Deus não dorme. Os portugueses também não

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/02/2022)

Miguel Sousa Tavares

A vantagem de haver eleições ao domingo e escrever à quarta-feira é que, aqui chegado, já tudo foi dito e escrito e, embora nada de novo possa ser acrescentado, é possível reflectir não apenas sobre os resultados mas também sobre as reflexões alheias. E isso é, pelo menos, o mais divertido, sobretudo no que respeita à opinião da “esquerda lux”, com presença avassaladora nos media portugueses, quer a nível de colunistas de opinião, quer mesmo a nível de jornalistas. É, aliás, uma tradição eleitoral nossa a de ser bem mais divertido do que ouvir os vencedores explicarem as razões da sua vitória ouvir os vencidos explicarem porque é que, afinal, não perderam — nem a eleição nem a razão. Assim, tudo ouvido e tudo lido, eis o que guardarei para memória futura.

A VITÓRIA DE ANTÓNIO COSTA. Foi dele e não do PS. Com Ana Catarina Mendes ou Fernando Medina, o PS teria ganho, mas sem maioria absoluta; com Pedro Nuno Santos teria perdido. Com António Costa ganhou o PS do centro e também, como ele disse, “da estabilidade, da segurança e da certeza”. E da sorte, na qual o homem é um fenómeno. Apesar de uma péssima campanha, com objectivos ziguezagueantes e truques de feirante, Costa beneficiou da sorte em tudo: na ajuda das sondagens, no castigo dos eleitorados do BE e do PCP e em todas as repartições de votos devido ao método de Hondt (em Bragança, roubou um deputado ao PSD por 15 votos!).

A RESPONSABILIDADE DE RUI RIO. É quase nenhuma. Rio esteve em alto nível no debate com Costa e fez uma campanha “limpa”, ao seu estilo. O único erro foi não ter sido veemente (aos gritos, se necessário) na demarcação do Chega, permitindo que Costa e a extrema-esquerda usassem essa ligeira ambiguidade para uma ampla deturpação. Mas a verdade é que a missão patriótica de conter o Chega lhe coube toda a ele, ao mesmo tempo que lhe cabia a tarefa impossível de ganhar as eleições sem o Chega e contra o Chega, num país em que, com a breve excepção do traumático pós-Sócrates, existe uma consolidada maioria de votantes de esquerda e centro-esquerda. Não conseguiu ganhar nem evitar a maioria absoluta do PS, mas foi ele que deteve o crescimento do Chega — ele e não a esquerda.

E teve mais votos do que em 2019 e apenas um deputado a menos.

E sem cair na tentação de louvar-se da herança e dos tempos do PSD de Passos Coelho, de que, pese a alguns espíritos saudosistas do partido, não creio que a grande maioria dos portugueses tenha saudades.

AS SONDAGENS. Ao contrário do que foi conclusão apressada, as sondagens não se enganaram — elas decidiram, o que é coisa diferente e dá que pensar muito. Quando, até à antevéspera das eleições, indicaram ou que o PSD podia ganhar ou que o PS iria ter apenas uma maioria relativa e teria de negociar talvez com o PSD, os abstencionistas da extrema-esquerda decidiram-se e decidiram as eleições.

Em vez de ficarem em casa para castigarem o BE e o PCP com a sua abstenção, foram votar PS, afastando as hipóteses de uma vitória do PSD ou de um entendimento ao centro sob liderança do PS.

O CASTIGO Mas o BE e o PCP — que se justificaram com tudo e mais alguma coisa — não se podem queixar das sondagens. Se os seus potenciais votantes se mobilizaram para ir às urnas devido às sondagens — e foram-no —, também poderiam ter escolhido votar nos seus partidos de origem e não no PS, e esse voto também teria evitado a vitória do PSD.

Se não o fizeram foi porque não perdoaram o chumbo do Orçamento e a crise que desembocou nestas eleições.

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Aliás, a teimosia com que BE e PCP insistiram durante toda a campanha e depois dela em tentar vender a versão de que foram o PR e o PS quem provocou a crise e as eleições excedeu a desonestidade intelectual, entrando mesmo no terreno da simples tentativa de passar um atestado de estupidez aos portugueses. Ainda por cima reincidente, pois ainda nos lembramos de quando, em 2011, os mesmos partidos se juntaram à direita para, com igual pretexto, chumbar o PEC IV, forçar a queda de um Governo socialista e trazer a direita para o poder. Desta vez nem sequer deixaram o OE ir à especialidade: o killer instinct está-lhes na massa do sangue. Dizem que o OE “não era bom”, uma razão legítima.

