The Centeno Effect

(In Blog O Jumento, 19/05/2017)
centeno_eff
Marques Mendes foi o primeiro a dar a boa nova, que a economia tinha crescido 2,4%, e o INE não só confirmou como aumentou a parada para 2,8%. Sem que os a coroa de louros já estivesse pronta já a Maria Luís e o Passos tinham vindo defender que a glória era deles, Marcelo apressou-se a dizer que não disputassem a coroa de folhas de oliveira, para logo a seguir emprenhar ainda mais a boa nova, dizendo que no fim do ano nasceria uma bela criança com 3,2%.
Imaginem agora que o Soares era primeiro-ministro, que o PS era apoiado no parlamento pelo Álvaro Cunhal e pelo Major Tomé, que o presidente era o Soares Carneiro. Imaginem também que nessa altura o primeiro a dar a boa nova era o Pinto Balsemão, que o Cavaco e o Miguel Cadilhe vinham a público defender que o sucesso económico resultava da sua obra, enquanto o Soares Carneiro os mandava ter calma e ia à Croácia anunciar que a economia iria crescer ainda mais.
Qualquer coincidência com a realidade é pura coincidência, e não me refiro ao facto de Miguel Cadilhe já ter vindo a público defender que o recorde nacional dos défices era dele; tirando ele os restantes intervenientes ou já partiram ou andam por aí fazendo de mortos-vivos da política. Mas esta hipótese digna de alguém que mora ali para os lados da Av. Do Brasil, onde fica o Júlio de Matos, corresponde ao que está a acontecer.
Há pouco tempo Cavaco quase se recusava a dar posse ao atual governo, fez uma lista de exigências, lançou a dúvida no país e no estrangeiro. Passos Coelho estava tão convencido do desastre que nem se deu ao trabalho de fazer oposição, até engordou com tanto jantar de lombo assado. Paulo Portas prometia regressar logo que estivesse descansado, a TVI já tinha anunciado a sua nova vedeta, até já tinha desenhado um estúdio apropriado a tão bela personagem. A Cristas achou a situação tão engraçada que tem feito uma oposição com piadas, piadolas e idas à bomba da gasolina.
Alguém imaginava que o Passos Coelho iria esquecer o diabo e fazer suas as consequências da política sem reformas, e das desastrosas reversões? Alguém teria uma imaginação tão criativa ao ponto de dizer que um ia destes dois ex-presidentes do PSD andariam a divulgar e a prever os sucessos económicos do governo daquilo a que direita designou por geringonça? Alguém conseguiria prognosticar um silêncio tão prolongado por parte do Paulo Portas? Alguém poderia dizer que o país não sentiria saudades do Sôr Álvaro que inventou a multinacional dos pastéis de nata, que prometeu que Portugal seria uma potência na extração mineral e que iria ser feita a terceira revolução industrial?
Se eu fosse crente diria que tanta coisa junta, mais o SLB campeão e o festival da Eurovisão só poderia ser um novo milagre do sol, obra da Santa de Vila Nova de Ourém. Algo de estranho afetou a cabeça de tanta gente, entre eles três presidentes do PSD, e só pode ter sido alguma nova fragrância que anda aí no ar provocando efeitos muito estranhos. Mas não, aquilo a que o país assiste é ao famoso “Centeno effect”!

Por obra e graça da NS de Fátima

(In Blog O Jumento, 17/05/2017)
marcelolê
Se Cavaco ainda fosse Presidente da República é muito provável que tivesse explicado o crescimento económico de 2,8% ocorrido no primeiro trimestre como resultado das rezas e promessas da sua esposa à santinha da sua devoção. No ambiente de fervor religioso criado com a vinda do Papa Francisco, não faltaria quem se esquecesse da opinião do papa sobre os milagres baratos, e concordasse com Cavaco.
Marcelo, que vai a mais procissões, missas e peregrinações do que ia Cavaco, parece optar por uma posição mais agnóstica e explica o crescimento económico como um mero acaso, talvez resultado de uma combinação de estrelas mais favorável ou de uma qualquer outra causa desconhecida. Se em vez de adepto de Braga, talvez Marcelo defendesse, como se discutia há alguns anos atrás, que o crescimento inesperado se devia ao título do Benfica.
Em tempo houve quem sugerisse que se todos os portugueses fossem para a beira-mar talvez o país se inclinasse. Não me admiraria se alguém viesse defender que o crescimento tenha sido estimulado pelo aumento da procura de telemóveis para tirar selfies com Marcelo ou, quem sabe, em consequência do bom ambiente em que se vive desde que Cavaco regressou a Boliqueime.
A ideia com que se fica das últimas declarações de Marcelo, (Ver aqui) pedindo para não se querer saber quem teve mérito, é a de que o crescimento económico resulta de um qualquer bom austral, ou foi o resultado inesperado de políticas económicas que não podiam ser mais contraditórias. A crer em Marcelo quando os médicos salvarem um doente que está à beira da morte e ao qual foram ministrados vários tratamentos, devem abster-se de querer saber qual o tratamento que resultou e atribuir a cura ao acaso.
Esta opinião é do mais ridículo que já se ouviu, um país à beira do colapso consegue crescer e devemos abster-nos de tentar perceber o que nos trouxe tranquilidade, sugerindo de forma hipócrita que a evolução económica positiva é resultado de todas as políticas. Só não explicou se os efeitos retroativos do bom austral começaram com Passos ou ainda antes, já que pelo menos o crescimento das exportações começou antes do governo da direita.
Mas a hipocrisia de Marcelo Rebelo de Sousa vai um pouco mais longe, não só diz que nos devemos abster de reconhecer o mérito de uma política económica, optando por considerar que todos contribuiram por igual, como diz que o sucesso é conjuntural e devemos transformá-lo em estrutural. Ora, se Marcelo acha que o crescimento resulta em simultâneo do congelamento e do aumento do salário mínimo, do corte brutal de vencimentos e da sua reposição, do corte abusivo das pensões e do regresso da ilegalidade, isso significa que para que o crescimento estrutural temos de adoptar as duas políticas económicas.
Assim, sugiro a Marcelo que proponha que daqui para a frente haja alternância entre a Maria Luís e o Centeno: nos meses pares governa a Maria Luís para cortar vencimentos e pensões aterrorizando o país com mais medidas brutais se não comerem e calarem. Nos meses ímpares seria empossado o Centeno para eliminar as políticas da Maria Luís, e nestes meses o Marcelo sairia à rua para servir muitos jantares aos sem-abrigo e tirar muitas selfies com o povo.

Passos sempre disse: Eu acredito!

INES_LETRAS
Ando cada vez mais espantado com a política portuguesa. Durante meses o Coelho zurziu na Geringonça e dizia que o Apocalipse vinha a caminho com o Diabo a capitanear o caos. Agora, perante os bons resultados da economia, Passos mandou esta santinha dizer o que ele, apesar de ser o rei dos aldrabões, não teve a coragem de dizer (Ver aqui). Mas que triste figura fez a senhora, uma espécie de pau mandado, a voz do dono de um Láparo envergonhado. Para que não haja dúvidas, fica abaixo um texto em que se recordam as frases de Passos antevendo as desgraças do país devidas a este Governo. Afinal, ele criticava mas sempre acreditou na Geringonça… eh eh eh….
Estátua de Sal, 16/05/2017

(In Blog O Jumento, 16/05/2017)
Passos Coelho nunca duvidou do sucesso a longo prazo da sua política, nunca receou que as políticas do governo de Costa invertessem o rumo de sucesso, sempre previu que o país seria prendado no primeiro trimestre com uma prenda dos Reis Magos. Esteve sempre tão certo disso que nunca fez outra coisa senão previr o crescimento económico e a criação de emprego que agora se regista.
Para que ninguém duvide de Passos Coelho aqui ficam algumas das suas muitas declarações que lhe dão o direito de agora reivindicar para si o sucesso da política económica que dizem ser de Centeno e Costa:
(Pedro Passos Coelho lança fortes críticas à atuação do governo, por querer )“devolver tudo num ano” (ao invés de o fazer com calma durante os próximos quatro anos. O ex-primeiro-ministro diz que) “os riscos são grandes” (mas garante que, caso a estratégia dê certo, passará) “a defender o voto no PS, no PCP e no BE”. (1/03/2016)
“Movido pelo lema de virar a página da austeridade, o novo Governo o que virou foi a página da credibilidade e atirou a confiança pela janela fora”, analisa o líder do PSD. As consequências foram a descida a pique do investimento e a queda das exportações, continua o antigo governante, antecipando “uma deterioração da balança externa”. Passos Coelho deixa avisos: “o adiamento de despesa, corrente e de investimento, tornarão o segundo semestre uma bomba ao retardador”. (4/07/2016)
“Mas quem é que põe dinheiro num país dirigido por comunistas e bloquistas? Quem é o investidor que acredita que o futuro estará seguro naqueles que têm senha, que não gostam, pelo contrário, que atacam aquilo que eles designam o capital, os capitalistas, os homens que no fundo investem o seu dinheiro, as suas poupanças, nas empresas, que criam emprego e rendimento para futuro” (28/08/2016)
“Tudo aponta para que o que temos à nossa frente seja, portanto, um caminho que já não é de voltar ao défice do ano anterior, é de poder até ficar além desse défice” (28/08/2016)
“Quando soubermos os números de agosto, vamos ver a que velocidade é que este Governo está a convergir para o défice do ano passado e vamos ver se não o ultrapassa, porque, o que temos daqui para a frente, por decisão do Governo, é um crescimento mais lento, que vai gerar menos receitas fiscais, e vamos ter mais despesa, que o Governo também já decidiu” (28/08/2016)
“Não podemos confundir a estabilidade — que é uma coisa instrumental -, com a confiança, sem a qual o país não cresce. A verdade é que, apesar do foguetório que para aí vai, o país está a crescer menos do que o ano passado, há menos emprego a ser criado em 2015, o desemprego desce menos do que nos anos em que geri o Governo” (23/11/2016)
“O que precisamos agora é de enterrar as políticas de reversão, esperando que as que foram realizadas não nos venham a sair demasiado caro, e de colocar em cima da mesa uma agenda reformista que relance a ambição para ter um crescimento significativamente maior” (2/01/2017)
“Não é preciso que tudo caia no chão para que as pessoas percebam as diferenças [entre a governação do PSD e do PS]”, (disse ainda, em jeito de apelo ao executivo de António Costa para parar com a reversão das medidas tomadas pelo governo anterior.) 87/01/2017)
“Na verdade continua a ser medíocre quando comparado com o passado, com aquele” (que o Governo de coligação PSD/CDS-PP deixou, e) “particularmente medíocre quando comparado com aquele que se vê em Espanha ou com o que se vê na Irlanda”. “Porque é que a Espanha cresce mais do dobro do que cresce Portugal, apesar de ter estado quase um ano sem governo? Porque é que a Irlanda cresce significativamente mais do que Portugal e mais até do que a Espanha?” (22/01/2017)
“Quando a economia cresce por via do consumo, isso significa que é a poupança que é sacrificada e, quando a poupança é sacrificada, como foi em 2016, o próprio investimento interno é penalizado”. “Para que o país possa crescer sustentadamente, tem de crescer com investimento, e foi justamente o que não funcionou durante o ano de 2016, em que o investimento afundou, a economia terá tido um desempenho pior do que o de 2015 e foi suportada pelo aumento do consumo” (14/02/2017)