O tempo

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/03/2026)

O mundo tornou-se tão apressado e complexo que deixou de haver tempo e distância para o analisarmos conscientemente, ao mesmo tempo que a emergência 
de uma cultura de desinformação planeada e programada, tratou de destruir tudo o que tínhamos como verdade e como notícia.


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Quarta-feira à tarde, quando escrevo este texto, não sei se Trump vai desembarcar marines no Irão, se vai tomar “aquela ilha” ao largo da costa, ou se vai negociar com os iranianos, apesar de, como ele diz, já não haver ninguém vivo com quem negociar. E negociando, não sei o que vai exigir para declarar a retumbante vitória que precisa de declarar ou se, falhada a negociação, vai “levar o inferno ao Irão”, conforme promete. E depois, também não sei se a paz que agora parece pretender, apesar de disfarçada de vitória, seja aceite pelos seus parceiros de Israel e estes se contentem em abocanhar mais um bocado do Líbano e fazer mais uns milhares largos de deslocados. Eu não sei, ninguém sabe: tudo depende de como o homem acordar na sexta, no sábado ou no domingo. Ao certo sabemos só que ele, como já era de prever e se tornou evidente depois, não fazia ideia do que era o Irão — politicamente, militarmente, geograficamente; que nunca imaginou até que ponto a sua estupidez poderia conduzir toda a economia do mundo, pois que também nunca previu o óbvio: que os iranianos fechassem o estreito de Ormuz — por onde, aliás, ele também não sabia que passa 20% da energia fóssil consumida no planeta; e sabemos também que a única coisa que o pode fazer parar são as bolsas a desabar, a economia americana a patinar por conta de uma guerra que os americanos não entendem a não ser como um serviço prestado a Israel, e, em consequência, uma derrota anunciada nas eleições intercalares de Novembro, se ele não puser fim a esta loucura.

A Europa espera para ver, dependente dos achaques do louco de Washington. Espera caladinha, como convém desta vez, não vá o homem deixar de decidir pelo bom senso, sentindo-se empurrado de fora. Mas, dure a guerra quanto mais tempo durar, há coisas que a Europa aprendeu com ela e a cuja lição não se pode furtar. Primeiro, que continuar a achar que os Estados Unidos de Donald Trump — e depois provavelmente de J. D. Vance — são um aliado fiável e um parceiro de confiança, partilhando dos mesmos valores, é meio caminho andado para o suicídio, para serem apanhados numa guerra ou numa crise desencadeada pelo suposto aliado, sem aviso algum mas com consequências imediatas. Segundo, que desatar a endividar-se para comprar armas às empresas de armamento americano, sem quaisquer garantias de contrapartidas sérias, como quer o secretário-geral da NATO, é uma aventura que não faz sentido algum. Em terceiro lugar, a Europa não pode abrandar, antes intensificar, o seu esforço de apostar nas energias alternativas, libertando-se da dependência mortal dos hidrocarbonetos. E por último, deve prosseguir no caminho recentemente inaugurado de procurar outros parceiros comerciais e diplomáticos, pois que por aí também passa muito da sua independência.

O tempo
Hugo Pinto

2 Olhada à luz do desarranjo do mundo, a cena política portuguesa oscila entre o surreal e o patético. Andar a discutir o novo estatuto dos transexuais, a inultrapassável escolha de juízes para o Tribunal Constitucional, indicados pelos partidos mas supostamente independentes, ou os almoços de Isaltino Morais em Oeiras, enquanto o mundo conhecido desaba à nossa volta, oscila entre a inconsciência e a irrelevância. E se olharmos para o lado, para a grande Espanha, e virmos que têm combustíveis mais baratos, electricidade mais barata, verdadeiras medidas de apoio à economia sustentadas com uma diminuição real da receita fiscal, e, em cima de tudo isso e para desespero da direita espanhola e dos seus admiradores lusos, uma política externa que a torna admirada em todo o lado, deveríamos corar, se não de vergonha, pelo menos de inveja. Mas continuaremos assim, o Governo propagandeando a inércia, a incapacidade de pensar para a frente e de agir, como se estivesse ocupado em grandes reformas, a oposição armadilhada na vontade de propor diferente e o medo de ter de enfrentar eleições antes de ter convencido alguém de que faria diferente e melhor, e o Chega afogado em sucessivos escândalos escabrosos, como era de prever assim que começasse a ter os tais “tachos” e que com eles viesse o respectivo escrutínio. A ideia que dá é que nada, nem as notícias do mundo, abala o inabalável sono pátrio. E que é isso que o povo quer.