Sucede, porém, que não era o deles, era o de quem tinha ganho as eleições…

Agora, o PCP vai para as ruas, via CGTP (que logo tratou de o anunciar), e o BE vai ter muito que cismar.

O CHEGA. Parece que há 385.559 devotos da extrema-direita, saudosistas do fascismo ou do salazarismo, racistas, protonazis ou outras coisas que tais: os votantes do Chega. Parecem muitos, mas não me impressionam por aí além: em 25 de Abril de 1974 eram muitos mais, infinitamente mais. Cinquenta anos de democracia, apesar de todos os queixumes e da confusão entre democracia e prosperidade, não fizeram esta falange negra crescer além dos 7% da população — bem menos do que em Espanha, França, Alemanha, Itália e em tempos em que o sinistro papel desempenhado pelas redes so ciais ajuda determinantemente ao crescimento deste vírus. E se 12 deputados do Chega na AR são uma vergonha para todos os outros de nós, também tenho a esperança de que quatro anos a olhar de perto para as caras daquela gente e a boçalidade política daquele grupo sirva para apressar o fim da doença.

O LIBERALISMO FUNCIONA E FAZ FALTA? Tal como em 2019, com muito poucos meios, a Iniciativa Liberal fez a melhor e mais inteligente campanha eleitoral. Aquilo que, à falta de imaginação, a “esquerda lux” chama o “darwinismo social” da IL foi o sucesso em conseguir pôr o país a discutir temas até aqui arredados da discussão pública. E, com razão ou sem razão, em muitos deles a coisa não vai ficar por aqui, porque, ao contrário do Chega, a IL vai ter o grupo parlamentar mais jovem e mais qualificado e absolutamente virgem de passado político. Sanitariamente avessa à extrema-direita e claramente demarcada da direita conservadora, a IL poderá vir a ser a grande surpresa desta legislatura.

OS DESAPARECIDOS. Creio que, sem menosprezo por alguns bons deputados que tinha e teve no passado, nenhum eleitor lamentará o desaparecimento dos bancos do Parlamento dos deputados dos Verdes. Porque os Verdes, de facto, nunca existiram enquanto partido autónomo, dotado de vontade própria. Um partido que estava há décadas no Parlamento sem nunca ter ido a votos e apenas como muleta de outro não existe politicamente. E de verdes tinham muito pouco. O PAN não acabou, mas quase. O partido que se afirma da Natureza e dos Animais só recolhe votos entre os donos de gatos e cãezinhos das cidades. Nesta interrompida legislatura tentou apressadamente reconverter-se em partido ambientalista, tirando vantagem da ausência quase absoluta de verdadeiros protagonistas nesta área. Mas já estava marcado pelo seu extremismo animalista e pela sua funda ignorância do que seja o mundo rural e as leis da natureza e acabou reduzido a uma merecida insignificância. A morte anunciada do CDS foi diferente e mais séria, foi como a morte de um estimável tio-avô às mãos de um sobrinho sequioso por se apropriar da herança. O jovem “Chicão”, sempre secundado pelo seu fiel cangalheiro e parceiro de golpes Anacoreta Correia, revelou-se um ditadorzinho, temente aos desafios e ao mérito alheio, indiferente à história do partido e sem uma ideia naquela cabeça. Em dois anos, afastando alguns dos melhores deputados da AR, cortando com toda a gente de valor, não tendo outro projecto do que mendigar uma boleia no porta-bagagens do PSD, ele conseguiu a proeza de, pura e simplesmente, liquidar o partido.

Demissionário, mas não arrependido, ainda ameaça ensombrar o velório, prometendo “não fazer aos outros o que me fizeram a mim”. Como disse? O GOVERNO Desde o segundo Governo de Cavaco Silva que não tínhamos um horizonte de governabilidade tão desanuviado. Tal como Cavaco, António Costa vai dispor de quatro anos de confortável maioria absoluta, sem estar sujeito a acordos ou chantagens de nenhum outro partido, sem oposição interna ou externa que o possa incomodar, com dinheiros europeus em abundância, uma iniciativa privada ansiosa por participar e a pandemia e a crise económica a darem sinais de se tornarem brevemente passado.

Foi a escolha dos portugueses, uma escolha impensável e para lá das melhores expectativas de António Costa. Os portugueses deram-lhe uma oportunidade raríssima na história da governação: poder ir além da babugem da política e fazer-se ao mar largo da busca de um horizonte de esperança para o país. Só lhe resta estar à altura disso.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Coisas que tenho como evidentes

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/01/2022)

Miguel Sousa Tavares

1 Os debates tiveram uma grande virtude, que foi a de, por uma vez, termos assistido a uma discussão sobre política, sobre ideias e ideologias diversas e, consequentemente, sobre diferentes opções económicas e sociais. Coisas determinantes ficaram, todavia, de fora, com destaque para o ambiente e a política externa — num momento crucial de crise na fronteira leste da Europa, envolvendo a NATO, à qual pertencemos. Mas, isso perdoado, os eleitores não se podem queixar de não terem sido esclarecidos e de não terem percebido as diferentes opções em cima da mesa. E, finalmente, o tema dos impostos — do excesso de impostos sobre quem trabalha e produz riqueza — ocupou o primeiro plano das discussões e, tirando o PCP, como seria de esperar, nem a esquerda escapou à discussão, ouvindo-se até Catarina Martins a defender uma suave descida dos escalões intermédios do IRS, do imposto sobre os combustíveis e do IVA sobre a electricidade. Num país em que o Estado cobra 43.000 milhões de euros entre impostos directos e indirectos, sugando a riqueza do país e asfixiando o crescimento, e em que o palco é permanentemente ocupado por economistas das Universidades públicas defensores de mais e mais impostos e despesa, creio que este primeiro passo agora dado na discussão se vai tornar irreversível.

Só por isso vale a pena ir às urnas.

2 Voltar a Córdova é regressar à essência do que é o mundo mediterrânico de onde nós vimos, onde crescemos e aprendemos e que nos cabe defender contra modas e presunções. É certo que ali estamos longe do nosso mar, apenas contemplando um Guadalquivir por estes dias também escasso de água, anunciando uma iminente tragédia ibérica que só loucos e irresponsáveis persistem em não querer ver. Mas longe do azul líquido do mar, esquecemo-nos disso nas ruelas e becos do Barrio Judio, na deslumbrante mesquita, depois feita catedral, nos sucessivos tanques de água que escorre entre laranjais nos jardins do Paço Real, ou nos pátios, depois de pátios e após pátios, do Palácio Viana. Porque esta é a nossa herança romana e árabe: pátios, jardins, terraços, sombras e água que corre, como no Alhambra. E aqui viveram em harmonia durante séculos judeus, muçulmanos e cristãos, até que a Reconquista dos Reis Católicos e a Santa Inquisição reduzisse tudo a um só povo, uma só raça, uma só fé.

Em Córdova também, reúne-se tudo o que faz da Andaluzia uma terra única, de gente única, de tradições e personalidade únicas: ciganos e flamenco, presunto e “embutidos” do porco ibérico morto com todos os requintes necessários a esse milagre gustativo, caça e touradas. Ou seja, tudo aquilo que faz a nossa Inês Surreal e o seu virtuoso PAN, agora putativo parceiro preferencial de António Costa, desatar aos gritos de “barbárie!” e “retrocesso civilizacional”. Há, em Córdova, um museu sobre esse retrocesso civilizacional, que, mesmo os não entendidos como eu, não conseguem visitar sem um estremecimento de emoção e de respeito: o Museu da Tauromaquia. Ali se guardam alguns “trajes de luces” e outra memorabilia, além de fotografias de touros e toureiros que se tornaram imortais na praça de Córdova.

Lá estão as histórias e as fotografias dos “califas de Córdova” — Guerrita, “Lagartijo”, El Galo, Juan Belmonte (considerado o fundador do toureio moderno e o mais elegante de sempre, o homem que nunca se mexia diante do touro), ou Joselito El Galo III, morto pelo “Balader”, um touro vesgo, que investiu ao corpo e não ao capote.

