O regresso à normalidade

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 01/04/2022)

No pós-guerra, Churchill foi visitar a sua querida inimiga lady Astor na Côte d’Azur. Viajou de comboio, chegou muito bem-disposto e exclamou para a sua anfitriã: “Sabe uma coisa extraordinária? Vim desde Londres com as minhas malas e sem valet de chambre e… não me aconteceu nada!” Coisa extraordinária também, estivemos quatro meses sem Governo e sem Parlamento e não aconteceu nada e ninguém deu por nada: não consta que nenhum assunto importante tenha ficado por resolver, que a economia ou as finanças públicas tenham andado para trás, antes pelo contrário, que alguma inadiável reforma tenha ficado pendente ou que os portugueses tenham sentido a falta dos sempre entusiasmantes debates políticos na Assembleia. Esta constatação deveria preocupar-nos, na medida em que parece demonstrar quanto a vida democrática e a governação democrática de um país dispensam o jogo político que lhe vem sempre associado. Tal como sucedia em Itália nos anos 80 do século passado, em que os Governos caíam como estrelas cadentes e os únicos períodos de governação tranquila e profícua eram quando não havia Governo e o país ficava entregue a directores-gerais de carreira, também aqui e agora, embora não se tendo chegado tão longe (pois sempre havia um Governo de gestão), a sensação foi a mesma: a de que a anormalidade democrática é a mais adequada forma de governo. O que é uma sensação perigosa, sedutora a curto prazo, venenosa a longo prazo.

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Mas estes 115 dias de normalidade suspensa poderiam ter, pelo menos, a vantagem de servir para meditar sobre a inutilidade de tantos jogos florais e debates espúrios em que os políticos gostam de se enredar a si próprios, confundindo isso com uma carreira política, com o exercício do serviço público ou, simplesmente, com a única forma de fazer política. Afinal, como pudemos ver, nada era urgente nem havia pressa alguma, em lado algum. Nem o PSD ou o CDS, cada um lutando por uma forma diferente de sobrevivência, mostraram qualquer urgência em escolher novo líder, pois que nesta fase da vida ainda querem primeiro discutir o que são e onde é que se querem situar. O BE não conseguiu ainda emergir do coma em que mergulhou depois da tareia eleitoral de 31 de Janeiro e pressente-se que é um caldeirão que tenta não explodir à luz do dia. E o PCP, igualmente cambaleante, ainda tentava levantar a cabeça quando lhe caiu em cima a invasão russa da Ucrânia e, na atrapalhação de ter de pensar depressa, o partido voltou a não conseguir deixar de ver a Rússia de hoje como a herdeira da URSS de ontem — o que desencadeou contra si uma onda de ataques, para mim incompreensíveis, dos que antes defendiam a ‘geringonça’ e só agora parecem ter descoberto que este PCP nunca deixou de ser um devoto do leninismo e da União Soviética. E até a versão mínima da Assembleia da República — a Comissão Permanente —, outras vezes tão interventiva, desta vez nada mais encontrou para fazer em dois meses do que tentar convidar Zelensky para também os videomotivar, como vem fazendo com vários outros Parlamentos por esse mundo fora. Imagine-se a cena: o Presidente ucraniano, com a sua T-shirt militar, a arengar a uma dúzia de deputados portugueses, dizendo-lhes que Putin era Salazar e o Exército ucraniano o MFA…