3 Comecei a ler jornais diariamente aos 12 anos, numa época em que, só em Lisboa, tínhamos uns cinco diários matutinos e três vespertinos. Ao longo da vida, nunca perdi o hábito de ler jornais todos os dias, quatro ou cinco por dia e de preferência em papel: sou um confesso dinossauro da imprensa. Depois, e ao longo dos meus mais de 40 anos de jornalismo, a leitura de jornais passou a ser, mais do que um vício, uma obrigação. E mesmo depois de deixar o jornalismo, poucos anos atrás, a actividade de articulista ou comentador continuou a exigir-me a consulta diária de jornais, portugueses e estrangeiros, acrescida dos jornais televisivos e noticiários da rádio — que, por sinal, acho péssimos. A informação confunde-se com o meu dia-a-dia, como uma segunda pele ou a roupa que visto para sair à rua. Mas com o tempo, este doce Nirvana, pessoal e profissional, foi-se alterando e, em algumas situações mesmo, adulterando, deixando de serem consideradas “All the News That’s Fit to Print”, conforme reza o cabeçalho do “The New York Times”, numa das mais certeiras definições do que é informação que conheço. O triunfo ululante da ignorância, associado ao desvario das redes sociais e dos seus algoritmos programados para conduzir os incautos aos abismos de desinformação e manipulação a que os Bezos e os Zuckerbergs deste tempo os querem conduzir docilmente, como carneiros ao redil, inaugurou uma época de nova luta de classes. Só que desta vez não é entre o capital e o trabalho, mas entre o que chamam a “elite” informada e desprezada e a grande massa de ignorantes felizes. E se alguém podia imaginar, como eu imaginei em tempos, que nesta nova luta de classes os vencedores seriam os que se deram ao trabalho de tentar saber, aprender, distinguir a verdade da mentira, tentar ver claro o que não é nítido, enganaram-se redondamente: os vencedores são os ignorantes e os que tiram partido dessa ignorância, servindo, pronto-a-vestir, um simplismo opinativo que se torna irresistível para os crentes. Donald Trump é, obviamente, o exemplo consumado deste mundo assustador, cuja história não vejo como possa não acabar mal.

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E então, chegado àquilo que consta ser a idade da sabedoria, dei-me conta de que talvez saiba mais do que percebo — uma armadilha muito comum. Parece-me que, incapaz de continuar a acompanhar eternamente a urgência e a abundância dos acontecimentos, a menos que nada mais de jeito faça, e mesmo já desinteressado de tanta espuma noticiosa, é chegado o tempo de me deter e recuar — como fazemos diante de um quadro, para melhor o fixarmos, melhor o decifrarmos. Quero tentar entender em vez de saber, olhar em vez de contar, escutar em vez de declarar, pensar em vez de concluir. Quero um dia novo, com menos notícias, menos ruído do mundo e das gentes. A partir de hoje, a minha colaboração com o Expresso passa a quinzenal — um pedido meu que a direcção do jornal teve a delicadeza de compreender e aceitar. Quem sabe se assim mais desprendido desta voragem em que vivemos, não ficarei mais lúcido ou, pelo menos, mais esclarecido!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Solidão e poder

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/03/2026)

Com Marcelo, sem dúvida que o poder desceu à rua. Sem ter de descer ao nível da rua.


