A Espanha acaba de castigar Israel à frente do mundo

(Mural de Júlio Bessa Vintém, in Facebook, 12/03/2026, Revisão da Estátua)


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A Espanha olhou Israel diretamente nos olhos e disse basta. Eles não retiraram apenas a sua embaixadora durante alguns dias fingindo estar zangados. Não, não. Mandaram-na para casa permanentemente.

 A embaixadora espanhola em Israel, Ana María Salomón Pérez, partiu. Acabou. A função dela terminou imediatamente. E agora? A embaixada espanhola em Telavive será dirigida por um oficial de nível inferior.

Entendem o que isso significa? E Isso não é uma coisa pequena. É a Espanha a diminuir a sua relação com Israel, em plena luz do dia, para o mundo inteiro ver.

 Porquê agora? Porquê este momento? Porque a Espanha está furiosa.

Há duas semanas que os EUA e Israel bombardeiam o Irão. Bombas caindo. Pessoas a morrer. Famílias destruídas. E a Espanha está farta de assistir.

Mas deixa-me ser honesto contigo. Isto não é apenas sobre o Irão. Isto também é sobre Gaza. A Espanha tem estado a ver o que está a acontecer em Gaza. As crianças. As mães. Os hospitais. Eles têm estado a observar e a falar enquanto outros países ficaram calados.

 E agora? Eles tomaram medidas.TO Conselho de Ministros aprovou isto em 10 de março de 2026. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, apresentou a proposta. E a decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado da Espanha para todos verem. Não às escondidas. Sem fingimento. É oficial. É real.

 Agora deixem-me perguntar-vos uma coisa importante. Quando foi a última vez que o vosso país se levantou assim? Quando foi a última vez que um país desvalorizou as relações com uma nação poderosa por causa do que é certo? Pensem nisso.

 A Espanha não é um país pequeno. É um membro da União Europeia. Um membro da NATO. Uma economia do G20. E eles acabaram de dizer a Israel que o que está a acontecer não pode continuar.

Eles não estão à espera de permissão. Eles não estão à espera que os EUA concordem. Eles estão a atuar. O embaixador desapareceu. A embaixada agora funciona com um encarregado de negócios. Isto é, em linguagem diplomática, baixámos a nossa relação. Isto não é uma chamada temporária para consultas. Isto é permanente. Isto é a Espanha a dizer que não vamos fazer negócios, como sempre fizemos, enquanto pessoas inocentes morrem.

É preciso que prestem atenção ao que acontece a seguir. Porque, o que é que acontece quando um país age assim? Outros assistem. Outros aprendem. Outros ganham coragem.

A questão não é se a Espanha fez a coisa certa. A questão é: quem será o próximo? Os países africanos vão assistir de fora? Vamos continuar a receber embaixadores de nações de cujas ações dizemos discordar? Ou vamos aprender com a Espanha?

 Este é o momento em que a história é escrita. A Espanha acabou de pegar na caneta.

 Agora estou a perguntar-vos. O que fará o nosso país? E, mais importante ainda. O que farão vocês com esta informação? Vão partilhá-la? Vão contribuir para que as pessoas saibam que um país europeu acabou de tomar uma posição? Ou vão passar ao lado, como se nada tivesse acontecido?

A escolha é vossa. Mas lembrem-se. A Espanha escolheu.

Por: R D Á

Por que a estratégia de guerra baseada na tecnologia dos EUA já não funciona

(In Telegram, canal Islander, 12/03/2026, Trad. da Estátua)


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A questão de saber «quem é mais avançado tecnologicamente» na guerra contra o Irão pode parecer simples à primeira vista, mas, na realidade, é muito mais complexa.

 Formalmente, a superioridade tecnológica ainda pertence aos EUA e aos seus aliados. Eles têm uma aviação incomparavelmente mais desenvolvida, reconhecimento por satélite (e reconhecimento em tempo real em geral), sistemas de gestão de batalha, munições de alta precisão e logística global, sem os quais teria sido impossível reunir um número tão grande de tropas em tão pouco tempo. Esta foi a base do modelo americano de guerra desde a operação «Tempestade no Deserto» em 1991 e campanhas subsequentes, como os ataques à Jugoslávia em 1999 e a invasão do Iraque.

No entanto, a natureza tecnológica da guerra, hoje em dia, é cada vez mais determinada, não por quem tem o equipamento mais caro, mas pelo equipamento cujo modelo de combate está mais bem adaptado às condições modernas. E aqui entra a peculiaridade iraniana

O modelo americano de guerra em 2025-2026, incluindo a curta «guerra dos 12 dias» em junho de 2025 travada por Israel (ao estilo americano), permaneceu essencialmente o mesmo: a ênfase estava em ataques de alta precisão, aviação, mísseis de longo alcance e ataques de fogo densos (bem como na capacidade de garantir essa densidade). Esse sistema funciona bem contra Estados que não são capazes de responder simetricamente. Mas quando o adversário constrói a sua estratégia com base em sistemas baratos em massa e tem uma indústria desenvolvida, o quadro muda radicalmente.

Nos últimos anos, o Irão aplicou consistentemente o modelo de guerra distribuída e, após o início da «Epic Rage», levou-o a um novo nível. Como resultado, surgiu uma situação paradoxal em que a infraestrutura dos EUA e dos seus aliados no Golfo Pérsico não estava totalmente preparada para um tal nível de saturação.

Na verdade, pela primeira vez na história recente, os EUA enfrentaram um adversário capaz de representar uma ameaça a três componentes-chave do poder americano ao mesmo tempo: à aviação (através da saturação da defesa aérea, embora esta seja uma questão discutível), à frota (incluindo a comercial, através de mísseis anti navio, drones, etc.) e, acima de tudo, à infraestrutura terrestre e às bases.

Um fator adicional foi que os ataques também afetaram a infraestrutura civil dos aliados dos EUA. De acordo com relatos, alvos como centrais de dessalinização no Bahrein, infraestrutura portuária nos Emirados Árabes Unidos, aeroportos e elementos do sistema regional de defesa aérea/antimísseis foram alvo de ataques. Isso levou a interrupções no tráfego aéreo e a uma tensão significativa em todo o sistema de segurança da região.

Os EUA ainda têm uma enorme superioridade em sistemas de ataque pesado: aviação estratégica, mísseis de cruzeiro, grupos de porta-aviões, sistemas de ataque de alta precisão. Mas, gradualmente, há uma dúvida sobre a eficácia desses sistemas contra um adversário que não concentra forças e não segue as regras clássicas da guerra.

Em certo sentido, o ataque ao Irão é um conflito entre duas filosofias tecnológicas diferentes: a dos EUA, onde são utilizados sistemas caros, complexos e de alta precisão, concebidos para controlar o ar e o campo de batalha. E o seu adversário, o Irão, onde são utilizados sistemas em massa, baratos e distribuídos, concebidos para sobrecarregar a defesa aérea e desgastar o adversário, que os iranianos são capazes de atingir num raio de 5000 km.

No final, verifica-se que, por vezes, não é aquele que possui a tecnologia mais complexa e numerosa que vence a guerra, mas aquele que conseguiu utilizar corretamente métodos de combate mais simples.

Fonte aqui


EUA: uma história marcada por guerras, derrotas e aversão à paz

(Frei Betto in Diálogos do Sul, 10/03/2026)

Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante. (“Paz”, cartoon de J. S. Pughe – Harper’s Weekly, Vol. 57, No. 1465, março de 1905)

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra.


Desde sua fundação em 1776, os EUA construíram o mais poderoso complexo militar que o mundo já conheceu. Hoje, o arsenal ianque controla 40% das armas do planeta. No entanto, essa potência de fogo nem sempre se traduziu em vitórias inequívocas. 

A imagem da nação estadunidense como um país pacífico é desmentida pelos dados históricos. Nem sempre seus presidentes tiveram a coragem de Trump de declarar que almejavam “a paz pela força”. 700 anos antes da era cristã, o profeta Isaías proclamou uma verdade incontestável, para qual os poderosos quase nunca tiveram olhos para ler e ouvidos para escutar: “A paz só virá como fruto da justiça” (32,17). 

Em seus 250 anos de história, os EUA conheceram menos de 20 anos sem estar envolvidos em guerra. Segundo John Menadue, a poderosa nação do Norte nunca passou uma década sem guerra. O período mais longo sem conflito bélico durou apenas cinco anos, entre 1935 e 1940, devido ao isolacionismo a que foi condenada pela Grande Depressão. 

Nem sempre os EUA saíram vitoriosos das guerras nas quais se envolveram. A derrota mais humilhante foi no Vietnã (1955-1975). Apesar dos intensos bombardeios promovidos pelos ianques e do uso de todos os recursos proibidos pelas convenções internacionais, como napalm, o heroico povo vietnamita alcançou a vitória. Os EUA prantearam a morte de 58 mil soldados. 

Todo o horror provocado pelo governo estadunidense no Vietnã está retratado nos filmes Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola; em duas produções dirigidas por Oliver Stone, Platoon (1986) e Entre o Céu e o Inferno (1993); e Nascido para Matar, de Stanley Kubrick (1987).

Outra derrota foi na guerra ao Iraque (2003-2011). Iniciada sob a mentira oficial de que aquele país produzira armas de destruição em massa, a agressão ianque resultou na derrubada de Saddam Hussein ao custo de lançar o país num caos. As mesmas forças políticas de antes ainda governam o Iraque.

A derrota mais recente foi no Afeganistão (2001-2021). A agressão estadunidense no intuito de eliminar a organização terrorista Al-Qaeda, que havia derrubado as Torres Gêmeas de Nova York, e expulsar o Talibã do governo resultou, como no Vietnã, na saída caótica dos invasores. O custo da ocupação foi de 2,3 trilhões de dólares! As convicções do povo afegão se mostraram mais resilientes que o poder de fogo dos invasores. 

Agora, Trump adota uma nova estratégia ao atacar a Venezuela e o Irã: evitar a presença de tropas no terreno inimigo e centrar os ataques no uso da sofisticada máquina de guerra digital, conduzidas por IA, como drones e mísseis. E o objetivo não é mais implantar o modelo ocidental de democracia, e sim subjugar o governo local aos interesses da Casa Branca. 

O complexo industrial-militar é dominado por cinco grandes conglomerados — Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, RTX e Boeing —, que dividem a maior parte dos contratos. Mas um novo grupo de empresas mais inovadoras, como Anduril, Palantir e SpaceX, tem levantado bilhões em investimentos privados para modernizar a indústria, aproveitando-se de novas tecnologias como drones e inteligência artificial.

Em termos de PIB, o peso do setor é significativo, embora esteja abaixo dos picos da Guerra Fria. Em 2024, os gastos militares dos EUA somaram US$ 997 bilhões (incluindo pensões e gastos correlatos), de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Isso representa cerca de 3% do PIB americano. 

O governo chinês acaba de anunciar aumento de 7% no orçamento militar. A China não ultrapassa 1,7% do PIB na defesa (300 bilhões de dólares), o que permite investir mais em ciência, inovação e tecnologia. Daí o interesse da Casa Branca em obrigar os chineses a se envolverem em conflitos armados. Para efeito de comparação: os EUA gastam mais em defesa do que a soma dos investimentos de China, Rússia e Índia juntos.

A história dos EUA é indissociável da guerra. A excepcionalidade americana, tantas vezes invocada em discursos, foi forjada em conflitos decisivos, desde a expansão para o Oeste até as intervenções no Oriente Médio. Os períodos de paz verdadeira foram meros intervalos na marcha beligerante que moldou o país.

Derrotas como as do Vietnã, Iraque e Afeganistão expuseram os limites do poderio militar. Mostraram que tanques, drones e bilhões de dólares são insuficientes para dobrar resistências nacionalistas, complexidades culturais e a falta de legitimidade local. A dificuldade em “conquistar a paz” após uma vitória militar inicial é uma lição recorrente que Washington reluta em aprender.

O custo dessas guerras — tanto o preço pago pelos contribuintes, quanto o fardo humano suportado por soldados e civis — alimenta um complexo industrial-militar que, como alertou Eisenhower, exerce influência desmedida sobre a política externa. Numa indústria cujos lucros dependem da perpetuação de conflitos, a perspectiva de paz permanece um ideal distante, de vez em quando apenas um breve parêntese na longa história do inveterado belicismo da nação estadunidense.

O tempo nos dirá como os EUA haverão de se safar do atoleiro que se enfiaram agora ao atacar o Irã.

(*) Texto em português do Brasil, de acordo com a fonte aqui

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