-feira dizer ter criado “um fundo” para apoiar a família.

Sucede que, independentemente das responsabilidades de outra ordem – por eventual condução perigosa – que possam existir na sua morte, Nuno era um trabalhador a trabalhar quando morreu. Pelo que à partida, antes de qualquer outra consideração ou averiguação sobre as circunstâncias da sua morte, é de um acidente de trabalho que se trata. E os acidentes de trabalho prevêem a responsabilização dos empregadores, via seguros obrigatórios, pelas despesas, compensações e pensões dos sinistrados e/ou suas famílias.

É isso que determina a lei laboral – aquela que muitos dos que procuram usar a morte de Nuno, nomeadamente um certo demagogo de extrema-direita, propõem eliminar, em total liberalização das relações de trabalho, para quiçá as substituírem por caridade à la carte.

É pois bastante extraordinário que durante dez dias, de 18 de junho, dia da morte, até esta segunda 28, nada tenhamos ouvido da parte das empresas responsáveis pelos trabalhos na A6 – de limpeza da vegetação das bermas – em que se ocupava o trabalhador Nuno: a Arquijardim, que o contratava diretamente e cujo nome pouco apareceu nas notícias até agora, e a Brisa, contratante indireta. Mais que não fosse para nos dizerem qual o vínculo contratual do malogrado trabalhador, se o processo relativo ao acidente de trabalho está já em marcha – como deve estar – e se estão a dar algum apoio à família até o assunto, que implica a intervenção da seguradora e do tribunal (é assim em casos de morte por acidente de trabalho), se resolver.

Poder-se-ia dizer que não falaram por ninguém lhes ter perguntado, mas quando liguei à Arquijardim, ao fim da tarde de segunda, e perguntei essas duas coisas básicas, não houve resposta. Até o nome dos responsáveis da empresa recusaram dizer, como se fosse segredo (é só ir ao portal do Ministério da Justiça e consultar os atos societários). Poucas horas depois, no entanto, surgia no site da SIC, sem atribuição de fonte, a notícia de que esta empresa está a pagar à família o vencimento do trabalhador – que era seu efetivo há dois anos – e se encarrega das despesas do enterro “enquanto se processa o apuramento das responsabilidades da parte das seguradoras”.

Não sabemos de quando data a decisão da Arquijardim e quando informou a viúva, ou se soubemos antes dela – mas é a primeira boa notícia neste caso. Porque um acidente laboral implica um processo que, apesar de urgente, será sempre demasiado moroso para uma família privada de rendimento. E se a lei prevê que possa ser atribuída, pelo tribunal (se não houver acordo à partida),uma pensão provisória, a ser adiantada pelo Fundo dos Acidentes de Trabalho, até à fixação da que deve ser paga pela seguradora, tal implica não existir contestação em relação à caracterização do sinistro como acidente de trabalho. Já foi noticiado, porém, na sequência do citado comunicado do MAI, que a seguradora envolvida quer perceber se houve da parte do trabalhador um comportamento, negligente ou temerário, que possa eximi-la de pagar.

Essa possibilidade – de a família de Nuno Santos ter de enfrentar um longo processo de averiguação por parte da seguradora e o contencioso que poderá seguir-se – demonstra que há muito mais neste caso para questionar do que a velocidade a que ia o carro que transportava Eduardo Cabrita e se este deve ou não demitir-se se se provar que houve condução perigosa e, consequentemente, que o comunicado do MAI falseia os factos. Mas, claro, a proteção que a lei confere às vítimas de acidentes de trabalho é um assunto complexo e maçudo, que exige estudo e não faz manchetes sexy nem se presta a retóricas populistas, muito menos de partidos que combatem os direitos dos trabalhadores.

Como Ihor Homeniuk, cuja morte só ganhou dimensão mediática e política quando pareceu que o ministro podia cair, Nuno Santos e a sua família não durarão um fósforo na via rápida do oportunismo.


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