Ursula von Der Leyen pensa mesmo em democracia?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 22/06/2022)

Fui ler a entrevista coletiva que a presidente da Comissão Europeia deu a vários órgãos de comunicação social.

Logo na terceira frase, reproduzida pelo jornal Público, a senhora dispara esta pérola: “Tem de haver apoio militar (à Ucrânia) e estamos a fazer a nossa parte com cerca de 2000 milhões de euros canalizados pelo Mecanismo de Apoio à Paz”.

A análise a esta frase de Ursula von der Leyen suscita-me algumas questões e permite-me retirar várias informações e ilações curiosas:

1 – A União Europeia tem um sistema de apoio às guerras que, hipocritamente, se chama de “apoio à paz”.
Que belo conceito de paz tem Ursula von Der Leyen!

2 – A União Europeia, segundo esta declaração, já gastou com a Ucrânia dois mil milhões de euros em armas, a que se acrescentam as quantias que cada país europeu gasta por iniciativa própria… e os Estados Unidos, e a Inglaterra, e sei lá que mais!

3 – O ano passado o texto da Decisão do Conselho Europeu 2021/509, de 22 de março de 2021, dizia que este “Mecanismo de Apoio à Paz” só podia gastar 540 milhões de euros durante 2022. O valor apontado por Ursula von der Leyen é 3,7 vezes superior e resulta de uma sequência de decisões do Conselho Europeu tomadas entre 28 de fevereiro e 23 de maio, após a invasão russa.

4 – Para além da compra de armas para a Ucrânia, este “Mecanismo de Apoio à Paz” anda a financiar operações nos Balcãs, no Corno de África, na Somália, no Mali, na República Centro-Africana, na Líbia e em Moçambique. Em algumas destas operações há militares portugueses envolvidos.

5 – Na Líbia, como denunciou recentemente uma reportagem da revista New Yorker, para além de outras tarefas, este “Mecanismo de Apoio à Paz” serve também para impedir indiretamente a entrada de imigrantes na Europa, que acabam por ser levados para prisões em condições miseráveis na Líbia, sujeitos ao arbítrio de guardas violentos, corruptos e de traficantes de escravos.
Que belo conceito de direitos humanos tem Ursula von Der Leyen!

6 – O demérito da operação na Líbia (onde ocorre, na realidade, um crime contra a humanidade, ao nível dos crimes de guerra que estão a ser perpetrados na Ucrânia e do qual a União Europeia é, pelo menos, cúmplice por omissão) não invalida o eventual mérito das outras missões… Vou ser caridoso e admitir que sim.

7 – Com este dinheiro para armar a Ucrânia, retirado ao “Mecanismo para a Paz”, há uma questão para a qual não encontrei resposta: se esta verba é diminuída ao valor total deste fundo (até 2027 podia gastar-se, em fatias repartidas ano a ano, um total de 5,7 mil milhões de euros), não vai faltar dinheiro para as outras missões?

8 – Em alternativa à pergunta anterior, surge-me esta: se os dois mil milhões são adicionados ao dinheiro que já existia no fundo, de onde é que vem essa nova quantia?
Que bela informação aos cidadãos europeus presta Ursula von der Leyen!

9 – Já agora, gostaria também de saber que parte dos meus impostos está a ser usado para comprar armas para a guerra na Ucrânia e, como o dinheiro é finito, em que áreas os meus impostos deixaram de ser usados para a Ucrânia poder ter estas armas?
Que belo conceito de transparência política tem Ursula von Der Leyen!

10 – Admitindo que é boa ideia dar armas ao governo de Zelensky (quem quiser discutir isto, hoje em dia, é logo cuspido e estou farto de ter de lavar a cara), gostava de saber, pelo menos, o seguinte: a quem se compram essas armas? Quem as fabrica? Que tipo de armas são? São armas novas ou em segunda mão? Há algum controlo para impedir a sua utilização contra civis? A informação que há sobre isto está dispersa e é contraditória.
Que belos negócios estão a passar-se sob o olhar de Ursula von der Leyen!

Mais à frente, nessa entrevista, a presidente da Comissão Europeia tem outra saída, brilhante, sobre os critérios para admitir a Ucrânia na União: o país, diz ela, “tem uma democracia parlamentar funcional”.

Sim, realmente a Ucrânia tem um Parlamento que talvez funcione, pelo menos vão lá umas pessoas de vez em quando. Mas não tem lá, por exemplo, o nome do partido “Plataforma da Oposição – Pela Vida”, que tinha eleito 47 deputados e acabou de ser proibido. É um entre onze, todos acusados de serem pró-russos, o que observadores independentes, em relação a grande parte deles, contestam.

Por acaso os partidos proibidos são é todos partidos eurocéticos, o que deve deixar Von der Leyen a sorrir com tão bom funcionamento institucional na Ucrânia. Tão bom, tão bom que, aliás, já em 2014, antes desta guerra, proibira todos os partidos comunistas!…

Que belo conceito de democracia tem Ursula von der Leyen!

Jornalista


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Há alguma novidade nos hospitais?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 15/06/2022)

Se compreendi bem todas as notícias que li sobre a degradação do Serviço Nacional de Saúde, uma onda que desta vez começou por causa do colapso de algumas urgências de obstetrícia, a conclusão a tirar é que… não há notícia.

Não é notícia a falta de médicos e de enfermeiros, cada vez mais grave, no Serviço Nacional de Saúde.

Quem não se lembra da promessa de António Costa, em 2016, de garantir um médico de família para todos os portugueses? Essa promessa pressuponha que faltavam médicos no sistema, o que era verdade, e que Costa ia resolver o problema, o que seria mentira, pois ele, entretanto, agravou-se.

Não é notícia a fuga de profissionais de saúde do serviço público, seja para o estrangeiro (quando isso é possível), seja para o setor privado, que se expande cada vez mais.

Ainda agora, só para exemplificar, deram mais uma medalha ao enfermeiro português, um dos que decidira emigrar, que tratou a covid-19 de Boris Johnson.

Não é notícia a evidente suborçamentação do Ministério da Saúde, que o impede de resolver os problemas de vez. Uma das razões da queda da “geringonça” foi, precisamente, essa.

Não é notícia a crónica falta de dinheiro para o serviço público de Saúde, é um assunto com décadas, foi uma política comum a vários governos que, aliás, subsidiaram, simultaneamente, indiretamente, o crescimento do setor privado de várias maneiras, a começar pelas Parcerias-Público-Privadas e a passar por frequentes benefícios fiscais, para indivíduos e para empresas, dados a quem subscrevesse seguros de saúde, sustentando assim um início de crescimento, que era difícil, para os hospitais e as clínicas privadas,.

Não é notícia aparecer todos os anos o conjunto habitual de cromos político-corporativos a defender que a solução não está em colocar mais dinheiro no Serviço Nacional de Saúde, em pagar decentemente a médicos e enfermeiros para eles não se irem embora, em fixar mais profissionais no quadro.

Não, para esses profetas das consultas universais a 100 euros a solução é dar dinheiro às empresas privadas de saúde para elas fazerem o mesmo serviço.

De resto, a prática já é frequente, embora na sombra: vários sindicatos estão há anos a denunciar o recurso crescente a empresas de prestação de serviços, através das quais há médicos a receber mais por hora do que os clínicos dos quadros do Estado!

Não é notícia a incompetência, desleixo ou intenção de governar mal o Serviço Nacional de Saúde, que dá cada vez mais argumentos a quem defende a sua entrega para os privados – chegámos ao ponto de, a partir de 2006, mandarmos bebés portugueses, de mães que vivem na fronteira alentejana, nascerem em território estrangeiro, a Badajoz!

Não é notícia a acusação de “preconceito ideológico” feita sobre todos os que não concordam com a doação do Serviço Nacional de Saúde às empresas privadas. O papão de “o comunismo é a culpa disto tudo” é usado em Portugal há pelo menos 101 anos.

O problema não é ideológico, a não ser que achemos que, no que diz respeito à saúde, todos os portugueses não devem ter o mesmo direito de acesso a serviços de qualidade equivalente e que, também aí, o mundo tenha de se dividir entre ricos e pobres.

O problema é que a partir do momento em que se monte um sistema onde, generalizadamente, o Estado passa a pagar a privados ou ao setor social o fornecimento de um serviço de saúde universal e tendencialmente gratuito, perde uma estrutura que depois não será capaz de remontar. Se, ao fim de uns anos, com o SNS estatal praticamente desmontado, com a legislação entretanto produzida a defender, inevitavelmente, os interesses dessas empresas, elas disserem ao governo, “o contrato que temos não presta, queremos cobrar mais ou vamos embora”, o governo não tem outro remédio que não seja aceitar a fatura, seja qual for o preço a pagar, ou então deixar os portugueses mais pobres ao Deus dará.

Não tenhamos ilusões: veja-se o que se passa por esse mundo fora (Portugal, o que é incrível, ainda é dos melhorzinhos em Serviços de Saúde) ou o escândalo global dos preços dos medicamentos, para se perceber o espírito que impera nestes negócios da doença.

Se uma notícia pressupõe a existência de uma novidade, de uma informação nova que não conhecíamos, então a minha conclusão inicial estava certa e este debate é um “dejá vu“, é “old news“.

Respondo, por isso, para se perceber o que pode vir aí se não salvarmos o verdadeiro Serviço Nacional de Saúde, com o título de outra velha notícia, de 28 de outubro de 2020: Hospitais privados sem disponibilidade para receber doentes covid-19 em Lisboa.

Jornalista


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E se Zelensky nos pedir para entrarmos na guerra à Rússia?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 13/04/2022)

Quando o presidente da Ucrânia falar no Parlamento português, como está previsto acontecer daqui a uns dias, não vai pedir apenas um reforço do fornecimento de armas ao seu país, nem unicamente um aumento de sanções à Rússia.

Volodymyr Zelensky vai pedir aos deputados que levem Portugal a apoiar uma intervenção direta da NATO contra a Rússia e que essas tropas da Aliança Atlântica ajudem os ucranianos, no terreno, a combater as tropas russas. Ou seja, vai pedir que Portugal, membro da NATO, entre em guerra com a Rússia.

É isto que ele tem dito em inúmeras intervenções públicas, como aconteceu no Parlamento Europeu, logo no início da guerra, e em outros parlamentos nacionais. E é perfeitamente natural, na aflição de defender o seu país do ataque russo, que entenda que deva confrontar os políticos do ocidente com essa exigência.

Depois de fazer esse apelo, no final do seu discurso, o que irá certamente acontecer é que quase toda a sala de deputados portugueses se irá levantar em ovação, aplaudindo de pé as palavras de Zelensky – é a reação mais natural, dada a carga emocional que a qualidade do seu discurso transmite e a indignação que a situação humanitária na Ucrânia provoca, impulsionando todos nós para manifestações de solidariedade incondicional.

Nesse momento, no momento em que aplaudirem, vibrantes, o discurso de Zelensky, que estarão os deputados portugueses a aplaudir? Estarão a aplaudir, também, a parte do discurso do líder ucraniano que empurra Portugal, via NATO, a entrar em guerra com a Rússia.

Estarão a aplaudir, também, entusiasmados, o apoio à entrada no conflito dos seguintes países, todos membros da NATO: Albânia, Alemanha, Bélgica, Bulgária, Canadá, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estados Unidos, Estónia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Macedónia do Norte, Montenegro, Noruega, Países Baixos, Polónia, Reino Unido, República Checa, Roménia e Turquia.

Com a Ucrânia e a Rússia isso significaria que os deputados portugueses estarão também a aplaudir a possibilidade do conflito escalar, rapidamente, para uma luta entre 32 países o que é, literalmente, uma III Guerra Mundial – e o mais provável é que muitos outros países decidam ir atrás desse movimento, amplificando ainda mais a mortandade. E, de repente, em reação, a Rússia até pode conseguir apoios que agora não tem…

Estarão, ainda, a aplaudir uma escalada no conflito tão elevada que correrá o risco de levar os russos a utilizar armas nucleares – e Portugal passaria a ser um dos possíveis alvos.

Poder-se-á dizer que não é assim, que o aplauso dos deputados portugueses não será interpretado como um apoio a essa parte do discurso de Zelensky, restringindo-se a uma manifestação de simpatia para com a causa ucraniana, ignorando as propostas bélicas do presidente desse povo.

Isso tem outro problema, menos grave, mas pouco digno de um Parlamento democrático: transforma um assunto tão sério como a guerra na Ucrânia, com 4,5 milhões de refugiados e milhares de mortos, num assunto tratado com ligeireza e superficialidade pelos deputados.

Se assim fosse, os nossos parlamentares fariam a triste figura de se mostrarem prontos para aparecerem na fotografia a aplaudir o líder ucraniano, prontos para dizerem palavras bonitas sobre a heroicidade do povo ucraniano, prontos para acusarem Putin dos mais terríveis atos, prontos para tirarem dividendos políticos locais pela utilização da imagem e do discurso do globalizado Zelensky.

Porém, simultaneamente, os deputados portugueses evidenciariam indisponibilidade para assumirem as consequências lógicas e coerentes dessa atitude, transformando toda essa operação mediática numa hipócrita feira de vaidades.

Pode ainda dizer-se que o aplauso dos deputados portugueses ao pedido que Volodymyr Zelensky lhes fará de intervenção direta da NATO nos combates contra os russos não tem valor algum, que uma decisão dessas os ultrapassa, estará sempre nas mãos do Departamento de Estado norte-americano, nas dos governos do Reino Unido, Alemanha e França e que Portugal limitar-se-á a seguir as ordens dos poderosos do ocidente. Bem, nesse caso fico mais descansado, porque acredito que por ali, apesar de tudo, não se pretende a III Guerra Mundial – mas os deputados portugueses cairão, lamentavelmente, no ridículo e o povo ucraniano pouco ou nada ganhará com o espetáculo vazio que, em nome dele, será montado em São Bento.


Jornalista


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