Ou aquele que ainda hoje é venerado em toda a Espanha como o maior toureiro de sempre: Manuel Rodriguéz Sanchéz, vulgo Manolete, nascido em Santa Marina, o bairro dos toureiros de Córdoba, de sangue cigano, feio como uma noite de trovoada, mas adorado por toda a Espanha, dentro e fora da arena. Dizia-se que toureava tão próximo do touro que quando este investia sobre a sua muleta a multidão sustinha a respiração e nem um sopro se ouvia na praça inteira. Toureando ao lado de Luis Miguel Dominguin, outra lenda do toureio espanhol, morreu aos 30 anos de idade na Praça de Linares, confundindo o seu sangue na arena com o do touro “Islero”, que acabara de matar — sim, porque os toureiros também morrem. Morreu “a las cinco en punto de la tarde”, como escreveria no seu imortal poema Federico García Lorca. Morreu aquele sobre quem o então cônsul brasileiro em Sevilha, João Cabral de Melo Neto, talvez o maior poeta brasileiro de sempre, escreveu: “Eu vi Manolo González e Pepe Luíz, de Sevilha/ precisão doce de flor, porém precisa…/ Mas eu vi Manuel Rodriguéz, Manolete, o mais deserto/ o toureiro mais agudo, mais mineral e mais desperto”.

Sim, Manolete, Belmonte, João Cabral, Garcia Lorca, Vale-Inclán, que escreveu que nada é mais profundamente espanhol do que as touradas, Órtega y Gasset, Picasso ou Dalí, que as pintaram, todos sabemos e saberemos quem foram porque fazem parte da nossa cultura. Mas a Inês Surreal e a sua luta pela “civilização”, quem se lembrará dela a não ser António Costa em caso de necessidade? Civilização? Sim, a minha, aquela onde estão as minhas raízes e o meu caminho de casa.

3 Às vezes, há pessoas cuja palavra parece vir de tão fundo do coração — ou da alma, se é que isso existe — que tornam luminoso e imediatamente evidente aquilo que a outros custa tantas palavras a explicar. Pensei nisso ao ler no último número da Revista do Expresso a entrevista da escritora moçambicana Paulina Chiziane, Prémio Camões 2021. Esta mulher, que gosta de passar longas horas diante de uma fogueira e que afirma ter com a língua portuguesa “uma relação de amor, com conflitos, como em todas as histórias de amor”, fez mais, em quatro páginas de entrevista, pelo anti-racismo, pelo pan-africanismo, pelos direitos das mulheres e pela ecologia, do que todas as comissões, feministas encartadas ou movimentos organizados que se ocupam disso. E fê-lo de uma forma tão espontânea e simultaneamente tão meditada, tão bonita e tão desarmante, que todos esses temas aparecem integrados, como se cada um decorresse do outro. Ao ouvi-la, ao pensar bem no que ela diz, não me quedam dúvidas, por exemplo, de que “a construção de África é feminina”. E creio que jamais alguém desarmará de forma tão simples o racismo: Que beleza teria o mundo se apenas houvesse uma raça?”

4 Depois de um encontro infrutífero EUA-Rússia a nível de ministros dos Estrangeiros, depois do encontro NATO-Rússia em Bruxelas e Europa-Rússia em Viena, ambos com idênticos nulos resultados, os “especialistas” — os do lado de cá — continuam a afirmar que a Rússia não cedeu um milímetro e mantém 100.000 soldados na fronteira leste da Ucrânia. Na verdade, até já retirou 10.000 num gesto prévio de boa-vontade não correspondido pelo lado de cá, que continua a enviar armamento para a Ucrânia e a manter planos de exercícios militares conjuntos. Mas se a Rússia não cedeu um milímetro, devíamos perguntar que milímetro cedeu a NATO? E a resposta é zero.

Excitada pelo seu secretário-geral, Jens Tillerman, um Doctor Strangelove ansioso por guerra e por alargar cada vez mais a NATO em direcção à Rússia, até a cercar por todos os lados — agora até sonhando com a inclusão da Suécia e da Finlândia —, o discurso do lado de cá é falar de guerra como se de uma banalidade se tratasse. Antes de nos perguntarmos se a Rússia quer uma guerra no Donbass, devíamos perguntarmo-nos para que quer a NATO expandir-se continuamente em direcção à Rússia? Será isto, como juram, uma estratégia defensiva, face a um inimigo cuja capacidade militar e investimento em defesa é umas 15 vezes inferior ao das forças da NATO? Lembrem-se da mal chamada “Guerra dos Balcãs”, que outra coisa não foi do que o bombardeamento cego de Belgrado para escoar o armamento americano que se estava a tornar obsoleto e que a indústria militar precisava de renovar. Estamos a falar de guerra na Europa: é um assunto demasiado sério para que nos continuem a atirar poeira para os olhos, com a cumplicidade de uma imprensa estranhamente acrítica.

