Para memória futura

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 07/03/2020)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

1 Que estávamos prontos, diziam-nos. Mais do que prontos e preparadíssimos. A directora-geral repetia as conferências de imprensa para dizer o mesmo e coisa nenhuma e chamava as televisões para mostrar dois quartos de isolamento à espera de doentes infectados, que não existiam ainda e anunciava um — um — laboratório nacional para proceder às análises dos suspeitos: estávamos preparadíssimos, insistia a senhora, sempre sorridente. É verdade que tínhamos tido mais tempo do que quaisquer outros para nos preparamos, pois o vírus parecia querer viajar por todo o lado menos por aqui. E, por isso, estávamos preparadíssimos e a ministra e a directora podiam entreter-se a dar-nos novas diárias do nosso único infectado, lá longe, num paquete japonês em Hong Kong. Assim, parecia fácil estar preparado, mas, perguntava-me eu, como podíamos ter tanta certeza de estarmos prontos e preparadíssimos se ninguém podia dizer ao certo o que aí vinha? E se, ao primeiro alarme de um suspeito de infecção, com tudo preparadíssimo, o desgraçado ficou quatro horas trancado dentro de uma ambulância porque ninguém sabia o que lhe fazer? Mas, enfim, temos de confiar em quem é pago por nós para fazer este trabalho e teve uma vida profissional inteira para estar preparado para o desempenhar.

Porém, as coisas tornaram-se verdadeiramente alarmantes quando, no sábado, a directora resolveu anunciar no Expresso que estava a contar com um milhão de infectados em Portugal — o que, com uma taxa de mortalidade que varia entre os 2,3% e os 3,6%, significa 23 mil a 36 mil mortes, uma razia. Mas logo no domingo forçaram-na a confusas explicações complementares, que não sossegaram tanto como o facto de percebermos que a senhora falava simplesmente à toa.

Não me admirou assim muito parecer-me detectar até uma certa alegria e alívio quando, na segunda de manhã, a ministra e a directora convocaram uma conferência de imprensa para anunciarem ao país, sorridentes, que finalmente havia não um mas logo dois casos de coronavírus confirmados em Portugal. Enfim, entrávamos no mapa dos países importantes e toda a nossa preparação, ensaiada e apregoada durante um mês, ia ser posta à prova. E, se bem que se tenha seguido o inevitável circo mediático à volta dos nossos pioneiros, julgo ser possível afirmar que, excepção feita aos ociosos imbecis do costume, a pátria não entrou em paranóia. Mas eis que a incontinente directora insiste em tranquilizar-nos: vai à RTP declarar que, não obstante o país estar preparadíssimo, só aqueles dois primeiros casos já tinham esgotado toda a capacidade de internamento dos hospitais do Porto. Como? Que foi que ela disse? Esta senhora é o general a quem confiaram a batalha contra o coronavírus? Mais vale fugir para a China…

E entra então em cena o Governo, com António Costa à cabeça, como seria de esperar. E para grande impaciência de Marcelo, frustrado por ter de ceder a primazia ao ‘poder executivo’ — haja incêndio ou epidemia, futebol ou romaria, certas coisas nunca mudam. Costa precipitou-se então para os hospitais do Porto, para anunciar não duas mas 2 mil camas ou quartos, e a nova moda da ‘saudação à alemã’. E €100 milhões de crédito para os empresários, “se necessário”. De caminho, o eficientíssimo Eduardo Cabrita resolveu também mostrar-se às televisões, convocando uma reunião de emergência da Protecção Civil — esse organismo utilíssimo para nos mandar agasalhar no Inverno e vestir roupas leves no Verão. Lá estavam todos os suspeitos do costume, entre os quais o inefável e eterno Jaime Marta Soares, dos bombeiros e do Sporting, de Bruno de Carvalho. Fiquei seguro de que o coronavírus não passará, estamos protegidíssimos!

