Guerra e paz

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/02/2022)

Sim, invadiu. Vinte e quatro horas depois de ter insistido que estava ainda aberto a negociações “sé rias e honestas”, Putin invadiu a Ucrânia e, pelo que se sabia até ontem à tarde, em larga escala.

Faço ideia da satisfação intelectual de tantos que passaram semanas a anunciar a invasão, às vezes parecendo mesmo desejá-la para poderem ver as suas previsões confirmadas. Não é o meu caso: sempre acreditei que Vladimir Putin não daria este passo extremo, com o qual tem muito mais a ganhar do que a perder, e que semanas e semanas de tensão a acumular-se eram pretexto e tempo suficiente para que os tão falados “esforços diplomáticos” conseguissem evitar uma guerra desta dimensão na Europa.

Porque, talvez ainda não tenham percebido bem, mas esta guerra não vai doer apenas aos ucranianos, com os seus mortos e o seu país ocupado, vai doer a todos na Europa e para além dela — e se a coisa ficar pela Ucrânia. Não tardará muito tempo até que aqui mesmo, em Portugal, o comum das pessoas se interrogue por que razão os que podiam não fizeram todos os esforços para evitar esta guerra e as suas consequências.

Em 19 de Janeiro passado, escrevi aqui isto: “Tudo o que a Rússia pede é a garantia de que nem a Ucrânia nem a Geórgia, nas suas fronteiras, vão aderir à NATO. Em troca, o que a NATO pode exigir à Rússia é a garantia de que não invadirá a Ucrânia. Custa assim tanto evitar a guerra?” Passaram cinco semanas desde então e o único esforço diplomático visível feito pelo Ocidente foi a ida de Macron a Moscovo. Veio de lá com algum optimismo, depois de ter ouvido Putin dizer que aceitava como base negocial o regresso aos Acordos de Minsk-2 (que, por si sós, impediam a Ucrânia de aderir à NATO sem o acordo das províncias russófonas). Mas logo no dia seguinte Putin lembrou que Macron não respondia pela NATO e a verdade é que da parte da organização nem uma palavra foi dita ou um avanço foi feito no sentido de negociar a questão com base nos Acordos de Minsk. E nada mais foi feito do lado de cá em matéria de esforços diplomáticos: apenas ameaças de sanções, reforço de meios militares nas fronteiras da Ucrânia e constantes avisos de que estava iminente a invasão russa, enquanto toda a gente continuava sentada, de braços cruzados, pronta a assistir. Particularmente chocante, quando ouvimos agora Ursula von der Leyen falar da diplomacia tentada, é pensar na absoluta inércia da União Europeia, prestes a enfrentar uma guerra no seu território, a arcar com o grosso das consequências económicas e políticas, e que não mexeu uma palha para a evitar, para se colocar como mediadora do conflito e que, como sempre, só sabe acenar com dinheiro a posteriori. E enquanto nada se passava na frente diplomática, ainda tivemos, segunda-feira passada, a ida do Presidente ucraniano, Zelensky, à cimeira da Segurança e Cooperação Europeia, em Munique, lançar a última acha na fogueira, queixando-se das armas nucleares (soviéticas) que afirmou lhe terem sido retiradas quando a Ucrânia se tornou independente e exigir a sua entrada imediata na NATO, desafiando os países recalcitrantes a assumirem-se ali e então. (Duas horas depois, talvez por ter chegado atrasado ou se ter perdido na tradução, o nosso ministro da Defesa dizia que essa questão “não estava em cima da mesa”, pelo que não havia fundamento para uma invasão russa.) Insisto: a invasão russa talvez pudesse ter sido evitada se tivesse havido uma vontade e um esforço sério de negociação do lado ocidental, que não houve.

E digo talvez porque não posso saber o que ia e vai na cabeça de um homem perigoso como Vladimir Putin. Mas a todo o tempo e em todos os lados se negociou com homens perigosos a benefício de um bem maior, que é a salvaguarda da paz — Kim Jong-il, da Coreia do Norte, ou os imãs do Irão são apenas os últimos e mais óbvios exemplos. O facto é que, não tendo negociado antes, deixando apenas a Putin a opção de se retirar publicamente humilhado e conformado a ver a Ucrânia juntar-se aos 14 países que antes faziam parte da URSS ou do Pacto de Varsóvia e que a NATO já juntou à sua colecção, assim cercando a Rússia de alto a baixo, do Báltico até ao Bósforo, o Ocidente vai agora ter de negociar com ele em posição de força. A menos que um dos lados, ou ambos, tenha endoidecido e esteja disposto a arriscar uma guerra total na Europa.