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Enfim, com dois meses para preparar um elenco governativo “mais pequeno, enxuto e eficiente”, António Costa apresentou ao país um decalque do Secretariado Nacional do Partido Socialista, sem nenhuma cara nova e todas as antigas e apenas dois ministros a menos (uma das quais não conteve o seu despeito por ter ficado de fora, informando quem não tivesse reparado que a sua vocação era a de governar). Há dois ou três “independentes”, um dos quais, Costa Silva, é um pensador, autor do PRR e especialista em energia e mercados energéticos, mas deram-lhe a pasta das empresas, sem a energia nem a gestão do PRR. Ao que consta por oposição de Marcelo, o gaffeur João Gomes Cravinho saiu da Defesa e foi para os Negócios Estrangeiros, pasta adequada para o perfil. Para o Ambien­te, para suceder ao balão de ar Matos Fernandes, avançou Duarte Cordeiro, o coordenador da campanha eleitoral vitoriosa de Costa e seu ex-número 2 na CML, onde jamais dei conta de que o ambiente fosse uma preocupação — como, aliás, na campanha eleitoral, no programa ou no historial do PS. E para secretário de Estado da coisa foi João Galamba, passando a acumular com a Energia, e que, bem ou mal, já traz consigo um contencioso com os ambientalistas sobre a exploração do lítio. Na Agricultura mantém-se outra dirigente de topo do PS, Maria do Céu Antunes, um desastre completo, a senhora que tem entusiasticamente patrocinado toda a agricultura superintensiva e predadora, que, perante as ameaças de secas sistemáticas, engendrou um plano para duplicar o regadio na área do Alqueva, que em Fevereiro, antes das chuvas imprevistas que vieram moderar temporariamente a situação de catástrofe iminente, a única coisa que tinha para dizer é que já tinha pedido mais dinheiro a Bruxelas, confundindo política agrícola com distribuição de dinheiro aos protegidos da CAP. Esta é a ministra que usa o dinheiro dos contribuintes e de Bruxelas para financiar a superindústria agrícola do Alqueva e das estufas alentejanas a favor de estrangeiros, com água barata e a rodos, ao mesmo tempo que deixa cair para metade durante o seu mandato a autossuficiência alimentar do país em cereais e que destrói as hipóteses de sobrevivência do que resta dos pequenos agricultores que ainda tentam subsistir, sem água e sem apoios. Ela e as suas políticas contribuem de forma paulatina e decisiva para a destruição da paisagem, da agricultura sustentável e do ambiente e para o despovoamento do interior. Enquanto depois os seus camaradas das concelhias e distritais reclamam a regionalização como única forma de pôr fim aos males causados e reclamam do “centralismo” da composição do Governo, não querendo entender que o mal não está em os governantes serem de Lisboa e não de Bragança, mas em serem irremediavelmente provincianos de pensamento.

Será este um Governo de um país que continua a acreditar que se pode desenvolver vendendo até à exaustão tudo o que lhe é essencial — a paisagem, a terra, a água e a sua própria identidade — ou um Governo que, com todas as condições para tal, será capaz do rasgo e da ousadia de pensar adiante e diferente?

Então o Governo é mau? Pois, não sei responder. Tem gente de qualidade, obviamente — alguns já com provas dadas na governação, outros cá fora. Não acho relevante que seja mais “político” ou mais “tecnocrático” e absolutamente irrelevante que seja mais ou menos equilibrado entre sexos ou orientações sexuais — um tema que consome páginas e páginas de dissertação das colunistas ditas “políticas”. A mim, e julgo que a quase todos nós, a única coisa que me interessa é saber se cada um é competente na sua área e se o Governo o é como um todo. Não me preocupa se lá estão todos os putativos sucessores ou sucessoras de António Costa e representadas todas as sensibilidades do PS. É-me indiferente, por exemplo, que Pedro Nuno Santos represente a esquerda do PS, o que eu quero saber é como vai ele resolver o buraco negro da TAP e quando é que, depois de tanta conversa sobre a “ferrovia”, tanto estudo, tanta comissão e tanta resistência em deixar entrar a iniciativa privada, ganharemos um minuto que seja a menos a andar de comboio entre Braga e Faro — sabendo que após um ano de abertura do transporte ferroviário aos privados em Espanha, por decisão de um Governo PSOE/Podemos, há muito mais comboios a circular, para mais destinos, mais rápidos, mais baratos e com 50% a mais de passageiros.

O que me interessa é saber se este é apenas mais um Governo para gerir a conjuntura, com um horizonte de quatro anos, virado para a Função Pública e para o favor público e a despesa pública, ou finalmente um Governo que estará preocupado em tentar entender por que razão a Roménia vai ser o sexto país europeu, entrado na UE 20 anos depois de nós, a ultrapassar-nos em PIB per capita (a Roménia, meu Deus, que há 40 anos era um país quase medieval!). Um Governo de um país que continua a acreditar que se pode desenvolver vendendo até à exaustão tudo o que lhe é essencial — a paisagem, a terra, a água e a sua própria identidade — ou um Governo que, com todas as condições para tal, será capaz do rasgo e da ousadia de pensar adiante e diferente.

PS. Ficámos a dever ao almirante Gouveia e Melo (a quem já muito devíamos) a mais exemplar definição de quais devem ser os valores de umas Forças Armadas ao serviço do país e da democracia, ao contrário da cultura de desresponsabilização que costuma ser a regra dentro da instituição militar. E também ficámos a dever a Augusto Santos Silva uma simples e linear distinção entre o patriotismo, que é saudável, e o nacionalismo, que é o seu veneno.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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A coragem está na paz, não nos falsos heroísmos

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 11/03/2022)

Miguel Sousa Tavares

Quero dar os meus parabéns ao Miguel Sousa Tavares pela coragem que demonstra, neste e noutros textos que tem produzido sobre a guerra na Ucrânia. É quase o único comentador que consegue pensar pela sua cabeça sem ser submerso pelo unanimismo maniqueísta que faz furor na comunicação social. O Ocidente está a espezinhar os seus valores mais emblemáticos, como a liberdade de expressão, a liberdade de opinião, a liberdade de comércio, a liberdade de investir, o próprio direito à propriedade privada, valor alicerce das economias de mercado, ditas livres, em nome de sanções inconsequentes que irão destruir o nosso modo de vida. É por isso que, qualquer que seja o desfecho que as armas ditem no conflito ucraniano, Putin já ganhou a guerra.

Estátua de Sal, 11/03/2022


1 O herói não é, não pode ser nunca, quem invade o vizinho mais fraco à míngua de outros argumentos e leva a morte, a destruição e o terror a terra alheia. Não pode ser, pois, Vladimir Putin, que diz que russos e ucranianos são um mesmo povo e que, todavia, bombardeia e põe em fuga esse “mesmo povo”. As razões que tinha ou que julgava ter por força da história ou do direito perdeu-as por força dos canhões e dos tanques. E o resto fazem-no as imagens que todos os dias chegam às casas do mundo inteiro: porque se qualquer guerra tem como consequência cidades bombardeadas, crianças e velhos mortos ou em fuga, esta tem a diferença de ser filmada de perto e a cores, dia a dia e à medida que vai acontecendo.

Mas o herói também não é o celebrado Volodymyr Zelensky, com a sua T-shirt militar e os seus discursos “patrióticos”, usando com mestria os seus dotes de actor e com indisfarçada vaidade (e sucesso, dos Comuns ao Facebook) a sua veleidade de ser tomado pelo Churchill do século XXI. Até agora, enquanto as mulheres e crianças fogem e os homens, civis e militares, tentam deter as tropas russas, ele, entrincheirado no seu bunker, a fazer tweets e vídeos e a apelar à terceira guerra mundial, tem sido um herói à medida destes tempos sem heróis verdadeiros e com heróis instantâneos. Mas, a menos que muito me engane, não me espantaria que, se a guerra for para continuar e os russos entrarem em Kiev, o herói Zelensky será capaz de desiludir muitos corações. Não é Churchill quem quer.

Zelensky parece agora finalmente disposto a negociar com Putin e a negociação, se não foi entretanto cancelada, irá já a nível de ministros dos Estrangeiros.

Devemos a Israel, à Turquia e, em parte, à China esse esforço de intermediação capaz de sentar as partes à mesa. Nada o devemos aos Estados Unidos, à União Europeia ou à ONU, como eu sempre o escrevi: nem antes nem agora. Isto merece ficar registado: temos uma guerra na Europa com um potencial de alastramento como nunca antes em 70 anos, com efeitos económicos devastadores sobre o continente, com talvez uns cinco milhões de refugiados que tudo perderam, e, apesar disso, a Europa, enquanto tal, não mexeu uma palha para evitar o conflito ou para tentar pará-lo, uma vez iniciado. As melhores cabeças pensantes da Europa escrevem rios de tinta sobre o recomeço da História e da Guerra Fria, sobre a nova realidade geopolítica, sobre a necessidade de uma verdadeira política de rearmamento europeu, sobre a urgência em asfixiar a Rússia (e os russos) com sanções económicas e banir da face visível do planeta todos os russos — e não apenas os oligarcas ou os íntimos de Putin, mas também músicos, artistas, desportistas, cientistas. Mas sobre uma estratégia de paz e segurança mútua que envolva todos e inclua a Rússia nada, nem uma consideração, nem uma palavra.

Porém, não deixa de ser curioso que Zelensky aceite agora negociar, e com base nas propostas russas, o que poderia ter negociado antes da invasão. Penskov, o porta-voz do Kremlin, enumerou na segunda- -feira o que querem os russos: a NATO fora da Ucrânia e a alteração da Constituição ucraniana, que prevê expressamente essa adesão; a “desmilitarização” da Ucrânia, o que significa que ela não estacionará no seu território armas nucleares; a “desnazificação” da Ucrânia, o que equivale a expulsar das suas Forças Armadas os batalhões nazis que Zelensky lá integrou; um estatuto de independência ou similar para as regiões de maioria russa do Donbas, e o reconhecimento de jure da Crimeia como parte da Rússia, como historicamente quase sempre o foi. Sobre todos estes pontos, e a menos que entretanto tenha voltado atrás, Zelensky já aceitou ceder em parte deles e negociar noutros. A pergunta que se coloca, então, é esta: porque não o fez antes, quando era isto justamente que a Rússia propunha? Porque não o fez para evitar a invasão do seu país e não ter de assistir a tantos mortos, tanta destruição, tantas famílias em fuga? Porque diz agora que a adesão à NATO é um projecto inexequível e antes foi a Munique exigi-la imediatamente? Será porque antes ouviu todos os países da NATO repetirem que a Ucrânia tinha o direito de decidir livremente o seu destino, mesmo que isso pudesse conduzir a uma guerra com a Rússia, que se sentia ameaçada com o alastramento da NATO à Ucrânia? E será porque se sentiu confortado e iludido por essas proclamações que ele passou estes dias de guerra a apelar ao envolvimento da NATO, a reclamar o fecho do espaço aéreo da Ucrânia aos aviões russos e a queixar-se de que estava sozinho a “defender a liberdade do Ocidente”?

A pergunta que se coloca, então, é esta: porque não aceitou Zelensky negociar antes, quando era isto justamente que a Rússia propunha? Porque não o fez para evitar a invasão do seu país e não ter de assistir a tantos mortos, tanta destruição, tantas famílias em fuga?

2 “A liberdade tem um preço”, disse Joe Biden, e tem toda a razão. Mas o preço da liberdade não pode ser o fim de tudo, que fatalmente incluiria também o fim da liberdade: não há liberdade quando tudo estiver morto. Por isso o Ocidente teve o bom senso mínimo de não ceder aos apelos de intervenção de Zelensky, que teriam, com toda a probabilidade, conduzido, por descontrole, por escalada ou por acidente, a uma guerra nuclear. Na crise dos mísseis em Cuba, em 1962, Fidel Castro também apelou a Moscovo para que desencadeasse um ataque nuclear contra os Estados Unidos, mas, felizmente, também o bom senso prevaleceu entre os russos. A lição é que há sempre loucos disfarçados de heróis de ambos os lados, que acham que o seu lugar na história é mais importante do que o destino dos outros — mesmo que depois não sobrem muitos para contar a história. É por isso, entre outras coisas, que isto de ver as situações a preto e branco — nós somos o Bem e eles o Mal — é o caminho mais certo para o desastre. É curioso observar que no meio desta unanimidade quase religiosa como esta crise tem sido analisada do lado de cá (do lado dos Bons), por analistas, historiadores, jornalistas, comentadores, quem mais destoa da opinião formatada são os militares, tradicionalmente vistos como os mais pró-guerra. O exemplo mais visível, porque mais exposto, foi o do Chefe do Estado-Maior da Armada alemã, quando ousou dizer que Putin tinha razões que deviam e mereciam ser ouvidas, e, portanto, foi imediatamente demitido.

Em Lisboa já vi bandeiras da Ucrânia hasteadas nas janelas dos prédios, como outrora, a pedido de Scolari e a propósito do futebol, se hastearam bandeiras portuguesas. O presidente do Benfica fez a capa da “Bola” embalando caixas de conservas para a Ucrânia, numa acção de solidariedade das muitas que, e ainda bem, estão em curso. Em Bruxelas, na sede da UE, as bandeiras dos 27 foram substituídas por 27 bandeiras da Ucrânia e imagino que as contas das redes sociais das celebridades estejam infestadas das ditas, vestidas de azul e amarelo. É tudo muito bonito, muito fácil e absolutamente ineficaz para o que interessa. Alguém, que tinha obrigação de estar informado, perguntava-me há dias se a subida vertiginosa do preço dos combustíveis tinha mesmo que ver com a guerra na Ucrânia ou se era uma manobra do Governo. Deixem que passe a fase dos gestos bonitos e fáceis e vão ver o que aí vem. Deixem que a guerra continue, que a paz falhe, e vão perceber quem é que vai sair arrasado desta guerra, para além dos ucranianos, e quem é que vai sair a ganhar biliões. Mais uma vez, porém, não precisamos de uma explicação a preto e branco, mas apenas de aproveitar uma oportunidade de reflexão, a benefício de tempos vindouros.

3 E depois da guerra e da poeira assente haveremos também, espero, de ter ocasião de reflectir sobre a mais parcial, incompetente e prejudicial cobertura noticiosa e analítica de um conflito a que alguma vez assisti do lado a que chamam as “democracias liberais”. Desde o sagrado “The Guardian” até à nossa imprensa.


Pela primeira vez, e pacificamente aceite, o Conselho Europeu estabeleceu a censura sobre órgãos de informação do “outro lado” (as TV russas), com o argumento de que divulgavam informação enganosa que nos podia desinformar.

Ocultou-se ou minimizou-se informação que podia prejudicar a imagem do “heróico” povo combatente e do Exército e autoridades ucranianas, tais como episódios de racismo ou de abusos sobre prisioneiros de guerra russos.

E foi patente um clima de intimidação sobre quem ousou questionar a verdade única ou pensar diferente, que eu próprio tive a honra de experimentar.



(Na Rádio Observador, por exemplo, o José Manuel Fernandes chamou-me “idiota útil ao serviço da propaganda de Putin”, o que em nada me afecta, porque, ao contrário dele, eu não sou nem nunca fui de direita ou de extrema-direita, nem maoista, leninista ou estalinista, e nem fui, como ele, idiota útil ao serviço da propaganda da NATO e do pateta do Bush filho, aquando da invasão do Iraque para supostamente encontrar armas de destruição maciça, de cuja existência não havia quaisquer provas. Isto de pensar pela própria cabeça incomoda sempre os idiotas que se imaginam úteis.)

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Tudo o que aparece é. Mas nem tudo o que parece é

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 05/03/2022)

Miguel Sousa Tavares

No meu último texto aqui publicado, um incompreensível erro (da minha responsabilidade) levou-me a escrever que Putin teria muito mais a ganhar do que a perder com a invasão da Ucrânia, quando o que queria ter escrito e se deduz do meu texto é exactamente o oposto. De facto, uma semana de guerra demonstra que o líder russo se enganou de tal maneira em todas as suas projecções que se torna difícil compreender como é que se lançou nesta aventura que colheu tantos de surpresa, eu incluí do. Subestimou a capacidade militar e a vontade de resistência dos ucranianos; subestimou a reacção internacional e a força das sanções de toda a ordem por parte do Ocidente, e, dizendo-se preparado para enfrentar as consequências, só agora deve começar a avaliar a dimensão avassaladora que elas terão sobre a Rússia e o povo russo — ao ponto de, numa atitude que revela já sintomas de desnorte e desespero, ameaçar a Suécia e a Finlândia e agitar o espectro da arma nuclear. Mas, acima de tudo, Putin, um mestre na contrainformação e propaganda, com décadas de expe riências frutuosas nesse campo junto das democracias ocidentais, foi incapaz de avaliar a colossal derrota e vexame na sua imagem de estadista e na do seu país que a invasão da Ucrânia lhe acarretaria à escala global. Pura e simplesmente esqueceu-se de que vivemos num mundo em que grande parte da diplomacia, da informação e das decisões políticas, até ao mais alto nível, é determinada pelo que se passa nas redes sociais. E nas redes sociais, assim que o primeiro míssil russo voou sobre terras da Ucrânia, Putin passou a ser um bandido e os ucranianos uns heróis. Ele passou de vítima a agressor, de cercado a invasor, de temido a proscrito, de interlocutor obrigatório a louco com quem não há nada para falar, apenas armas a apontar. No mundo de hoje, uma centena de jovens activistas das redes sociais, nada sabendo de história ou de geopolítica, podem mais do que todo o sofisticado aparelho militar do novo czar russo.

Para agravar ainda a situação para Putin, todos os jornalistas estão junto dos ucranianos e reportam as informações deles recebidas, entrevistam apenas os resistentes ucranianos, civis e militares, e todos os diplomatas, analistas e especialistas estavam e estão com a Ucrânia e a NATO e contra a Rússia. E nestes tempos em que cada telemóvel é uma câmara de filmar nem sequer as manifestações contra a guerra dentro da própria Rússia deixaram de ser vistas nas nossas televisões: 6700 presos nas manifestações é um número imenso e enxovalhante para Vladimir Vladimirovich.

Tudo o que aparece é. Torna- -se uma verdade incontestável — “viral”, como gostam de dizer. E quanto mais gente a divulga mais verdadeira se torna.

Porém, a verdade conhecida como tal nas redes sociais, como todos os raciocínios simplistas, pode ser muito conveniente para separar os bons dos maus e sossegar as consciências, mas não evita as guerras nem sequer estabelece uma verdade sem mácula ou impede que fique por dizer aquilo que contraria a verdade conveniente.

É evidente que Putin perdeu toda a razão ou razões que pudesse ter quando tomou o fatídico passo de entrar Ucrânia adentro: ele foi o pior mensageiro possível para a mensagem da Rússia.

Mas isso, que teve o efeito oposto do que ele pretenderia — que foi o de fazer chutar as razões da Rússia para o caixote do lixo quando há gente a morrer às mãos dos invasores —, não apaga, só por si, nem a pertinência de algumas dessas razões nem o facto de ninguém as ter querido ouvir a sério antes. Na última edição deste jornal, Ricardo Costa escreveu: “Respeito quem tenta encontrar razões para a guerra e apontar as soluções que hipoteticamente a teriam evitado, como faz Miguel Sousa Tavares.” Agradeço o respeito, mas eu nunca fiz tal coisa.

Aliás, encontrar razões para a guerra e ao mesmo tempo soluções para a evitar são coisas contraditórias entre si. Justamente porque não via razões válidas para a guerra, a não ser os interesses obscuros que sempre estão por detrás delas, é que eu comecei a escrever aqui, dois meses antes da invasão, que não entendia que não estivesse a ser feito um esforço sério de diplomacia e negociação entre ambos os lados. Porque negociar implica que ambas as partes, e não apenas uma, estejam dispostas a ceder — mesmo a ceder parte daquilo que acham justo a benefício do principal bem comum. E eu desafio quem quer que seja a dizer quais foram as coisas em que a NATO ou o Ocidente estiveram dispostos a sentarem-se à mesa com a Rússia, ouvirem as suas razões com atenção e prestarem-se a dizer onde poderiam e não poderiam ceder e a troco de quê. Que digam uma só coisa em que tenham estado dispostos a negociar — uma só. Tudo o que eu ouvi e li durante dois meses foram proclamações ocas de que ainda havia espaço para a diplomacia, mas quando Macron a tentou, com base nos Acordos de Minsk, foi desautorizado e deixado a falar sozinho. Em vez disso, repetiram-se as ameaças de sanções nunca vistas, as declarações de que a Ucrânia era livre de escolher o seu destino na NATO, de que não havia nada para discutir em relação aos separatistas do Donbass (um retrocesso em relação a Minsk), o acumular de tropas da NATO junto às fronteiras russa e ucraniana e as comparações entre Putin e Hitler e a Alemanha nazi de 1938 com a Rússia de hoje. Sim, eu também posso dizer que respeito os que acham que não havia lugar a negociar nada com a Rússia, nem que fosse para evitar uma guerra e hoje não andarem a chorar com a desgraça da Ucrânia.

Mas não me venham dizer que tentaram negociar, que insistiram na via diplomática, porque isso é simplesmente falso. Putin optou pela guerra: é um facto. E do lado de cá não se fez nada para a evitar: é outro facto. E não é por Putin ser o agressor e a sua guerra injustificada que passa a vigorar a verdade única daquilo que conduziu a ela.

E a prova de que havia espaço para a negociação é que nesta quinta-feira russos e ucranianos, mesmo em plenos combates, encontraram vontade e disponibilidade para uma segunda ronda de negociações: os ucranianos fazem agora debaixo de fogo o que ninguém quis fazer antes com os russos.

E, a avaliar pelo relato comum da primeira ronda de negociações, as partes identificaram sete pontos de possível convergência a partir dos quais é possível, pelo menos, continuar a nego ciar. Então, este seria justamente (mais um momento) em que alguém — a UE, sobretudo — deveria chegar-se à frente também e ajudar os ucranianos, não apenas na guerra, mas na paz. Porque se há coisas que eles podem negociar sozinhos com os russos, outras, pela sua natureza, não podem. Há sinais claros de que o momento é propício: o Exército russo marca passo, não tendo conseguido, ao fim de uma semana, conquistar nenhuma cidade importante; há relatos de desmoralização entre os seus soldados e sinais de divisões no Kremlin e descontentamento crescente entre a população russa. Por outro lado (e embora isto não seja reportado nem “analisado” pelo lado de cá), se a má notícia é que Putin invadiu mesmo a Ucrânia, a boa notícia é que, ao contrário do que muitos vaticinavam, a estratégia não parece ser arrasá-la ou deixá-la de joelhos por muito tempo. Ao fim de uma semana e com os céus completamente nas mãos da aviação russa, apesar de os sinais de destruição irem fatalmente aumentando, não vemos ainda, felizmente, imagens de cidades em ruínas, igrejas, hospitais, monumentos ou alvos civis intencionalmente visados. A Reuters reportava, por exemplo, que uma noite de intenso bombardeio a Kharkiv, a segunda cidade ucraniana, “tinha causado, pelo menos, um morto” — o que diz tudo sobre a contenção dos russos.

Se eu fosse “especialista” em assuntos político-militares, estaria a pensar que Putin quer passar uma mensagem que, aparentemente, só os ucranianos entenderam ainda: que quis obter uma posição de força mas para negociar depois.

O perigo é a tentação de esperar por um golpe de Estado no Kremlin ou de querer ver Putin humilhado, na esperança de que ele se retire de calças na mão para depois ficar a ver os russos dizimados pelas sanções económicas (com o fraco consolo de nos ver a nós, europeus, também a ganir com as suas consequências). Ou então a suprema tentação de forçar o homem ao desespero apenas pelo prazer de fazer prova de que ele é mesmo louco e perigoso, o que já todos sabemos.

Mas um homem que anda sempre com uma mala azul que tem um botão vermelho lá dentro, capaz de reduzir instantaneamente ao silêncio todas as redes sociais do planeta, não pode ser levado ao desespero. Goste-se ou não deles, há nove homens que têm uma mala igual à de Putin e há 70 anos que nós negociamos com eles, assinamos com eles acordos e tratados para manter a paz no meio do que chamamos o “equilíbrio do terror”.

Na cadeira onde hoje se senta Putin já estiveram outros tão ou mais loucos e perigosos do que ele, e também com eles se negociaram coisas até bem mais importantes do que a Ucrânia.

É o mundo em que vivemos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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