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Assisti em directo aos últimos, pungentes e quase dramáticos, minutos dos dez anos de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa — ou, mais correctamente, aos primeiros minutos da sua anunciada travessia do “deserto eterno”. Depois de descer a escadaria da Assembleia da República ainda institucionalmente escoltado, depois de olhar à esquerda e à direita, procurando os últimos abraços, os últimos beijos, as últimas despedidas, Marcelo, já despido da aura do cargo, dirigiu-se para o seu carro particular, cujo volante agora lhe cabia. Poderia ter estacionado previamente o carro nas traseiras da Assembleia ou mesmo em frente à escadaria. Mas isso seria quase uma chegada e saída clandestinas. Marcelo optou antes por deixá-lo bem longe, para que à chegada pudesse arrastar os street journalists atrás de si, mais uma vez embasbacando-os com os seus gestos “fora da caixa”: entrou num supermercado, numa papelaria e num antiquário, seguramente para compras inadiáveis, enquanto aproveitava e adiava até ao fim o inadiável. E no final, disputando até ao limite as atenções mediáticas com o novo Presidente num ecrã dividido ao meio entre os dois, Marcelo empreendeu a subida da íngreme Calçada da Estrela, arrastando atrás de si e de bofes de fora um miniesquadrão dos tais street journalists, de ora avante órfãos de sujeito e de objecto. Cha­peau, Marcelo, só não foi de mestre porque, com dez anos em cima, de tão previsível só conseguiu, e esforçadamente, colher de surpresa o tal triste jornalismo de rua! Ali, naqueles instantes, vi espelhadas as duas principais marcas do consulado de Marcelo Rebelo de Sousa: a boa, a sua intimidade com a rua e as pessoas, e a má, o seu excesso de protagonismo, o seu quase desespero pelas atenções alheias. Mas então, meditando no destino daquele homem que saía do poder tal como tinha entrado dez anos antes — sozinho e a pé —, confesso que me impressionou a sua solidão: não havia mesmo ninguém — um familiar, um amigo, um colaborador — que fosse recolher e acompanhar o homem que passara uma década no topo do poder? Ou aquilo seria uma espécie da autoflagelação pública a que ele, católico militante e coerente, se entregava voluntariamente?

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Partilho aqui a mesma perplexidade de que Maria João Avillez deu conta quando, no início da sua magistratura, o entrevistou, ainda ele morava na sua casa de Cascais, e no final da entrevista Marcelo lhe confessou que a seguir iria para casa, sozinho, “jantar uma salada”. Se imagino que o poder seja um exercício bastas vezes solitário, não imagino que ele possa ser exercido em solidão pessoal a acrescentar à solidão institucional. Mário Soares foi também um Presidente da rua — e dos abraços, beijos e até estaladas —, mas Soares derramava vida pelas ruas e pelos outros, enquanto Marcelo precisava da rua e dos “afectos” para ter uma vida. Para o bem e para o mal, para o que fez de certo e o que fez de errado, ao longo destes longos dois mandatos, o seu registo terá de ser analisado à luz dessa solidão pessoal. Que, queira-se ou não, desvirtua o olhar e o juízo de quem tem poder — mesmo que, como foi sempre o caso, a sua integridade pessoal e a sua honestidade funcional nunca tenham estado em causa.

Solidão e poder

Para o bem, muito haveria para dizer e já quase tudo foi dito. Para o que fez de errado, recordo sobretudo o episódio com João Galamba, quando Marcelo, o professor de Direito, embarcou na execução sumária, pública e totalmente injustificada de um ministro cujo crime fora o de ter sido assaltado no seu ministério por um assessor tresloucado e sedento de ridículo protagonismo, secundado por um Ministério Público que até hoje investiga o gravíssimo crime de suposta corrupção que consistiu em o ministro ter autorizado um investimento essencial ao país, mas que ocupava parte de um charco provisório onde, em noites de lua cheia, consta que se avistavam por vezes uma rã e um lagarto ainda mais essenciais ao país. E, claro, a aceitação sumária da demissão de António Costa, com base noutro devaneio político do Ministério Público. Aí, o Presidente Marcelo, nem sequer aceitando a substituição do primeiro-ministro, fez tábua rasa da estabilidade que apregoava e da vontade expressa pouco antes por uma rara maioria absoluta de eleitores. Mas, pior: ele, o guardião do regular funcionamento das instituições democráticas, caucionou um autêntico golpe de Estado institucional da magistratura sobre o Governo democraticamente eleito. E com isso assegurou o regresso do seu PSD ao poder e, de caminho, a ascensão às nuvens da extrema-direita, que ora nos ameaça. Não sei o que lhe terá passado pela cabeça então, mas talvez a tal solidão em que vivia e pensava possa explicar, sem o justificar, tamanha inversão de consequências.

Como sempre, o segundo mandato do Presidente Marcelo foi pior do que o primeiro. Como sempre, perdeu-se tanto em esforços para outorgar um legado que todos admirassem que deixou de ver claro e de conseguir indicar caminhos. Provou, se dúvidas ainda houvesse, que dez anos é demais, seja para quem for. E sai sem conseguir o resumo que certamente desejaria e que provavelmente merecia: deixar um país melhor do que aquele que encontrou. Mas, com ele, sem dúvida que o poder desceu à rua. Sem ter de descer ao nível da rua.

2 Eis algumas coisas que já podemos ter como certas ao fim de 13 dias do ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irão:

— Ninguém sabe quando é que a guerra vai acabar. Do lado americano, os seus líderes contradizem-se entre si, e Trump contradiz-se a si próprio ao longo dos dias ou das horas do dia.

— Não se sabe quantos mais mísseis balísticos terá o Irão disponíveis, pois também não se sabe quantos silos de lançamento terá Israel (sobretudo) conseguido destruir. E, enquanto tiver capacidade de atingir os inimigos, o Irão não se renderá.

— Não se vê como é que as forças atacantes conseguirão desimpedir o estreito de Ormuz sem desembarcarem tropas que o ocupem e sem destruírem todas as lanchas rápidas iranianas. E, enquanto isso não acontecer, a guerra estará longe de poder ser declarada “completa”, como o fez Trump com a sua habi­tual prosápia como animador dos voos a bordo do Air Force One.

— Enquanto o mundo inteiro — e a Europa particularmente — vive dias de angústia com a perspectiva de uma crise energética desencadean­do uma crise económica global, mais de 90% dos israelitas sondados ­apoiam a continuação da guerra, supõe-se que até à aniquilação total do Irão — seja isso o que for e quando for.

— Israel é que comanda as operações do ponto de vista militar, de intelligence e político. Apesar de toda a sua imensa superioridade de meios e dos seus fornecimentos de armas a Israel serem determinantes, os Estados Unidos limitam-se basicamente a acompanhar a estratégia israelita. Trump está às ordens de Netanyahu — o que não admira, pois, como está à vista, ele não sabia o que era o Irão.

— A declaração de Donald Trump de que quem destruiu com um míssil a escola onde morreram 170 crian­ças irania­nas foi o próprio Irão ficará nos anais da história como a mais estúpida mentira jamais dita por um líder mundial, só alcançável por quem há muito perdeu a vergonha de mentir à vista de todos sem se importar.

Mas episódios como esse têm tendência a fazer crescer a opinião contra a guerra entre os americanos. Isso, mais o afundamento de uma fragata iraniana por um submarino americano em águas internacionais ou o ataque a petroleiros civis em alto-mar, seguido de tiros sobre os náufragos no mar — as proe­zas de que se orgulha o secretário da Guerra, Pete Hegseth —, é uma nódoa sem remissão no curriculum das Forças Armadas americanas.

— Em toda a Europa, só Espanha parece ter percebido que os Estados Unidos de Donald Trump e dos MAGA não têm nada a ver com os Estados Unidos da Normandia ou do Muro de Berlim a que a Europa ficou a dever a sua libertação da besta nazi e posteriores 50 anos de paz face ao urso soviético. A desilusão vai-se instalando, mas, por ora, o discurso dos líderes europeus ainda assenta na ficção de que os Estados Unidos são um país aliado — quando o único aliado que eles têm e querem ter é Israel.

— Joe Biden impôs à Europa a proibição de comprar petróleo e gás à Rússia sob pena de sanções, e, para que não houvesse tentações, a Ucrânia, com a conivência da NATO, tratou de fazer explodir os dois gasodutos russos que traziam a energia para a Europa Central. Entretanto, os Estados Unidos aproveitaram e substituíram-se à Rússia na exportação do gás liquefeito para a Europa — só que bastante mais caro. E agora, com os preços da energia fora de controlo devido à guerra levada por americanos e israe­litas ao golfo Pérsico, a senhora Von der Leyen teve de ir dizer aos deputados europeus que a solução de voltar a importar gás e petróleo da Rússia era inaceitável, mesmo que todos acabem a ganir. Putin deve estar a rebolar-se de gozo.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

O psicopata narciso, o sócio criminoso, os idiotas inúteis e o ministro satisfeito

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 06/03/2026)

Com metade da Marinha e da Força Aérea americanas reunidas à volta do Irão, o nosso MNE pretende ter sido o único habitante do planeta Terra que não suspeitou que aquilo não seria para um simples desfile ou um passeio turístico! Paulo Rangel envergonha-nos.