Entretanto, enquanto o número de infectados crescia à média estável de dois por dia (até quinta-feira, quando escrevo), descobriu-se que a célebre Linha de Saúde 24 — para que todos, a começar pelo primeiro-ministro, apelam que se ligue à menor suspeita — só dava vazão a parte das chamadas e a linha de apoio aos médicos às vezes só atende no dia seguinte. Faltam instruções claras, falta pessoal, faltam instalações onde isolar casos suspeitos nos centros de saúde, falta material de enfermagem adequado para a situação. Enfim, estávamos preparadíssimos…

E quando na quarta-feira, na Assembleia da República, André Ventura (que desta vez não foi calado por Ferro Rodrigues) fez a pergunta que se impunha mas que não deveria ser politicamente correcta — se o Governo não pensava demitir a directora-geral responsável por tanta preparação e tanto alarmismo causado em tão pouco tempo — António Costa respondeu que não se muda de general a meio da batalha. Fala de alto o primeiro-ministro: fala de alto, porque só numa visão muito optimista é que a batalha já vai a meio e não apenas no início. E fala com desconhecimento da história, que está repleta de exemplos de desastres revertidos em sucessos por se ter mudado de general a tempo. Mas se as coisas apertarem mesmo a sério, o primeiro-ministro aprenderá à sua custa que o sagrado princípio da inamovibilidade dos funcionários públicos portugueses não é o mais importante aqui.

Mas vamos confiar na sorte e no optimismo de António Costa. E, sobretudo, confiar nos médicos, enfermeiros e auxiliares. Ou, para quem preferir, na Senhora de Fátima.


2 Imagine um mundo em que quase um terço das emissões de CO2 lançadas diariamente para a atmosfera desapareceu de um dia para o outro: os céus da China limpos da queima insaciável de combustíveis fósseis, a que se junta a redução acrescentada pela queda brutal das viagens de avião e da circulação dos imensos paquetes de passageiros, outrora um sinal de festa e hoje a nova praga das cidades costeiras. Imagine Veneza, Florença, Paris, São Petersburgo, Istambul desertas de multidões de chineses, coreanos, russos; museus onde se pode entrar e percorrer as salas: cafés onde se pode estar sentado; praças para onde se pode olhar. Imagine uma quantidade de gente com mais tempo para si, para a família, para os amigos, com menos pressa para tudo. Imagine gente a trabalhar a partir de casa, produzindo o mesmo e gerindo o seu próprio tempo de trabalho, gastando menos, poluindo menos, aliviando o trânsito. Imagine que de repente desapareceu a febre do consumismo supérfluo e que as pessoas se põem a pensar nas coisas que são verdadeiramente importantes. Imagine que um medo e uma apreensão global faz com que a necessidade de se andar informado faça as pessoas afastarem-se dos pântanos de intrigas e mentiras das redes sociais e regressem à informação de referência, onde está o serviço público de que necessitam. E imagine que, apesar do medo e da apreensão, porque somos seres humanos, somos desafiados a enfrentá-lo, a resistir-lhe e a combatê-lo, contra o egoísmo, o alarmismo e a irracionalidade alarve das massas, e a portarmo-nos como seres humanos. Isto, esta utopia, está a acontecer agora. Sob os nossos olhos e graças ao coronavírus. A forma como nos comportarmos vai ser tão importante, em termos de reflexão, como vai ser, em termos científicos, a forma como o vírus for vencido. Mas, até lá, esta pausa, esta suspensão do mundo tal como o conhecemos, já é um excelente tema de reflexão.

Claro que não é sequer pensável suster o mundo, como agora está forçadamente, de forma permanente. A mudança teria de ser feita de forma gradual, global e planeada. Mas também não é possível continuar a assentar um futuro sustentável numa fórmula que se traduz em mais, mais e sempre mais, de tudo: mais população, mais queima de resíduos fósseis, mais emissões poluentes, mais contaminação dos oceanos, mais desflorestação, mais incêndios, mais aviões nos céus, mais turismo de massas, mais agricultura intensiva, mais cidades megalómanas. Sabemos que temos de viver de outra maneira, mas não queremos ou não acreditamos que seja possível. E porque não o será?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia



Um aeroporto como paradigma português

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 29/02/2020)

Miguel Sousa Tavares

Há uns bons 30 anos que se fala da necessidade de construir um novo aeroporto em Lisboa: mais longo que isso só o tempo que Vitalino Canas leva de preparação para se tornar juiz do Tribunal Constitucional — 40 anos, segundo o próprio.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

No início, e antes de o Porto ter conquistado a duras penas e por mérito exclusivamente próprio o direito a ter também um aeroporto internacional (evitando que os portuenses, para irem a Londres, a Roma ou ao Rio, tivessem de vir a Lisboa primeiro), o novo aeroporto de Lisboa (NAL) estava destinado a ser sobretudo o único aeroporto internacional português, sendo o Porto um pequeno aeroporto regional e Faro um aeroporto sazonal. Depois, quando a Portela deixou de ser a única porta de entrada aérea em Portugal e quando, simultaneamente, a instabilidade nos mercados turísticos da Turquia e do Mediterrâneo Sul puseram Lisboa em força no mapa do turismo de massas, começou-se a olhar para o NAL como parte essencial de uma estratégia de desenvolvimento turístico de Lisboa e toda a região envolvente. E foi aí que começou a urgência e as pressões de vários lados para se avançar sem demoras para um novo aeroporto.

Era então que previamente se deveria ter discutido e chegado a um consenso sobre as questões essenciais à partida. Desde logo, o que fazer à Portela? Tinha, e tem, as evidentes desvantagens de ser um aeroporto praticamente dentro da cidade — o que, não sendo caso único no mundo, neste caso envolve o sobrevoo da cidade por quase todos os aviões que se fazem à pista, com as evidentes consequências a nível de ruído, poluição do ar e perigo potencial. E as evidentes vantagens da sua localização para os serviços, o comércio, o próprio funcio­namento do aeroporto e, sobretudo, para os passageiros, que beneficiam de um luxo raro nos tempos que correm. Havia, pois, que decidir entre três hipóteses: construir um aeroporto de raiz que substituísse o actual, desmantelando este no final (solução Ota), construir outro por fases, funcio­nando primeiro como complementar ao actual e depois substituindo-o por completo (solução Alcochete) ou aproveitar um já existente para funcionar como complementar ao actual (solução Portela + 1, no Montijo). As três soluções foram consideradas sucessivamente, mas, como se vê, ainda hoje nenhuma delas é consensual. Estamos na iminência de avançar para a fase final do Montijo e a discussão continua inflamada.

A segunda questão prévia a definir era decidir que aeroporto se queria fazer: para quem, para quantos, para quando, por quanto? Esta questão condicionava a anterior e o tipo de desenvolvimento que se projectava para Lisboa e, em parte, para o país. Seria o tão apregoado “desenvolvimento sustentável”, com que todos os políticos gostam de encher a boca, ou seria o nosso tão íntimo, tão velho e tão desgastado modelo de desenvolvimento algarvio, posto em prática por lá no último quartel do século passado, com os exuberantes resultados que estão à vista? Sem nenhuma surpresa, ganhou este modelo. Lisboa, e tudo à volta, está entregue — sem um suspiro, sem um sobressalto, sem um remorso — nas mãos do deus turismo. Dezenas e dezenas de hotéis nascem em Lisboa todos os anos, mais as inúmeras casas entregues aos alugueres turísticos, despovoando a cidade de habitantes em troca de passantes; louvam-se e incentivam-se os sucessivos recordes de passageiros dos megapaquetes turísticos, principais poluidores da cidade, que dormem nos seus navios estacionados junto ao Terreiro do Paço e cujo retorno é próximo do zero; mas, para salvar o ar da Baixa, Fernando Medina projecta vedar o acesso de todo o centro histórico aos poucos lisboetas que ainda por lá andam, deixando-o como condomínio de luxo para os turistas dos tuk-tuk e os proprietários estrangeiros dos Golden Card e apartamentos comprados a 8 e 10 mil euros o metro quadrado. Carcavelos é internacional graças a mais uma excepção ao PDM em nome do interesse nacional, Cascais é uma vila brasileira e a Comporta estima vir a receber 200 mil pessoas, todos estrangeiros, com o projecto “amigo do ambiente” da dupla formada pelo francês Claude Berda e a portuguesa Paula Amorim. Tanto desenvolvimento, obviamente, já não cabe na Portela, e por isso todos os dias os ‘empresários’ reclamam, exigem, gritam por um novo aeroporto, seja lá onde for. Faltam 40 mil trabalhadores na hotelaria e restauração — cujos salários não ­atraem­ gente capaz —, mas os empresários turísticos não querem saber: querem é mais aviões a aterrar para trazerem cada vez mais e mais turistas para os seus hotéis. A mão-de-obra, depois, se necessário for, importa-se: nem que seja da Ásia, como fazem os novos ‘agricultores’ das estufas de frutos exóticos da costa alentejana ou dos olivais superintensivos do Alqueva. Eis assim implicitamente respondida a segunda questão: o NAL serve para o negócio do turismo. E não tem, por definição, limite de crescimento: crescerá enquanto eles precisarem, sem que qualquer estratégia para a cidade de Lisboa, qualquer plano director municipal ou qualquer limite ao esforço exigido aos contribuintes sirva de travão. Nunca aprendemos nem aprenderemos: a ideia de assentar uma estratégia de desenvolvimento num único sector, para mais dependente do exterior e que implica danos patrimoniais irreversíveis a benefício do lucro imediato de alguns, tem como inevitável destino o desastre a médio prazo. Mas é a nossa maneira de agir, sem reflectir e sem planear.

Torna-se assim difícil escolher seria­mente uma localização para o NAL, quando nem sequer o interesse público para tal é consensual. De memória, já assisti à defesa acérrima de nada menos do que sete localizações diferentes para o aeroporto por parte de conceituados ‘especialistas’ na matéria: Rio Frio, Ota, Beja, Tires, Alcochete, Montijo e Alverca. Todas elas, sem excepção, foram mutuamente arrasadas por uns e pelos outros.

Em Beja, seriam precisos vários TGV a funcionar a todo o tempo para ultrapassar os 200 km de distância de Lisboa; na OTA, era preciso arrasar uma montanha e construir uma pista sobre milhares de estacas de betão; em Alverca, era preciso uma pista sobre o Mouchão do Tejo e dizem que não seria possível operar simultaneamente com a Portela; no Montijo, há o problema das aves e da proximidade à água, mas, como aqui o escrevi a semana passada, os mesmos problemas, mais graves ainda, existem em Faro e o aeroporto está ali há 40 anos. Agora, a Ordem dos Engenheiros e José Sócrates ressuscitaram Alcochete — que dizem poderia ser construído por fases, sendo que a primeira fase poderia funcionar como Portela + 1 e custaria o mesmo que o Montijo. Mas lembro que Alcochete também foi, em seu tempo, arrasado pela Quercus, referindo a alteração brutal à paisagem natural envolvente, a imensa quantidade de sobreiros a abater, a existência igualmente das mesmas aves do Montijo e muitos mais animais outros, e, sobretudo, que a construção assentaria sobre um importante aquífero subterrâneo, que o estudo de impacto ambiental apenas dizia que teria de ir sendo monitorizado ao longo da construção e utilização (ou seja, não sabia o que lhe ia acontecer).

E se já é difícil para um leigo perceber quem tem razão nas infindáveis querelas dos ‘especialistas’, mais difícil isso ainda se torna sabendo nós que por detrás de qualquer escolha estão inevitavelmente, e mexendo-se afanosamente na sombra, todos os interesses habituais: lobistas profissionais, os três ou quatro escritó­rios de advocacia de Lisboa que estão em todos os negócios onde entra o Estado, os bancos que os vão financiar, as construtoras portuguesas e estrangeiras que cobiçam a obra e os engenheiros avençados por elas para defenderem esta ou aquela solução publicamente. Nada disto é a feijões, meus caros! E à cabeça de todos, batendo-se pelo Montijo — porque é mais barato e lhe cabe pagar a obra —, está a Vinci, essa empresa de vão de escada a quem o Governo PSD-CDS entregou a ANA, uma empresa pública rentável e eficaz, no que foi um dos mais inqualificáveis actos de gestão pública jamais consumados.

Tudo isto, todo este persistente impasse e incapacidade de consenso, toda esta ausência de reflexão e de planea­mento sobre o futuro, toda esta falta de transparência crónica em qualquer negócio que envolva grandes empreitadas públicas, é o paradigma de um país onde parece ter-se perdido de vez a capacidade de definir e aceitar objectivos comuns aceites por todos.

PS: E enquanto discutimos isto, o Novo Banco vai pedir ao Fundo de Resolução (que, no meu tempo de vida, sou eu que pago) mais uma injecção de dinheiro equivalente ao custo… do aeroporto do Montijo.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


“Pare, escute e olhe”

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/02/2020)

Miguel Sousa Tavares

(Ó Miguel, em relação ao ponto 1, sobre a eutanásia, parece-me que andaste distraído à brava. Agora houve debate, e não foi pouco, tal como já tinha havido em 2018 quando a lei chumbou na AR. Sobre a tua pergunta: “Qual a legitimidade de 230 portugueses votarem esta matéria em nome de outros 10 milhões”, fico estarrecido por não saberes a resposta: É a democracia representativa, estúpido.

Comentário da Estátua de Sal, 22/02/2020)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

1 Não percebo se algum dos senhores deputados ou alguém próximo está em fase terminal de vida e em grande sofrimento, em termos que tornassem urgente a votação de uma lei sobre a eutanásia. Mas, mesmo sendo o caso, essa particular urgência não se adequa à pressa de legislar em matéria tão sensível sem que previamente estivessem amplamente debatidas e, tanto quanto possível, esclarecidas, e depois meditadas, todas as questões envolvidas: do ponto de vista ético, clínico, jurídico, metodológico. E, salvo melhor opinião, não o estavam: eu, por exemplo, embora tenha uma posição de princípio favorável, não me considero suficientemente esclarecido e não sei se sinta inveja ou pavor dos 230 deputados que não tiveram dúvidas em votar, aparentemente todos cabalmente esclarecidos.

E aí chegamos à segunda questão que se coloca: com que legitimidade é que 230 portugueses votam esta matéria em nome de 10 milhões de outros? Acaso o estatuto de deputados lhes confere uma infalibilidade garantida em assuntos de consciência individual ao ponto de não terem de se preo­cupar em saber a opinião de quem os elegeu? Com que fundamento podem presumir que a sua vontade maioritária, seja ela qual for, representa a vontade maioritária dos portugueses: será com o mesmo fundamento e a mesma presunção com que há 20 anos apostaram erradamente que a maioria dos portugueses era a favor da regionalização? Ou, pelo contrário, porque, tal como os regionalistas agora temem repetir o referendo, também os defensores da eutanásia temiam submetê-la ao voto popular?

Não defendo que tudo seja referendável — os direitos fundamentais, por exemplo, não podem sê-lo. Mas questões como a regionalização ou questões de consciência individual, como esta, têm de o ser, sob pena de estarmos a contribuir cada vez mais para aquilo que todos dizem querer evitar: o afastamento dos cidadãos da política. Também concordo que a exigência de que uma maioria de recenseados vá às urnas votar para que um referendo se torne vinculativo é talvez pedir demais num país de abstencionistas. Mas reveja-se a Constituição nesse ponto, e, entretanto, discuta-se melhor o assunto e esclareçam-se melhor as pessoas, e depois faça-se o referendo. É melhor do que legislar a mata-cavalos só para colocar mais uma medalha no já mais do que fracturado peito do Bloco de Esquerda.


2 Reflectindo as opiniões de muita gente cheia de boas intenções, o “professor” Rui Tavares deu esta quarta-feira no “Público” uma lição a todos a quem possa interessar sobre as várias formas e pretextos para fingir que o deputado André Ventura, do Chega, não existe. Ou, se existe, deve fazer-se de conta que não existe, tal como ele, que nem sequer lhe pronuncia o nome, e sobretudo não lhe concedendo, “em nome das audiências ou do dinheiro” (!?), a possibilidade de intervir em “polémicas” ou “plataformas” onde o inexistente possa “sequestrar o debate”. Ora bem. Eu cresci habituado a ver as coisas de outra maneira.

Em primeiro lugar, passei a minha infância e parte da juventude num país chamado Portugal, onde havia uma coisa chamada Censura, outra coisa chamada PIDE e outras coisas com nomes diversos, mas todas cumprindo uma mesma função: fazer com que no espaço público ninguém cometesse o crime de, cito, “professar ideias contrárias à ordem pública vigente”. Não sei porquê, ficou-me desde então uma repulsa instintiva por tudo o que cheire a tentações ou tentativas de reprodução de métodos semelhantes, ainda que bem mais democráticos, para chegar a fins semelhantes, ainda que bem mais louváveis. É uma chatice, mas os fins nunca justificam os meios. E nunca é nunca. Goste-se ou não, o deputado André Ventura foi eleito por uma parte de cidadãos portugueses para o Parlamento e para os representar, ao lado de todos os outros que lá estão e com os mesmos direitos que eles. Claro que há limites, que são os que decorrem da lei e da Constituição — a que deve obediência. Podemos suspeitar que ele não diz tudo o que verdadeiramente pensa (e, pelo contrário, até podemos suspeitar que nem sequer é de extrema-direita e que apenas aproveita um espaço político vazio até aqui para se projectar). Mas o que interessa não é o que ele pensará em segredo, mas o que diz ou escreve em público, e, até agora, não o ouvi dizer ou escrever nada que ofenda princípios constitucionais inquestionáveis. E, se e quando o fizer, outros têm o dever funcional de intervir por força da lei, e não por repulsa pelas suas ideias políticas. Não sei assim qual é o argumento de autoridade democrática que nos levará a todos — e, desde logo, começando necessariamente pelo próprio Parlamento — a fazer de conta que André Ventura não existe.

Em segundo lugar, e falando como jornalista, o que o “professor” Rui Tavares me recomenda é, pura e simplesmente, deontologicamente inaceitável. Os jornalistas não têm um índex de gente entrevistável e não entrevistável e, pelo contrário, e porque o mundo, infelizmente, não é feito só de gente boazinha, acontece — e aconteceu-me a mim — já ter tido de entrevistar políticos fascistas, estalinistas, corruptos, desonestos, ladrões e até assassinos. Porquê? Porque, às vezes, são notícia. E assim como não se escolhem os políticos que os outros elegem, também não se escolhem as notícias que acontecem e os protagonistas delas. Que mundo distorcido em que nos propõe viver Rui Tavares!

Com que legitimidade é que 230 portugueses votam esta matéria da eutanásia em nome de 10 milhões de outros?

Enfim, ao argumento democrático e ao argumento jornalístico eu acrescento talvez o mais importante de todos: o argumento político. A tese de que ostracizar e marginalizar os políticos de extrema-direita, os arautos do racismo, do ódio ao estrangeiro e ao outro, os defensores dos abusos da autoridade e das sociedades securitárias é a melhor forma de acabar com eles ocupa uma vasta galeria de rotundos e trágicos fracassos. Podíamos começar já pelo VOX, aqui ao lado, em Espanha, ou recuar ao nascimento da FN, em França, onde a concertada marginalização de Jean-Marie Le Pen, e depois da sua filha, Marine Le Pen, não só não evitou que o Front National crescesse até se tornar a segunda força política em França, como só por uma unha negra não levou Marine até ao Eliseu. Mas o mais eloquente exemplo de todos é o de Jair Bolsonaro, no Brasil. Chegou à presidência sem sequer ter um partido real como base eleitoral de apoio e, antes que a imprensa o ostracizasse, tratou ele próprio de desaparecer de cena, como estratégia de tomada do poder. À boleia de um atentado, real ou fictício, Bolsonaro, absolutamente impreparado e incapaz de enfrentar os adversários em debates ou jornalistas independentes em entrevistas, fechou-se em casa durante toda a campanha eleitoral e ganhou as eleições no WhatsApp — onde um grupo de marqueteiros superprofissionais escrevia por ele e distribuía cientificamente mensagens verdadeiras e falsas para destinatários seleccionados pelo célebre algoritmo que já havia ganho as eleições para Trump e o ‘Brexit’ para Farage e Boris Johnson. Imaginar que se consegue silenciar um político deixando-o de fora dos media, numa época em que um número assustadoramente crescente de pessoas se está a mudar da informação de referência para a livre manipulação das redes sociais, é pura imbecilidade. Pelo contrário — e o case study de Bolsonaro provou-o bem —, a única forma de os enfrentar é combatê-los no terreno da democracia, do debate de ideias, do confronto com a imprensa livre e séria. E também se não for assim não vale a pena: o objectivo final está perdido à partida.


3 Tive o cuidado e a paciência de estudar o dossiê sobre o novo aeroporto de Lisboa na Ota: um absurdo, que, entre outras coisas, envolvia arrasar uma montanha e plantar milhares de estacas de betão para sustentar a pista. Depois, estudei o dossiê de Alcochete: um atentado ambiental, explicado ao pormenor. Por exclusão de partes, restava o Montijo, que já lá estava e que parecia mais rápido de executar, mais barato e mais lógico. Não sendo o Montijo, e porque não somos assim um país tão grande, só vejo como alternativa uma coisa que até não me desagradava nada, mas que nenhuma das “forças vivas” da nação quereria: declarar Lisboa esgotada para o turismo, e o aeroporto da Portela suficiente e preenchido para aquilo que é o interesse “sustentável”, como agora fica bem dizer, da cidade e do país. Porém, não sendo isso o interesse sustentável dos imensos interesses a sustentar, parece que é preciso um novo aeroporto. Mas, como nenhuma grande obra pública em Portugal é de consenso pacífico, vai por aí uma imensa controvérsia acerca dos dois grandes males de que padecerá o Montijo: a proximidade à água e as aves do estuário do Tejo. A primeira objecção tem que ver com a expectável subida do nível das águas do mar por efeito do aquecimento global; a segunda, com a protecção das aves habitantes da Rede Natura da zona do futuro aeroporto. 26 mil preocupados cidadãos holandeses já assinaram uma petição em defesa do maçarico-de-bico-direito, que, consta, será a principal ave ameaçada pelo futuro aeroporto do Montijo. Olhando para trás, isto é grave: os holandeses têm uma tendência em preocupar-se com os nossos assuntos. Foi assim com a cultura da cana-de-acúcar no Pernambuco, com a borracha da Amazónia ou, mais recentemente, com o dinheiro que gastávamos em copos. Tão antigo e atento desvelo deveria manter-nos alerta.

Todavia, há semanas fui almoçar à ilha de Faro, onde nunca tinha ido. Ora, eu não percebo nada da subida do nível das águas, do maçarico-de-bico-direito e menos ainda de aeroportos. Mas vi isto: se no Montijo a água estará a 4,5 metros da pista, em Faro está a 1 ou 2 metros; quando o Montijo for inundado, já o aeroporto e a cidade de Faro terão sido — e o Terreiro do Paço, a Baixa de Lisboa, os Jerónimos, Cascais, Setúbal, a Ribeira do Porto, metade das cidades do Algarve e das cidades e vilas costeiras do país. Depois, às tantas, vi um avião (por sinal holandês) levantar voo da pista, rente à água, logo depois seguido por vários outros. E 20, 50, 100 metros adiante, pousadas na água, estavam milhares de aves, naquilo que é, não uma Rede Natura, mas sim um parque natural — um dos raros que temos. E sabem o que aconteceu? Nada: os aviões levantaram voo por cima deles e os pássaros nem se mexeram. Repito: eu não percebo nada disto, mas vi. Quem souber que explique.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia