O elogio dos jornais

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/05/2017)

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                                  Miguel Sousa Tavares

Desde que me conheço que sou viciado em jornais. Nasci numa casa onde a leitura de jornais e revistas era quase tão importante como comer e dormir, e num tempo em que éramos contemplados com edições matutinas e vespertinas, ou jornais da manhã e jornais da tarde. Uma das coisas que sempre me intrigaram, nessa época das velhas máquinas de escrever, dos estafetas e da impressão gráfica feita com moldes de chumbo, era a velocidade a que as notícias conseguiam circular: eu saía do Estádio da Luz ou do Estádio de Alvalade, depois de sofridamente ver o meu FC Porto perder quase sempre, apanhava o autocarro 35 e, quando chegava ao Rossio, já estavam os ardinas a anunciar: “Olhò ‘Diário Popular’, traz a bola, ó ‘Diário’!” — isto é, o relato impresso do jogo a que eu tinha assistido uma hora antes. (Bom, na verdade, o relato era relativamente pormenorizado no que à primeira parte do jogo dizia respeito, mas o relato da segunda parte normalmente recorria a truques mal-disfarçados que denunciavam a urgência de enviar o texto para a gráfica: “Na segunda parte, manteve-se a mesma toada, mas o Porto empatou aos 58 minutos, por Hernâni, e o Benfica adiantou-se aos 73, por Eusébio”. No tempo da informação instantânea, tão rápida que nem conseguimos distinguir as notícias verdadeiras das falsas (e é exactamente isso que se pretende muitas vezes, que a notícia falsa comece a correr sem esperar que a verdadeira a alcance em tempo útil), isto pode parecer uma banalidade, mas era, de facto, uma proeza.

Cresci, assim, a ser um leitor de jornais integral e ainda hoje sou: leio tudo, até a publicidade. Aliás, depois de ter passado a acumular o papel de leitor com o de autor de notícias, nunca a função de jornalista me matou o prazer da posição de leitor. E quando me aconteceu, por razões profissionais, mergulhar na leitura de jornais antigos, alguns com mais de cem anos, fascinou-me sempre pensar que, no momento em que aquelas notícias foram impressas, aquilo era a actualidade: naquele exacto dia, era aquele o mundo que existia. Hoje, sabemos exactamente quais as consequências para a humanidade do dia 6 de Junho de 1944, o dia D nas praias da Normandia. Mas quando lemos as manchetes das primeiras páginas e os relatos nas páginas interiores dos repórteres de guerra, nesse dia, é emocionante pensar que naquelas horas ninguém podia saber ainda ao certo a sorte das armas e o destino próximo da Europa e do mundo. E é com um sentimento de pudor, de quase vergonha, que olho para as fotografias dos soldados, dos generais, de todos os que foram rosto e causa de notícia e não posso impedir-me de meditar na minha imensa, impúdica, vantagem sobre eles: estar vivo, enquanto eles estão mortos — por mais imortais que tenham sido os feitos então cometidos e a importância que tiveram para os jornais e a informação do seu tempo. Quanto à publicidade dessas publicações de há 50 ou 100 anos, qualquer investigador deve deter-se nela com toda a atenção pois trata-se de um extraordinário revelador sobre os modos e as modas de uma época, as relações sociais e familiares, as aspirações e sonhos de modernidade de toda uma geração, a forma como se deslocavam, como comiam, como ocupavam os tempos livres, como tratavam da saúde, como ensinavam as crianças.

Um grande leitor de jornais nunca se renderá às novas formas de informação: pode usá-las, aproveitá-las, mas jamais se dará por informado e satisfeito apenas com elas. Por várias razões: uma, porque duvida da sua credibilidade; outra, porque prefere a reflexão à velocidade; outra, porque entende e privilegia o papel de mensageiro e mediador do jornalista e não acha que qualquer um o possa substituir, fornecendo informações em bruto, sem critério editorial algum; e outra ainda, porque lhe faz falta a narrativa e a literatura que acompanham as notícias de jornais.

Pode existir um mundo sem jornais, e a seguir sem revistas, e depois sem livros? Poder, pode. Mas deve ser um pesadelo

Lembrei-me disto a propósito de uma notícia saída esta semana no jornal “Público”, cujo tipo de construção narrativa me remeteu para o estilo do jornalismo de há cem anos. Só o título já era toda uma promessa: “PSP detém ladrão das selfies de Lisboa e apreende camaleão e algumas aves”. Que leitor viciado de jornais resiste a um título destes? Fui imediatamente ler o texto, que assim resumo: “Um homem suspeito de ter realizado seis roubos na estação de comboio Roma-Areeiro a jovens estudantes a quem pedia para tirar uma selfie com elas, foi detido pela PSP, na passada sexta-feira… À mesma hora, nos Olivais, depois de duas acções de fiscalização, a PSP apreendeu um camaleão, visto que o seu dono não tinha efectuado, no Instituto da Conservação da Natureza, o registo CITES obrigatório… Das duas inspecções, também resultou a apreensão de cinco aves silvestres — um tentilhão, um verdilhão, um pintarroxo, um bico-de-lacre e um pintassilgo — por se tratarem de espécies protegidas, tendo sido entregues no Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa”.

Não sei do que mais gostei: do velho costume dos relatórios de polícia dando conta das “ocorrências” de um dia na cidade — tão pacatas neste caso que, não fosse a ingerência das selfies e a criminalização da posse das aves, agora silvestres e antes de gaiola — e bem se poderia dizer que estávamos a ler um jornal de há cem anos. Ou se do conhecimento avícola da PSP ou ainda da economia editorial do jornal, misturando na mesma notícia ladrões de selfies com camaleões apreendidos. Todavia, passando por cima disso e dos avanços da tecnologia, e ficando apenas pelos dos costumes, notem bem tudo o que de essencial mudou: as fotografias de nós mesmos, antes uma coisa privada, agora são de tal maneira partilhadas e até alienadas a estranhos, que há meninas que correm o risco de serem assaltadas nos subterrâneos do metro por não resistirem ao pedido de um estranho para tirarem uma fotografia com ele! Esta bebedeira de tornar público, partilhado, oferecido, exposto, o que em tempos era privado e íntimo, é a consequência lógica do modo de vida alternativo das redes sociais — por onde passa o essencial da “informação” que o comum das pessoas hoje acha suficiente. Outra grande mudança, também sinal dos tempos, é que o camaleão passou a estar sujeito a registo, uma espécie de “cartão de cidadão animal”, que tanto deve agradar ao deputado André Silva, do PAN. Assim como é novidade e modernidade a criminalização da posse de aves que dantes os lisboetas penduravam no beirado das janelas das casas ou das lojas e cuja grande utilidade agora parece ser a de ocupar os funcionários do tal Centro de Recuperação de Animais Silvestres de Lisboa (e o que farão eles com os passarinhos silvestres?). Enfim, registe-se devidamente a atenção e o desvelo da nossa polícia perante as novas formas de criminalidade originadas no politicamente correcto. Admirável mundo novo!

Mas aí está: não fosse o velho e fiável jornalismo escrito e nada disto se teria sabido. Eu sei que os jornais vão morrer, por deserção de leitores e de publicidade. É o que nos garantem e já é tarde para duvidar. E sei que a seguir morrerão as revistas e depois os livros, como no “Farenheit 451” o Truffaut há tanto tempo ficcionou.

Então, acabaremos todos a tirar selfies com o camaleão com o registo CITES em dia ou com os bicos-de-lacre resgatados à gaiolas e educados na vida silvestre do Centro de Recuperação dos ditos. Só que já ninguém saberá explicar às criancinhas o que é um camaleão ou um bico-de-lacre, porque terão desaparecido os contadores de histórias.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O direito: a única salvaguarda contra a ignorância e o populismo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/04/2017)

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                                  Miguel Sousa Tavares

1 Anda por aí uma onda daquilo a que Paulo Baldaia, director do “DN”, chamou acertadamente o “jornalismo justiceiro”. O jornalismo justiceiro cavalga a onda dos populismos gerados levianamente pelo jornalismo tablóide e a justiça instantânea das redes sociais. Com medo de perder a onda ou parecer que não entende “o fenómeno Trump” e outras colectivas imbecilidades, julga sem pensar, conclui sem reflectir e compete entre si pelo privilégio de ocupar os lugares de maior proximidade junto do “povo” — a variante contemporânea da proximidade ao poder. Mas povo e justiça não vão bem juntos — e por isso é que nós, as sociedades civilizadas, de há muito abandonámos os autos-de-fé, pelourinhos e julgamentos populares, e os substituímos por um corpo preparado e profissionalizado de executantes da justiça a que chamamos juízes.

Chama-se a isso, a esse absurdo obstáculo entre o povo e a justiça, “Estado de direito”

Por muito que estrague a causa ao jornalismo justiceiro, os criminosos, verdadeiros ou presumidos, não são, nas sociedades civilizadas, julgados pelo “Correio da Manhã”, por sondagens ao povo ou pelo Ministério Público: são julgados por juízes — e não de acordo com o que o povo pensa, mas de acordo com a lei e a sua consciência.

Só por leviana ignorância é que o jornalismo justiceiro pode achar que é possível afastar as garantias e direitos individuais constitucionalmente garantidos e conseguir, a prazo, continuar a viver em democracia. Para quem já decidiu da culpabilidade de suspeitos ainda não julgados e que não se puderam defender, é uma contrariedade que não haja provas contra Dias Loureiro, que as suspeitas lançadas contra José Sócrates ainda tenham de ser confirmadas por um tribunal onde ele vai poder defender-se e tentar contrariar acusações já consensualmente tidas por verdadeiras, ou de que quem tem dinheiro possa valer-se do princípio do ónus da prova de quem acusa, sem ter de demonstrar que não roubou o dinheiro. Sim, tudo isso é uma contrariedade, um embaraço na “luta contra a corrupção” e mais uma série de coisas que contrariam a vontade popular, facilmente estabelecida no Facebook e outros instrumentos de alienação popular. Chama-se a isso, a esse absurdo obstáculo entre o povo e a justiça, “Estado de direito”. E a chatice maior é que, onde ele não existe ou é dispensado, ninguém fica a salvo dos abusos do poder (quem se lembra do Estado Novo sabe-o bem). Por isso mesmo, porque o Estado de direito é uma contrariedade contra a ditadura populista disfarçada de democracia, é que a moda agora são os golpes de Estado por via referendária — Venezuela, Hungria, Turquia —, onde o povo é chamado a dar a sua aquiescência à supressão das garantias que a lei lhe dava. E o povo vota sim, porque lhe disseram que tais garantias são apenas a favor dos “outros”, dos poderosos, dos corruptos, dos bandidos. Até ao dia em que a polícia lhes bata à porta e, culpados ou inocentes, descubram por si que lhes fazem falta leis que os protejam…

2 Aproveitando “um buraco na agenda” (mais difícil do que encontrar um buraco de petróleo no Rossio), Marcelo reuniu-se com um think tank de 20 ‘intelectuais’ de diversas proveniências e ciências, para reflectir sobre “as crises e a transformação da democracia”. Mas, pelo relato da imprensa, parece que, como seria de temer, só ele é que reflectiu e durante uma hora. E, reflectindo sobre os perigos da conjuntura, Marcelo deu o seu próprio exemplo de solução contra o populismo: a sobreexposição dos políticos. Se estiver em todo o lado e a todo o tempo, reflectiu Marcelo, ajuda a preencher o “vazio” e não deixa a nenhum populista espaço para preencher esse vazio. E concretizou com a sua última janela de oportunidade: a queda da avioneta em Tires, quando Marcelo conseguiu chegar lá antes de qualquer televisão, já de gravata preta vestida e, na ausência de familiares das vítimas, passeou-se confortando de afectos uma jornalista da SIC. “O poder político — explicou ele aos outros intelectuais presentes — tem de estar pronto a responder a situações como esta.” Meu Deus, ao que chega a capitulação da inteligência perante a urgência da popularidade!

3 A consideração politica ou intelectual que tenho pelo deputado André Silva, do PAN, é igual à que tenho por uma perdiz sem penas ou um coelho sem pêlo. Decerto que admito a comunhão e solidariedade entre as avezinhas do céu e quem só se alimenta de sementes de sésamo, talos de couve e injecções de politicamente correcto, mas não tenho igual certeza de que a nação e o povo (seja lá isso o que for) fiquem mais bem servidos por um deputado com défice de proteínas e de conhecimento de causa sobre aquilo de que fala.

As várias propostas do deputado do PAN sobre a limitação da caça (um ensaio prévio sobre a sua proibição, pura e simples), é um leviano exercício legislativo apenas assente na ignorância, no preconceito e na má-fé. O seu ponto de partida é que é preciso defender a caça, os animaizinhos, do instinto matador dos caçadores, que tudo querem exterminar. Presume, pois, que os principais interessados na preservação da caça (e os únicos que contribuem para essa preservação) são os mais interessados na sua extinção, chegando ao ponto de insinuar que os caçadores envenenam a caça. Supõe que a pouca caça selvagem que ainda resta não se deve aos caçadores, às suas associações e aos donos dos terrenos, que fazem as sementeiras, os bebedouros e controlam os predadores, mas sim aos deputados politicamente correctos do Bairro Alto, que fazem as leis pelas quais os animais devem reger-se uns aos outros. Imagina, ignorantemente, que proibindo todo o abate de predadores e restringindo os dias de caça, esta se multiplicará e que até os predadores se absterão de caçar nos dias proibidos — ou seja, que, desequilibrando o frágil equilíbrio entre as espécies, nascerá uma nova Arca de Noé, imaginada pelo PAN e com o apoio ignaro do BE. Propõe, grandiloquentemente, uma moratória de três anos na caça à rola brava e ao coelho, que declara em vias de extinção por “excesso de caça”, ignorando que a rola brava está desaparecida porque foi introduzida a espécie exógena da rola turca, a caminho de se tornar uma praga igual ao pombo de cidade, mas que o politicamente correcto de Bruxelas proíbe abater, e que come as sementeiras e afasta as verdadeiras rolas de arribação; e que o coelho bravo está desaparecido há três anos por via de uma epidemia nascida em Itália e passada a França, Espanha e Portugal, e para cuja investigação não há fundos públicos — ao contrário dos fundos disponíveis para comprar a Espanha coelhos produzidos em cativeiro para alimentar os linces, também produzidos em cativeiro. Propõe a proibição das matilhas de cães utilizadas na caça ao javali, desse modo extinguindo a prazo os cães dessas raças e contribuindo para aumentar ainda mais a sobrepopulação de javalis, já uma praga para os agricultores. Lá está: a natureza tem regras elementares que os seus autodeclarados defensores desconhecem. Todas as propostas do PAN sobre a caça reflectem uma profunda ignorância sobre aquilo que se propõe legislar e uma arrogância preconceituosa, que é filha de uma descarada desonestidade intelectual. Há dez anos, havia cerca de 400.000 caçadores licenciados; hoje, com o definhamento da caça — fruto do abandono da agricultura natural e das alterações climáticas — e devido à perseguição do politicamente correcto, são 130.000 e, mesmo assim, nas escolas ensinam às criancinhas que ser caçador é o mesmo que ser criminoso. É o interior que perde uma das suas últimas raízes de sobrevivência. É o que resta do Portugal rural que morre, tentando reconverter-se em asilo da terceira idade rica da Europa. São séculos de costumes, de cultura, de culinária, que se apagam às mãos de um pensamento urbano ditatorial. Mandem então as criancinhas embebedarem-se em Torremolinos, que é muito mais interessante e gera muito mais teses de doutoramento sobre sociologia e muito mais aberturas de telejornais!


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

De pequeninos se deseducam os meninos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 14/04/2017)

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                                      Miguel Sousa Tavares

1 Uma parte da nação, alguns jornalistas patrióticos e uma senhora que co-preside a uma instituição chamada Confederação de Pais ficaram chocados porque mil estudantes de liceu portugueses foram expulsos de um hotel em Torremolinos por mau comportamento. Não, não foi o mau comportamento, empolado ou não, que os chocou: foi o castigo, a expulsão. À porta do dito hotel, dois dias depois, um jornalista televisivo abespinhava-se porque não o deixavam filmar os danos e porque o hotel estava, afinal, a funcionar em plena normalidade, com novos turistas franceses. Parece que tudo o que não fosse um cenário digno do Iraque ou da Síria não convenceria estes patriotas. Mas uma televisão atirada para a banheira, candeeiros arrancados da parede, pichagens nas paredes ou nos elevadores e móveis despachados pelas janelas, tudo isso não passa dos excessos próprios da idade — quem — interpelam-nos — nunca foi novo, quem nunca participou em orgias alcoólicas marcadas com antecedência, quem nunca vandalizou hotéis e acabou expulso?

Segundo nos explicaram organizadores, participantes e narradores, foi tudo “normal” para este tipo de “viagens” de finalistas de liceu. Os estudantes sabem que vão lá para se embebedar, os pais sabem que eles vão lá para se embebedar e apenas desejam que não aconteça nada pior do que isso, as agências de viagens “especializadas” neste nicho de mercado sabem o que os clientes pretendem e as escolas não querem saber do assunto. Aparentemente, o que não correu tão bem desta vez é que o dono do hotel não sabia exactamente o que o esperava ou temeu que o valor da caução recebida, já a contar com os estragos, não fosse suficiente.

Pois então, se é tudo normal, porque se transforma isto em assunto nacional? Primeiro porque a comunicação social e as redes sociais assim decidiram, e já se sabe que o que as redes sociais decidem a imprensa acompanha, pois vive no terror de perder a “opinião pública” (ou, na definição do jornalista espanhol Eric Frattini, essa massa de “imensos idiotas a quem é fácil formar a opinião pública”). Essa foi a primeira razão. A segunda é que o assunto cheirava a oportunidade fácil para um exercício de patriotismo pronto-a-consumir, ao estilo importado por Scolari. Não sei se são os tempos que não inspiram outras causas, se será a quantidade de cidadãos exemplares (comendadores, até!) caídos em vergonha, se é a juventude actual a quem falta uma Guerra de África ou uma Guerra do Vietname para se mobilizar, ou se é esta dura austeridade que apenas reserva a cada jovem um iPhone, um portátil e um tablet para se distrair, além de uma semana ritual para se embebedar no Sul de Espanha. Não sei o que seja ao certo, mas parece-me evidente que a pátria vive a síndrome do défice de heróis e de feitos notáveis — ou, pelo menos, de injustiças — com que se confortar. E pois ali estavam, à mão de semear, mil criancinhas inocentes, com a alegria e a despreocupação próprias da idade, a serem indecentemente despejadas de um hotel espanhol por mor de alguns pequenos excessos perfeitamente “normais”.

Ó pátria, começas cedo a deseducar os teus filhos!

O que eu confesso que não sabia (e que já me parece ainda menos normal) é que tudo isto, estas juvenis bebedeiras colectivas cujo espectáculo proporcionamos aos primos espanhóis por alturas da Páscoa, envolve um sofisticado plano de negócio em que circula muito dinheiro pelas várias partes — hoteleiros, agências de viagens e estudantes. Os agentes de viagens tratam de corromper os meninos (começam cedo!), transformando-os no que sintomaticamente chamam dealers — isto é, agenciadores de clientes para as viagens a troco de não pagarem a própria viagem ou de receberam dinheiro pelo trabalho. Mas, melhor ainda, vão directamente à fonte, aos candidatos às associações de estudantes dos liceus, cujas “campanhas eleitorais” financiam, com a contrapartida de, depois, uma vez eleita a lista que bancaram, esta lhes outorgar a viagem de finalistas.

Como disse o senhor da agência envolvida na viagem a Torremolinos, “eles querem é ganhar as eleições” e são as coitadas das agências que não têm mãos a medir para tantos pedidos de apoio! E sabem quem são, regra geral, estas listas para as associações de estudantes dos liceus? Exactamente: as juventudes partidárias. Ó pátria, começas cedo a deseducar os teus filhos!

2 O Conselho Superior de Finanças Públicas veio confirmar o défice de 2,1% de 2016 (o mais baixo de sempre em democracia), acrescentando que tal se deveu em 80% ao “corte na despesa pública”, em lugar do aumento de impostos. Por inacreditável que pareça, houve quem — e dentro do PSD — visse nisto um motivo para reclamar vitória sobre o Governo: “Estão a ver? Nós não dizíamos que só com batotas é que apresentavam este défice?” Devem estar a brincar connosco: então não era isto que o Governo anterior dizia ter como objectivo e à conta do qual levou o país à ruína? Não prometeram um défice abaixo dos 3% (que não conseguiram) e fazê-lo por via do corte na despesa pública e não pelo “enorme aumento de impostos” que acabaram por escolher?

3 Como já aqui escrevi, não há semana em que os amigos da onça de António Costa, PCP e BE não queiram comprometer o seu (lá fora) tão louvado sucesso a gerir as contas públicas, vindo reclamar a abertura de uma nova rubrica de despesa para o Estado. E, quanto mais se aproximam eleições, ainda que autárquicas, mais a sua imaginação e a sua demagogia despesista ganham asas. O PCP agora anuncia que vai propor oficialmente o regresso do defunto e funesto projecto de regionalização. É normal quando não se respeita a vontade popular, já eloquentemente expressa em referendo; quando, na impossibilidade de governar o país todo, se visa, pelo menos, governar a sua região; e quando se representa quem não paga impostos e acha que o dinheiro do Estado não vem de ninguém e não tem fim. O único perigo sempre iminente desta ameaça é que os outros grandes partidos autárquicos e “regionais” — PS e PSD — têm muitos boys para colocar e já muito poucos lugares públicos disponíveis.

4 Por uma vez, as redes sociais prestaram um favor a todos nós, com a divulgação do vídeo do passageiro, com OK no bilhete, retirado à força pela polícia de um voo da companhia americana United Airlines. Não por acaso, a polícia escolheu retirar aleatoriamente um estrangeiro e chinês — que têm fama de ser pacientes. O vídeo veio chamar a atenção para o banalizado escândalo do overbooking das companhias aéreas, e se é verdade que a legislação europeia e a da IATA protegem minimamente os passageiros das companhias europeias, fazem-no muito aquém do que seria justo para os prejudicados e do que seria necessário para ter um efeito dissuasor desta prática. Há tantas associações disto e daquilo, tantos dias internacionais do cão e do gato, do diabético e do relvado sintético, e não haverá quem crie um dia internacional nem uma associação internacional que vele pelos direitos dos passageiros aéreos, contra a ganância das companhias?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia