Entre o “respeito” e o “dar-se ao respeito”

(Pacheco Pereira, in Público, 21/01/2023)

Pacheco Pereira

Muitos professores já foram “educados” na mesma ecologia que torna os seus alunos impossíveis de educar. O problema complementar é que muitos pais são exactamente iguais.


A palavra “respeito” tem tido um papel relevante no protesto dos professores, representando um pedido e um protesto que está muito para além das reivindicações salariais e de carreira. É provável que seja essa componente existencial a mais significativa na mobilização destes últimos meses que, em bom rigor, parece ter sido uma surpresa para todos, ministério e mesmo os professores e, certamente, para o sindicalismo tradicionalmente dominante da Fenprof.

Quando me perguntavam a profissão, mesmo quando era deputado, sempre respondi que era professor. Na verdade, fui professor de todos os graus de ensino menos o básico, e conheci muito daquilo que era a instabilidade da vida de professor “provisório”. Dei aulas em Boticas, Espinho, Coimbra, Vila Nova de Gaia, Porto e Lisboa. Em Espinho dei aulas na Escola Preparatória Sá Couto conhecida como “o Triciclo”, porque estava sediada em três edifícios em locais diferentes e era possível ter uma aula às 9h num, às 10h no outro, e às 11h de novo no primeiro, ou seja, não havia intervalos.

Para se chegar a Boticas, quando lá estive, a viagem a partir do Porto demorava cerca de cinco horas e qualquer trajecto era péssimo, difícil e, nalgumas alturas do ano, perigoso, para se atravessar as serras, o Marão, o Alvão ou o Barroso a seguir às barragens. Tenho as melhores recordações de Boticas, mas compreendia muito bem o mal-estar dos meus colegas que não viviam em Chaves, uma das quais vinha de Coimbra e que ansiava por se ir embora logo que podia. Mas à distância, tendo em conta o que é dar aulas hoje, tudo isto era um paraíso.

Estamos obviamente a falar da escola pública, aquela que não pode escolher os seus alunos. Na altura, há poucas décadas, a escola competia com a família na socialização dos alunos e, nalgumas áreas mais pobres, competia com a rua. A droga ainda estava longe de ser o problema que é hoje, e não havia a epidemia do “défice de atenção”, nem dos factores que o explicam. É certo que nos subúrbios de Lisboa e Porto os estudos já revelavam o enfraquecimento da socialização familiar, com crianças de idade pré-escolar a já estarem muito pouco tempo com os pais e, quando estavam com eles, estavam a ver televisão, que acabava por ter um papel crescente na sua socialização.

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Havia nas escolas o que sempre houve, uma considerável violência e, também como sempre, não era a mesma coisa viver numa casa com livros, com espaço e razoável conforto, ou num bairro degradado, pobres no meio de pobres. A educação reproduzia as desigualdades sociais, embora fosse ela própria um dos raros mecanismos de elevador social num país muito desigual. Tudo isto era tão antigo e tão denso como era o nosso atraso nacional, e, se a democracia, o fim da guerra e a entrada para a Europa mitigaram esse fundo de atraso, estão longe de o diminuir de forma significativa.

Sobre este fundo veio a “tempestade perfeita” que ameaça seriamente o papel da escola, incapaz de competir com uma ecologia social cada vez mais hostil, que põe em causa a capacidade da escola de ser um factor eficaz de socialização, já para não falar de aprendizagem. A droga, as novas formas de violência a que chamamos “bullying”, a destruição da capacidade de atenção pela rapidez da imagem dos jogos desde a infância, a deseducação do valor do tempo lento, do silêncio, do saber, da leitura, a ignorância agressiva das redes sociais, a substituição da privacidade pela exibição fácil do corpo, quer como chantagem, quer como vingança, quer como vaidade e sedução fácil, a presentificação absoluta no mundo das mensagens, do Instagram, do Facebook, do Tik-Tok, a utilização de devices como os telemóveis como instrumentos de controlo, a construção de uma sexualidade perversa ou imatura, entre a pornografia e a moda das identidades da moda, a obsessão pela explicação psicologista, a completa inadequação de programas de há muito oscilando entre o facilitismo “para não assustar os meninos”, ou um saber abstracto inadequado à realidade actual, tudo isto torna as escolas, principalmente no secundário, um dos sítios de pior viver nas sociedades contemporâneas. Ninguém sabe disso melhor do que os professores.

Por isso, têm razão em pedir “respeito”, se o sentido desse pedido implicar a enorme dificuldade que hoje é ser professor e o reconhecimento que a sociedade lhes deve, permitindo-lhes melhores condições materiais, menos burocracia, estabilidade e uma carreira com regras.

Mas para se ter respeito é preciso “dar-se ao respeito” e muitos professores já foram “educados” na mesma ecologia que torna os seus alunos impossíveis de educar. Já estão demasiado dentro da mesma “tempestade perfeita”, lêem pouco, vivem dependurados nas mesmas redes sociais, com os mesmos maus hábitos de desleixo pela verdade, de facilitismo, de exibição, de opiniões ligeiras para não lhes chamar outras coisas, de superficialidade e por aí adiante.

O problema complementar é que muitos pais são exactamente iguais, ou seja, há muito poucos factores qualitativos a “puxar para cima”, mesmo que fosse pouco, o que já seria uma enorme vantagem.

Este é o retrato de uma crise profunda. Infelizmente, mesmo que este retrato incomode muita gente, pela generalizada cumplicidade, é pura verdade.

O autor é colunista do PÚBLICO


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Deviam ter-se habituado

(Pacheco Pereira, in Público, 31/12/2022)

Pacheco Pereira

Há algum exagero e uma ecologia venenosa de crítica à governação que vem mais da nova comunicação social da direita do que da oposição, mas sobra, mesmo assim, uma série de erros consideráveis.


O pior que se pode dizer de um governo no Portugal democrático é que é parecido com o de Santana Lopes. Este paralelo é excessivo, mas o próprio facto de ter sido feito revela até que ponto o actual Governo do PS presidido por António Costa atingiu um grau de desagregação nestes dias que permite a infâmia da comparação. Sejamos justos, há algum exagero, e uma ecologia venenosa de crítica à governação, sem paralelo nas últimas décadas, que vem mais da nova comunicação social da direita do que dos partidos da oposição que vão a reboque, mas, pesando tudo, sobra mesmo assim uma série de erros e asneiras consideráveis, e que não são conjunturais.

É esse aspecto estrutural que me interessa, porque ele não é específico do PS, nem de António Costa, mas sim do estado da política em Portugal – se fosse outro partido a governar em tempo contínuo há quase uma década, o mesmo tipo de desagregação aconteceria. Ou talvez não, porque a ecologia política à direita e à esquerda não é a mesma.

O pessoal dos partidos é hoje muito semelhante, e portanto existe uma parecença profunda no tipo de trapalhadas que o currículo desse pessoal origina, mas o envolvimento do poder político não é o mesmo à esquerda e à direita. Os problemas de nepotismo, carreirismo, amiguismo, separação do sucesso político dentro dos partidos do prestígio social e profissional, o tráfico de influências, a pequena corrupção são idênticos no PS e no PSD, mas quando se sobe no patamar dos interesses, as dependências dos partidos não são iguais.

O PS será sempre o partido de serviço, mais usado do que parte, habitando o downstairs, e o PSD era até há pouco tempo parte do upstairs, mas está a deixar de o ser. O PS era consentido no mundo dos altos interesses –​ Sócrates foi um bom exemplo –,​ o PSD tinha uma agressividade que o fazia aceitável e temido, mas esse mundo também já acabou. Os interesses continuam a ser os mesmos, só que o modus operandi evoluiu, após a queda dos Espíritos Santos.

A causa não é existir uma maioria absoluta – o que se passa hoje não tem qualquer comparação, por exemplo, com a maioria absoluta de Cavaco Silva. É um problema de 2022, que já começava a existir nos anos 90 do século passado, mas não tinha ainda esta dimensão. Querem ver uma demonstração do que estou a dizer? Vejam a composição dos grupos parlamentares e por extensão dos governos.

Repare-se como nenhum dos “casos” importantes ou triviais –​ porque do ponto de vista comunicacional essa distinção não é feita – que afectaram o Governo do PS atinge um patamar inequívoco da corrupção. São todos do mesmo tipo: incompatibilidades entre a governação e actividades de familiares, atrasos (dentro da lei) no pôr em ordem o património antes de se assumirem os cargos, escolhas por amiguismo ou partidarite, decisões levianas para o erário público também por amiguismo ou incompetência, decisões dúbias quanto aos interesses patrimoniais, muitas vezes conformes a pareceres judiciais, mas consideradas hoje inaceitáveis.

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Como, com excepção do caso muito mais mediático do que real de Pedro Nuno Santos, a maioria dos atingidos são completos desconhecidos fora dos meios socialistas, e sem carreira fora da política ou da nomeação política, é mais do que evidente que o escrutínio que devia ter sido feito quando entraram para o Governo não o foi. Os media encontraram com facilidade razões para os porem em causa, conduzirem uma campanha de alcateia, nuns casos com razão, noutros sem razão nenhuma, mas o efeito de desgaste é o mesmo. O Governo, cujos dinheiros mais mal gastos são em especialistas de comunicação social, fala tarde e mal, e acaba por estar na defesa, encurralado, decidindo igualmente tarde e mal.

Quando refiro que há um problema estrutural na governação, como no Parlamento, esse problema tem muito que ver com o modo como os partidos na nossa democracia perderam uma relação com a sociedade que não passe pelo exercício do poder. Salvo raríssimas excepções, fecharam-se ao reconhecimento e prestígio social dos seus membros e ainda menos do seu pessoal político dirigente, mostram-se incapazes de recrutar fora de si mesmos e criaram uma selva de incompatibilidades, de condições de remuneração, inaceitáveis para quem tem conhecimentos e situação profissional. O caminho para a exclusividade política é um erro da nossa democracia, bom para o carreirismo juvenil das jotas, mas mau para a qualidade da governação.

Mas tem outro efeito perverso.

Uma das consequências deste desligamento da sociedade é que, quando se recruta um tecnocrata, este tende a ser tão politicamente ignorante e incapaz que, com a sua multiplicidade de cursos de Gestão e cargos com nome em inglês, não percebe que não pode ser governante depois de ter recebido uma indemnização obscena de uma empresa suportada pelo erário público como a TAP. E os que precisam de tecnocratas disponíveis e controláveis como de pão para a boca, porque aí o pessoal partidário é inútil, e que certamente sabiam que a indemnização era tóxica, ainda não perceberam que hoje a ecologia política é ainda mais tóxica, por boas e más razões, e facilitaram.

Deviam ter-se habituado ao mundo em que vivem e não se habituaram.

O autor é colunista do PÚBLICO


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Mais uma vez a “peste grisalha” – uma “justiça” que é uma injustiça

(Pacheco Pereira, in Público, 12/11/2022)

Pacheco Pereira

Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.


Em 2013, num artigo de jornal, um deputado do PSD escreveu: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.” A frase suscitou uma furiosa discussão, chegou ao debate parlamentar e foi objecto de processos judiciais. Um reformado que reagiu com veemência à sua classificação como pestífero, e foi por isso processado pelo deputado, ganhou no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e teve direito a uma indemnização. Numa das colunas de verificação de factos confirmou-se a veracidade da frase e do seu autor, “mas” considerou-se uma atenuante que a expressão “peste grisalha” era usada em estudos académicos e não era de sua autoria.

Na verdade, no caso português, toda a frase é sinistra, porque a escolha de palavras densas como “pátria” e “contaminar” não iludem sobre o sentido pejorativo que se pretendia dar à “peste grisalha”. O contexto também não engana: estamos em plena ofensiva do Governo Passos-Portas-troika contra os direitos dos pensionistas e reformados e é a eles que se dirige o amável epíteto de “peste”. Essa ofensiva só não foi mais longe porque o Tribunal Constitucional a impediu.

O contexto da época ainda se torna mais esclarecedor, quando a JSD começou a falar de uma coisa a que chamava “justiça geracional”, considerando que os mais velhos, com as suas reformas e pensões, “roubavam” os mais novos que as tinham de pagar sem ter a garantia de vir a ter idêntico tratamento no futuro. O discurso “geracional”, mais uma variante dos discursos antidemocráticos que circulam nos dias de hoje, estruturalmente semelhante aos discursos “identitários”, era à época uma forma de legitimar a ofensiva contra a “peste”. O que é grave é que ele aparece de novo no actual projecto constitucional do PSD.

O que sabemos sobre esse projecto são as 40 propostas de alteração à Constituição, mais um programa de governo do que um projecto de revisão constitucional, com uma ou outra ideia razoável, mas muitas más. As propostas, que ainda não são o texto da revisão, tornam a Constituição um texto complexo e confuso, dominado pela preocupação de limitar o poder actual do PS, esquecendo-se que, a seu tempo, o PSD terá de governar com uma Constituição que torna a governação quase impossível. A Constituição tornar-se-á gigantesca, cheia de direitos abstractos, escritos na linguagem da moda “do século XXI”, num país que está longe de garantir sequer os direitos do século XIX. Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Uma das ideias perigosas é exactamente essa da “justiça intergeracional”. Ela está a expressa nos seguintes pontos:

Justiça intergeracional, combate à sub-representação dos jovens no processo democrático e valorização de todas as gerações:

  • a. Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações;
  • b. Criação do Conselho da Coesão Territorial e Geracional como um órgão que assegura uma representação paritária das diferentes regiões do território e gerações, (…)
  • c. Alteração da idade legal para exercer o direito de voto: a partir dos 16 anos;
  • d. Reforço da dignidade na terceira idade.

Percebe-se muito bem que quem redigiu este ponto não diz ao que vem. A última alínea – “reforço da dignidade na terceira idade”, numa formulação de slogan, está lá apenas por razões cosméticas, porque o essencial está antes disfarçado em afirmações confusas. O que é que significa o “combate à sub-representação dos jovens no processo democrático”? Quotas? Direitos de preferência? A mais importante é a frase “Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações”. Muito bem, podemos é perguntar quais são as “injustiças” actuais, porque aí é que se percebe melhor o alvo.

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A verdade nua e crua, e que muita gente não gosta de ouvir, é que ser jovem é, sob todos os pontos de vista, melhor do que ser velho. Não há sequer comparação possível entre as oportunidades de quem tem futuro e quem só tem passado. Pode ter dificuldades em arranjar emprego, mas não são certamente maiores do que as de uma pessoa que nem precisa de ser velho, basta ser de meia-idade. Pode ter salários mais baixos e precariedade, sem dúvida, mas ser desempregado de um dia para o outro com família constituída e receber o subsídio de desemprego por uns meses é um drama maior.

E, se há injustiça é a invisibilidade social da condição de velho, a que se soma a condição terrível de ser velho e pobre, e que a sociedade, obcecada pela moda da juventude – os jovens têm sempre boa imprensa –, pura e simplesmente ignora por comodidade e desatenção.

As ruas das cidades nunca foram tão hostis aos velhos, que podem tropeçar numa trotinete atirada ao chão em qualquer lado, ser atropelados por uma bicicleta em sentido contrário ou a andar nos passeios, ser obrigados a ler em ecrãs sem resolução para quem já vê mal, a subir e descer escadas em prédios em que o condomínio desde a troika a primeira coisa que deixa de compor são os elevadores, com correios que obrigam a deslocações e perda de tempo para receber a reformas ou pagar as contas, com transportes inadequados e difíceis de apanhar. Habituem-se, modernizem-se, chamem um Uber… E a enorme solidão que o egoísmo crescente de famílias e vizinhos traz numa sociedade em que as relações sociais são substituídas por simulacros virtuais. E ser velho hoje é insulto, e não é preciso ir mais longe para o ver do que as caixas de comentários deste jornal.

Sim, há “injustiça geracional”, só que num sentido diferente daquele que o PSD coloca nas suas propostas de revisão constitucional. Há uma parte que vem da natureza e pode ser minimizada, mas não eliminada, e outra que vem de uma sociedade dominada pela moda, pelo egoísmo e pela falta daquilo a que Shakespeare chamava “the milk of human kindness”.

O autor é colunista do PÚBLICO


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