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Como o mundo inteiro já percebeu, Donald Trump tornou-se um caso de psicopatia à solta, agravado por um narcisismo sem limites e uma crueldade inata, patente no prazer de humilhar, ameaçar e atacar os mais fracos. É um homem mau, dotado do poder imenso de ditar os destinos da Humanidade: o Calígula do nosso tempo. É certo que o mundo fica bem melhor, aliviado de Nicolás Maduro, dos discípulos da ditadura de Fidel Castro ou do regime de terror dos clérigos iranianos. Mas quem nos livrará de Trump e de Netanyahu?

Trump fez ao Irão o mesmo que os japoneses fizeram aos americanos em Pearl Harbor e que estes classificaram como “o dia da infâmia e da traição”: atacar maciçamente quando decorriam negociações entre ambas as partes para evitar a guerra. Depois, começou por justificar o ataque (mais uma operação de guerra desencadeada no conforto de um fim-de-semana em Mar-a-Lago) com a iminente possibilidade de o Irão se dotar de armas nucleares. Mas como toda a gente lembrou que essas armas, verdadeiras ou imaginadas, tinham sido declaradas por ele como “totalmente obliteradas” no precedente ataque dos Estados Unidos ao Irão em Junho passado, mudou a justificação para a “continuação da obliteração das armas nucleares” e destruição dos mísseis balísticos iranianos e, finalmente, para o facto de ter pressentido que se não atacasse primeiro, seria o Irão a atacar os Estados Unidos. Porém, a verdadeira história remonta à presidência de Obama, quando EUA e Irão assinaram um acordo sobre o nuclear, apesar de todas as tentativas de Israel para o impedir. Nos termos desse acordo, o Irão não poderia enriquecer o urânio em mais do que 3,65% e para fins civis (quando é preciso enriquecê-lo a 70% para fins militares), e sujeitou-se a inspecções regulares da Agência Internacional de Energia Atómica. Chegado ao poder no seu primeiro mandato, Trump tratou imediatamente de rasgar o acordo, deixando o Irão de mãos livres para continuar a desenvolver o programa nuclear: certamente que Trump e o seu “amigo” Netanyahu já então cogitavam outras formas de resolver o assunto. E o curioso é que ao mesmo tempo que rasgava o acordo assinado com o Irão, assinava outro com os talibãs do Afeganistão, aceitando retirar as tropas e entregar o país à barbárie medieval e à morte de todos os que tinham cooperado com os Aliados.

Agora, Trump lançou mão da táctica dos cobardes: usa a superioridade aérea e balística e a IA para atacar sem ter de arriscar vidas americanas, o que tornaria esta sua aventura impopular internamente. Sem pôr botas americanas no terreno, o corajoso empresário do imobiliário que chegou à Presidência dos Estados Unidos, exortou, sem corar de vergonha, o povo do Irão a “fazer o resto porque nós já fizemos a nossa parte”: isto é, a sublevarem-se, desarmados, contra os 200 mil homens em armas que protegem o regime. No mês passado, quando disse que estava a caminho para os ajudar, 30 mil iranianos morreram sob as balas da ditadura sanguinária dos ayatollahs, quando invadiram as ruas acreditando na promessa de Trump.

2 Benjamim Netanyahu, “Bibi” para os seus, enfrenta um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional por crimes contra Humanidade cometidos em Gaza — onde, em dois anos, deixou um legado de pelo menos 70 mil mortos e total destruição. Aproveitou o derrube de Assad, na Síria, para abocanhar mais um bocado do país, sem sequer se preocupar em apresentar uma justificação. Fez assassinar à bomba inimigos em países estrangeiros, Irão, Líbano e vários outros, e no Catar até atacou com um míssil a delegação do Hamas com quem estava supostamente a discutir um acordo de paz. Está, pois ao nível daquele que chama “o meu amigo Donald Trump”, que procede à “extracção” de um chefe de Estado estrangeiro em pleno sono e em pleno palácio presidencial no seu país, ataca, afunda e metralha os sobreviventes de petroleiros estrangeiros transportando petróleo de um país estrangeiro para outros, em águas internacionais, e bloqueia, chantageia ou ameaça invadir os países que cobiça ou que não lhe obedecem, incluindo supostos aliados. Para estes dois também parceiros de negócios, actuais e futuros, o direito internacional, a Carta da ONU, os acordos celebrados, não valem nada perante circunstâncias ou oportunidades supervenientes. Mas, apesar de tudo, apesar de há mais de 40 anos Israel ser o factor determinante da instabilidade no Médio Oriente e mesmo a mais provável causa de uma guerra mundial generalizada, durante todos esses anos, Israel só dava um passo em frente com a prévia aprovação dos Estados Unidos. Hoje, como se está a ver no Irão, os Estados Unidos já não são apenas a guarda pretoriana da expansão israelita rumo ao “Ersatz Israel” (o Grande, o Prometido Israel): são a sua guarda avançada. Mas se ambos reclamam subtilmente os louros do ataque cirúrgico que decapitou o Irão nas primeiras horas da guerra, ambos descartam, passando ao outro, a responsabilidade pela morte de 150 raparigas num ataque menos cirúrgico a uma escola do interior.

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3 Já o tínhamos visto com Gaza, com a Venezuela, com Cuba, mas agora a subserviência dos europeus perante o Calígula americano atingiu o limite da falta de vergonha. Ficará para sempre como uma nódoa, mais uma, sobre este escol de gente que nos governa, o seu silêncio sobre o assassínio das 150 crianças em plenas aulas (o que não diriam se tivesse sido um ataque do Irão em Israel ou da Rússia na Ucrânia?). Conseguiram apenas produzir um apelo “à contenção” e condenar o Irão pelo ataque aos países vizinhos — isto é, às bases americanas nos países vizinhos, de onde saíam os aviões para o atacar — não tendo, em contrapartida, um sussurro de condenação do ataque israelita e americano, em violação de tudo aquilo em que a Europa diz acreditar. Salvou-se, como de costume, a Espanha, e, em certa medida, a Inglaterra, que não pertence à União — ambos já ameaçados com o adequado castigo pelo amigo de Epstein. Mas, de cedência em cedência, de silêncio em silêncio, o destino inevitável da Europa é a total submissão à vontade e interesses dos Estados Unidos de Trump.

4 Ao lado da Espanha, porém, existe um país cujo MNE e o seu Governo, não só ofereceram livremente uma base aérea essencial no ataque ao Irão, como o ministro até conseguiu antecipar-se e ir ainda mais longe que a UE. Ele acusou o Irão de cobardia por ter atacado os vizinhos e não os Estados Unidos (a 12.000 km de distância, com mísseis que só alcançam 2500…) e por não ter atacado Israel — o que é redondamente falso, como toda a gente viu. Como falsa é a afirmação de que a base açoriana não foi utilizada em nenhuma acção de guerra (os aviões estariam em passeio…). As suas atrapalhadas explicações sobre a utilização das Lajes ao abrigo do Decreto-Lei 2/2017 ou do acordo luso-americano não conseguiram esconder a evidência de que nenhum deles foi respeitado. A “autorização tácita” ao abrigo do DL 2/2017 não é aplicável para a passagem ou estacionamento de armas, e a autorização abrigo do acordo, que ele diz que só foi dada mediante condições, não cumpriu logo a primeira delas: a de se tratar de resposta a um ataque do Irão (e que ataque foi esse?). Ouvi quem se atravessasse por ele, dizendo que Portugal não podia fazer nada mais do que aquilo que os Estados Unidos quiseram, sob pena de criar um incidente diplomático com eles. Talvez, mas então seria mais decente declarar logo que o acordo é uma fantochada e que tudo o que os EUA quiserem ou ordenarem, nós fazemos e obedecemos. Com Paulo Rangel, isso nem precisa de ser dito: este é o homem que passou dois anos em silêncio cúmplice com o genocídio de Gaza, que achou que o rapto do presidente da Venezuela foi uma acção “benigna”, que queria que Portugal integrasse o Conselho da Paz de Donald Trump, inventado para afundar de vez a ONU e num momento em que um português é seu secretário-geral, e o mesmo que foi a Madrid, a um comício eleitoral da direita espanhola, fazer uma patética figura aos gritos histéricos de “Espanha, no te mates!”, para apelar ao voto contra o partido no Governo, perante o espanto da própria audiência. E que agora tem o desplante de afirmar, para justificar a oferta das Lajes, que “não nos foi dito (pelos Estados Unidos) que ia haver uma operação militar”: com metade da Marinha e da Força Aérea americanas reunidas à volta do Irão, o nosso MNE pretende ter sido o único habitante do planeta Terra que não suspeitou que aquilo não seria para um simples desfile ou um passeio turístico! Paulo Rangel envergonha-nos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia