Um sobrevoo do BideNato

(Vítor Lima, in Blog Grazia Tanta, 03/05/2022)

1   – O BideNato em construção

BideNato é uma designação para a atual matriz euro/norte-americana dirigida a partir da ligação entre a Casa Branca e o Pentágono, com sede europeia em Bruxelas e que, recentemente elegeu a base americana de Ramstadt, na Alemanha, para o devido enquadramento de novos e velhos aderentes à criminosa instituição chamada NATO.

O BideNato é uma área rica mas desigual, com largas manchas de pobreza, envelhecida, ocupada por cerca de 11% da população mundial e que guarda como honrosas relíquias de desempenho, os seus papéis como escravocrata, de rapinante e, protagonista das mais destruidoras guerras que assolaram a Humanidade.

Biden quer aumentar para mais de 50% do total mundial, a sua tradicional e enorme parcela de armas para venda, ainda que os EUA tenham apenas 2.4% da população global. Complementarmente, 97.6% da população global vive sem tal aparato. Recorde-se que Trump (grande rival de Biden em “conhecimento”) já pugnava para que na turma europeia se dedicassem 2% do PIB à compra de armamento… tendencialmente produzido nos EUA, é óbvio[1].

Biden é o nome do atual e diminuto presidente dos EUA. E, NATO, é a designação de uma instituição que tem acoplados uns trinta estados-nação, promotora das guerras convenientes ao complexo dirigente – económico, político e militar – dos EUA; um país tem no seu cadastro a execução de centenas de milhares de pessoas desarmadas, com as suas bombas atómicas, em 1945 e que se não conteve, vinte anos depois, de “polvilhar” a Indochina com o “agente laranja” e venenos afins.

Como estrutura político-militar o BideNato tem generais e, pretende a integração de um estado-nação de formação recente (Ucrânia), onde é patente a pobreza e a crescente presença da barbaridade nazi; a destruição da Ucrânia terá custos imensos que aliciam os capitalistas ocidentais para o investimento, para a compra dos salvados da guerra… quando esta acabar. Qual será o futuro do comediante-oligarca Zelensky e dos seus batalhões de nazis? O que sobrar da atual Ucrânia, subtraída do Donbass e da faixa litoral do mar Negro, ficará próximo do território oriental do antigo ducado polaco-lituano de matriz essencialmente católica.

O que dizer do discurso agressivo e guerreiro de Biden, repleto de epítetos pouco diplomáticos para Putin e, com a afetação de $800 milhões para artilharia pesada destinados “directamente para as linhas da frente da liberdade” no Donbass? E, observar o papel dúplice de Boris Johnson na Índia, afirmando, entre outros desabafos, “Penso a coisa triste de que (a vitória russa) é uma possibilidade realista”? Certamente, a Ucrânia ficará destruída e a Europa, menorizada, ficará inserida num BideNato, onde a proeminência política caberá a um rancho multinacional de medíocres.

2 – A Europa do futuro

A Europa tende a fixar-se como uma península asiática que os EUA querem manter como sua, para evitar o isolamento face à enorme massa continental euro-asiática-africana, onde se situam grandes potências como China, Índia e Rússia. O BideNato é a decadente amálgama euro-americana que o mundo observa com contidos sorrisos de comiseração ou indiferença; o próprio SG da ONU, Guterres, só se levantou do sofá, dois meses depois do início da guerra na Ucrânia.

Em África, na América Latina ou na Ásia, tem dominado o distanciamento face ao conflito na Ucrânia; observa-se, na Europa e na sua suserania (EUA), um mundo de presunçosos e ricos que ainda não perderam os tiques colonialistas, imperiais, militaristas e de superioridade racista, há mais de cem anos tão bem representada pelo rei belga, Leopoldo.

Na encomenda da NATO ao marionette Zelinsky pretendia-se que a Rússia aceitasse a presença daquela instituição guerreira na sua fronteira com a Ucrânia; e, incluindo ainda a continuidade das barbaridades dos pelotões nazis sobre 40% da população da Ucrânia, que se exprime em russo. Uma pretensão perfeitamente irrealista face a uma das três maiores potências mundiais; e, para mais com um arsenal poderoso.

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades. Os EUA cujas tropas desembarcaram na Europa para lutar contra os nazis durante a II Guerra, passados oitenta anos financiam e apoiam um regime totalitário, com tropas ostentando formas criativas de suásticas e que vitimam a população russófona da Ucrânia, tal como anteriormente haviam vitimado judeus e ciganos.

As cinco maiores empresas de armamento, segundo o SIPRI (Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo), em 2020 e, em mil milhões, são: Lockheed Martin – $58.2; Raytheon – $36.7; Boeing – $32.1; Northrup Grumman – $30.4; General Dynamics – $26.0, todas sediadas nos EUA. Acrescente-se que naquele ano, aos EUA pertenciam 54% das cem maiores empresas de armamento, com vendas num total de $285 mil milhões. Em 2020, os EUA representavam apenas 4.2% da população global e, o grande rival, a China, 18.1% daquele total, com uma faturação de $66.8 mil milhões de armamento, correspondente a 13% do valor global. Para qualquer antimilitarista estes indicadores revelam a paranoia e a demência inerentes a quem ama a guerra, o roubo e a violência; estas taras são inúteis para o bem-estar humano e para a saúde do planeta.

Recorde-se que Trump (grande rival de Biden em matéria de “conhecimento”) já pugnava para que na obediente turma europeia fossem dedicados 2% do PIB para a compra de armamento… tendencialmente produzido nos EUA, como atrás referimos. A produção de armamento dos EUA serve para garantir a rendabilidade da indústria militar, para a monitorização e municiamento de conflitos militares; e ainda, para a vigilância e eventual intervenção em países reticentes na aceitação dos ditames dos EUA, numa continuidade da velha política da canhoneira.

Neste contexto, os EUA mostram-se como um perigo enorme para a Humanidade, como recentemente observámos; para mais porque nessa situação, é muito improvável que o país seja vítima de um ataque militar. Finalmente, os EUA, com as suas mais de 500 instalações militares espalhadas pelo planeta funcionam como um gendarme do planeta e dos seus habitantes[2].

Regularmente, no último século, os EUA surgem envolvidos nos conflitos europeus, numa proporcionalidade que se coaduna com a gradual decadência da Europa; a guerra de 1914/18 e a de 1939/45, foram os trampolins para que o território europeu fosse povoado por bases e instalações militares, mesmo que tenham passado trinta anos após o desmantelamento do Belzebu soviético…

3 – A decadência europeia tem a cara de von der Leyen

Depois de de Gaulle, Adenauer, Willy Brandt, Delors, pouco há a registar na Europa quanto a figuras com algum gabarito político que, atualmente assomam a Macron ou Draghi; no extremo oposto, passou o tempo de imbecis declarados como Berlusconi, Hollande, Rajoy … sem esquecer o tosco Passos, uns anos atrás. Nos EUA as coisas não são muito diferentes; o criminoso guerreiro Obama situa-se, cronologicamente, entre incapazes e ignorantes como G. W. Bush, Trump ou Biden.

Von der Leyen[3]… é um espetáculo de incapacidade! Daí que Charles Michel e Erdogan a tenham marginalizado, meses atrás, quando a deixaram sem cadeira para se sentar… o que não se atreveriam a fazer com Merkel que, provavelmente, numa situação semelhante teria saído, porta fora. Ursula é um louro sorriso no seio de cinzentos e ultra-reacionários confrades, sendo de registar a concorrência desse verdadeiro símbolo da decadência britânica, um tal Boris Johnson.

Assinalemos algumas brilhantes intervenções da Von der Leyen:

 a)   “Se não está previsto nos contratos [para compra de energia à Rússia] o pagamento em rublos, é uma violação das nossas sanções” – diz a Ursula von der Leyen

– Claro que não está previsto naqueles contratos, pois são anteriores à guerra e à torrente de sanções; vale-nos a memória da senhora…

– O pagamento em rublos passou a ser exigido depois das sanções – e como resposta a estas. Por definição, ambos os actos são unilaterais, ações de caráter político, ainda que susceptiveis de negociações.

b) “A decisão da Rússia de pedir pagamentos em rublos é unilateral e as empresas que têm contratos [com fornecedores russos] não devem ceder a estas exigências” – diz von der Leyen

– Exigir o pagamento em rublos, no contexto atual é unilateral, verifica-se num contexto de um aceso conflito, não se insere em contrato. E, no âmbito de um conflito militarizado, vigora a unilateralidade, tanto de quem exige o pagamento em rublos, como de quem emite sanções em catadupa para demonstrar que têm alguma eficácia. As notícias sobre o tema envolvem enorme carga política e, muitas ações, não são reveladas devidamente pelas partes envolvidas no conflito.

c) Von der Leyen já questionou a origem da fortuna do Zelensky?

– Segundo a rede Voltaire a fortuna do comediante é avaliada em $ 850 M, para além de dois apartamentos em Londres, registados em Belize, avaliados em $ 5.78 M. Ao que parece… os comediantes são muito bem pagos na pobre Ucrânia!

d) (o pagamento em rublos) “seria uma violação das sanções e um grande risco para as empresas” – diz von der Leyen

Entre contratos e sanções há um mundo de conceitos a considerar. Se as sanções são actos unilaterais, nada impede que os potenciais atingidos procurem encontrar formas de ripostar, de reduzir ou, anular os seus efeitos, de modo unilateral ou mudando os termos do contrato. Os EUA vinham forçando os europeus a pagar as suas compras de gás junto de contas da Gasprom na Europa, onde ficariam… congeladas. Para evitar isso, a Rússia passou a exigir que o preço do gás vendido seja efetuado em qualquer moeda mas, numa conta na Rússia (no Gazprombank) onde, seguidamente será convertido em rublos, quando conveniente.

Por outro lado, há mais mundo para além do BideNato. Este caso não é único, como alternativa de funcionamento fora da intervenção das instituições do capital financeiro ocidental; existem mecanismos alternativos de apoio às trocas comerciais que contemplam o comércio Rússia/Índia (rublo/rupia), o petroyuan saudita que envolve a China, o mecanismo SWIFT entre Irão e Rússia e ainda, o projeto da União Económica China-Eurásia (EAEU) que terá entrado em vigor recentemente; e, certamente, em ligação com a Organização de Cooperação de Xangai que incorpora a China, a Rússia, os países da Ásia Central e, mais recentemente, a Índia, o Irão e o Paquistão.

É difícil para a Europa aceitar que o seu apogeu foi atingido no final da guerra de 1914/18; que o projeto UE como forma de afirmação global se mantém subalterno face aos EUA; e que, num plano comunitário, somente a Alemanha tem um papel relevante no comércio global, o quase único país da UE com um excedente comercial.  

4 – As mudanças geopolíticas das últimas décadas

O sistema financeiro global surgiu gradualmente, a partir de Bretton Woods (1944), na forma de instituições como o Banco Mundial e o FMI; e, ancorou-se na libra e no dólar, completamente dominadas pelos EUA e a Grã-Bretanha, com práticas hegemónicas a nível global. A descolonização, com a maior autonomia dos novos estados-nação, ainda que adulterada pelos corruptos locais (Houphouet-Boigny, Mobutu, dos Santos…) foi-se mostrando, na sua autonomia face ao mundo ocidental e, evidenciando a preponderância da China nas relações com o que se chama “Sul global”.

As derrotas militares ocidentais (NATO/UE) na Indochina e nas colónias portuguesas; o surgimento da China como potência desafiadora da supremacia dos EUA; a redução do papel do dólar nas trocas internacionais, são elementos que criaram um novo ambiente para as relações políticas e económicas no mundo e, cujos desenvolvimentos parecem elevar a China e a Ásia ao mesmo tempo que mostram a decadência do BideNato.

Politicamente, os EUA mostram a sua decadência em vários pontos. Um, foi a forma desastrada como geriram a pandemia, como se pode, sumariamente, ver no quadro seguinte… onde faltam as fotos de três trastes – Trump, Biden e Bolsonaro:

As 3 principais vítimas do covid-19 (infetados)População   (% do total)Infetados     ( % do total)
EUA4,316,2
India18,08,4
Brasil2,85,9

O retorno da Rússia como grande potência militar (a atual guerra na Ucrânia demonstra-o) surgiu atrasado para evitar o sangrento desmantelamento da Jugoslávia bem como as invasões ocidentais (EUA e seus peões) no Médio Oriente ou, na Líbia, tendo como peão o célebre “Estado Islâmico”… financiado pela Arábia Saudita e que passava os cheques às fornecedoras americanas de armamento destinadas ao dito “Estado Islâmico”.

O acrescido papel da China e da Rússia com a criação da OCX – Organização de Cooperação de Xangai (1996) – travou as intervenções militares dos EUA no Irão ou na Venezuela, como mostra a estupidez[4] vigente no BideNato onde se achou natural a colocação de armamento ofensivo apontado à Rússia, a partir da fronteira ucraniano-russa. Claro que as mortes, as fugas de população, a destruição das infraestruturas da Ucrânia agudizam a pobreza do país; mas, devem ter alegrado os indicadores de gestão das multinacionais da guerra e da morte. Posteriormente, virão os abutres investidores para o oportuno aproveitamento de baixos salários para fazer frente a elevadas necessidades infraestruturais para os povos e de predação para os ricos.

Este e outros textos em:

​http://grazia-tanta.blogspot.com/                               

https://pt.scribd.com/uploads

http://www.slideshare.net/durgarrai/documents


[1] Recordemos a azia de Macron quando viu ter-lhe sido cancelada a venda de um submarino à Austrália, em benefício do Reino Unido.

[2] Temos dedicado alguma atenção ao militarismo, desde há alguns anos; algo que não ocupa um neurónio nos avatares da classe política. Por exemplo, aqui, quando da presença da NATO e do guerreiro Obama em 2010, perante o desinteresse e a animosidade que a “esquerda” portuguesa evidenciou contra um grupo antimilitarista – PAGAN –  de que fomos um dos orgulhosos fundadores.

Ainda sobre militarismo e guerra, consulte-se:

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/01/opentagono-e-nato.html

http://www.slideshare.net/durgarrai/o-capitalismo-predatrio-e-a-estupidez-patritica-1

http://www.slideshare.net/durgarrai/a-estupidez-patritica-e-a-globalizao-2

http://www.slideshare.net/durgarrai/the-pentagon-and-the-nato

http://grazia-tanta.blogspot.com/2012/02/as-manobras-guerreiras-do-imperio-no.html

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/07/para-que-servem-as-forcas-armadas.html

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2012/08/o-militarismo-instrumento-politico-e_18.html

http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/03/a-ucrania-e-comunidade-internacional.html

[3] Perante os desejos de guerra evidenciados por alguns dos mandarins de UE temos de destacar a von der Leyen cuja incapacidade política se coaduna com a falta de memória. A UE recebeu o Nobel da Paz em 2012, mesmo depois das barbaridades cometidas nos Balcãs, no Médio Oriente e na Líbia.

[4] Seria um lapso imperdoável não referir a incapacidade e a subserviência de um tal Stoltenberg, gauleiter da preciosa NATO


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

NATO, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UE

(Vítor Lima, in Blog Grazia Tanta, 18/02/2022)

A NATO foi inventada em 1949 para garantir a suserania dos EUA sobre os países da Europa Ocidental esvaídos pela II Guerra e, simultaneamente apresentar um escudo de defesa face à URSS, então glorificada pelo seu papel no esmagamento dos nazis.

As coisas mudaram em 1989 com a desagregação da URSS, o fim do Comecon e do Pacto de Varsóvia. Ficou aberto um novo terreno de caça na Europa Oriental, a que se somou o desmembramento da antiga Jugoslávia, seguido da conquista de pequenos retalhos da Sérvia – Macedónia do Norte, Montenegro e o Kosovo; este, que nada mais é do que pasto para traficantes e local da instalação da grande base de Boldsteen, para a vigilância e controlo dos Balcãs pelos EUA.

A NATO que deveria ter sido desmantelada como atitude de desanuviamento político na Europa, prosseguiu na sua deriva guerreira e destruidora, alargando a sua atividade ao Afeganistão – onde manifestou uma “fabulosa” visão geopolítica – e à Síria, destruída, ao Iraque e, à mais afastada Líbia. Com os europeus a contribuir para a sujeira e a limpar o lixo, sem qualquer atitude de onde se possa divisar uma estratégia própria e inteligente, limitando-se a recolher os cacos, sob a forma de refugiados e, engordando o cofre de Erdogan.

Perante uma Europa sem estratégia global (o Brexit é o exemplo mais estúpido, tem a cara do Boris), os EUA pressionaram os seus vassalos ao dispêndio de 2% do PIB em cangalhada militar; o qual alimenta a grande indústria do armamento que tem no topo, as norte-americanas Lockheed-Martin, Raytheon, Boeing, Northrup e General Dynamics. Na imagem, um conhecido promotor de vendas apresenta um catálogo ao saudita MbS.

A fabulosa NATO nunca deixou de ser uma extensão dos EUA, com uns quantos artistas a actuar de acordo com a música geoestratégica daquele país – que costumamos designar por Chewing-gum Country – já que na Europa há apenas uns saltimbancos mansos e obedientes aos ditames de Bruxelas, a sede europeia da NATO, onde o reporte é, mais precisamente, feito para Norfolk onde, por sua vez, se obedece – de modo canino – aos desígnios definidos em Arlington, no Pentágono[1]. E, com a imagem cinzenta de um bibelot que dá pelo nome de Stoltenberg.

Voltando atrás, ao desmantelamento da URSS, com a Rússia deslocada para Leste, sobrava um buffer relativamente aos países da NATO, constituído pela Bielorrússia, pela Ucrânia e a pobre Moldávia. A primeira tem-se mantido na órbita política e económica da Rússia e a Moldávia é um campo de férias e de instalação de reformados russos em terras de clima mais ameno.

A Ucrânia, excepto durante um curto período no final da I Guerra Mundial, nunca constituiu uma unidade política; pese embora Kiev tivesse sido a sede dos rus (os nórdicos que transitavam entre o Báltico e Constantinopla) e de onde saiu o nome de Rússia. A Ucrânia tem a oeste uma população católica e rural, proveniente dos tempos do império Austro-Húngaro e do antigo estado polaco-lituano; e, a leste vive uma população de língua e raízes russas, como se vê pela capacidade de emancipação real da Ucrânia, de Lugansk e Donetsk, sob a proteção da Rússia.

A Ucrânia, ou melhor, os seus camponeses do Sul brilharam há uns cem anos na resistência autogestionária face aos reacionários “brancos” (os czaristas). E acabaram por ser traídos e exterminados por um patife da pior espécie – Trotsky; que, no entanto, ainda é venerado por grupos de patetas na Europa Ocidental.

Perante as manobras dos ocidentais a seguir à saída de Yanukovich (presidente próximo dos russos), com o alto patrocínio de grupos nazis (2014) – autoproclamados adoradores do nazi Banderas – no poder ficou o “rei do chocolate”, Poroschenko que está apontado por práticas pouco limpas; e, a que se seguiu o comediante Zelensky, actual fiel intérprete dos interesses ocidentais.

Perante esta situação, Putin recordou-se que a integração da Crimeia na Ucrânia foi uma decisão de Kruschev, ele próprio ucraniano, no seio de uma federação onde as afirmações nacionalistas não faziam sentido. E, sem grandes dificuldades, em 2014, a Rússia apoderou-se facilmente da Crimeia tal como das regiões de Lugansk e Donetsk, russófonas e industrializadas, com acesso ao mar de Azov; este mar, com saída para o mar Negro, pelo estreito de Kerch, isolou parte do litoral ucraniano e fez retornar à Rússia a possibilidade de tomar banho nas “águas quentes”, como se dizia no século XIX.

A Ucrânia poderia ter ficado como a Finlândia ou a Irlanda que não pertencem a alianças militares; mesmo que integradas na UE. Porém, o Tio Sam, beneficia da fragilidade – quando não da estupidez estratégica – das chefias europeias, onde recordaremos o conhecido Barroso, orientado pelo “presidente” Blair e, o ébrio Juncker; embora seja justo referir que em matéria de incapacidade política, os EUA, nos últimos vinte anos, também têm muito para mostrar – trastes como George W. Bush, Trump ou Biden.

O gasoduto do Báltico, depois de construído pela parceria russo-alemã encontra a hostilidade dos EUA que querem vender o seu gás à Europa, por via marítima, deixar vazio o Nord Stream 2 e, consequentemente retirar à Rússia as receitas com a venda do gás. A Ucrânia que tem cobrado boas receitas pela passagem do gás russo da Sibéria até aos países da UE teme os efeitos dessa perda de receitas; embora não tenha peso político para se contrapor ao jogo entre as grandes potências.

O grande jogo dos EUA consiste em manter a liderança estratégica sobre os países europeus, aproximar os seus meios de guerra da fronteira com a Rússia, incorporando na sua órbita, uma frágil e pobre Ucrânia; tal como fez, anos atrás com os países que haviam pertencido ao Pacto de Varsóvia.

Neste cenário de ameaça, os EUA aproveitam para vender mais armamento para a Europa comunitária, como aproveitam a indigência política da UE para aceitar mais umas quantas bases militares dos EUA (perdão… da NATO!), aos seus vassalos eslovacos ou polacos que procurarão assim, contrabalançar a sua dependência económica e política da Alemanha. A integração da Ucrânia na NATO corresponderia a um revés importante para a Rússia que reduziria o seu peso político perante uma pujante China, embora esta necessite dos corredores transiberianos para atrair a Ásia Central à sua estratégia de redução do transporte marítimo entre o mar da China e a Europa, mais demorado e onerado com o ónus da passagem pelo Suez.

O Suez está rodeado de potenciais conflitos, como na passada Guerra dos Seis Dias que fechou o canal entre 1967 e 1973. Hoje, o canal pode ser envolvido em vários conflitos que vão ocorrendo no Sudão, no Tigray etíope, na Eritreia e no Yemen; como preventivo, no estratégico Djibuti estão aquartelados militares norte-americanos, chineses, japoneses, italianos e alemães.

Assim, a China avançou com o seu projeto “Belt and Road Initiative” dominado por longas vias ferroviárias de ligação com a Europa; e onde europeus e norte-americanos têm remotas possibilidades de intervenção. Um feixe dessas vias sai da China, atravessa a Mongólia e entra em território russo perto de Irkutsk até entrar na Bielorrússia, de passagem até à fronteira polaca (9288 km). Outra das vias sai da China (Xinjiang) para o Kazaquistão, contorna a leste o Cáspio e chega a Teerão, passando à Turquia até entrar nos Balcãs (este último troço estará em construção) – cerca de 11000 km. Na Europa e, não estranhamente, estas duas linhas encontram-se na Alemanha de onde se diversificam para Sul (Madrid) e Oeste (Londres). Esta descrição visa relevar que a Ucrânia fica de fora destes traçados e que, no mundo das ferrovias estratégicas e de longo curso, a Ucrânia é um buraco negro!

O transporte marítimo de contentores da China ou Japão para a Europa consome 2 a 6 dias para a carga em Xangai, seguindo-se-lhe uma viagem que pode demorar 6 a 8 semanas. Por outro lado, uma viagem de caminho-de-ferro entre Hamburgo e Zhengzhou ou entre Antuérpia/Duisburg e Chongqing percorre uns 13000 km transportando 250 contentores numa viagem de 19 dias. Note-se que o transporte ferroviário facilita um serviço porta-a-porta para os contentores, à partida menos demorado do que a descarga de um navio.

Neste contexto, a doutrina geopolítica de Mackinder sobre o Heartland sobrepõe-se, na prática, às propostas de Mahan, Spykman e Brzezinski, defensores da criação de um cordão sanitário que à época (fim da II Guerra) visava o cerco e o isolamento da URSS.

[1] Poucos anos atrás, a lusa pátria enviou dois F-16 para o Báltico para conter uma invasão russa na Estónia, na Letónia e na Lituânia; que, obviamente não tinha qualquer pingo de realismo mas, cujos custos deverão ter onerado a bolsa dos contribuintes portugueses.


Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

3D – Deficits, dívida, desigualdades

(Vítor Lima in Blog Grazia Tanta, 02/10/2021)

1 – A hierarquização e o controlo dos seres humanos em capitalismo

A hierarquização dos seres humanos pode ser feita com base em elementos factuais, biológicos – por escalão etário, por estatura, por sexo – elementos que, dada a sua objetividade, pouco acrescentariam no capítulo da vida social, não fora a intrusão dos poderes políticos e económicos para o seu oportunista aproveitamento. A hierarquização mais danosa contudo, resulta precisamente da segmentação da posse do espaço, dos bens de capital, dos canais de distribuição, das desigualdades de direitos e rendimentos, inerentes às sociedades marcadas por estruturas rígidas de poder político e económico.

Essas estruturas enquadram os seres humanos e resultam de uma estratificação hierarquizada com base em elementos construídos, precisamente para estabelecer e reproduzir relações de poder, desiguais e destrutivas. Essas desigualdades reconstroem a todo o momento relações de poder e de subordinação, hoje inseridas no modelo capitalista, por herança histórica ou, como inerências, produtos daquele sistema; ou ainda, como estruturas essenciais à continuidade do modelo.

Com o capitalismo, o Estado assume-se como o grande regulador, zelador mais próximo ou mais distanciado, por vezes dominado por uma personalidade, em regra detestável; e também como pronto-socorro para situações de particular melindre para o sistema capitalista. Foi isso que se viu na crise financeira de 2008, com o desemprego, as privatizações, a acumulação de dívida, a rapina dos rendimentos do trabalho, a tomada do deficit como o elemento central da vida coletiva. É isso que se vem observando com a gestão do covid, com o Estado a aumentar o seu autoritarismo, apresentando-se como um mecenas, adiando o pagamento dos custos para mais tarde, quando acabarem as moratórias dos bancos às pequenas empresas, muitas das quais forçosamente sucumbirão; o mesmo sucedendo às famílias com dificuldades no pagamento das prestações relativas à habitação.

Curiosamente, com a crise do covid, o desemprego, os confinamentos, as escolas fechadas e, os pais encerrados em casa beneficiando das alegrias (?) do teletrabalho; apesar das bolhas turísticas encolhidas, os deficits e a dívida pública desapareceram do cenário mediático. Entrou-se na era da máscara, com sorrisos ocultos ou denunciados apenas por um leve enrugar das pálpebras; uma era de polícias em exposição frequente da sua autoridade, saídos das esquadras e dos jogos de computador onde passavam muitas horas de “serviço”.

Como se observa atualmente na gestão do vírus, os Estados não recuaram quanto ao confinamento das populações, à obrigatoriedade das vacinas, a intrusões policiais excessivas, às limitações na mobilidade, perante uma moléstia temporária que matou apenas 2.1% dos atingidos, isto é, 0.065% da Humanidade; ou ainda, cuja mortalidade (3.2 M/ano), não se compara aos 10 M de pessoas, que morrem, anualmente de cancro ou, das vítimas de doença cardiovascular (19 M) todos os anos. O jornal Expresso publicou, tempos atrás estes cálculos que, mesmo no caso dos mais velhos (> 80 anos) revelou uma taxa de sobrevivência ao contágio de 83.8%; e, que poderia ter sido superior se as condições nos lares de idosos em Portugal tivessem sido, alguma vez, objeto de uma adequada (e não corrupta) fiscalização e objeto de lucro fácil.

2 – Os deficits e a dívida banalizaram-se

Em geral, o dinheiro cria-se do nada. Os especuladores precisam de garantir a próxima transação que pode vir a ser efetuada, segundos depois da anterior. A dívida global (famílias, governos, empresas, finança) corresponde a $ 252,6*10^12); isto é, 322% do PIB global; e isso, para além das cadeias de valor correspondentes aos voláteis e obscuros “produtos derivados” ($ 558 a 1000 *10^12).

Os deficits e a dívida deixaram de ser problema, ao contrário do acontecido num recente tempo dos cortes salariais, de austeridade, de desemprego massivo, de dívida pública insustentável, da ladainha do “vivemos acima das nossas posses”; e que mereceu, claro, a intervenção saneadora e disciplinadora da troika, anos atrás. Em julho recente a dívida pública portuguesa reduziu-se em €  2900 M, o desemprego baixou para 6.4%, num conjunto de boas notícias reveladas pelo INE. Nesta narrativa de boas notícias não foi incluída a continuidade da taxa máxima (23%) de IVA em algo supérfluo como a energia elétrica nas habitações; uma prenda deixada pela troika há alguns anos.

O endividamento é menosprezado porque foi finalmente assumido que o dinheiro se tornou algo tão superabundante como os grãos de areia da praia e brota, em avalancha, dos servidores dos bancos centrais, para a especulação financeira ou, sob a designação imbecil e militarista de “bazuca”, emanada da amálgama política constituída na Europa, cujo nome oficial é de PRR – Plano de Recuperação e Resiliência.

O PRR – Plano de Recuperação e Resiliência, no caso português, envolve €16600 M dos quais € 14000 a fundo perdido; constitui uma parcela do total de € 750000 contemplados no designado plano “Next Generation EU” – destinado a todos os estados-membros e, obtidos junto do BNP Paribas, DZ Bank, HSBC, IMI-Intesa Sanpaolo, Morgan Stanley, Danske Bank e Santander, em operações que decorrerão até 2026. Na emissão do empréstimo a taxa de juro situou-se ligeiramente acima dos 0% e a procura foi sete vezes superior à procura!

Os subscritores do empréstimo não se importam minimamente com uma taxa de juro quase nula ou mesmo negativa. Os títulos emitidos pelo BCE – uma entidade pouco susceptível de falência – serão rapidamente envolvidos nas operações do mercado de capitais, transacionados em sucessivas operações de muito curto prazo, fornecendo pequenas margens que, sucedendo-se através do tempo culminam, no final de um ano, suponhamos, numa saborosa valorização. Basta, para o efeito, acompanhar o “mercado” e a sua volatilidade com poderosos meios informáticos e agir instantaneamente, no sentido da compra ou da venda. O BCE, entretanto, irá mantendo a taxa de juro original, próxima de zero, facilitando o financiamento dos países da zona euro. A referência às pirâmides de Ponzi caiu no esquecimento no pos-troika; porém, o infinito parece estar ao alcance de qualquer um, num processo iniciado nos anos 70 quando os dólares em circulação deixaram de corresponder ao ouro depositado em Fort Knox. O doping só é penalizado no desporto… e, só às vezes.

Mais concretamente, o BCE emite títulos de dívida no valor de € 2,018 biliões e estes são comprados pelo “mercado”, isto é pelos especuladores; o dinheiro irá transitar para os estados-membros que o aplicarão em investimentos pesados, nomeadamente infraestruturas de transporte e, por uns tantos “empresários” nas boas graças do governamental PS, no caso português.

Por outro lado, os especuladores, não estando nada interessados em manter aqueles títulos, com taxas de juro irrisórias ou mesmo negativas, irão entregá-los como colaterais (garantias) nas suas transações e compromissos, uma vez que emitidos por um banco central, como o BCE, com insignificante risco de falência.

Essa regulação, normalmente procura sanar as crises do capital que, cada vez mais globalizado, deixa para segundo plano os estados-nação de menor gabarito económico, político ou demográfico, para se concentrar na gestão coletiva de áreas político-económicas, como a UE, a NATO, a ASEAN, a OMS, a ONU, a OMC, a OCX, etc. Essa integração, menorizando o papel das fronteiras gera grande margem de atuação para as grandes empresas globais ou regionais, como para o sistema financeiro, desmaterializado e agente do crescimento incontrolado dos “activos financeiros”.

O Estado, no âmbito do capitalismo, cresce quanto à sua dimensão, medida em termos dos recursos gerados pela sociedade; pela amplitude e complexidade do poder legislativo, cujos textos são, muitas vezes, determinados pelos poderes económicos, junto dos partidos dominantes e/ou de advogados mafiosos; pelo caráter impositivo, autoritário e rapace face à esmagadora maioria da população; pela sua interligação a outros Estados e conluios comuns contra as populações; pela acumulação de meios repressivos de que se munem para a imposição à população, mesmo quando se dizem democráticos, organizadores de eleições “livres”, etc.

3 – O aprofundamento das desigualdades na Europa

A crise das dívidas que ocorreu entre 2008/2015 conduziu a uma reestruturação das instituições financeiras, em âmbitos nacionais, à redução do poder de compra das populações e do peso dos rendimentos do trabalho, além de mudanças na titularidade de muitas e relevantes empresas, envolvendo ainda, como contrapartida, uma elevação da carga fiscal para fazer face ao serviço de dívida.

As chamadas esquerdas mostraram toda a sua incapacidade, a sua dedicada atenção e apoio à redução dos problemas dos capitalistas, dando como inevitável um sacrifício da população perante o aumento da carga fiscal sobre o consumo de bens essenciais e sobre o trabalho, com a vulgarização do trabalho precário, aceitando onerar as classes trabalhadoras com um ónus de insegurança que teve como efeito uma evidente decadência do papel dos sindicatos, curiosamente ligados, por tradição, aos partidos de “esquerda”.

A chegada da crise do covid veio também a onerar a vida do povo mas, desta vez, a UE e o BCE, entenderam resolver a crise, através das contas públicas, sem modificações gravosas dos parâmetros fiscais, através da utilização da já referida bazuca; desta vez, ao contrário do acontecido em 2008/15, quando a subida dos deficits públicos e da dívida era tomada como algo de insuportável para a lógica neoliberal de então. Desta vez, por consequência, e ao contrário do tempo da crise de 2011/15, não surgiram siglas de grupos mais ou menos provocatórios (Geração à Rasca, por exemplo) nem disfarces de movimentos populares orquestrados pela “esquerda” portuguesa, como o “Que Se Lixe a Troika” que se finou rapidamente sem que, em caso algum, tivesse apresentado algo que se pudesse aproximar de um projeto alternativo ao gravoso statu quo de então. A crise do covid foi aceite como fatalidade do destino, com a resignação própria de uma população de perfil católico, deixando Costa e o seu gang a gerir a situação, sem incómodos políticos, sindicais ou populares, assistindo, pacientemente, aos desabafos inócuos da “esquerda”. Daí que, recentemente, tenhamos referido Portugal, por Cabo Cadaveral.

Tomámos para alguns países da UE uma avaliação da variação anual, para os últimos dez anos, do rendimento de um agregado familiar médio e ainda para alguns elementos, claramente geridos pelos governos – despesa, receita e dívida pública.

Comecemos por referir as enormes diferenças entre os rendimentos médios por agregado familiar, em termos numéricos para alguns países selecionados. Daí se podem aferir ideias mais claras sobre as diferenças entre si e os reais níveis de vida no seio da UE, um espaço económico e político gerador das profundas desigualdades tão caras ao capitalismo. É perfeitamente discernível o impacto da crise financeira sobre os países forçados a um “downsizing” devido a viverem “acima das suas possibilidades”.

Em regra, como mais abaixo se observará, os rendimentos familiares têm uma evolução anual média mais desfavorável do que a observada para a despesa pública, com a excepção de Portugal. Neste campo, é bem visível o torniquete aplicado aos gregos para os quais a redução dos gastos públicos é superada por uma quebra muito elevada dos rendimentos familiares durante o período. É evidente a diferença, na evolução dos rendimentos familiares, entre o conjunto dos países submetidos a intervenções mais ou menos formais, no sentido de um aperto sobre o bem-estar das populações – Espanha, Grécia, Itália e Portugal – e os restantes, onde o gasto público cresce acima dos rendimentos familiares (ou decresce menos no caso grego).

Quanto à despesa pública é evidente a diferença entre os países a norte dos Pirinéus e os países sob aperto financeiro, a sul, entre os quais Grécia e Portugal que apresentam uma quebra dos gastos públicos em 2010/19. Essa diferença vislumbra-se também quanto às receitas públicas que apresentam uma quebra no caso grego, sendo evidente alguma diferenciação entre os países a norte e os restantes, mais a sul.

Finalmente, quanto à dívida pública observam-se várias situações. A Alemanha reduz a sua dívida ainda que marginalmente. França e Portugal aumentam em mais de 4% anuais os seus endividamentos mas claramente superados pela Espanha cuja dívida cresce 9.2% no período. Bélgica e Itália apresentam um crescimento modesto da dívida enquanto a Grécia mostra uma variação quase nula, na sequência do violentíssimo aperto financeiro orquestrado pela troika.


Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.