Negociar com Putin em posição de força não vai ser fácil. Na sua declaração de guerra, ele disse que a Rússia estava preparada para enfrentar as consequências e, a médio prazo, está economicamente bem mais preparada do que a Europa em matéria de abastecimento de energia, cereais e matérias-primas essenciais.

São as consequências políticas da invasão o grande preço a pagar.

Não tardará muito tempo até que aqui mesmo, em Portugal, o comum das pessoas se interrogue por que razão os que podiam não fizeram todos os esforços para evitar esta guerra e as suas consequências.

Apesar daquilo a que chamaram a sua “lição de história sobre a Ucrânia” conter muito mais verdades do que falsidades ou invenções, ele sabe que isso não lhe acrescenta qualquer validade política para invadir o que outrora foi terra russa: os tempos mudam, a vontade dos povos também e a poeira da História fica nos livros. Recuperar militarmente e manter a Ucrânia toda na Federação russa é um projecto politicamente insano, que a longo prazo sairá caro a Moscovo e ao povo russo.

Mas agora vamos entrar numa nova dimensão, chamada realpolitik — não sei se se lembram do que era, antes de alguém ter declarado que a História tinha acabado quando a URSS implodiu e a Guerra Fria terminou com a vitória do Ocidente. O Donbas, Odessa, Mariupol, pelo menos, nunca mais voltarão à posse da Ucrânia e esta nunca poderá ser membro da NATO — isto será o mínimo que Putin vai exigir. O resto, desde que Putin não queira uma Ucrânia “normalizada”, talvez seja negociável — é isso a realpolitik. Aquilo que resta quando se andou a brincar à guerra e paz com análises simplistas de aplicação universal e intemporal, como nos nossos livros de infância, em que os bons éramos sempre nós e os maus os peles-vermelhas.

Tenho lido e escutado vários “especialistas” na matéria a defender que negociar com Putin terá o mesmo e funesto efeito que teve negociar com Hitler em 1938. É mais uma análise de aplicação universal e intemporal cuja utilidade está agora a ser provada pelos ucranianos. Para começar, e embora haja historiadores para todos os gostos, Putin não é Hitler. E, depois, a situação não é igual nem comparável: em 38, Hitler já tinha consumado o Anschluss sobre a Áustria, queria os Sudetas, que Chamberlain e Daladier lhe deram em Munique, e não escondia que a seguir engoliria toda a Checoslováquia. Mas, sobretudo e diferentemente da Rússia de 2022, era a Alemanha que ameaçava a Europa, e não a Europa que ameaçava a Alemanha, com um cordão de países unidos numa aliança militar cercando-a por todos os lados.

Há dias, numa das suas proclamações “ao mundo”, Joe Biden dizia sobre Putin: “Quem pensa ele que é?” Bom, agora já deve saber quem é e do que é capaz. É pena que antes disso não lhe tivessem explicado: “O Putin, sr. Presidente? É Presidente do segundo maior país e da segunda maior potência nuclear do mundo, com quem ao longo de décadas temos mantido negociações e tratados de limite de armas nucleares, graças aos quais o mundo evitou uma terceira guerra mundial devastadora nos últimos 50 anos. Ele agora está furioso porque a Ucrânia se quer juntar a 14 outros paí ses membros da NATO que já cercam a Rússia e que, a partir daí, podem atingir território russo com mísseis nucleares em questão de minutos. Eu aconselho a que fale com ele.”


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A Rússia já invadiu?

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/02/2022)

Miguel Sousa Tavares

Passo toda a quarta- -feira — dia de envio deste texto e dia marcado por todos os serviços secretos ocidentais e da NATO como o da invasão da Ucrânia pelas forças de Moscovo — à espera de confirmação dessa invasão. Passada a deadline para envio do texto sem notícias da invasão, resta-me arriscar: até hoje, sexta-feira, dia em que o jornal sai para as bancas, aposto que não houve invasão nenhuma.