Tudo o que a Rússia pede é a garantia de que nem a Ucrânia nem a Geórgia, nas suas fronteiras, vão aderir à NATO. Em troca, o que a NATO pode exigir à Rússia é a garantia de que não invadirá a Ucrânia. Custa assim tanto evitar a guerra?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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O Universo, o mundo, a minha paróquia

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 30/12/2021)

Miguel Sousa Tavares

1 O James Webb partiu para o seu posto de observação no espaço exactamente no dia de Natal e essa foi practicamente a única notícia boa que o planeta Terra teve neste Natal. De resto, o bom Papa Francisco repetiu os seus apelos, que ninguém escuta, à concórdia em lugar dos conflitos e à solidariedade entre nações em lugar dos egoísmos; mais uns quantos imigrantes morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo da miséria para a esperança e a covid continuou a condicionar, envenenar e adiar as nossas vidas, enquanto alguns idiotas persistem em exigir que se faça como se nada se passasse. Talvez daqui a seis meses o James Webb nos possa começar a explicar, mais uma vez, como somos insignificantes habitantes de um planeta precioso, num universo demasiado vasto para a nossa capacidade de entendimento. Como somos um frágil milagre num imenso céu pejado de luzes por decifrar.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Em Janeiro, depois da sua conferência virtual com Vladimir Putin, Joe Biden iniciará conversações bilaterais Estados Unidos-Rússia, à revelia dos “Doctors Strangelove” da NATO — esses falcões histéricos que todos os dias colocam artigos supostamente sé­rios na imprensa ocidental, incluindo a nossa, sobre a iminente invasão russa da Ucrânia, mas que nunca se detêm a meditar naquilo que Putin disse na sua tradicional conferência de imprensa de Natal para os correspondentes estrangeiros: “Eles só falam de guerra, guerra, guerra. Mas não fomos nós que colocámos tropas nas fronteiras de Inglaterra ou dos Estados Unidos e que planeamos colocar lá mísseis nucleares; foram eles.” Há poucos anos, de visita a Moscovo, conheci alguém próximo de Vladimir Putin — não um empresário, mas um operacional. Ofereceu-me, a mim e à minha pequena comitiva, um fabuloso jantar no Pushkin, um dos mais sofisticados restaurantes da Europa. Quando lhe perguntei por que razão a Rússia pós-soviética não se assumia como potência europeia de pleno direito, respondeu-me, soberbo: “Porque nós não somos uma potência europeia; somos uma potência euro-asiática.” A tal Rússia dos 12 fusos horários, 60 etnias, 30 nações e 20 religiões de que falou Gorbachov uns anos antes, na Gulbenkian. Uma Rússia que só se pode entender verdadeiramente lendo a sua história, e não os artigos encomendados pelos generais e políticos avençados da NATO. Uma Rússia imperialista, sim, como o são, hoje ainda, os Estados Unidos, a China, a Turquia, Inglaterra ou França. Uma Rússia que esmaga, como sempre o fez, os seus opositores, até no estrangeiro, e que interfere quanto pode no processo democrático das sociedades ocidentais, mas que também não tem um Trump, nem um QAnon ou outras ameaças igualmente graves às democracias liberais. Uma Rússia que vive no terror milenar do cerco e na obsessão da independência. E que, por isso, devia ser compreendida e escutada, e não desprezada — ou porque não significa nada no grande conflito sino-americano ou porque nada mais é para a Europa do que um gasoduto, que, todavia, tem o poder de a condenar ao frio e à paralisia. No “Público” desta terça-feira, Teresa de Sousa — de longe a nossa melhor colunista em temas internacionais e de leitura obrigatória — alinhava pela tese ofi­cial da ameaça russa sobre a Ucrânia e a Europa. Segundo ela, o “problema é que Putin não aceita o status quo actual nem tenciona cumprir as regras” (quais regras — as ditadas pela NATO?). Na explicação de Teresa de Sousa há duas razões por detrás da atitude do Presidente russo: “Ser reconhecido como o chefe de uma grande potência mundial” e “redesenhar a arquitectura de segurança europeia, garantindo o congelamento das fronteiras da NATO”. Se tivermos em conta que estamos a falar de um gigante mundial em termos geográficos, e não só, e da segunda potência nuclear do mundo, não vejo como é que qualquer das razões pode ser descartada como “inaceitável” sequer para discussão.