Tal como o venho escrevendo há semanas e ao contrário das previsões dos ‘especialistas’, e tal como muitos nunca deixaram de esperar e ao contrário do que muitos outros, no íntimo, desejavam. Os ucranianos, primeiro que todos, mas os russos também, devem estar aliviados — pelo menos, por enquanto.

Igualmente os europeus e os cidadãos do mundo em geral que, sem guerra à vista, se livram de uma inevitável crise energética e económica de consequências dramáticas. Mas frustrados estão os vendedores de armas ao Pentágono, à Ucrânia e aos países europeus, os produtores de petróleo e de gás de xisto americano que iria substituir (espera-se…) o fornecimento de gás russo à Europa, e ainda o incendiário secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, e os líderes internacionais a braços com dificuldades internas a que a guerra serviria a preceito para desviar as atenções: Biden, Johnson, o primeiro-ministro polaco.

Domingo, quando a histeria da ‘invasão iminente’ atingiu o seu máximo, quando o espaço aéreo ucraniano começou a ser fechado, de facto, à aviação comercial — por pressão ocidental e não por decisão do Governo ucraniano ou por ameaça russa —, quando os canais habituais de informação da NATO e dos EUA nos bombardeavam com notícias constantes sobre movimentações militares russas em várias fronteiras terrestres e marítimas da Ucrânia, e quando tudo foi feito para lançar o pânico sobre os habitantes da Ucrânia, situei-me na CNN de Atlanta para seguir a par e passo os preparativos da guerra iminente. E que vejo eu como notícia quase única e sufocante? Os preparativos para o Super Bowl. Depois de garantirem a 44 milhões de ucranianos que o Exército russo iria invadi-los possivelmente já no dia seguinte, depois de convocaram os seus aliados da NATO (nós, como sempre, acriticamente incluídos) a enviarem tropas e material de guerra para as fronteiras da Ucrânia, os americanos estavam ocupados e distraídos com o Super Bowl e não queriam saber de mais nada…

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Segunda-feira, Putin fez divulgar um vídeo dele reunido com o ministro dos Negócios Estrangeiros em que Lavrov lhe dizia que deviam continuar os esforços diplomáticos, mas isso, é claro, não fez acalmar os ‘especialistas’ do lado de cá: o dia D foi então adiado para quarta-feira.

Quarta-feira a Rússia invadiria.

Terça-feira ao início do dia, o ministro da Defesa russo anunciou que tinham terminado os exercícios militares na frente sul e se tinha iniciado a retirada das forças envolvidas para os seus aquartelamentos de origem. Porém, logo uma fonte da NATO tratou de recordar que os aquartelamentos de origem não eram assim tão distantes da Ucrânia, como se lhe coubesse agora decidir onde é que a Rússia deveria estacionar as suas tropas em permanência.

Nesse mesma manhã, recebendo o chanceler Scholz, Putin garantia pela enésima vez que não ia invadir a Ucrânia e que não queria uma guerra na Europa, que seria devastadora.

Ao fim do dia, Stoltenberg dava uma entrevista à Sky News onde se esforçou para demonstrar que nada de novo tinha acontecido e por disfarçar a sua decepção porque, de facto, alguma coisa de novo parecia estar a acontecer. E às 21h30 TMG, já madrugada em Moscovo, Biden fez um discurso ‘para o mundo’, onde começou por dizer que a diplomacia não estava esgotada e depois logo passou para um verdadeiro discurso de guerra, em que as ameaças foram tantas e os avisos aos americanos para que estivessem preparados para uma guerra tão fortes, que ele próprio, a certa altura, teve necessidade de dizer “isto não é uma provocação”. Mas era e foi, do princípio ao fim, até na reafirmação de que, em caso de invasão, não haveria Nord Stream 2 (e como iria a NATO bombardear o gasoduto? E em território russo ou alemão?). Porém, entre tantas ameaças, até a de pôr fim, manu militari, se necessário, a um contrato celebrado entre dois Estados soberanos, Biden cometeu um erro de palmatória, quando sustentou que a suposta invasão da Ucrânia por parte de Moscovo não poderia ter como fundamento a existência de mísseis da NATO na Ucrânia (que não é membro da organização). Ou seja: implicitamente, ele reconheceu razão a Putin, quando este sustenta que a entrada da Ucrânia para a NATO, com a consequente possibilidade de instalação de mísseis no seu território, capazes de atingirem território russo em cinco minutos, constituiria uma séria ameaça à segurança da Rússia. E isso é tudo o que está em causa nesta crise.

É tudo o que a Rússia não aceita e tudo o que o Ocidente, os EUA e a NATO não querem compreender e em que não querem ceder. Dizem, hipocritamente, que não podem ceder no princípio da soberania da Ucrânia, do seu direito inalienável de poder integrar as organizações que quiser, e na carta fundadora da NATO de acolher os países que a ela quiserem aderir. Como se a geopolítica e o equilíbrio do terror fossem um jogo de salão em que não entram mísseis nucleares de curto, de médio e de longo alcance, cujas diferenças de tempo desde o disparo até ao alvo podem mudar todo o desfecho de uma guerra. O que diria Washington se o México (ou Cuba, outra vez) decidisse fazer um acordo de defesa com a Rússia, cedendo-lhe bases para instalação de mísseis no seu espaço, capazes de atingirem território americano em cinco minutos? Diria que nada podia fazer porque estava em causa a soberania do México? Mas no seu discurso, Joe Biden voltou a insistir na “liberdade da Ucrânia escolher o seu caminho”, mesmo que seja um caminho que, alterando todo o statu quo actual, possa conduzir à guerra. E, entretanto, segundo o Presidente americano, as tropas russas — os tais 100 mil soldados que cercavam a Ucrânia e que depois passaram a ser 130 mil — agora já eram 150 mil (e na quarta-feira, dia da invasão, passaram a ser 180 mil).

Apesar de todos os esforços de Biden, Johnson e desse incendiário imbecil que é secretário-geral da NATO, aposto que até hoje a Rússia não invadiu a Ucrânia. Espero não me ter enganado. Para grande decepção deles.

Quarta-feira o dia começou com os russos a divulgarem imagens do que afirmaram ser o início da retirada de tropas da Crimeia e o anúncio de que as que estão estacionadas na Bielorrússia começarão a sair no domingo, a data aprazada para o fim dos exercícios. EUA e NATO apressaram-se a dizer que não tinham nenhuma evidência desse facto, e na reunião da NATO em Bruxelas, entusiasmado com o discurso de Biden na véspera, Stoltenberg, ao mesmo tempo que duvidava de qualquer retirada russa, anunciava um reforço maciço das forças da NATO, navais, aéreas e terrestres, nas fronteiras ocidentais da Ucrânia. Infelizmente, ninguém lhe perguntou para quê, visto que a Ucrânia não é (ainda) membro da NATO e a sua defesa não pode ser garantida por esta. A menos que Stoltenberg nos queira fazer acreditar que, depois de engolida a Ucrânia, a Rússia prosseguiria o seu avanço Europa adentro, até reconquistar as fronteiras do antigo Pacto de Varsóvia…

Entretanto, fui lendo, aqui e ali, os nossos ‘especialistas’ no assunto — que são sempre os mesmo dois ou três a quem a imprensa dá palco, formatados em cursilhos nos Estados Unidos e doutrinados nos cocktails do 4 de Julho na embaixada americana.

De tão preguiçosos e desequilibrados, os seus argumentos chegam a ser pungentes. O mais irritante é o da “invasão e anexação da Crimeia ucraniana” em 2014.

Mais uma vez: a Crimeia nunca foi ucraniana, é russa há 250 anos, com a breve excepção do período entre a independência da Ucrânia, em 1991 e 2014. Mesmo quando o ucraniano Nikita Khrushchov, secretário-geral do PCUS, resolveu, numa noite de bebedeira, integrar a Crimeia na Ucrânia, as consequências práticas foram nulas ou puramente administrativas, pois todas — a Crimeia, a Ucrânia e a Rússia — faziam parte da URSS, governada por Moscovo.

Quando a Ucrânia se tornou independente, o normal é que tivesse devolvido a Crimeia (habitada por 65% de russos e 15% de ucranianos) à Rússia, e não que tivesse ficado à espera que a Rússia se conformasse com a perda de um território que é para ela o que o Algarve é para nós.

O segundo argumento, que repetem até à náusea e sem corar, é que tudo isto deriva da insustentável incapacidade de Putin conviver com Estados democráticos às suas portas. Não se trata, como dizem os russos, de uma questão de segurança: de verem crescer uma aliança militar, do Báltico até ao Bósforo, que nasceu para fazer frente a outra que já desapareceu, mas que, apesar disso, não pára de crescer, de se expandir e de aumentar os seus gastos militares, que já são dez vezes os de Moscovo. Não, juram eles, o que incomoda Putin não é esta postura ‘defensiva’ da NATO, não é o cerco militar, que qualquer criança que olhe para um mapa percebe: é o ‘cerco democrático’.

De facto, não é difícil conceder que Putin está longe de ser um democrata e um devoto do Estado de direito — basta pensar em Navalny para o constatar.

Sucede, porém, que nunca a Rússia foi uma democracia em toda a sua história milenar e nunca foi isso que impediu o Ocidente de se entender com ela em momentos como o de Ialta, e vice-versa: estudem a História, senhores especialistas.

Mas, já agora, cabe perguntar: acaso a Polónia, a Hungria, a Turquia — e os próprios Estados Unidos, até há pouco governados por um Trump, tão amigos e coniventes de ditaduras sanguinárias — são modelos democráticos que se recomendem a Putin?

Portanto, hoje sexta-feira, apostei que a Rússia não invadiu a Ucrânia. Espero ter ganho a aposta — não apenas até hoje, mas até um futuro tão longínquo quanto possível. Continuo convencido de que Putin — que indiscutivelmente desencadeou esta crise — o fez em estado de necessidade e por razões que são justas, atendíveis e, pelo menos, dignas de serem consideradas por todos os que não sejam beneficiários da guerra ou incendiários militantes e imbecis, como Stoltenberg.

Quarta-feira à noite, ele falava do “novo normal”, qual seria o da manutenção permanente desta situação de tensão militar na fronteira russo-ucraniana. Leiam bem o seu pensamento maquiavélico: não havendo invasão russa, é isso o que ele mais deseja. Uma situação que justifique a deslocação em permanência de tropas da NATO para a fronteira leste da Europa e uma tensão latente que permita a todo o tempo justificar a importância da NATO, do seu cargo e da sua própria pessoa.

Mesmo que isso implique que a paz na Europa esteja diariamente à mercê de um simples incidente daqueles que, por distração, por devaneio ou por incúria, desencadeiam uma guerra.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Esta guerra que nos querem vender

(Miguel Sousa Tavares, 12/02/2022)

Parece que o mundo não tem suficientes problemas globais urgentes, com a pandemia, as alterações climáticas, as migrações do sul para o norte, a crise do preço das matérias-primas e a inflação, e ainda precisa de lhes acrescentar uma guerra — uma guerra a sério, capaz de destabilizar tudo, de causar a morte a muitos milhares de seres humanos, lançar o caos na economia e relançar em força o espírito da Guerra Fria, que ainda alimenta tantas nostalgias.

Putin, garantem-nos há meses os nossos “especialistas” ocidentais, prepara uma invasão iminente da Ucrânia: marcada primeiro para Janeiro, depois adiada para o início de Fevereiro e agora garantida para a semana que vem. Mas desconfiem também disto: de cada vez que alguém fora do círculo belicista NATO-Estados Unidos-Inglaterra inicia diligências paralelas para encontrar uma saída que evite a guerra (o chanceler Scholz ou o Presidente Macron), ou de cada vez que é o próprio Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a pedir aos seus aliados ocidentais que parem com a “histeria” da guerra iminente, logo aumentam as “notícias” na imprensa ocidental sobre novas movimentações de tropas russas com vista à invasão. Sim, é verdade que Putin tem os meios para iniciar a invasão de parte ou de toda a Ucrânia quando o quiser e se o quiser. Mas ainda ninguém respondeu cabalmente a esta pergunta: porque haveria Putin de querer invadir a Ucrânia, o que teria a ganhar com isso, no curto e no longo prazo? A Ucrânia não será nunca, para o Exército russo, um passeio na Crimeia: é 25 vezes maior do que a Crimeia, e a sua população de 43 milhões de pessoas é dividida entre 73% de ucranianos e 22% de russos, contra apenas 2,4 milhões de habitantes na Crimeia, dos quais 65% de russos e 15% de ucranianos. Mesmo que o referendo posterior à anexação russa de 2014, que Moscovo sustenta ter-lhe sido favorável com 94% dos votos, não seja credível, é óbvio que na Crimeia — que Potemkin conquistou para Catarina, a Grande, em 1783, e que o ucraniano secretário-geral do PCUS Nikita Khrushchov deu à Ucrânia, em 1954 — Moscovo está em casa, enquanto na Ucrânia teria pela frente umas Forças Armadas poderosas, uma resistência feroz e um povo maioritariamente hostil, que transformaria a ocupação num inferno permanente. E por mais que Putin seja um saudosista do Império russo e soviético, também é suficientemente pragmático para compreender os custos que tal aventura lhe acarretariam, com a Rússia mergulhada em nova Guerra Fria, cercada de inimigos por todos os lados e reduzida à condição de pária entre as nações, só com o cordial inimigo chinês como potencial aliado.

Não, é muito provável que Putin não queira invadir a Ucrânia, nem queira uma guerra. Que queira outras coisas, paras as quais é preciso ouvi-lo com atenção. Para começar, isso mesmo: ser escutado. Lembrar que, apesar da actual guerra latente Ocidente-China, continua a existir uma terceira superpotência chamada Rússia, o segundo maior país do mundo, com o segundo arsenal nuclear, maior fornecedor à Europa de gás natural (agora considerado “energia verde” pela UE), e cujos interesses estratégicos não podem, pura e simplesmente, ser distratados, como se não merecessem qualquer consideração. Quem conhecer a história da Rússia sabe que no subconsciente de todos os russos está o medo ancestral do cerco. Putin vê nos sucessivos alargamentos da NATO aos ex-países da órbita soviética e aos vizinhos da Rússia uma manobra de cerco, e, ao opor-se a ela, ele não está, necessariamente, a manifestar um saudosismo imperial, mas a defender aquilo que os russos pensam: é política interna, não é política externa.

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E a verdade é que, se a NATO foi criada para enfrentar a ameaça soviética, uma vez dissolvida a URSS e extinto o Pacto de Varsóvia, foi preciso uma grande ginástica política para justificar a sua continuidade — que, aliás, e por outras razões, Donald Trump pôs claramente em causa. Mas não só a NATO não se extinguiu como se foi alargando a novos membros e a novos territórios, abraçando e cercando a Rússia, mas não só. Na sequência do 11 de Setembro, e torcendo de forma clara os princípios da sua carta fundadora, a NATO foi intimada pelos Estados Unidos a segui-los na caça à Al-Qaeda e a Bin Laden, no Afeganistão. Mas como a Al-Qaeda era uma ameaça planetária e o 11 de Setembro chocou todos, abriu-se pacificamente o precedente. Porém, não havia Al-Qaeda no Afeganistão, e Bin Laden foi capturado e morto comprometedoramente no Paquistão, um aliado americano. E, depois de anos de inúteis e mortíferos esforços de nation building, os EUA, logo seguidos pelos seus fiéis aliados, bateram em retirada daquele vespeiro, entregando-o à barbárie dos talibãs. Mas aprendemos a lição? Não.

Quando se tem uma organização que deixou de ter como fim a preservação da paz através da dissuasão para passar a ser um instrumento de guerra sempre latente, comandada por um pistoleiro irresponsável e tão sensível aos interesses dos grandes fabricantes de armas, a qualquer guerra falhada segue-se invariavelmente uma nova tentativa de guerra feliz — como se isso pudesse existir.

Eu conheci a NATO em 1979, no seu quartel-general em Bruxelas, numa das minhas primeiras viagens como jornalista ao estrangeiro. A ordem de trabalhos da reunião extraordinária não podia ser mais dramática: discutia-se que resposta dar à iniciativa da URSS de colocar mísseis de curto e médio alcance — os SS-20 — na Alemanha Orien tal, Polónia e Checoslováquia. Aquele passo, tomado pelo louco do Brejnev, era uma escalada determinante que rompia o periclitante “equilíbrio do terror” em que se vivia na Europa. Significava que, em lugar de esperar que um míssil disparado da Rússia demorasse 20 ou 30 minutos a atingir uma capital europeia, bastariam agora 5 minutos para isso, não dando tempo ao lado de cá de tentar interceptar os mísseis e até de ripostar — o mesmo que Khrushchov tentara 16 anos antes, em Cuba, e que Kennedy travou com a ameaça de uma terceira guerra mun dial. Fora do edifício da NATO, uma multidão de manifestantes, vindos de toda a Europa, gritavam e ostentavam cartazes dizendo “Better red than dead” (“Antes vermelhos do que mortos”) — o mesmo que apregoava essa organização pró-soviética chamada Conselho Mundial da Paz, em Portugal representada pelo ex-PR Costa Gomes e um patético personagem de seu nome Silas Cerqueira. Pelo contrário, eu não tive dúvidas algumas de que, se a NATO não respondesse, não só acabaríamos vermelhos como também provavelmente mortos. Mas a NATO não vacilou, apesar das resistências em contrário: ripostou com a instalação dos Cruise e Pershing II junto às fronteiras do Pacto de Varsóvia, e esse gesto de resistência viria a apressar o fim da URSS.

De então para cá assistimos à 1ª Guerra do Golfo, que George Bush pai desencadeou, com toda a legitimidade, para expulsar Saddam Hussein do Koweit, que ele acabara de invadir, e que terminou cumprida a missão. Mas depois a NATO envolveu-se na guerra civil da ex-Jugoslávia, na infame guerra de bombardeamento aéreo de Belgrado, cujo objectivo primeiro foi escoar material militar americano em vias de ficar obsoleto e permitir à indústria militar nova geração de contratos com o Pentágono.

E envolveu-se na 2ª Guerra do Golfo, desencadeada pela vaidade oca de George Bush filho, “a President at war”, com o pretexto de aniquilar as armas de destruição maciça de Saddam, cuja existência não estava provada e cujas “provas irrefutáveis”, de que falava Durão Barroso, se revelaram grosseiramente forjadas.

Uma guerra em que a NATO (e Portugal) se envolveram contra o voto do Conselho de Segurança da ONU e que teve como consequência, até hoje, a disseminação do terrorismo islâmico por todo o Médio Oriente. Lembrem-se disso. Lembrem- -se das aventuras desastrosas, das guerras ilegítimas e das suas consequências trágicas em que a NATO já nos envolveu desde que ficou sem inimigo natural e passou a procurá-lo algures. Lembrem- -se de como o Ocidente respondeu, e bem, às tentativas da URSS de o cercar de mísseis de alcance próximo, em Cuba e na Alemanha, em 1962 e 1979. É isso mesmo que a NATO pretende fazer agora com a Rússia. Cercá-la de aliados seus e posteriores inimigos da Rússia — à força, se necessário, pois ninguém ainda ouviu a Ucrânia ou a Geórgia pedirem para aderir à NATO. E depois armá-los para os defender da ameaça russa. O que, aliás, já estão a fazer, sem esperar sequer pela adesão. Porque, se até há umas semanas o discurso, do lado de cá, é que em caso de invasão russa se responderia com sanções económicas e financeiras nunca vistas, agora, e no meio da gritaria permanente com os 100 mil soldados russos do lado de lá, ninguém fala dos soldados e armas que se vão colocando no terreno do lado de cá. “São apenas manobras defensivas”, explicava há dias um “especialista” português.

Defensivas? Trazer dos Estados Unidos a 82ª Divisão Aerotransportada, a unidade de combate de elite do Exército americano, para a Polónia, será uma manobra defensiva ou a preparação de uma sanção económica? Acordem, europeus! Porque Biden e Johnson precisam de tensão ou guerra para subir os índices de popularidade interna e a Polónia precisa de transfigurar a sua imagem de pior parceiro europeu em tempo de paz para parceiro indispensável em tempo de guerra, querem vender-nos uma guerra sem causa.

Uma guerra que os ucranianos suplicam que não lhes imponham, que os russos pedem que evitem e que nos fará, a nós outros, na melhor das hipóteses, retroceder anos, em vez de avançar em direcção ao que importa.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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