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3 Assisti, entre o divertido e o apiedado, ao vídeo de Natal protagonizado por Francisco Rodrigues dos Santos, o “Chicão”, tendo como tema a direita e as eleições. Algum cérebro de propaganda iluminado pela quadra pariu um cenário de mesa de Consoada em que na cabeceira estaria o CDS, como anfitrião, em frente o Chega, à direita do anfitrião o PSD e à esquerda o Iniciativa Liberal. Depois, entre árvore, musgo e presépio, um sorridente “Chicão”, disfarçando a angústia que lhe deve ir na alma, percorria a mesa, explicando: aqui, o Iniciativa Liberal não pode ser convidado, porque, embora tenha algumas ideias boas (iguais às nossas), não se preocupa com os pobrezinhos como nós; aqui, o Chega também não pode ser convidado, porque não tem maneiras à mesa; e aqui, o nosso velho amigo, o PSD, não pode vir porque este ano resolveu baldear-se com novos amigos so­cialistas. Conclusão do vídeo: o CDS passou o Natal sozinho. Olha, que descoberta! E se fosse só o Natal…

Há um telescópio gigante no espaço, uma mesa de patetas vazia na Consoada e uns patos a provocarem um urso.

André Ventura espera que o Chega tenha entre 8% e 12% dos votos e entre 15 a 25 deputados em 30 de Janeiro. A minha aposta é de que nunca passará dos 10% e a minha esperança é de que a campanha eleitoral sirva para mostrar que o Chega é um partido de um só discurso, de nenhuma solução e de um só homem. E que, uma vez saídas as tropas para o terreno, o país se dê conta do imenso vazio e da indigência intelectual e política daquela gente. Mas, se não for agora, será depois: o pior que pode acontecer a André Ventura, a prazo, é eleger e expor perante o país um grupo parlamentar de simples idiotas de extrema-direita.

O mesmo, acredito, acontecerá com Rui Tavares e o seu Livre: os eleitores terão ocasião para se dar conta de que, tirando um conhecimento adquirido em alguns dossiers europeus durante a sua passagem pelo PE, ele nada mais tem para dizer que valha a pena ouvir. E espero que o PAN se comece a esvaziar como um balão de vacuidades e demagogia e uma simples muleta de ocasião que é e está disposto a continuar a ser. Divertido, divertido mesmo, vai ser continuar a assistir às piruetas que o BE e o PCP fazem para se lamentarem das “inúteis eleições” que eles próprios provocaram e do perigo do bloco central que agora espreita. Mas todos podem espernear em vão: tudo o centro vai esmagar.

4 António Costa foi esclarecedor e directo em muitas coisas na sua entrevista à CNN Portugal: quer maioria absoluta; não renovará o acordo com as esquerdas, pelo menos agora; não aceita o acordo de mútua viabilidade de governação proposto por Rui Rio, pelo menos a dois anos; demitir-se-á de secretário-geral do PS se não ganhar as eleições, e jamais será candidato a Presidente da República (assim contrariando as previsões de algumas pitonisas ofi­ciais da nação). Porém, não esclareceu ainda com clareza: a) o que é não ganhar as eleições; b) o que fará se as vencer sem maioria absoluta, e c) o que recomendará que o PS faça se for o PSD a vencê-las sem maioria absoluta. E deixou uma previsão, a de que é provável que um dia Pedro Nuno Santos chegue a primeiro-ministro, “se for essa a vontade da generalidade dos socialistas”. Mas aqui sou eu que faço de pitonisa: tal jamais acontecerá. Até pode acontecer que a generalidade dos socialistas queira um dia fazer prova de garotice, mas daí até os eleitores fazerem também prova de instinto suicidário vai uma enorme distância: pelo menos um milhão de votos, os dos que pagam impostos a sério.


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